14 de dez. de 2011

Universidade de Ponta Grossa realiza Vestibular dos Povos Indígenas

Kavigtãnh; Fekanh; Nênvánh; Kaninsãnh; Kamigprag; Kri Tej Vanh. Os nomes e sobrenomes impronunciáveis para o ‘homem branco’ são uma das características do Vestibular dos Povos Indígenas, que, em sua 11ª edição, reúne 329 candidatos na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O concurso é organizado pela Comissão Universidade para os Índios (CUIA), que congrega as instituições de ensino superior público do Paraná (universidades estaduais e a Universidade Federal do Paraná) e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI).

Nesta quarta-feira (14), na Central de Salas de Aula, no Campus de Uvaranas, os índios fizeram a prova oral. Passaram por uma entrevista prévia; depois receberam um texto para leitura e posterior indagação por parte dos componentes da banca. As respostas deveriam ser dadas na língua portuguesa. Para esta quinta-feira (15), a partir das 14 horas, estão programadas as provas objetivas, língua estrangeira (espanhol ou inglês) ou língua indígena (guarani ou caingangue) e redação. Na prova de redação, entre outros quesitos, será avaliada a capacidade de escrever um texto de acordo com a modalidade da norma padrão da língua portuguesa.

O professor José Roberto Vasconcelos Galdino, membro da CUIA e presidente da 11ª edição do Vestibular dos Povos Indígenas, explica que, a cada ano, uma das instituições que compõem a comissão sedia as provas. Cada universidade estadual (UEPG, UEL, UEM, Unicentro, Unioeste, Uenp e Unespar) oferta seis vagas suplementares em seus diversos cursos, para indígenas nativos do Paraná; enquanto a Universidade Federal do Paraná (UFPR) oferece 10 vagas para indígenas de todo território nacional. O candidato escolhe o curso e a universidade em que deseja estudar após a sua aprovação.

A maioria dos candidatos quer obter o diploma de ensino superior para atuação na própria comunidade indígena. Valdecir Mendes Rodrigues, 40 anos, da aldeia Guarani de Laranjinha (Santa Amélia), por exemplo, pretende cursar Agronomia, para aumentar a produtividade do pequeno pedaço de terra da sua comunidade. São 226 pessoas que dividem espaço em 117 alqueires. “Apesar de ser pouca terra, acredito que com mais conhecimento poderei ajudar a aumentar a produção, para subsistência da própria tribo”, diz, lembrando que o trabalho na terra faz parte da cultura indígena.

A caingangue Angélica Rodrigues Morais, 19 anos, de São Jerônimo da Serra, quer cursar Medicina, também com o objetivo de atuar junto a sua comunidade. Ela cursou o ensino médio da escola pública e não vê problemas quanto a uma eventual dificuldade para acompanhar os colegas de universidade, muitos oriundos da rede particular de ensino e, teoricamente, com mais condições de acompanhar os conteúdos do curso. “Tudo depende da força de vontade. Se você tem objetivo, você consegue chegar lá”, filosofa a candidata.

Edenilson Felix, 24 anos, índio guarani da comunidade de Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras, vive uma situação diferenciada. Ele já foi aprovado no Vestibular dos Povos Indígenas, cursando Pedagogia, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Porém, por motivos familiares, teve que abandonar o curso no ano passado. Como não traçou a matrícula, foi considerado desistente. Para prosseguir, teve que fazer novo vestibular. Com formação no Magistério, Edenilson é professor do Estado, lecionando nas séries iniciais da escola da própria comunidade.

A situação de Cintia Amaral, 25 anos, caingangue, da aldeia de Barão de Antonina (próxima a Londrina), também é diferenciada. Ela quer mudar de curso e de universidade. Aprovada há dois anos em Educação Física, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), agora ela quer fazer Pedagogia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Segundo ela, a mudança se deve ao apoio maior dado aos índios na universidade maringaense. “Alguns colegas me disseram que lá existe um envolvimento maior da universidade com as comunidades indígenas”.

A avaliação sistemática do processo de inclusão e permanência dos indígenas, o desenvolvimento de projetos de ensino, pesquisa e extensão envolvendo os índios e a sensibilização da comunidade acadêmica acerca da questão indígena estão entre as atribuições da CUIA instituída pela Lei Estadual nº 13.134/2001 (e modificada pela Lei Estadual 14.995 de 2006). Atualmente, a comissão é presidida pela professora Ana Elisa de Castro Freitas, da UFPR.
Áudio:

Minha Prece de Natal

Deus-Mãe não despreza a força da/o mulher/homem que reza
 Daniel Munduruku
Quando eu era criança e corria pelado pela aldeia não sabia o que era natal. Não sabia o que poderiam ser aqueles dias corridos, coloridos e felizes que as pessoas das grandes cidades viviam.
Na escola meus colegas sempre falavam que era uma época de pedir presente para um certo pai de todos – que se chamava Noel – e que andava pelo mundo todo entregando presentes para os bons meninos e meninas. Foi nessa época que ouvi a primeira vez que alguém pode ser bom ou ruim.
Sempre fui ruim. Ao menos pensava assim, pois o tal pai de todos quase nada deixava para mim. Mas eu não ficava triste não. Corria para o mato e fabricava meus próprios brinquedos na tentativa de ser um bom menino para o ano vindouro. Cresci acreditando no pai de todos da mesma forma que acreditava na mula-sem-cabeça, no curupira e na matinta-perera. Ele fazia parte do meu imaginário e acreditava que ele vivia – apesar de ser feio por parecer com um poodle – no meio da mata com as outras entidades da floresta.
Depois que fiquei grande – e já vivendo na cidade – descobri que o Pai de todos era, na verdade, um grande sentimento de solidariedade que percorria a todos na época de fim de ano. Esse sentimento era propagado pela igreja através das grandes celebrações litúrgicas que preparavam o advento do Menino, filho do Pai de Todos. Foi nessa época que me senti irmão do mundo, de todos os homens e mulheres do mundo. Era como eu me sentia: membro de uma grande família. E uma família sempre celebra com os seus. E era assim que entendia as festas do final de ano. Havia troca de presentes, símbolos do kairós – o tempo que se chama hoje. Havia a partilha do pão, do abraço, do afeto, do carinho. Ágape, amor que não cabe em si. Amor que se entrega, como o menino-deus que veio cumprir sua missão.
Hoje, mais curtido pelo tempo indelével, continuo acreditando na magia que se instaura no coração do ser humano. Do mesmo jeito que creio na existência do curupira, da matinta-perera, na boiúna ou no negrinho do pastoreio. Creio na necessidade do encontro, do encanto e da partilha. Creio no poder do silêncio e da reza, do mesmo jeito que creio nos passos das danças sagradas, na coreografia da natureza e no bailar silencioso dos astros e estrelas que estão lá ainda que não estejam mais.
Confesso, porém, que está difícil resistir à tentação de “jogar a toalha”, “entregar o jogo” e virar as costas ao tabuleiro. Nessas horas – e elas estão cada vez mais constantes – só me resta ajoelhar-me diante do Filho-menino e dizer o texto-testemunho de Tania, minha esposa há tantos anos:

Minha prece
(Tania Mara de Aquino Costa)
Querida Senhora
Venho com toda a minha humanidade
Dizer que estou aqui
Não sei bem o porquê.
Sinto que venho só pela Senhora
E por seu filho querido
Não sei o que pedir
Por isso não vou pedir nada
Apenas espero sua intercessão
Junto ao seu filho
Ele sabe do que preciso, portanto saberá o que fazer por mim.

Sabe, minha Senhora,
Eu estou num estado sem vontade
Uma preguiça no sentir, no ser.
Creio que estou em estado de choque
Um estado que me paralisa.
Só venho aqui porque, apesar de tudo,
Minha alma sente saudades suas e de seu filho
Mesmo assim, não tenho muito a dizer.
Por isso, digo apenas:
Que estou aqui!

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...