13 de set. de 2010

Retomada Indígena III
20 a 24 de setembro 2010 – Museu da Cultura PUC-SP
POVOS INDÍGENAS FRENTE À SOCIEDADE BRASILEIRA HOJE

20/9 - 2ª feira – Abertura da semana
18,30h. Dança de um grupo indígena na rampa do prédio novo da PUC (entrada Rua Ministro Godoi).

19h. Exposição no Museu da Cultura (PUC-SP) - O olhar indígena sobre a cidade e a aldeia (fotos de indígenas que vivem em São Paulo), e mostra de instrumentos de caça, guerra e pesca de várias etnias do Brasil. (Duração da exposição: de 20/9 a 8/10, das 10h às 19h, exceto em finais de semana).

19,15 h. Mesa redonda 1: Povos indígenas frente à sociedade brasileira hoje. Debatedores: Prof. Rinaldo Arruda (antropólogo da PUC-SP), Cristiano Navarro (jornalista do semanário Brasil de Fato) e Prof. Sílvio Mieli (Prof. da Faculdade de Jornalismo da PUC-SP).

21/9 - 3ª feira
19,15h. Mesa redonda 2: Os indígenas Guarani Kaiowá do MS. Projeção do curta À beira da estrada (do documentário La lotta e la speranza - Luci nel Mondo/Cimi). Debatedores: Valdelice Veron (filha do cacique Marcos Veron) e liderança Guarani Kaiowá do MS, e Dra. Maria Luiza Grabner (Procuradora do Ministério Público Federal- PR/SP).

22/9 – 4ª feira
19,15h. Mesa redonda 3: Lideranças indígenas: Jerry Matalawê (liderança Pataxó e membro da Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos da Bahia); Timóteo Popyguá (liderança Guarani da aldeia Tenondé Porã-São Paulo) e Maria Cícera de Oliveira (povo Pankararu e da coordenação do Programa Pindorama, PUC-SP)
Local: Museu da Cultura – PUC-SP.

23/95ª feira
19,15h. Mesa redonda 4: A questão indígena e os movimentos sociais: Edson Kayapó (doutorando da PUC-SP e coordenador dos Ceci da Prefeitura de São Paulo); Israel Sassá Tupinambá (membro do Tribunal Popular e da Org. Popular Aymberê), Regina Lúcia dos Santos (geógrafa e membro do Movimento Negro Unificado-MNU) e Gilmar Mauro (coordenação nacional do MST).

24/9 – 6ª feira
19,15h. Lançamento do Relatório de Violência de 2009–CIMI, com comentários da Profa. Lúcia Helena Rangel, PUC-SP (organizadora do trabalho), Sarlene Soares Makuxi (mestranda PUC-SP, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol) e Bruno Martins (graduando da Faculdade de Direito da USP).

Encerramento: reza indígena e toré com os povos presentes (Wassu Cocal, Fulni-ô, Pankararé, Pankararu...)

SEMANA DE CURTAS METRAGENS COM TEMÁTICA INDÍGENA

21/9 - 3ª feira
O amendoim da cotia (Sobre o povo Panará/PA, dir. Vincent Carelli. Vídeo nas Aldeias, 50’)
12,30 h e 18h: projeção no auditório Paulo VI (auditório da Biblioteca).
22/9 – 4ª feira
Pisa Ligeiro (Luta dos povos indígenas hoje. 50’).
12,30h e 18h: sala 134 C (1º andar, PUC, entrada pela Rua Ministro Godoi).
23/95ª feira
Xingu, terra ameaçada (dir. Washington Novaes, TV Cultura, 48’).
12,30h e 18h: projeção no auditório Paulo VI (auditório da Biblioteca)

VENDA DE ARTESANATO
Durante a semana haverá venda de artesanato dos povos Pankararé, Fulni-ô, Guarani, Kaimbé e Kariri Xokó. Local: PÁTIO DA CRUZ (pátio interno do prédio velho da PUC)

MPF/AM Pede Condenação de Militares por tortura a Indios

Local: Brasília - DF
Fonte: MPF - Ministério Público Federal
Link: http://www.mpf.gov.br



Quatro militares do Exército foram denunciados pelo Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM) por prática de tortura contra índios no município de São Gabriel da Cachoeira (a 850km a noroeste de Manaus).
Os militares Leandro Fernandes Rios de Souza, Ramon da Costa Alves e Walter Cabral Soares, sob o comando do 1º Tenente Samir Guimarães Ribas, praticaram atos de abuso de autoridade e tortura, causando sofrimento físico e mental a índios das comunidades de São Joaquim e Uariramba, em São Gabriel da Cachoeira, em ação que teve início na noite de 29 de setembro de 2007 e se estendeu até a manhã seguinte, no intuito de investigar e castigar índios envolvidos com tráfico de drogas.
Após receberem denúncia, feita por um morador local, de que índios daquelas comunidades estariam consumindo e comercializando drogas, o tenente determinou que os militares compusessem duas patrulhas distintas para identificar, localizar e prender todos que tivessem ligação com os fatos, para que fossem levados, em seguida, à sede do 3º Pelotão Especial de Fronteira.
Diante da surpresa de ação dos militares armados com fuzis, os índios abordados nas comunidades passaram a admitir o consumo de drogas e a delatar outros envolvidos.  Mesmo sem ordem judicial e não estando em situação de flagrante delito, os índios foram presos por Leandro Fernandes Rios de Souza, Ramon da Costa Alves e Walter Cabral Soares, que entraram nas casas, efetuaram 'prisões para averiguação' e fizeram breve interrogatório para obter nomes de outras pessoas envolvidas com tráfico e consumo de drogas.
Agressão e prisão em jaula – Os índios detidos pelos militares relataram, em depoimentos, que foram levados de 'voadeiras' – pequenas embarcações com motor de popa – até a sede do 3º Pelotão Especial de Fronteira, foram ameaçados com a exibição ostensiva de armas e agredidos com tapas e chutes, além de terem sido colocados em uma jaula de ferro destinada a transporte de onça do Exército Brasileiro.
Apertados no interior de jaula de ferro por longo período, alguns índios não resistiram e passaram a urinar naquele local.  Em razão disso e sob a justificativa de limpar sujeira e afastar odor de urina, os militares, sob o comando do tenente, despejaram baldes de água sobre os índios.
Para o procurador da República Silvio Petengill Neto, o procedimento dos militares visava incutir medo nas vítimas para que confessassem envolvimento com o tráfico e consumo de drogas.  “Não por outra razão que, em seguida à sessão de castigo e intimidação, foram todos soltos e obrigados a correr do local, sob ameaça de agressão”, afirmou o procurador.
O MPF/AM pede a condenação dos militares pelo crime de tortura, previsto na Lei nº 9.455/97 e definido como “constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental com o fim de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa”.  A pena prevista para a prática da tortura para obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa é de reclusão de dois a oito anos, aumentada de um sexto a um terço quando o crime é cometido por agente público.
O processo aguarda julgamento na 2ª Vara Federal, sob o número 11390-53.2010.4.01.3200.

Cimi diz que capangas impedem índios de terem até água

Cerca de 80 índios da etnia Guarani Kaiowá Y’poí estão cercados e sob ameaças de capangas contratados por fazendeiros, em Paranhos (469 km de Campo Grande), segundo o Cimi (Conselho Indigenista Missionário). Os índios estão em fazendas que reivindicam como suas terras ancestrais.

De acordo com o Conselho, os índios estão impedidos de deixar o acampamento e estão sofrendo com falta de acesso à água, comida, educação e saúde. Crianças estão ficando doentes.

A Funasa (Fundação Nacional de Saúde) não atende à comunidade alegando falta de segurança. Durante a noite, os capangas fazem disparos com as armas.

Em outubro de 2009, os professores indígenas Genivaldo Vera e Rolindo Vera desapareceram após se envolverem em um conflito com homens armados na Fazenda São Luiz.

O corpo de Genivaldo foi localizado em um córrego. A cabeça estava raspada e ele estava coberto de ferimentos. Rolindo até hoje não foi localizado.

Para o Cimi, é preciso que autoridades garantam a presença da Funasa e da Polícia Federal no local para providenciarem cuidados adequados à comunidade indígena.
A SOGRA DO JACAMIM EM BUSCA DA BELEZA
José Ribamar Bessa Freire
12/09/2010 - Diário do Amazonas


O Jacamim andava ciscando no terreiro e, com seu bico irrequieto, beliscava um inseto aqui, uma minhoca ali, uma sementinha acolá. Sua sogra, que assistia a cena, viu que tudo nele era desproporcional e deselegante. Pescoço pelado, curvo e compriiiiido. Cabecinha minúscula em cujo cocuruto emergia ridículo topete de penas eriçadas. Curtas, demasiado curtas eram suas asas. Altas, excessivamente altas suas pernas. Ela olhou aquele bicho desengonçado e, com a sinceridade que as sogras soem ter, disse:
 
- Meu genro, não me leve a mal não, mas você é feio! Muito, mas muiiiiiiito feio! Feio pra chuchu! Parece até que minha filha casou com um urubu!
 
Ele, o jacamim-una de penas pretas, decidiu conferir no espelho do lago. A imagem refletida era, efetivamente, a de um urubu corcunda, pernalta, sem garras e com cabeça de piroca. Não gostou. De tristeza, cantou. Mas de sua garganta saía apenas um som estridente – vuh, vuh, vuh – que vibrava como o toque irritante e uniforme de uma corneta. A sogra que tudo observava, arrematou:
 
- Tudo em você está errado. Nem cantar você sabe. Seu canto parece latido de cachorro ou berro barulhento de uma vuvuzela. Ah, mas isso não vai ficar assim não. Vamos mudar. Espere aqui, meu genro, vou lá no mato procurar a beleza pra você.
 
Foi.
 
A beleza das cores
 
- Beleeeeza, cadê você? – perguntou a sogra, entrando na floresta com um saco. Foi colocando dentro dele tudo de belo que encontrava: as tintas do beija-flor e suas penas com as sete cores iridescentes do arco-íris; o peito, o abdome e o papo-vermelho da pipira; o bico duro e cônico do azulão e sua mandíbula angulosa. Depois, pegou o olhar aceso do rouxinol e a meiguice do pintassilgo. Guardou a sociabilidade, a alegria e o espírito de camaradagem do bem-te-vi, a mansidão do canário-da-horta, a valentia do gavião e até o aparelho digestivo do murucututu lá em cima do telhado.
 
Mas a velha queria mais. Continuou enchendo o saco. Capturou o voo elegante e baixo de uma andorinha que, sozinha, não fazia verão, mas riscava o ar em curvas caprichosas. Esperou o tico-tico-rei comer todo o seu fubá e arrufar suas penas brilhantes – tico-tico lá, tico-tico cá - para roubar-lhe o topete vermelho escarlate que parecia incendiar sua cabeça como uma chama. Na terra com palmeiras onde canta o sabiá, ela se apoderou da cauda empinada e das patas cor de avelã da ave que gorjeava e saltitava com desembaraço,
 
O saco, já quase cheio, recebeu ainda plumas de seda do sanhaço, penas aveludadas do guará recolhidas em um manguezal e vozes de todos os pássaros que o japiim imitava, coletadas num ninho construído ao lado de uma casa de caba. Finalmente, a velha pegou a garganta do uirapuru, com o repertório de seu canto mágico. E quando já ia embora, ensacou os hábitos de higiene do vira-bosta, que toma sempre seu banho matinal – faça frio, faça calor – depois de revolver o esterco à procura de milho.
 
- Beleeeeeeza, cadê você – perguntou outra vez a velha. Lá de dentro do saco mil vozes de pássaros trinaram. Satisfeita, ela retornou e entregou ao genro toda a beleza ornitológica da mata:
 
- Aqui está, meu genro, pra você se lavar, se pintar, se enfeitar, se colorir e afinar sua voz.
 
- Vou me lavar já – ele disse, agradecido.
 
Foi.
 
Mas enquanto tomava banho no igarapé, os outros pássaros furtaram-lhe as tintas, as cores, as plumas, os enfeites, o canto e até mesmo sua própria roupagem. A sogra, vendo o genro nuzinho, perguntou:
 
- Ô Coisa Feia, onde está a beleza que te dei?
 
- Eles roubaram.
 
- Além de feio, és leso e abestado – disse a sogra, esfregando sumo de jenipapo na costa dele, que ficou negra. Depois, passou uma mistura de casca de abacaxi com urucu no peito, que ficou roxo. É por isso que o jacamim-una ficou assim.
 
Os saberes 
 
Essa história que circula entre os índios do rio Negro (AM) é uma versão livre que eu recriei inspirado na narrativa ‘O jacamin e as cores’ (Yacamy i pinima çaua irumo), recolhida no Rio Branco pelo cientista João Barbosa Rodrigues, um ex-professor do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, que viveu mais de dez anos no Amazonas (1872-1874 e 1883-1890). Ele organizou e dirigiu o Museu Botânico de Manaus, andou pelos rios da região, conviveu com diferentes etnias e aprendeu o Nheengatu - a língua geral que lhe permitiu ouvir as histórias e registrar a ciência indígena.
 
Contei essa e outras histórias na quarta-feira, 8 de setembro, no Auditório Solimões do campus da Universidade Federal do Amazonas, em Manaus, numa mesa-redonda compartilhada com o historiador Antônio Loureiro, que se autodefiniu com simpatia e humor como um ING – indivíduo não governamental. A mesa fazia parte da programação do I Simpósio João Barbosa Rodrigues, coordenado por Antonio Webber e promovido por Frederico Arruda, Pro-Reitor de Extensão e Interiorização da UFAM.
 
A homenagem da UFAM a Barbosa Rodrigues é mais do que merecida. Ele é o autor do livroPoranduba Amazonense, uma edição bilíngue da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro de 1890, que reúne mitos, contos zoológicos, contos astronômicos e contos botânicos, além de “cantigas com que as mães embalavam seus filhos ou animavam as danças e os trabalhos”, num total de 130 textos.
 
A grande sacação de Barbosa Rodrigues foi perceber, no século XIX, que numa sociedade sem biblioteca, sem livros, sem escrita, mas com forte tradição oral, as histórias e cantos funcionam como enciclopédias onde estão contidos os saberes necessários para a sobrevivência e a reprodução das culturas. São aulas de botânica, zoologia, astronomia, ciências sociais e ciências humanas, com seus supremos mistérios.
 
A história aqui apresentada, em suas diferentes versões, constitui um mini-tratado de ornitologia, que dialoga com o Catálogo das Aves da Amazônia, organizado posteriormente pela ornitóloga alemã Emília Snethlage (1868-1929), ex-diretora do Museu Goeldi, no Pará. Essas histórias contêm o sistema de classificação das diferentes espécies de aves, pássaros e outros animais, suas características físicas e comportamentais, hábitos, costumes, lugares onde vivem, como se alimentam e se reproduzem.
 
Parte desse conhecimento, que foi satanizado e discriminado por não se enquadrar dentro dos cânones da ciência e da religião dominantes, se perderia com a morte dos velhos narradores se alguns tupinólogos não os tivessem registrado. Barbosa Rodrigues, que publicou inúmeras obras de botânica, uma delas sobre palmeiras, outra sobre orquídeas, ficou encantado com a capacidade de observação e o espírito científico dos índios.
 
Segundo ele, os índios “seguiam e seguem um método sintético na classificação das plantas. Designam as espécies por nomes tirados dos caracteres das folhas, flores, frutos ou de propriedades como o cheiro, o sabor, a dureza, a duração, a cor, o emprego, etc.etc. Nenhuma característica essencial lhes escapa. São tão exatas as suas observações, que se encontram gêneros e subgêneros em uma só família, como se fossem agrupados por um verdadeiro botanista”.
 
Algumas décadas depois, no seu livro 'O Pensamento Selvagem', o antropólogo francês Lévi-Strauss chamou a atenção para as evidências de que as sociedades indígenas têm uma prática de produção de conhecimentos, testam hipóteses através de experimentos genéticos, plantam e selecionam sementes, realizam observações rigorosas e classificam o mundo natural de uma maneira tão complexa como a taxonomia de um biólogo universitário. Muitos erros e confusões teriam sido evitados - afirma Lévi-Strauss - se o pesquisador tivesse confiado nas taxonomias indígenas em lugar de improvisar outras, nem sempre adequadas.
 
 O I Simpósio Barbosa Rodrigues fez parte de uma programação maior do 61º Congresso Nacional de Botânica, organizado pela Sociedade Brasileira de Botânica e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, com o apoio da UFAM e de outras instituições. O Congresso reuniu em Manaus, de 6 a 10 de setembro, mais de dois mil pesquisadores do Brasil e do exterior. A mídia, lamentavelmente, não deu a devida importância a um evento que discutiu, entre outros temas, a Amazônia. De qualquer forma, lá compareceu a sogra do Jacamim, que saiu em busca das cores da beleza e acabou encontrando essa outra forma do belo que é o conhecimento.
 
P.S. – Alguns leitores estão reclamando porque as eleições de outubro no Amazonas não estão sendo comentadas aqui nesse espaço. Sinceramente, entre Omar Aziz e o Cabo Pereira, eu fico com a sogra do Jacamim.

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...