27 de nov. de 2015
DANIEL MUNDURUKU EM BELO HORIZONTE
Registro de minha passagem por Belo Horizonte nestes dias 26 e 27 de novembro,
Primeira visita foi no Colégio Loyola. Ali rolou uma interessante conversa com os estudantes do 5o. Ano sobre o livro O HOMEM QUE ROUBAVA HORAS. Muito bom!
25 de nov. de 2015
O QUE SOU SÓ SERVE PARA MIM.
[ Mais um texto da série "Crônicas a Granel"]
O QUE SOU SÓ SERVE PARA MIM.
[À Cristino Wapichana]
Minha vida é um
poema que escrevo a cada dia. Seus versos, sua métrica, seus sentidos,
significados e significantes são palavras que componho a cada nova ação, a cada
nova atitude, a sempre nova escolha que faço.
É assim que penso
a biografia de cada pessoa. Entendo que cada um escreve, compõe seu verso único
em sintonia consigo mesmo, com seus amores, com suas dores. A vida dos outros
não é para ser seguida. Biografias não são para serem imitadas. Menos ainda
interpretadas. Olho para cada pessoa como um poema único. Poema é para ser
lido, não para ser interpretado. Acho que interpretar poema é a coisa mais
sórdida que alguém pode fazer, na escola ou na vida.
24 de nov. de 2015
EM NOITES SEM LUA, HISTÓRIAS DE TERROR.
EM NOITE SEM
LUA, HISTÓRIAS DE TERROR
As
férias escolares no meu tempo de estudante eram bem diferentes das de hoje em
dia. O ano escolar acontecia de março a novembro. Nos meses de férias eu ia
para a aldeia. Lá eu esquecia da escola, de seus professores, exames e provas e
também de suas tarefas. Esquecia também dos colegas chatos, dos apelidos que eu
recebia e das provocações que me dirigiam. A aldeia era algo sensacional para
um menino-quase-homem. Lá eu revivia muitos momentos gostosos, reaprendia
costumes, palavras, gestos. Retomava a culinária composta por muita mandioca e
seus derivados, peixes diversos, carnes de caça, cará, batata doce, inhame e
frutas em geral. Também ouvia as histórias dos adultos e dos velhos. Corria no
mato e nadava nos rios. Estas são lembranças muito felizes para mim!
21 de nov. de 2015
Daniel Munduruku em Uberlândia
Gostoso bate papo sobre literatura indígena;
Estamos em movimento para fazer com que o Brasil conheça e reconheça a literatura que estamos produzindo e que é construída a partir de um pensamento ancestral;
Vamos em frente;
20 de nov. de 2015
Daniel Munduruku na Universidade Federal de Uberlândia - UFU
12 de nov. de 2015
BOSTA DE ANTA
Apesar
de todo meu esforço eu não conseguia acompanhar os estudos. Não conseguia
entender muito bem as coisas que meus professores ensinavam ou queriam ensinar.
Para piorar tudo eu levava uma porção de tarefas para casa a fim de treinar,
treinar e treinar. Diziam os professores que era a única maneira de aprender:
decorar as fórmulas, os lugares, os verbos, as métricas. Isso me aborrecia
porque me faziam sentir um burro incapaz de aprender o que todo mundo aprendia
com rapidez.
Meus
pais tentavam me ajudar, mas o que eles poderiam fazer? Nada ou quase nada a
não ser me obrigar a treinar, treinar e treinar. Minhas brincadeiras ficavam
prejudicadas por causa dessa dificuldade, minhas invenções e jogos paravam; as
arapucas não podiam ser observadas para ver se tinham pego alguma sururina. Eu
até me sentia culpado porque sabia que minha caça estava a mercê de uma cobra
qualquer e sem poder se defender a coitada.
Meus
irmãos estudavam em outras escolas e também não podiam me ajudar com os
deveres. Nessas horas eu ficava imaginando o tamanho da solidão que o mundo da
cidade vive. As crianças de lá não podem brincar porque ficam prisioneiras das
tarefas escolares. Crianças que não brincam vivem presas na solidão.
Um
dia meu pai disse que iria dar jeito na “minha doença de estudar”. Fiquei
curioso para saber como seria isso. Ele me disse que nas férias escolares tudo
iria se resolver. Confesso que fiquei feliz, mas curioso especialmente por não
saber que se tratava de uma doença essa coisa de querer estudar. Como não
estava muito longe das férias, fui embromando o máximo que pude com as tarefas
da escola.
Quando
as férias chegaram pegamos um ônibus e fomos para a aldeia. Ali era o paraíso
na terra. Eu tinha tudo o que precisava para que minha felicidade fosse
completa e ainda estava livre da escola e suas entediantes tarefas. Acontece
que meu pai tinha outros planos para mim e que eu já havia esquecido. Tão logo
chegamos lá ele me convidou para ir à casa de meu avô. Lá o velho já nos
esperava como se adivinhasse que a gente chegaria. Meu pai explicou para ele o
que estava acontecendo comigo. O velho ouviu tudo em silêncio e de cabeça
baixa. Depois pediu para que meu pai saísse e nos deixasse sozinhos. Logo que
ele foi embora, meu avô acendeu o cigarro de palha tauari e fez fumaça sobre
minha cabeça. Cantou uma cantiga ancestral e me deixou inspirar o perfume do
cigarro. Em seguida me olhou nos olhos e disse que eu precisava fortalecer
minha memória, caso eu quisesse ir bem na escola. – O que devo fazer, meu avô?, perguntei. Ele
apenas mandou que eu retornasse à sua casa no dia seguinte bem cedo.
Quando
voltei na manhã seguinte notei que havia um cheiro bem estranho no ar. O velho
estava esquentando um pouco de água para fazer café. Quando notou minha
presença mandou que sentasse num banquinho e mais uma vez jogou fumaça em minha
cabeça. Quis perguntar que cheiro era aquele, mas achei melhor não saber.
Ficamos assim por alguns minutos. Em seguida o velho começou a manipular um
estranho monturo que estava ali e que era, eu percebia agora, a origem daquele
odor. Ele mandou que eu ficasse ali sentado. Obedeci. Postou-se à minha frente
e passou a jogar aquela pasta fedida em minha cabeça até que formasse uma
espécie de chapéu. Protestei, mas ele mandou ficar quieto. Completou o serviço
e foi logo me dizendo que eu deveria passar uma semana inteira com aquele
chapéu na cabeça e não deveria tirar nem mesmo pra dormir. Fiquei passado com
aquilo. Perguntei, então, o que era aquela pasta mal cheirosa. – É um chapéu
confeccionado à base de bosta de anta. Ele serve para amolecer sua memória e
ajuda-lo a aprender as coisas de maneira mais fáceis e rápidas. Não se preocupe
porque depois ele vai endurecer na sua cabeça. Quando isso acontecer, sua
capacidade de aprender será outra. – Eu vou ter que andar com isso uma semana
toda?, perguntei desesperado. – Vai ter que andar sim. É para seu bem. Depois
você vai notar que foi um bom remédio.
Não
adiantava nada eu ficar questionando o velho. Saí da casa imediatamente sabendo
que minha cabeça estava exalando um odor horroroso. Todos os que passavam por
mim levavam a mão ao nariz e riam sem parar. As meninas ficavam enojadas com
aquilo e me mandavam ir embora dali. Foi uma experiência cruel.
Nunca
soube se aquele “remédio” foi bom ou ruim para aprimorar minha memória, mas o
som da voz de meu pai dizendo que me levaria à aldeia caso eu reclamasse da
escola, me arrepiava e eu corria para fazer as lições de casa.
3 de nov. de 2015
PROFESSORA DE PORTUGUÊS
Quando
eu entrei na escola meu mundo se dividiu. Antes eu tinha o tempo todo para mim:
brincava, corria, nadava no igarapé, subia nas árvores, ia para a roça
acompanhar minha mãe, ouvia histórias dos avós, cuidava de minha cutia de
estimação. Enfim, o dia não acabava nunca!
Quando
minha mãe inventou de me colocar na tal escola da cidade para que eu crescesse
sabendo mais coisas que ela, o tempo tomou outra dimensão. Na verdade não foi
minha mãe que insistiu com a escola, soube disso depois, mas o governo havia
criado uma lei que dizia que todas as crianças – inclusive as que moravam nas
aldeias – deviam ser matriculadas e frequentar a escola. Era uma condição que
não cabia nem questionar naquele tempo.
Acostumado
a andar pelado pela aldeia, me agoniou usar uma farda e um sapato apertados. Era
o início de uma prisão que meu corpo iria ter que se adaptar. Não adiantou
reclamar, bater o pé, me esconder na floresta ou fazer birra. A decisão de ir
para a escola estava tomada e a escolha não era minha. O tempo que era todo
meu, agora eu tinha que dividir com colegas estranhos, com adultos mais
estranhos ainda, com deveres de casa ou com aprendizados que não me diziam
nada. Se no começo foi bom, confesso, depois foi ficando um tédio especialmente
por conta dos apelidos e gozações que sofria dos colegas.
Por
causa do português muito ruim que eu falava, as aulas eram terríveis. Quase não
entendia nada. Matemática, ciências, história ou geografia eram gregos. No
entanto, sempre procurava me esforçar o máximo porque eu sabia que se não o
fizesse receberia castigos que eram, às vezes, físicos e, outras, uma penca de
exercícios para fazer em casa. As lições de casa roubavam meu tempo de brincar
e me divertir.
Haviam,
porém, duas coisas que eu gostava na escola e que, para mim, nada tinham a ver
com a obrigação de estudar: as aulas de educação física e a professora de
português. A primeira vocês podem entender porquê, né? Eram nas aulas de
educação física que eu me vingava dos meus colegas. Eles eram todos muito
fracos, lentos, preguiçosos e eu o mais rápido, mais preparado e forte. As
corridas pela mata, as subidas constantes nos pés de açaizeiro, as braçadas no
igarapé e o café da manhã que minha mãe preparava me davam energia de sobra e
me faziam ser mais desenvolvido que os frangotes da cidade. Eu procurava
mostrar todo meu vigor nessas horas e meus colegas tinham mesmo que admirar o
“bicho do mato”, como diziam.
A
outra coisa era a professora Fátima. Ela lecionava português. Por causa dela eu
até me perfumava com o cheiro de patchulli extraído da mata. Quando tinha aula
com ela – e tinha quase todos os dias – eu me produzia todinho. Fazia minha mãe
lavar minha farda pra ficar bem branquinha; lavava meu tênis conga azul celeste
para ele ficar da mesma cor dos olhos dela; caprichava na lição de casa para
que ela se orgulhasse de mim; e levava uma tira de ingá como presente para ela.
Professora
Fátima era loira, branca, olhos azuis, jovem e tinha os dentes pra frente. Seu
sorriso solto destacava sua arcada dentária e a deixava ainda mais bonita.
Nunca tinha visto ninguém com cabelos daquela cor. Minha cutia de estimação era
ruiva; as onças tinham tiras na pele; as araras eram de variadas cores, mas a
professora Fatima era uma ave rara que eu gostava de contemplar.
Um
dia ela olhou para mim com seus olhos cor de céu. Ela disse que eu era bonito,
simpático, alegre e que ela gostava muito de mim especialmente porque eu me
esforçava para aprender bem a língua portuguesa. Esse foi o dia mais feliz de
minha vida até aquele momento. Alguém finalmente tinha dito alguma coisa que me
servia de elogio. E esse alguém tinha sido exatamente ela, minha professora de
português por quem eu nutria uma paixão secreta e indestrutível. Meu coração deu
pulos de felicidades e meu espírito finalmente faziam as pazes com os homens
brancos. Ou melhor, com as mulheres brancas. Daquele dia em diante meu esforço
ficou muito maior para satisfazer minha professora de português.
Tempos depois haveria uma festa
junina, dessas que acontecem em escolas durante o ano. Haveria dança de
quadrilha e eu já havia escolhido meu par: professora Fátima, minha deusa.
Seria a glória para mim. Preparei-me para fazer o convite uns dias antes quando
tudo já estaria preparado. Fui à sala dos professores nutrido de coragem e
determinação. Bati à porta para ser atendido. Lá de dentro saiu minha
professora acompanhada de um homem. Ela olhou para mim, apresentou seu namorado
e perguntou o que eu queria ali. Nada, eu disse.
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