4 de jan. de 2015

Awá-guajás estabelecem contato com índios isolados de reserva maranhense


Awá-guajas que vivem em aldeia mantêm contato com índios isolados
Awá-guajas que vivem em aldeia mantêm contato com índios isolados
Divulgação Funai

Após décadas resistindo ao contato com outras pessoas, inclusive de sua própria etnia, três índios awá-guajás que viviam isolados no interior da Terra Indígena Caru, na região oeste do Maranhão, aceitaram a aproximação de outros awá-guajás e seguiram com eles até aldeias onde vivem índios há tempos habituados ao contato com não índios.
Segundo o coordenador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) no Maranhão, Daniel Cunha de Carvalho, trata-se de duas mulheres e de um adolescente da mesma família (mãe, filho e avó) que moravam sozinhos. No domingo (28), índios da aldeia avistaram a família enquanto procuravam alimentos nas proximidades da Aldeia Tiracambu. As circunstâncias do encontro ainda não estão claras, mas é possível que ao aceitarem a aproximação do grupo, as duas mulheres tenham identificado algum laço de parentesco com eles, aceitando, assim, acompanhá-los até a aldeia.
O fato é tão incomum que a Funai interrompeu as férias do responsável pela Coordenação-Geral de Índios Isolados e Recém-Contatados, Carlos Travassos, para que ele viajasse de Brasília para o Maranhão. Uma servidora da coordenadoria regional da fundação, que também estava de férias, teve que voltar ao trabalho e foi enviada à reserva indígena na segunda-feira (29) a fim de verificar a situação da jovem.
“Isso é um fato raro, já que há várias décadas esses grupos que vivem isolados têm resistido a fazer contato até mesmo com outros awás-guajás. Inicialmente, chegamos a imaginar que pudesse ter acontecido algo grave – como um problema de saúde ou reflexo da presença de madeireiros que atuam ilegalmente na terra indígena – e que se tratasse de uma tentativa de pedir ajuda”, disse Travassos.
De acordo com Carvalho, as duas mulheres e o adolescente passam bem. A Funai acionou o plano de contingência e pôs em prática as medidas necessárias à proteção dos índios isolados – suscetíveis a contrair alguma eventual doença contra a qual não tenham proteção imunológica. O coordenador garante que uma equipe da Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, também já foi deslocada para o local.
Habituada aos costumes dos awá-guajás, com quem trabalha há quase 25 anos, a missionária do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Rosana de Jesus Diniz disse ter ficado “muito surpresa” com o fato. Segundo ela, há tempos os índios das aldeias relatam encontrar vestígios da presença dos grupos isolados. Esta, no entanto, é a segunda vez em ao menos uma década que um contato entre grupos foi estabelecido espontaneamente.
O outro caso ocorreu há aproximadamente dez anos, quando awá-guajás de uma aldeia da Terra Indígena Awá encontraram mulher e filho, hoje um adolescente, sozinhos em uma espécie de cabana. Os dois hoje vivem na aldeia, mas, segundo Rosana, a mulher se mantém arredia e de pouca conversa.
Daniel e Rosana acreditam que a curiosidade natural dos awá-guajás não explicaria que qualquer índio isolado deixasse sua comunidade e se aproximasse sozinho de outro grupo. Para ambos, a degradação florestal causada pela ação de madeireiros e a consequente desorganização da coesão interna dos agrupamentos indígenas podem ajudar a entender o desfecho do encontro do dia 28.
“Até hoje, todos os contatos entre grupos se estabeleceram em virtude da destruição do território pela ação de não índios”, ressaltou Rosana. “Toda a região vem sofrendo com o desmatamento. Como, culturalmente, cada grupo awá-guajá delimita seu território de caça e coleta, a pressão que a presença de madeireiros e o desmatamento exerce pode estar contribuindo para que os grupos isolados percam a referência territorial e, sem outros meios de sobreviver, se aproximem cada vez mais uns dos outros e de grupos aldeados”, completou o coordenador regional da Funai.
O Estado brasileiro reconhece as terras indígenas awá-guajás há décadas. Mesmo assim, a extração ilegal de madeira continua e é objeto constante das denúncias de organizações ambientalistas e indigenistas e pelo Ministério Público (MP). Em janeiro, a pedido do MP, a Justiça Federal condenou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Funai e a União a instalarem postos de fiscalização para impedir a extração ilegal de madeira no interior das três terras indígenas existentes na região (Alto Turiaçu, Awá-Guajá e Caru). O juiz chegou a estabelecer prazo de 120 dias para que os órgãos públicos federais comprovassem ter adotado as necessárias medidas para garantir a efetiva proteção das áreas. Segundo o MP, as determinações não foram cumpridas.
Das três reservas indígenas, a Caru é a mais desprotegida. Em razão disso, é a que mais tem atraído madeireiros. Ela foi reconhecida pela Funai em 1980, a partir do desmembramento da Reserva Florestal do Gurupi, que deu origem também à Terra Indígena Alto Turiaçu. Interligadas, as duas reservas (Caru e Turiaçu) formam, junto com a Terra Indígena Awá, homologada pelo governo federal em 2005, um complexo de áreas indígenas ocupadas principalmente pelos awas-guajás, mas também por índios ka’apor e guajajara.


Índio cursa mestrado na UFG para garantir melhor educação em aldeia

Índio cursa mestrado na UFG para garantir melhor educação em aldeia

Professor em sua aldeia, o índio xerente Dansonkekwa se esforça para concluir seu mestrado em direitos humanos na Universidade Federal de Goiás (UFG) para lutar por uma educação indígena de qualidade para que as tradições de sua cultura sejam mantidas. Para conseguir os objetivos, o indígena deixou sua casa no Tocantins para enfrentar as dificuldades da língua portuguesa e morar com outros estudantes.
Dansonkekwa se apoia no significado de seu nome para ultrapassar as dificuldades e conseguir se formar. “Meu nome significa aquele que abre o caminho, que faz a trilha”, diz com orgulho. Porém, para facilitar o seu convívio fora da aldeia, o índio escolheu usar o nome Ercivaldo.
O maior objeto é garantir que as leis relacionadas ao povo indígena sejam cumpridas, inclusive o acesso às crianças a livros didáticos na língua nativa da etnia, e não em português. “A minha busca vai ser nessa área de ser reconhecido a partir dos direitos garantidos pela constituição brasileira e nós temos esse direito. Precisa de alguém que está apto pra elaborar o plano de como que a escola seria na comunidade no dia a dia”, explica Ercivaldo.
Com isso, ele acredita que as tradições de seu povo serão mantidas e passadas às novas gerações. “No mundo escolar, a gente pode transformar a oralidade para escrita, nos documentários e pode servir de ferramenta para que possamos futuramente mostrar e valorizar a nossa cultura”, complementa.
O estudante é o primeiro indígena a cursar o mestrado em direitos humanos pela UFG. Ercivaldo se considera privilegiado por estar abrindo portas e por poder servir de exemplo para outros índios que também desejam usar a educação como forma de ajudar suas aldeias.
Para o professor do mestrado, Douglas Pinheiro, a participação de um indígena na sala de aula é benéfica para todos os estudantes. “Isso cria uma nova dinâmica de ocupação do espaço. E em um mestrado de direitos humanos, isso é fundamental, porque um dos aspectos que nos costumamos discutir é ocupar espaços sociais. E quando o Ercivaldo está aqui presente, ele está como pessoa, obviamente, e a presença dele já é um testemunho vivo, mas ele também verbaliza as suas demandas, as suas angústias”, relata.
Para os alunos, a troca de experiência também gera um grande aprendizado. “É uma grande vitória pra ele e para o grupo étnico dele também. E nós fazemos parte com muita honra. Ele nos ensina muito todos os dias e isso é muito bom”, disse Fabrício Rosa, que é um dos 15 alunos do mestrado.
Dificuldades – O caminho para a realização do sonho não tem sido fácil para Ercivaldo. Além da saudade dos seis filhos que ficaram na aldeia, em Tocantins, o estudante enfrenta dificuldades com a língua e também com a moradia.
“Eu tenho alguns problemas de compreensão das palavras acadêmicas e eu estou tentando me adaptar, porque a língua portuguesa, pra mim, é uma língua inglesa, estrangeira”, diz o indígena.
Além disso, por não ter bolsa de estudo, Ercivaldo depende da Casa do Estudante Universitário, mantida pela UFG, para morar. Ele foi acolhido por outros estudantes da etnia xerente que estudam na instituição, porém está em situação irregular. A moradia é apenas para estudantes de graduação e como ele cursa o mestrado, não poderia continuar no local. Para tentar se manter na casa, o estudante já escreveu uma carta para o reitor da universidade, pedindo ajuda para que ele possa continuar alojado e continuar os estudos.
Mas, para superar tudo isso, o indígena se apoia nas fotos que carrega da família e também na esperança que todos depositam nele. “Ele é uma pessoa que a gente tem visto que com certeza vai contribuir conosco. Essa é a esperança. A gente fica também muito feliz. Com certeza é uma conquista para o nosso povo”, disse o cacique da aldeia, José Xerente. (Fonte: G1)

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...