24 de jun. de 2013

Escritores e Artistas Indígenas fundam a DIROÁ - AssEArIn


Eu e Edson Kayapó fomos convidados pelo Diretor do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual – INBRAPI, Daniel Munduruku, e pelo Coordenador do  Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas - NEArIn, Cristino Wapichana, para coordenarmos os trabalhos de concepção, constituição, fundação, eleição e posse de uma Associação que congregasse os escritores e artistas indígenas dos mais diversos povos indígenas no Brasil, inicialmente, os oriundos do NEArIn, que vêm se reunindo ao longo de 10º através do Encontro de Escritores e Artistas – EEAI, em eventos compartilhados com o Salão do Livro para Crianças e Jovens da (FNLIJ) - Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil evento, na cidade do Rio de Janeiro.

Após as três assembleias nos dias 10, 11  e 13 de junho, com esta finalidade, foi fundada para a representatividade legal dos escritores e artistas indígenas a bem da literatura indígena e das comunidades dos povos indígenas e do povo Brasileiro a DIROÁ – Associação de Escritores e Artistas Indígenas – AssEArIn.

Seu nome de significado indígena - Uma tentativa de socializar sobre a nominação DIROÁ, a qual foi uassim escolhida em seguidas rodas de conversas, e decidida na tarde do dia 13 de junho de 2013.

DIROÁ. Na tradição dos povos do Rio Negro, enfaticamente, entre os Tariano e Desana -, os Diroá são seres fantásticos, encantados, místicos, grandes pensadores que têm a dimensão dual do ser humano, portanto, podem fazer o Bem e o Mal, e, ao controlar entes e situações, podem transformar atitudes negativas em positivas. Na  língua Xavante tem o sentido de Grupo de Formação (inicial) para diversos fins de suas vidas e seu cotidiano.

Os escritores e artistas indígenas são criadores que têm como princípio a dimensão humana de produzir nas artes a filosofia e estética  do belo em sintonia cosmológica de sua ancestralidade e sua contemporaneidade, dentro e fora de suas comunidades.

Enfim, no dia de junho de 2013, às 15h00, fundamos, elegemos e demos posse a Diretoria da DIROÁ – AssEArIn, cujo, primeiro mandato ficou assim constituído:

Primeiro Presidente: Cristino Pereira dos Santos; Segundo Presidente: Edson Machado de Brito; Primeiro Secretário: Rosilene Fonseca Pereira; Segundo Secretário: Maria das Graças Ferreira; Primeiro Tesoureiro: Manoel Fernandes Moura; Segundo Tesoureiro: Carlos Tiago dos Santos; Coordenadores Regionais do Norte: Jaime Moura Fernandes e Elias Seixas Reis; do Nordeste: Ademario Souza Ribeiro; do Centro-oeste: José Márcio Xavier de Queiroz, Marcelo Manhuari Munduruku e Caimi Waiassé Xavante; do Sul e Sudeste: Olívio Zeferino da Silva.

De acordo com o Estatuto em seu Art. 15º Associados fundadores da DIROÁ - AssEArIn são aqueles que participaram de sua criação, assinaram o livro de presença e se comprometeram com as suas finalidades e os indicados pelos assembleianos, como Fundadores Beneméritos, em ordem alfabética: Ailton Krenak, Álvaro Tukano, Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Elizabeth D'angelo Serra, Graça Graúna e Raoni Menkture.
Fotos diversos do processo:








Celebrando nossos ancestrais e na contemporaneidade ampliando as fronteiras e parcerias para que a Literatura e Saberes indígenas sejam conhecidas e valorizadas em meio a esse mega caldeirão da diversidade étnico e cultural do Brasil.

Até breve!

Ademario Ribeiro
Sertanejo das Terras dos Payayá, filho de Amélia Souza Ribeiro e de Alberto Severiano Ribeiro (in memoriam)... Escritor (poeta e teatrólogo), diretor teatral, educador ambiental, pesquisador dos povos indígenas e pedagogo. Membro, conselheiro e fundador de diversos coletivos entre estes: ONG ARUANÃ, Associação Muzanzu do Quilombo Pitanga de Palmares, entre outras organizações. Tem publicações diversas em jornais e sites.


Matéria original: http://ademarioar.blogspot.com.br/2013/06/escritores-e-artistas-indigenas-fundam.htmli
Reprodução somente mediante comunicação prévia e citação da fonte. 


VOYEUR


Ela abre a porta de maneira tão vulgar que o deixa sempre atônito.
- Vulgar – ela pergunta – o que quer dizer com isso? Vulgar é a puta-que-o-pariu. Nada há de vulgar no meu ato de abrir a porta!
Ele não responde. O silêncio mudo é melhor que o silêncio falado. Prefere assim. É um método que aprendeu no tempo em que queria ser monge budista. É melhor calar diante da explosão  e contemplá-la que enfrentá-la e morrer. Morre-se tanto e tantas vezes nessa vida!!!
Preferia que ela não fosse vulgar ao abrir a porta. Preferia que ela fosse refinada, final, gentil. Abrir com leveza e finesse como faziam as madames da televisão. Como fazia a dama Fernanda Montenegro. Aquela sabe envelhecer com brio! Sabe ser uma dama! Sabe abrir uma porta com primor!
Faz tempo que a observa. Ela nem sabe disso. Virou um voyeur de sua própria mulher. A espia quando dorme após longo dia de trabalho. Sente sua respiração, dividindo o ar entre as narinas e a boca, vez ou outra solta um gemido.
- Pensou em mim – ele pensa iludido.
Outras vezes abre a porta do banheiro sem que ela perceba. Dentro do box ela se ensaboa sem notar que está sendo observada. Seus olhos fechados confessam seus pensamentos enquanto suas mãos percorrem o corpo molhado. Quando abre os olhos se depara com os dele pousados no corpo branco e desnudo.
Ele já a ficou espiando enquanto lava louças ou roupas na área de serviços. Acha que é uma visão do paraíso olhá-la assim, sem ser visto. Pensa que o que vê é seu: a pele branca, a bunda levemente arrebitada enquanto se curva sobre a máquina de lavar. A concupiscência de seu desejo quer tocá-la com sofreguidão. Nem sempre resiste. Ela sempre manda que pare. Ele sabe que não é verdade. Ela gosta. Faz-se apenas de difícil para não dar o braço a torcer. Ela finge não ter concupiscência. Ele nunca soube porquê.
Ele gosta de vê-la trabalhando sobre a mesa da cozinha. Espalha todo o material. Diz que é para ter uma visão de conjunto. Ele ri. Conhece-a.
Faz tempo que ele a engana. Faz tempo que ela sabe. Ela o prende. Grilhões impostos por doses de afetos perdidos. Bolas de ferro invisíveis amarrados a seus pés. Ele é voyeur; ela, senhora da senzala. Ele espia querendo encontrar-se nela; ela o amarra com seu cântico dos cânticos; ele, preso por vontade própria; ela, livre; ele pássaro; ela, linda; ele, só.

Então, por que? Porque tem que ser tão vulgar ao abrir a maldita porta?

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...