Os indígenas denunciam que há pessoas entrando nas
terras indígenas para fazer pesquisas para instalação de hidrelétricas sem
autorização das comunidades.
Por Agência Brasil de Fato, com informações do MPF
Os 1,5 mil indígenas Munduruku das Terras
Indígenas (TIs) Sai Cinza e Praia do Índio, no sudoeste do Pará, estão
indignados com a violação de seus direitos representada por medidas dos poderes
Executivo e Legislativo federais que alteram a forma de demarcação e uso de
seus territórios. Eles também protestam contra a invasão de suas áreas por
supostos técnicos a serviço do planejamento de hidrelétricas na região, contra
o fato de não terem sido consultados sobre a instalação dessas hidrelétricas e
contra a precariedade no atendimento à saúde nas terras indígenas.
As demandas foram apresentadas ao Ministério
Público Federal (MPF) em assembleias indígenas realizadas na última semana nos
municípios de Itaituba e Jacareacanga. Para os eventos foram convidados os
procuradores da República Fernando Antônio Alves de Oliveira Júnior e Felício
Pontes Jr., representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e lideranças
indígenas de outras etnias da região.
“Nós somos contra esses decretos porque nós temos
muitos filhos, netos e bisnetos para criar” , disse Maria Leuza, liderança das
mulheres Munduruku na região, referindo-se à portaria 303, da Advocacia Geral
da União (AGU), e à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215.
A portaria 303 possibilita intervenções militares
e empreendimentos viários, hidrelétricos e minerais em terras indígenas sem
consulta prévia de seus povos, além de prever revisão das terras demarcadas. A
PEC 215 atribui competência exclusiva ao Congresso Nacional no que diz respeito
à demarcação de terras indígenas, quilombolas e unidades de conservação.
“O governo não respeita os nossos direitos, eles
querem só que a gente respeite o decreto que eles criaram. Deus mandou a terra
não para destruirmos, mas para criarmos nossos filhos em cima dessa terra, e
por isso enquanto nós formos vivos a gente vai defender o que é direito dos
nossos povos indígenas”, complementa a liderança Munduruku.
Na TI Sai Cinza, o procurador da República
Fernando Antônio Alves de Oliveira Jr. Lembrou a todos que o direito indígena
ao território é um direito fundamental que será defendido de todas as formas
pelo MPF no Pará e em Brasília (DF), por meio da Procuradoria Geral da
República.
‘Não vivemos de enlatados’
“Nós das etnias Munduruku, Apiaká, Kayabi e Kayapó
não queremos barragens porque não vivemos de comida enlatada, vivemos de caça e
pesca” escreveu Roberto Crixi, liderança Munduruku, em carta entregue aos
procuradores da República no evento.
Segundo índios que manifestaram-se durante as
assembleias, os projetos hidrelétricos para a região causam preocupação nas Tis
não só por causa dos impactos futuros (migração em massa para o sudoeste do
Pará, alagamento das terras, aumento da especulação fundiária e do
desmatamento, mudança dos regimes hidrológicos, interrupção da navegação, entre
outros), mas também por causa dos impactos que já começaram a ocorrer.
Os indígenas denunciaram que há pessoas entrando
nas Tis para fazer pesquisas sem autorização das comunidades. As lideranças
ficaram de realizar um levantamento dos locais sagrados que podem ser
destruídos caso as hidrelétricas saiam do papel. “Há lugares sagrados que os
brancos não podem tocar, senão haverá destruição”, alertou o cacique Luciano
Saw.
Os investimentos milionários previstos na proposta
de construção de sete hidrelétricas nos rios Tapajós e Jamanxim são vistos com
perplexidade pelos indígenas diante da falta de recursos para saúde e educação
nas comunidades. Lúcio Akai As, da aldeia Abrin Kaburuá, disse que, atuando na
região como agente de saúde há 12 anos, muitas vezes precisou pagar do próprio
bolso medicamentos e equipamentos necessários para o atendimento de pacientes
indígenas.
O posto médico da aldeia Sai Cinza, por exemplo,
não tem aparelho para medição da pressão arterial nem estufa para esterilização
de materiais de enfermagem. Sem forro, o teto do posto virou morada para
morcegos.
“Esse dinheiro deveria ser colocado em saúde, não
em coisas que destroem a vida. Por que que os governantes não vêm aqui pra
falar sobre esses projetos? Aí eles iam ouvir nossa opinião”, criticou Saw.
O coordenador da associação indígena Pahyhyp, do
médio Tapajós, Francisco Iko Munduruku, apresentou um resumo da assembleia
geral indígena realizada no final de agosto em Itaituba, na Terra Indígena
Praia do Mangue. Segundo ele, cinco comunidades indígenas foram unânimes em
declararem-se contra os projetos hidrelétricos.
Garimpo
Representantes indígenas relataram que o anúncio
da chegada dos projetos hidrelétricos já está provocando a invasão de
garimpeiros ilegais, madeireiros e grileiros em terras indígenas, em busca principalmente
de ouro e diamante em áreas de unidades de conservação que podem ter seus
limites alterados por medidas governamentais.
Segundo as lideranças, os rios da região já estão
sendo bastante contaminados pela operação dos garimpos ilegais e a pesca
praticada nas Tis está sofrendo redução drástica de produção devido aos
impactos dessa atividade garimpeira ilegal.
Áreas onde até há pouco tempo haviam três pontos
de exploração garimpeira hoje contam com vinte ou mais desses pontos,
informaram os indígenas. Os garimpeiros estariam vindo principalmente do Estado
do Mato Grosso e do Suriname.
O MPF ficou de articular com a Polícia Federal a
realização de operações para prisão dos responsáveis pelos garimpos e apreensão
dos materiais utilizados.
Brasil de Fato - EcoAgência
18 de set. de 2012
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