24 de fev de 2017

A FORÇA DE UM APELIDO

A força de um apelido
[Daniel Munduruku]

O menino chegou à escola da cidade grande um pouco desajeitado. Vinha da zona rural e trazia em seu rosto a marca de sua gente da floresta. Vestia um uniforme que parecia um pouco apertado para seu corpanzil protuberante. Não estava nada confortável naquela roupa com a qual parecia não ter nenhuma intimidade.
A escola era para ele algo estranho que ele tinha ouvido apenas falar. Havia sido obrigado a ir e ainda que argumentasse que não queria estudar, seus pais o convenceram dizendo que seria bom para ele. Acreditou nas palavras dos pais e se deixou levar pela certeza de dias melhores. Dias melhores virão, ele ouvira dizer muitas vezes. Ele duvidava disso. Teria que enfrentar o desafio de ir para a escola ainda que preferisse ficar em sua aldeia correndo, brincando, subindo nas árvores, coletando frutas ou plantando mandioca. O que ele poderia aprender ali?
Os dias que antecederam o primeiro dia de aula foram os mais difíceis. Sobre seu corpo colocaram uma roupa que lhe apertavam os músculos, os pés, o tórax. Quase não conseguia respirar quando lhe vestiram o uniforme. Ou melhor, “a farda”, como se dizia naquela época.
Finalmente o primeiro dia de aula chegou. Arrumou seu material escolar em uma mochila, o lanche preparado carinhosamente pela mãe e colocou-se à caminho. Tudo lhe parecia estranho demais, novo demais, esquisito demais. Tudo era sofrido demais.
Quando chegou à frente da escola parou. Olhou para as grandes paredes que a formavam e ficou desolado imaginando o que iria acontecer em seguida. Pensou em voltar atrás, mas lembrou das palavras de seu pai que lhe diziam que um guerreiro nunca desiste. Seguiu adiante acompanhado de sua mãe que não o deixava um instante sequer. Seus pés doíam por causa do tênis que lhe obrigaram a usar e que era um número menor para o tamanho de seus pés. Aguentou com dignidade o desconforto. Quando chegou ao portão que o separava da vida da aldeia e a escola estancou buscando os olhos atentos de sua mãe. Não conseguiu pensar em nada. Apenas entrou.
Dentro do prédio da escola avistou um grupo de meninos com idade aproximada da sua. Sentiu algum ânimo naquele momento. Viu que tinham rostos parecidos com o seu, cabelos lisos, corpo bronzeado. Ensaiou um sorriso, mas logo ficou desanimado porque um daqueles meninos gritou logo que o avistou:
- Gente, olha o índio que chegou em nossa escola. Olha o índio que veio estudar aqui.
Ouviu explodir muitas risadas nascidas das palavras do colega. Ficou intrigado. Olhou para todos os lados, para cima e para baixo procurando o que o garoto chamara de “índio”. Em sua inocência pensou tratar-se de um passarinho de uma espécie que não conhecia. Diante da aparente ignorância do recém-chegado o grupo gargalhou ainda mais constrangendo o novato que, finalmente, entendeu que estavam falando de sua pessoa. Pensou mais uma vez que eles o estavam recebendo de maneira gentil e que esta palavra – que ele nunca ouvira antes – era uma forma carinhosa de tratar o estreante. Infelizmente não era.
Dias depois descobriu que estava sendo chamado por um apelido. 
– Apelidos são formas pouco gentis de tratar as pessoas, meu filho – disse-lhe a mãe um tanto preocupada.
- O que significa esta palavra, pai? – perguntou um dia para seu genitor enquanto pescavam no igarapé. O pai o observou sem pressa.
- Índio, meu filho, é como as pessoas da cidade se referem aos nossos povos antigos. É uma palavra que diz o que eles pensam de nós e eles pensam coisas terríveis. Dizem coisas que enfraquecem nosso espírito. Eles não sabem quem somos e por isso nos deram um apelido que nos humilha e maltrata. Posso dizer a você que eles não sabem, mas nós sabemos quem somos e isto é tudo o que precisamos para vivermos bem a nossa vida.
Depois destas palavras o pai abraçou o menino e sussurrou em seu ouvido:
- Somos fortes, somos guerreiros. Somos de um povo antigo e valente. Somos água, somos gente. Somos terra. Somos sementes.

O menino fechou os olhos agradecidos, mas sabia que muito ainda iria acontecer.

23 de jul de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO: UMA ILUSÃO


Por Daniel Munduruku

Tenho lido bastante coisa sobre uma certa escola sem partido, proposta feita por um grupo de deseducadores nacionais.
Fiquei pensando muito compenetradamente sobre o tema e achei por bem dar minha versão sobre o grupo que propõe tão descarado projeto.
A escola sem partido já existiu no Brasil. Ela começou em 1964 quando por aqui foi engendrado um golpe militar. Nessa ocasião, os direitos dos cidadãos foram cassados pela ideia de que era preciso construir uma pátria voltada para os princípios da moral e do civismo. Todos os brasileiros deveriam aprender a honrar sua pátria e sua família. Professores não podiam falar de revoluções com o risco de serem considerados inimigos da verdade que nasce com os princípios morais. Todos deveriam pensar do mesmo jeito e ponto final.
Eu, filho da floresta, fui vítima dessa ideologia que não se queria ideologia porque defendia uma pátria sem ideologia. Levado para a escola me impuseram uma língua única; o aprendizado de disciplinas universais; a necessidade de falar uma língua estrangeira; bater continência à bandeira sem me explicar o que isso significava; uma profissão que me dignificava como cidadão. Eu fazia parte de uma “nação que vai pra frente, um povo unido de grande valor”. E o mais interessante: eu era feliz por causa disso. Por isso eu marchava no dia 7 de setembro; cantava o hino nacional com orgulho; dedicava-me ao exercício de ser “um brasileiro autêntico”.
Meus professores me ensinavam coisas muito práticas que me conduziam para um bem estar social. Aprender português ou matemática era apenas um passo para ser completamente feliz. Pensar era um luxo desnecessário.
Por incrível que pareça eu estudei numa escola religiosa desde a mais tenra idade. Era uma escola que primava pelo fato de ensinar às crianças e jovens uma profissão que os tornariam “indigentes” do sistema. Acontece que esta mesma escola que me alienava, aceitando a generosa oferta do Estado, também me ofereceu um olhar crítico sobre o mundo.
Confesso que naquela ocasião eu nunca ouvira falar de Caetano, Chico ou Gil. Eu ouvia músicas religiosas que enlevavam meu espírito à porta do paraíso e nada mais. Passei os primeiros quinze anos de minha vida sem saber que a merenda que eu comia na escola era fruto de falcatruas engendradas no coração do sistema que me pedia cidadania plena. Eu era massa de manobra. Mas eu não sabia disso.
Foi a mesma igreja que me alienou deu-me um olhar crítico sobre o mundo. Era prática à época achar meios de driblar a censura. Foi ela que me ofereceu as canções de Geraldo Vandré (pra não dizer que não falei das flores); Jair Rodrigues (cavalgada); Belchior (Como nossos pais); Cálice (Chico Buarque), entre outras. Não me apresentaram Marx ou Che Guevara; não falaram para mim de Gramsci ou Paulo Freire. Disseram-me sobre um certo Jesus, revolucionário que curava as pessoas, dava comida aos pobres, questionava a riqueza dos ricos, vivia no meio de prostitutas e mendigos; não tinha nojo das feridas sociais e convivia pacificamente com aqueles que cobravam impostos. Foi este revolucionário que me chamou atenção. Os demais, só viria conhecer anos depois quando já frequentava os bancos da universidade que fazia questão de lembrar que eu era um zé ninguém e que ali não era meu lugar.
Eu cresci um homem de esquerda. O acesso à universidade quebrou um destino que já estava traçado para mim: eu seria um ninguém com carteira de trabalho assinada. Seria a massa de manobra que o Estado brasileiro desejava. Seria o funcionário padrão tão desejado pelas corporações alimentadas pela ideia da ideologia única. Tudo estava devidamente escrita no script do filme de minha vida.
Tudo estava certo. Eu, no entanto, quebrei o escrito. Por força da crença no tal revolucionário Jesus eu saí daquilo que era considerado meu destino. Comecei a ter acesso a livros que falavam sobre possibilidades de sermos fraternos de verdade, que não era justo meia dúzia ter toda riqueza enquanto milhões passavam fome; não era possível ficar assistindo os comerciais de margarina, onde as pessoas são sempre felizes, enquanto houvesse pessoas na penúria. Que uma sociedade multiétnica pudesse ser comandada por uma elite branca. Não foi Karl Marx que me disse isso; não foi seu “livro vermelho”, mas um certo livro de cabeceira que reunia a história de muitos povos em diferentes épocas. Tempos depois descobri que tal livro se chamava Bíblia Sagrada.
Hoje fico pasmo quando alguém defende a tal escola sem partido como se isso fosse uma novidade contra a invasão marxista. É simplesmente o jeito de defender a volta da ideologia militar dos anos 1970 porque se trata de perseguir pessoas que pensam diferentes; se trata de evitar que pobres tenham acesso ao sistema de ensino que os empodera; se trata de continuar a dividir as populações indígenas oferecendo a elas a figura do “capitão” em detrimento da autoridade do “cacique”. Em resumo, trata-se da infeliz ideia de tornar a todos nós massa de manobra de uma elite que não aceita dividir o poder, não admite a ideia da democracia como partilha de direitos.
Será que as pessoas não veem isso como um retrocesso? Será mesmo que todos pensem que as doutrinas de esquerdas são macabras? Será que todo mundo acha que o mundo todo é estúpido? Tá certo que o comunismo não deu certo, mas o pensamento dialético está presente em nossa leitura de mundo. O capitalismo não nos oferece o contraditório; quem faz isso é a lei baseada nos princípios universais dos direitos humanos, fruto de uma luta mundial; o fim da escravidão não foi apenas uma benesse do Estado Brasileiro, mas fruto das revoltas populares nascidas da consciência dos direitos; a demarcação das terras indígenas não é caridade, mas direito conquistado. Será que é disso que estamos falando?
Por fim, penso nos parentes indígenas que defendem com unhas e dentes a FUNAI. Penso que as pessoas mais conscientes sabem da importância desse órgão para as populações indígenas, mas sabem também que é preciso avançar. Normalmente quem a defende são aqueles que estão atrelados a um esquema de privilégios. No meu ponto de vista, pensar na manutenção da instituição tal qual ela se encontra só é compreensível se imaginarmos que ela é a reprodução da tal escola sem partido. A FUNAI é alienante. Ela nunca serviu para conscientizar as populações sobre seus direitos porque este não é o papel do Estado que ela representa. A FUNAI não liberta. Ela aprisiona. A escola sem partido, também. É uma ilusão. As duas.


18 de jul de 2016

30 de jun de 2016

TAWÉ - NAÇÃO MUNDURUKU - UMA AVENTURA NA AMAZÔNIA

TAWÉ - NAÇÃO MUNDURUKU - UMA AVENTURA NA AMAZÔNIA
WALTER ANDRADE PARREIRA
EDITORA DECÁLOGO

(primeira edição publicada em 2006)



 Prefaciei este livro há alguns anos atrás. Eu o fiz porque seu autor é uma pessoa maravilhosamente gentil, extremamente comprometida com a causa das populações indígenas e um educador de primeira linha (entenda-se educador em seu mais belo sentido). Fi-lo também porque a leitura me causou um sentimento muito profundo de saudade de casa. Walter conseguiu descrever com detalhes a sutileza invisível dos parentes Munduruku. Talvez - me arrisco dizer - tenha observado coisas que somente pessoas com o coração puro possa enxergar. Sem desejar ser um estudioso, sem desejar interferir ou julgar o que via, ele sentiu com o coração a punjância de uma cultura que sabe olhar para o mundo de forma holística, plural, dinâmica, atual e ancestral. Tudo isso ao mesmo tempo. 
Penso que poucos estudiosos - antropólogos, etnólogos - ou religiosos - católicos e protestantes -, conseguiram ir além da aparência ou daquilo que os Munduruku quiseram mostrar. Walter não. Walter foi além. Foi à alma de nossa gente que encontrou nele um aliado, amigo, baripnia (parente). Tem coisas que os Munduruku só revelamos para nossos baripnia. Não pense que isso foi dito teoricamente, pois não foi. Isso foi passado através da silenciosa linguagem que sai de um coração e vai para o outro. O autor soube captar com sua sensibilidade,
O livro do meu amigo Walter traz narrado esse encontro. É uma leitura necessária para quem quer encontrar algumas respostas para as agruras dos dias atuais. É um livro que quem o lê se auto-ajuda.
Vale lembrar que a visita de Walter aos Munduruku se deu na década de 1970, portanto é de um tempo que quase se perde na memória porque nossa gente ainda vivia com certo isolamento dessas questões políticas que hoje a assola. Talvez por isso seja uma leitura tão rica e agradável. Vale a pena conferir!
Já não é tão fácil encontrá-lo porque não está disponível em livrarias e penso que logo, logo nosso selo editorial deverá fazer uma edição dentro de nosso projeto de publicar livros que revelem os saberes ancestrais de nossa gente.
-----------------------------------------------------------------------------------------------