9 de mar. de 2015

Das Coisas que aprendi - Entrevista com Daniel Munduruku



8 DE MARÇO DE 2015

livroDaniel Munduruku é um nome que se destaca dentro da Literatura Indígena brasileira e é uma voz de destaque não só para os povos indígenas tradicionais do Brasil, mas do mundo todo; pois suas palavras não se restringem a questões exclusivas do povo Munduruku, elas expressam uma essência humana que vem se perdendo na proporção em que a “cultura” capitalista ganha espaço.

6 de mar. de 2015

SAUDADES DE CASA


Acordei com saudade de casa. Não com é saudade de gente, mas de lugar. Saudade do cheiro da chuva das três horas. Saudade do calor ventilado. Saudade do canto das araras voando sobre as mangueiras recheadas de magia.
Senti saudade do Theatro da Paz e da praça Batista Campos, um oásis de minha infância. Saudade do açaí com pirarucu na tigela. Do tacacá ao meio dia. Saudade de ver-o-peso e ver as belezas naturais. Saudade do boto e do peixe-boi.
Fechei os olhos e me vi lá banhando nos igarapés de minha criancice; subindo nas árvores gigantes, meu orgulho. Fui até meu maracanã, aldeia de outrora, para encontrar-me com os meus amigos invisíveis que habitavam o lugar. Banhei na chuva fina. Me lambuzei na lama. Corri no mato empunhando arco, flechas e sonhos.
Hoje acordei com saudade de casa. Me deu vontade de cantar para o uirapuru, imitar a Yara, gargalhar como o Curupira e encantar como o boto. Senti ausência do saber sagrado. Do silêncio do silêncio. Do farfalhar miúdo das folhas amazônicas. Das cantigas de rodas, do bumba-meu-boi, das quadrilhas juninas. Ausentou-se em mim o som dos tambores dos terreiros onde cresci, da estranha magia dos pais de santos.
Saudade de ver meu rio Pará, singrar suas águas, contemplar seu pôr-do-sol. Saudade de água em profusão, pororoca, piracema. Saudade de casa.
Ela parece me chamar. Não posso ficar surdo. Não vou.

4 de mar. de 2015

FICHA DE INSCRIÇÃO PARA O ECOHVALE - 1º ENCONTRO DE CONTADORES DE HISTÓRIAS DO VALE DO PARAÍBA

ORIENTAÇÕES PARA EFETIVAR AS INSCRIÇÕES NO ECOHVALE

1] É obrigatório o preenchimento de todos os dados solicitados na ficha;

2] Só será considerado inscrito no ECOHVALE  quando for confirmado o pagamento dentro do prazo estabelecido (comprovante digitalizado de depósito, informação sobre número da operação ou fotografia do comprovante anexado ao email);
3] O pagamento dá direito a participar de todas as atividades abertas e a uma oficina. Caso deseje participar de uma segunda oficina, o inscrito deverá pagar uma taxa extra de R$ 10,00 (inscrições antecipadas);

4] O inscrito só poderá optar por participar de duas atividades dirigidas (maratona de contação de histórias, redemoinho de histórias, contação de histórias na Bibliuka, contação na biblioteca municipal) sendo uma de livre escolha e outra por indicação da organização;

5] As vagas são limitadas e estarão garantidas mediante comprovação de inscrição. Lembramos que as atividades abertas (palestras, shows, mesas redondas) acontecerão em um teatro fechado com capacidade para até 350 pessoas;

6] A inscrição dará direito a retirar um kit ECOHVALE no ato do credenciamento;

7] Outras questões sobre inscrições serão resolvidas caso a caso com a coordenação.

FICHA DE INSCRIÇÃO, clique aqui.  



1º Dia –13/05 - Quarta-feira (FATEA)

8h00 às 09h00 – Credenciamento
09h30min – Acolhimento Poético (Grupo de Contadores da FATEA - Lorena/SP)
Grupos de cultura local
09h45 às 10h15 – Mesa de Acolhida:
Daniel Munduruku - Presidente do Instituto UKA
Autoridades e apoiadores do evento

10h30 às 12h15 - Conversa com Regina Machado

14h00 – Grupo de cultura de Lorena
14h30 às 17h00 – Roda de conversa afro-brasileira
Facilitador:  Sansakroma Sem Fronteira – Cantos e Contos com  Arte Africana
18h às 18h50 – Redemoinho de histórias
Local: Praça da Matriz
19h00 – Audiência pública sobre a construção do plano Municipal do Livro, Leitura e Literatura
Local: Câmara Municipal de Lorena
Organização: Instituto Uka, Polo de Leitura ValeLendo

2º Dia – 14/05 - Quinta-feira (FATEA)

08h30min – Acolhimento poético (Grupo de Contadores Cirandeiros da Palavra/PA)
9h00 - Mesa redonda – Histórias de contadores de histórias
Grupo Malba Tahan de Contadores de histórias da FATEA (SP)
Sônia Santos (PA)
Mediação: Olga Arantes (Fatea)

10h às 10h30 –Debate

10h30 as 10h45 – Intervalo

11h às 12h15min- Mesa redonda – Mitopoética
Saci – Prof.ª Ms. Margareth Marinho (MG)
Boto – Juraci Siqueira (PA)
Makunaima - Cristino Wapichana (RR)
Mediação: Giselle Ribeiro (PA)
30 minutos de Debate
12h45 – Intervalo para almoço

TARDE - 14h às 18h - Oficinas
Oficina 01 – Reencantar o mundo contando histórias - Margareth Marinho (MG)
Oficina 02 – A oralidade: No principio era o verbo - Os fios da memória presentes na voz do Contador de histórias – Andréa Cozzi (PA)
Oficina 03 – Histórias que ecoam no vale do Paraíba – Olga Arantes e grupo Malba Tahan de Contadores de Histórias
Oficina 04 –Ler e contar, contar e ler  - Francisco Gregório (RJ)
Oficina 05 – Contando histórias de índio? - Cristino Wapichana (RR) e Tiago Hakiy (AM)
18h30min às 19h30min – Roda de histórias ou cortejo com música e poesia.

20h30min – Palestra-poética com Socorro Lira

3º Dia – 15/05 – sexta-feira
8h00 – Acolhimento poético
Tiago Hakiy (AM) e Antonio Juraci (PA)
8h30 as 9h30 – Roda de conversa sobre cultura popular
Valdeck de Garanhuns (PE) – Mitos e Lendas Brasileiras
Francisco Gregório (RJ) - Oralidade, afeto, cidadania e Práticas Leitoras: vivências de um contador de histórias.

9h30 as 9h45 – Debate
9h45 às 10h – Intervalo

10h00 às 12h00 – Roda de conversa Indígena
A história de Uma Vez
Daniel Munduruku (SP)
Cristino Wapichana (RJ)
Mediação: Edson Krenak (MG)
12h as 12h15 - Debate


TARDE - 14h às 18h - Oficinas
Oficina 01– Reencantar o mundo contando histórias - Margareth Marinho (MG)
Oficina 02 – A oralidade: No principio era o verbo- Os fios da memória presentes na voz do Contador de histórias – Andréa Cozzi (PA)
Oficina 03 - Histórias que ecoam no vale do Paraíba – Olga Arantes e grupo Malba Tahan de contadores de Histórias/Lorena
Oficina 04 – Ler e contar, contar e ler - Francisco Gregório (RJ)

Oficina 05 – Contando histórias de índio? - Cristino Wapichana e Tiago Hakiy

NOITE
18h30 às 19h30 – Caçada ao Saci
Local – Parque Municipal Águas do Barão.
20h00 – Palestra espetáculo com Bia Bedran

4º dia – 16/05 – Sábado

09h00 às 12h00 – Maratona de contação de histórias
Local: praça Arnolfo Azevedo (evento aberto ao público)
A ideia é que este momento seja vivenciado especialmente pelas crianças e os contadores de histórias presentes se revezem e realizem performances de contação de histórias.

ECOHVALE - 1º ENCONTRO DE CONTADORES DE HISTÓRIAS DO VALE DO PARAÍBA
De 13 a 16 de Maio - 2015
Lorena/SP
www.institutouka.blogspot.com
ukacontato@gmail.com



A MOÇA ALDEÃ E O ALAZÃO

Eis que um dia estava eu em visita a um museu europeu - de que não lembro o nome - e me deparei com o quadro abaixo. Fiquei um bom tempo ali imaginando a cena que se desenrolava. No frisson do momento, fiz o texto abaixo. Pura licença poética. Espero que gostem.
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A MOÇA ALDEÃ E O ALAZÃO


A menina desmontou lentamente do alazão branco que a trouxera da aldeia até aquele reduto onde costumeiramente se refugiava para tomar seu banho longe dos olhares curiosos dos aldeões.
Aliviada dos afazeres do lar, a jovem procurou um lugar sob frondosa árvore que lhe permitia admirar a lagoa que se formava sob a queda d’água que a menina jurava ter sido colocada ali para seu deleite.
Lentamente desatou os longos cabelos louros, presos que estavam no alto da cabeça. Fez isso saboreando cada segundo, sentindo o vento que soprava sua nuca arrepiando os pelos que cobriam sua alva pele.
Já de cabelos soltos baixou o corpo na direção do rio e com as mãos em concha pegou um punhado de água e passou pelo pescoço para sentir a frescura que causava. Distraidamente olhou sua imagem levemente deformada pelo movimento da água e sorriu ao deparar-se com mínimas rugas que já despontavam em volta de seus olhos juvenis.
Em novo movimento despiu a blusa deixando-a nua da cintura para cima. O gesto deu-lhe sensação da liberdade que tanto prezava e que lhe era negada em sua própria aldeia. Por longos minutos ficou saboreando o gosto daquele sentimento. Seus olhos fechados, mão direita no queixo adunco; mão esquerda apalpando o vento brincalhão; o tempo passando pequeno. Vivendo aquele momento não se sentiu pressionada, não se sentiu observada por olhos famintos. Não sentiu vergonha de si. Ali havia um único sentimento: a certeza de que estava no lugar certo.
Sorriu. Ainda de olhos cerrados deslizou suas mãos até  a longa saia que lhe cobria a intimidade. Parou-as por um momento permitindo-se sentir um longo arrepio percorrendo-lhe o corpo. Um suspiro vindo do fundo de si denunciava ausência de outras mãos. Este pensamento não a agradou. Preferia a ausência certa que a presença duvidosa. Apressou-se em baixar a saia e a peça íntima que escondia sua completa nudez. De cabeça erguida para o alto como quem busca estrelas ao meio dia, rodopiou na ponta dos pés como quem dança balé. Pura sensação de liberdade! Sorriu novamente e sem pensar duas vezes atirou-se sobre o rio permanecendo muito tempo sob as águas enquanto pensava na sereia que um dia desejara ser. Quando o ar faltou-lhe subiu à superfície. Seus cabelos molhados caiam-lhe na face obrigando-a fechar os olhos claros enquanto sentia o frescor da tarde que anunciava partida.
Nesse ínfimo instante percebeu-se vigiada. Um átimo de segundo foi o suficiente para chegar à margem do lago e segurar o tecido felpudo que trouxera para secar o corpo molhado. Também neste átimo notou que uma mão segurava a outra extremidade do pano. Seu pânico cresceu quando seus olhos se depararam com dois pares de olhos que lhe digeriam. Ainda tentou desvencilhar-se, mas sua força era fraca e não conseguiu vencer seu opositor. Preferiu sentar no banco improvisados e cobrir sua nudez dos olhos famintos.
- Hoje queremos você, menina. Há tempos vigiamos seus passos. Há tempos que nossos olhos passeiam seu corpo perfeito.
- Meus tios devem saber que o pecado ronda esse tipo de desejo.
- Não nos importam o pecado ou a santidade. O que nos move é o desejo. É ele que queremos satisfazer neste momento.
- Meus tios não vão querer que toda aldeia conheça suas fraquezas, suponho.
- Já somos velhos demais para temermos o falatório das pessoas. Tudo o que queremos está à nossa frente.
A moça aldeã percebeu que argumentos seriam inúteis naquela peleja. Sabia que apenas queria adiar o inevitável. Viu que não iria convencer os dois homens a desistirem de seu intento. No desespero que lhe ameaçava romper o coração, elevou uma prece surda aos céus pedindo a intercessão das divindades. Silêncio apenas. Um dos velhos grunhiu um sorriso vencedor. Aproximou-se para sentir o perfume natural daquele corpo jovem. A moça encolheu-se  achando tratar-se de um destino inefável. O outro homem também aproximou-se e tocou-lhe levemente a mão direita. A moça estremeceu. Menos de prazer que de asco. Fechou os olhos esperando o ataque. Sentiu apenas a lufada de um vento forte que lhe cortou a desesperança. Ouviu o baque surdo da queda de um corpo; em seguida, outro. Sentiu que o tecido estava leve e livre. Não quis abrir os olhos de uma vez. Respirou fundo buscando coragem e quando abriu os lindos olhos claros, seu alazão estava bem próximo a si e sob suas patas jaziam dois corpos que enfeiavam a bela paisagem.

A moça entendeu. Despida sob o pano felpudo montou o alazão e partiu para nunca mais.

3 de mar. de 2015

HOJE ACORDEI BEIJA FLOR


(Daniel Munduruku)

Hoje vi um beija flor assentado no batente de minha janela.
Ele riu para mim com suas asas a mil.
Pensei nas palavras de minha avó:
Beija-flor é bicho que liga o mundo de cá com o mundo de lá.
É mensageiro das notícias dos céus. Aquele-que-tudo-pode fez deles seres ligeiros para que pudessem levar notícias para seus escolhidos. Quando a gente dorme pra sempre, acorda beija-flor.”
Foto Antonio Carlos Ferreira Banavita
Achava vovó estranha quando assim falava. Parecia que não pensava direito! Mamãe diz que é por causa da idade. Vovó já está doente faz tempo. Mas eu sempre achei bonito o jeito dela contar histórias. Diz coisas bonitas, de tempos antigos.
Eu gostava de ficar ouvindo. Ela sempre começava assim: “Tininha, há um mundo dentro da gente. Esse mundo sai quando a gente abre o coração”...e contava coisas que ela tinha vivido...e contava coisas de papai e mamãe...e contava coisas de hoje e de ontem. Ela só não gostava de falar do futuro...dizia que não valia a pena. Futuro é tempo que não veio, ela dizia.
Pensei nisso tudo por causa do beija-flor. Até esqueci de visitar vovó em seu quarto. Fazia isso sempre que acordava. Vou fazer isso agora...
Nesse exato momento mamãe entrou no meu quarto. Estava triste. Trazia um papel na mão. Sentou-se na borda da cama e esticou para mim o papel. Abri-o devagar. Dentro tinha uma mensagem escrita com a caligrafia de vovó. Lá estava escrito:
“Tininha, hoje acordei beija-flor”.
Sorri para mamãe que nada entendeu. Eu entendi.

2 de mar. de 2015

É assim que sabemos educar

De vez enquanto conseguimos reunir grupo de educadores que desejam imergir na cultura dos povos indígenas. Entre conversas e diálogos sempre deixamos tempo para interagir e mostrar, na prática, como é educar o pensamento circular,
A foto abaixo é um exemplo de como a vida pode caminhar para a perfeição quando a gente se deixa envolver e aceitar que é preciso respeitar os passos de cada pessoa.
Em breve iremos abrir uma turma de criação literária. Aguardem!!!

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...