15 de out. de 2007

O tempo da leitura e a leitura do tempo


(Texto apresentado em Bogotá, Colômbia, em 08 de outubro de 2007, por ocasião do Congresso de Literatura Brasil - Colômbia.)

Em primeiro lugar gostaria de cumprimentar a todos os presentes na língua de meu povo Munduruku. É um cumprimento que se faz sempre que a gente chega a um lugar para uma visita, para contar histórias ou trazer noticias de outros lugares. É uma forma de dizer que um encontro verdadeiro é aquele em que a gente sempre sai melhor, mais forte, mas sábio, mais humano.
Meu povo munduruku está presente em três estados brasileiros: Amazonas – onde aconteceu o primeiro contato com a sociedade brasileira; no Pará – onde os munduruku tiveram uma importante atuação na história local e onde nasci e cresci; e no Mato Grosso – para onde migraram algumas famílias na década de 1980.
Este povo tem, portanto, uma relação antiga com a sociedade nacional tendo que adaptar-se em seu ser cultural para continuar vivo. Esta adaptação foi feita sobretudo no que se refere à necessidade de incluir hábitos que antes não faziam parte do seu cotidiano como vestir roupas ou consumir alimentos estranhos à sua dieta alimentar. Teve também que aprender a língua portuguesa para comunicar-se e ir à escola para conhecer os valores ocidentais. Claro que não se tratou de uma passagem tranqüila e nem isso fez com que esse povo deixasse suas principais características culturais como os rituais, as tradicionais pinturas corporais, a língua e outros elementos que o tornam particular no cenário da sociodiversidade brasileira.
É do lugar de membro desse povo que lhes desejo falar. Sou um indígena, um nativo, um Munduruku. Dentro deste povo nasci e nele aprendi os elementos principais da nossa cultura: aprendi a ouvir, falar apenas o essencial, fazer o silêncio que vem de dentro, imprescindível para viver em paz comigo mesmo e com as pessoas que me cercam. Aprendi as lições da floresta, dos rios e de todos os seres que habitam nosso mundo mítico e milenar.
Mas também fui “vítima” do sistema ocidental de ensino e com ele aprendi a manipular a memória através da escrita tornando-me, assim, um relator da memória oral da gente indígena que, no dizer do ocidente, faz de mim um escritor. Meu amigo Ailton Krenak prefere me chamar de Escrevinhador das memórias, título que muito me honra.
Tenho a alegria de estar aqui hoje para falar sobre a literatura de autoria indígena que se faz hoje no Brasil numa profunda contradição entre oralidade e escrita. No entanto, não é possível falar da literatura quando ela é feita por pessoas de tradição ágrafa sem apresentá-las antes para que se entenda o grau de dificuldade que temos nas relações com as sociedades complexas que têm, nas letras, seu principal ponto de convergência humana. Isso, às vezes, faz com que estas mesmas sociedades tenham necessidade de dar tempo à leitura e se esquecem de fazer a leitura do tempo rejeitando, por isso, as outras formas de leitura e escrita produzidas, desde muitos séculos, pelas sociedades tradicionais.
Certamente é já do conhecimento de todos que o Brasil possui uma sociodiversidade muito grande. É um povo marcadamente mestiçado num processo que envolveu os europeus, africanos e povos originários da terra, que equivocadamente são chamados de índios, termo genérico reproduzido pela escola com sinônimos diversos: atrasado, feios, preguiçosos, selvagens, canibais, infantis para dizer apenas alguns. Este tipo de tratamento esconde, desde muito tempo, a verdade sobre a riqueza que nossos povos possuem dentro do seu contexto sociobiodiverso.
O que temos hoje no Brasil é uma diversidade cultural e lingüística que surpreende o mundo todo: somos aproximadamente 230 diferentes povos e falamos 180 línguas divididas entre troncos, línguas, dialetos tão distintos entre si que é quase impossível conhecê-los todos. Tal diversidade faz tornar-se ridícula e perigosa a generalização utilizada ainda hoje.
Estas sociedades – que experimentam diferentes formas de humanidade – têm diferentes relações com a sociedade brasileira. Algumas delas têm 500 anos de contato; outras, 300, 200 anos; outras têm apenas 40 ou 50 anos e acredita-se que existem outras 50 comunidades que não possuem contato algum com a sociedade nacional. São pequenos grupos que fogem ao encontro que sabem ser muito nocivo para sua própria cultura.
Neste quadro e com estas diferentes situações, povos indígenas inteiros têm sofrido as conseqüências de viverem em contato permanente com uma sociedade que lhes mantêm escravas de um conceito que os torna menores, infantis e marginalizados. A isso se inclui a negação da identidade cultural. Se por um lado manter-se indígena é condição fundamental para o reconhecimento étnico – pois assim a sociedade complexa pode manipulá-lo – o aprender e conviver com a sociedade nacional em igual condição é considerado um abandono da identidade. Em outras palavras: se vou para a universidade e compreendo a lógica do ocidente acabo sendo desqualificado como pertencente a uma sociedade indígena. Ser indígena, na cínica lógica do ocidente, é manter-se “no atraso cultural”; ao pertencer ao mundo global perco minha identidade étnica. Essa forma de pensar tem ocasionado sérias crises de identidade no meio indígena. Jovens, levados a pensar que o melhor é negar a identidade e assumir a identidade ocidental, acabam aprendendo, de forma dolorida, que ao fazer isso também não são aceitos pelos outros. A conseqüência disso tem sido o sofrimento, a dor, o suicídio.
É claro, no entanto, que em nenhum momento estas sociedades deixaram de resistir e lutar pelo que consideravam importante para a manutenção de suas culturas tradicionais. E mesmo tendo sido imposto um modelo de sociedade ao qual deveriam abraçar para tornarem-se mais humanos – no pensar do ocidente capitalista – estes povos não desistiram de sonhar um encontro em que pudessem mostrar toda sua riqueza humana. Neste sentido, o surgimento do movimento indígena organizado na década de 1980, foi fundamental para mudar a forma de relação com a sociedade brasileira. Naquela ocasião, jovens que foram mandados por suas comunidades para estudarem nas cidades iniciaram um movimento que culminaria no estabelecimento de um novo paradigma com o governo brasileiro.
No inicio de tudo estes jovens lutavam por coisas muito práticas: demarcação das terras habitadas imemorialmente pelos povos indígenas; assistência à saúde; educação diferenciada que levassem em consideração as diferenças étnicas; desenvolvimento de projetos de economia alternativa, sobretudo para aquelas comunidades com maior tempo de exposição à sociedade envolvente e que já não dominavam mais a técnica tradicional de economia.
Mais tarde e com uma nova geração de lideranças, houve uma preocupação na formação de técnicos indígenas e formação universitária o que vem ocorrendo até os dias de hoje. Neste ínterim, foram surgindo os primeiros ensaios de uma literatura eminentemente indígena. Isso se deu justamente pela constatação de que os indígenas, apesar de todo o avanço político que haviam conquistado, não conseguiam falar por si mesmos. Eram sempre representados por estudiosos, antropólogos, cientistas. Esses parceiros acabavam por assumir um papel de paladinos dos direitos indígenas, mas acabavam por tornarem-se uma barreira para o aparecimento de vozes nativas na literatura.
Verdadeiramente os escritos autorais indígenas vêm aparecer apenas na década de 1990. Surgem de forma tímida, mas vão ganhando forças na medida em que a sociedade brasileira vai se abrindo para receber a memória escrita de nossa gente. Esta abertura vai acontecer mais efetivamente a partir do ano 2000 com o crescimento da demanda por textos de autoria indígena principalmente em função da atuação no movimento indígena de pessoas que tinham maior compromisso com a memória escrita. Livros que foram premiados no Brasil e no exterior também foram importantes para que o mercado livreiro visse nesse nicho um potencial econômico favorável o que ajudou a expandir esta mesma literatura.
Minha atuação na área da literatura é relativamente recente. É verdade que lancei meu primeiro livro em 1996 e que ele teve uma repercussão bastante surpreendente, sobretudo nas escolas. Foi o primeiro livro lançado por um indígena endereçado para o público das escolas brasileiras.
Em 2003 o livro “Meu Vô Apolinário – um mergulho no rio da (minha) memória”, recebeu da Unesco uma indicação no Prêmio de Tolerância que ela mantinha. Isso colocou a literatura na mídia e fez com que novos autores indígenas também começassem seu caminho nesta seara.
Em 2003 ajudei a criar o INBRAPI – Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual – uma organização que tem como objetivo a proteção dos conhecimentos ancestrais de nossos povos. Isso fez com que quiséssemos pensar a respeito dos direitos autorais coletivos e, ao mesmo tempo, questionar o uso indevido das histórias tradicionais pela academia e pela literatura. Foi assim que, contando com a parceria sempre muito qualificada da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ – decidimos organizar o primeiro encontro de escritores indígenas e lançar dois concursos que ajudariam a divulgar a literatura escrita pelos indígenas e a descobrir novos autores nas comunidades tradicionais.
Para este primeiro encontro – com o aporte financeiro da Fundação Ford - conseguimos reunir, no contexto do salão do livro infantil e juvenil – que acontece anualmente no Rio de Janeiro e organizado pela FNLIJ – 12 escritores indígenas entre os mais de 30 que foram identificados num levantamento inicial.
Como resultado deste encontro foi escrita “A carta da Kari-oka” em que os presentes expunham, pela primeira vez na história do Brasil, uma posição clara e objetiva sobre o que pensam as sociedades indígenas a respeito dos direitos autorais chamando a atenção dos escritores e editores para a necessidade de usar o conhecimento tradicional de forma correta e com a devida repartição de benefícios. Ou seja: não se podem recontar histórias tradicionais sem o devido crédito aos verdadeiros donos delas.
Depois deste encontro, que foi um verdadeiro sucesso, outros foram acontecendo ano a ano com avanços significativos na qualidade dos textos e dos projetos gráficos. O resultado disso tem sido cada vez mais gratificante por notarmos que já há um reconhecimento de uma autentica literatura indígena brasileira e a participação crescente de autores indígenas em eventos literários pelo Brasil e exterior.
No entanto, questões ainda surgem como contrapontos na mesma proporção que surgem trabalhos acadêmicos. Há quem diga que os indígenas não fazem literatura. Há quem diga que o acesso à cultura letrada torna os indígenas menos indígenas. Há quem fale que tudo não passa de um surto e que depois cairá no esquecimento.
Pode ser. Confesso, no entanto, que isso não me preocupa. Não fui eu quem criou os conceitos classificatórios para o que os indígenas escrevem. De minha parte sequer acho que fazemos literatura. Já disse neste mesmo texto que fazemos memória escrita. Contamos nossa vida, nossa experiência, nossas histórias relatadas pelos velhos. Colocamos nela sonhos e crenças que cultivamos como verdade que nos é oferecida pelos nossos ancestrais.
Também acho que lançamos um instrumental para questionar a sociedade da tecnologia e do egoísmo. Oferecemos uma alternativa de leitura do mundo e do tempo e da experiência de estar vivos. Alertamos para a necessidade da memória na construção da identidade. Enfim, questionamos a sociedade onde prevalece o esquecimento e a cínica crença de que o individuo está acima de tudo, pode tudo, até destruir o mundo que ele não fez.
Escrevemos para contar o que sabemos e não para esvaziar a oralidade.
Escrevemos aquilo que acreditamos não com o intuito de desprezar o que os outros crêem;
Escrevemos nossa memória para que os outros saibam de onde vêm;
Escrevemos nosso jeito simples de viver para que todos saibam que a felicidade é possível; que a liberdade é possível; que a simplicidade é riqueza.
E continuaremos...para sempre.

Lançamento de livro em São Paulo

Será no próximo dia 20, a partir das 14 horas, o lançamento do mais recente livro de Daniel Munduruku.
"O olho bom do Menino", lançado pela Editora Brinque Book, é um texto que fala sobre valores essenciais do ser humano e que precisam ser resgatados pela sociedade.
O lançamento acontecerá na FNAC de Pinheiros. Na ocasião o autor irá autografar outros livros de sua autoria.
Assecom.

Educação Indígena: do corpo, da mente e do espírito

Educar é fazer sonhar. Essa forma de falar sobre a Educação Indígena foi sendo construída à medida que fui refletindo sobre minha infância e adolescência no interior da cultura Munduruku.
(...) Minha compreensão aumentou quando em grupo deitávamos sob a luz das estrelas para contemplá-las procurando imaginar o universo imenso diante de nós, que nossos pajés tinham visitado em sonhos. Educação para nós se dava no silêncio. Nossos pais nos ensinavam a sonhar com aquilo que desejávamos. (...) Aprendi a ser índio, pois aprendi a sonhar. Ia para outras paragens. Passeava nelas. Aprendia com elas. Percebi que na sociedade indígena, educar é arrancar de dentro para fora, fazer brotar os sonhos e, às vezes, rir do mistério da vida.
(MUNDURUKU, 1996).
A educação indígena é muito concreta, mas é ao mesmo tempo mágica. Ela se realiza em distintos espaços sociais que nos lembram sempre que não pode haver distinção entre o concreto dos afazeres e aprendizados e a mágica da própria existência que se concretiza pelos sonhos e pela busca da harmonia cotidiana. O que pode parecer contraditório à primeira vista segue uma lógica bastante compreensível para nossos povos e não é uma negação dos diferentes modos de coexistência como se tudo fosse uma coisa única, mas um modo da mente operacionalizar o que temos a pensar e viver.
Já disse em O Banquete dos Deuses (2000) que não é hábito de nossa gente fazer conjecturas filosóficas a respeito da vida. Segundo os princípios que regem nosso existir, a vida é feita para ser vivida com toda intensidade que o momento nos oferece. Essa filosofia se baseia na idéia do presente como um presente que recebemos de nossos ancestrais e na certeza de que somos “seres de passagem” nesse planeta, portanto desejosos de viver o momento como ele se nos apresenta. Nesta visão está implícita uma noção de tempo alicerçada no passado memorial, mas nunca numa idéia vazia de futuro. O futuro é, pois, um tempo que ainda não se materializou, ainda não se tornou presente e, por isso é impensável para a lógica que rege nossa existência.
Claro está que pensar assim dentro de um mundo marcado pela especulação – esta sim uma visão utilitarista do tempo – nos leva a uma compreensão dos motivos que marcaram a relação do ocidente com os povos originários. Foi uma relação impositiva regida pela secular violência do Estado Colonial e do Cristianismo. Ambos os olhares negavam humanidade à humanidade dos povos indígenas. Negavam a possibilidade de estes povos terem construído uma cosmovisão baseada na unidade corpo/mente/espírito, pois isso jogava por terra a doutrina do poder cristão do rei e da igreja. Daí a cruz ser trazida para ser carregada pelos originários da terra e nunca pelos que a trouxeram; daí a espada que atravessou não apenas o corpo dos antepassados, mas também o seu espírito (GAMBINI, 2000).
Ainda que ignorado, negado ou transformado pelos colonizadores do corpo e da alma, o saber que sempre alimentou nossas tradições se manteve fiel aos seus princípios fundadores. Isso desnorteou os colonizadores-invasores nos idos de 1500 e continua desnorteando os invasores de nosso tempo que teimam em destruir as tradições que permanecem resistindo, não sem muitas baixas, ao “canto da sereia” do capitalismo, cujo olhar frio concentra-se na fragilidade humana que é capaz de vender sua dignidade e ancestralidade em troca de um conforto e bem estar ilusórios.
Esta resistência permanece viva até nossos dias. Tais tradições se mantêm especialmente através de uma prática regida por uma tríplice concepção que, se não é uma teoria elaborada pela academia ocidental - embora ela também já a tenha descrito, mas sem proveito real como se pode ver na bibliografia citada -, o é pela experiência de vida, pela observação meticulosa dos fenômenos naturais e pela certeza de que somos fios na teia da vida. A educação indígena só pode, pois, ser compreendida através da tríade corpo-mente-espírito, cada um desses pólos sendo o responsável pelo desabrochar dos sentidos, da experiência da vida e dos sonhos.

Educação do corpo. Educação dos sentidos.
Aprendemos na aldeia, desde muito pequenos, que nosso corpo é sagrado. Por isso temos obrigação de cuidar dele com carinho para que ele cuide de nossas necessidades básicas. Aprendemos que nosso corpo é habitado por ausências e que essas ausências precisam ser preenchidas com sentidos construídos por nós. Aprender é, portanto, conhecer as coisas que podem preencher os vazios que moram em nosso corpo. É fazer uso dos sentidos, de todos eles.
É, portanto, necessário valorizar o próprio corpo oferecendo a ele os instrumentos para que possa cuidar da gente. Assim, é de extrema importância que cada um aprenda a conviver com seu grupo de idade por ser ele que nos vai “guiar”, dar um norte para as descobertas que um corpo infantil precisa fazer. É nesta convivência que a criança indígena vai treinar a vida comunitária como uma necessidade ímpar para sua realização e compreensão do todo. Além disso, vai oferecer-lhe o olhar para seu entorno e descobrir que os sentidos, junto com os comportamentos que eles vão criando, representam sua única segurança e garantia de sobrevivência contra os perigos que a natureza traz.
Ao descobrir estes vazios que o corpo possui a criança indígena não vê com desprezo a necessidade de adquirir conhecimentos complementares. Ao contrário, ela percebe como é importante deleitar-se com eles num processo de aprendizagem que passa pela leitura do entorno ambiental. Vai compreendendo, então, que o ambiente a ser observado vai deixando marcas que dão sentido ao seu ser criança e à sua própria vida. Entende, então, que o uso dos sentidos confere sentido às suas ações: ganha sentido a leitura das pegadas dos animais, do vôo dos pássaros, dos sons do vento nas árvores, do criptar do fogo, das vozes da floresta em suas diferentes manifestações. Conscientiza-se de que andar pela mata é mais que um passeio de distração ou diversão; que subir na árvore é mais que um exercício físico; que nadar no rio é mais que brincadeira; que produzir seus brinquedos é mais que um desejo de satisfação; que ficar horas confeccionando utensílios e objetos é mais que uma necessidade. A criança vai, aos poucos, entendendo que no seu corpo o Sentido ganha vida. Suas ações são norteadas pela ausência que mora em seu corpo e que precisam ser preenchidas por aquilo que constrói razões para sua existência.
Por isso ela tem que crescer. Cresce para dar espaço às outras ausências que se fazem presente e que precisam ser preenchidas também. Agora, no entanto, não podem mais ser preenchidas apenas de modo informal. Será preciso formalizar e se antes ela apenas imitava os mais velhos, agora vai precisar mostrar que seu corpo está amadurecido para o novo que pede passagem. É neste momento que a criança, já não mais tratada assim, vai viver conscientemente seus rituais de maioridade: é a forma encontrada pelo corpo para construir o passo seguinte.
Não vou me ater as outras etapas do crescimento, pois não é este meu objetivo. Basta dizer que até o momento em que um(a) indígena se torna adulto(a) – entre 13 e 15 anos -, seu corpo já estará todo preenchido e saberá encontrar caminhos para sua sobrevivência física. Vai surgir, então, outro alimento que também foi sendo ministrado ao longo do mesmo processo para que seu corpo não fosse seduzido pelo vazio da existência: a educação da mente.

Educação da Mente. Educação para a vida
Se educar o corpo é fundamental para dar importância ao seu estar no mundo, a educação da mente é indispensável para dar sentido a este estar no mundo. Se no corpo o Sentido ganha vida, é na educação da mente que o corpo o elabora.
Dizia ainda há pouco que na concepção do tempo indígena o presente é o único tempo real. O passado é memorial e o futuro uma especulação que quase não entra na esfera mental dos povos indígenas. Dizia isso para refletir como essa cosmovisão se choca frontalmente com a concepção linear e histórica que o ocidente desenvolveu sobre o tempo. Para o indígena o tempo é circular, holístico, de modo que vez ou outra os acontecimentos se encontram sem, no entanto, se chocar. O passado e o presente ganham dimensões semelhantes e se auto-reforçam mutuamente. Por isso o discurso indígena se apossa de elementos aparentemente distantes entre si, mas perfeitamente compreensíveis no contexto em que se encontram. É a lógica da ressignificação dos símbolos que permite às gentes indígenas passear pelo passado utilizando instrumentos do presente e vice-versa.
Ora, a educação da mente para compreender esta concepção passa pela existência dos contadores de histórias. Quem são eles? São os que trazem para o presente o passado memorial. São aquelas pessoas, homens e mulheres, que assumiram o papel relevante de “manter o céu suspenso”, conforme compreensão Guarani. São os que lêem e relêem o tempo tornando-o circular. São os responsáveis pela educação da mente.
Quase sempre são velhos que já sentiram a passagem do tempo pelos seus corpos. São os guardiões da memória. Para muitos dos povos originários, estes velhos são como uma enorme biblioteca onde está guardada a memória ancestral. Daí sua importância para a manutenção da vida e do Sentido.
Lembro que para o povo Munduruku, ter sorte na vida é morrer velho. Daí porque todos querem morrer velhos. O motivo é simples: cabe a ele ou ela o privilégio de manter a memória viva através das histórias que carregam consigo, contadas, elas também, por outros antepassados numa teia sem fim que se une ao princípio de tudo. Morrer velho é a garantia de que nosso povo não morrerá. Aos pais cabe a educação do corpo. Aos anciãos cabe a educação da mente e, consequentemente, do espírito.
É, pois, através do ato de ouvir histórias, contadas pelos guardiões da memória, que nossa gente auto-educa sua mente de modo que o indígena vive no corpo aquilo que sua mente elabora pela silenciosa e constante atenção aos símbolos que as histórias nos trazem. O corpo que vive o tempo presente alimenta-se, preenche seu vazio com os alimentos do sentido que a memória evoca do tempo imemorial. Não é, portanto, uma vida sem sentido, próxima ao reino animal como queriam os colonizadores de antigamente. Pelo contrário, é uma vivência plena de significações que reverberam pelo corpo. Nossos povos são, assim, leitores assíduos dos sentidos da existência. Educa-se, portanto, para a compreensão do mundo tal qual ele nos foi presenteado pelos espíritos ancestrais. Educa-se para viver esta verdade que para nossa gente é plena e nos mostra o caminho do bem estar, da alegria, da liberdade e do sentido.

Educação do Espírito. Educação para sonhar.
Outro aspecto relevante da vida indígena é o sonho. Ele faz parte da crença de que há mundos possíveis de serem encontrados. O sonho é a linguagem do universo para nos lembrar que somos parentes de todos os seres vivos que co-habitam conosco este planeta. Pelo aprendizado do sonho instalamos em nós uma espécie de software que atualiza a memória que nos torna pertencentes a uma coletividade universal e nos faz sair da prisão que o corpo nos impõe. Daí que entendemos como o saber de um povo é, ao mesmo tempo, local e universal mesmo que ele não tenha consciência disso.
Para muitos povos indígenas brasileiros existe uma crença no outro mundo. Este outro mundo é onde moram os espíritos criadores. Acredita-se também que todas as coisas estão vivas porque possuem uma alma tornando-as nossas parentas e companheiras em nossa passagem pela vida. Essa compreensão faz com que nossos povos ritualizem suas ações especialmente quando elas têm relação com estes seres que, como nós, têm também uma alma. Dessa forma a derrubada de uma área para o plantio da roça é acompanhada de rituais a nos recordar que nada pode brotar se não pela atuação dos ancestrais e pela gratidão que se dispensa a Eles e aos seres que criaram por meio do mesmo gesto primordial que nos deu vida..
Da mesma forma acontece nos rituais da caça e da pesca, nos quais se envolvem os vivos e os encantados. O fato é que a crença no parentesco entre homens e outros seres vivos é uma mola propulsora eficaz, uma vez que, criando relações íntimas entre eles, não permite que estes povos explorem, além da necessidade, o ambiente onde vivem.
O fio condutor dessa relação está no sonho. Meu avô dizia ser a linguagem que nos permite falar conosco mesmos. Dizia também, que não dormimos para descansar, mas para sonhar e conhecer os desejos deles, desses seres que nos habitam. Para ele, o sonho era nossa garantia da verdade. Para mim o sonho sempre será o locus onde as histórias ganham realidade.
Resumindo: o corpo é o lugar onde reverberam os saberes da mente (intelectual) e os saberes do espírito (emocional). Educar é, portanto, preparar o corpo para sentir, apreender e sonhar. Pode ser também para sonhar, apreender e sentir. Ou ainda, apreender, sentir e sonhar. Não importa. É um mesmo movimento. É o movimento da Circularidade, do Encontro, do Sentido.
Talvez nada disso faça sentido para o ocidental, acostumado com o pensamento linear, quadrado, senhorial, possessivo. Não importa. Nunca fomos entendidos mesmo. E ainda assim sobrevivemos. Mas, mesmo assim, é importante destacar que apesar da incompreensão por parte do pensamento ocidental – excessivamente linear quantitativo e utilitarista – estamos hoje vivendo um momento onde a diversidade de experiências culturais é o nosso valor maior. Daí porque, apesar de incompreendidas, as culturas indígenas têm um papel importante a cumprir nessa grande Ágora, onde cada um precisa contar a sua história. De resto, a incompreensão e negação dessas culturas redundam, como mostra bem Vandana Shiva, na pilhagem e usurpação dos saberes tradicionais que sempre tiveram, e ainda têm o que dizer e o que ensinar. Na educação ensinar a sonhar, certamente, é uma grande lição.

Bibliografia
Albert, Bruce e Ramos, Alcida (orgs.). Pacificando o branco: cosmologias do contato no norte-amazônico. Editora Unesp. SP, 2000.
Clastres, Pierre. A fala sagrada: Mitos e cantos sagrados dos índios Guarani. Editora Papirus. SP, 1974.
Gambini, Roberto. Espelho Índio: formação da alma brasileira. Axis Mundi/Terceiro Nome. SP, 2000.
Lopes da Silva, Aracy; Macedo, Ana Vera Lopes da Silva; Nunes, Ângela (orgs.). Crianças Indígenas: ensaios antropológicos. Global Editora. SP, 2002.
Munduruku, Daniel. Histórias de Índio. Companhia das Letrinhas. SP, 1996.
_________________. O banquete dos deuses. Editora Angra. SP, 2000.
Shiva, Vandana. Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento. Vozes. SP, 1997.
______________. Monoculturas da Mente. Global Editora. SP, 2002.
Tassinari, Antonella Maria Imperatriz. No bom da festa: o processo de construção cultural das família Karipuna do Amapá. Edusp. SP, 2002.

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...