28 de abr. de 2010

Um texto para refletir (de João Pacheco)‏

Autênticos em 1500,hoje ou em 2154?
João Pacheco de Oliveira

É comum jornais, filmes e comerciais de TV suporem que os índios são (ou deveriam ser) iguais àqueles descritos pelos primeiros cronistas, inteiramente exteriores ao universo ocidental. Nessa representação, o tempo transcorreu de modo absolutamente diverso para “brancos” e “índios”. Uns, os não indígenas, estão situados na História e se caracterizam pela variabilidade, mudança e complexidade. Os outros, os indígenas, são como estátuas de pedra, que apenas podem apresentar-se como idênticas ao que antes (supostamente) eram.

Recusar ao índio a História e o exercício da própria voz, imaginando-o apenas antes da chegada dos brancos, é um expediente útil para silenciar sobre o violento processo de colonização, propiciando uma autoanistia aos colonizadores. É essa categoria redonda, inteiramente infensa à História, plena de seduções e lisa de culpas, que o senso comum repete e consagra incessantemente. Em estudos anteriores, eu apontei um artifício narrativo que chamei de “o efeito túnel do tempo”. O artifício garantia a qualquer não índio, como em um passe de mágica, uma flagrante superioridade em relação a qualquer indígena. É também com base nisso que a tutela, apesar de autoritária e etnocêntrica, veio a ser simploriamente legitimada como instituto necessário e até filantrópico.

Tal ideia está muito viva nas mais variadas manifestações discursivas dos brasileiros: artes, literatura, chiste e linguagem cotidiana. Os índios seriam algo apenas relativo ao passado colonial do Brasil, havendo uma enorme e generalizada dificuldade em compreender os índios atuais.

O reconhecimento se limita a faixas da Amazônia, onde ainda haveria grupos isolados e arredios (“índios verdadeiros”). Os demais são ditos apenas “remanescentes”, índios “misturados” e, no limite, “falsos índios”. Pretende-se instituir uma polaridade entre as culturas indígenas “intocadas” (seriam as autênticas) e aquelas afetadas por “processos de aculturação” (seriam inautênticas). Partindo daí, setores da administração pública colocam em segundo plano as demandas de “índios” no Nordeste, seja omitindo se face ao reconhecimento de suas terras, seja criminalizando suas lideranças e enquadrando-as em um regime carcerário próprio de praticantes de crimes hediondos (vide http://www.abant.org.br/).

Os direitos indígenas, tais como definidos na Constituição de 1988 e na Convenção 169 (acolhida no Brasil em 2003), não decorrem, porém, de uma condição de pureza cultural a ser comprovada nos índios e coletividades indígenas atuais, mas sim do reconhecimento pelo estado de sua condição de descendentes da população autóctone. Trata-se de um mecanismo Compensatório pela expropriação territorial, pelo extermínio de incontáveis etnias e pela perda de uma significativa parcela de seu patrimônio cultural.

Não é justificado estabelecer parâmetros arbitrários para definir o que é (ou o que deva ser) uma cultura indígena. A incorporação de rituais, crenças e práticas exógenas não necessariamente significa que aquela cultura já não seria “autenticamente indígena” ou pertencesse a “índios aculturados”. Para constituir analiticamente uma cultura, é preciso partir do que pensam, fazem e sentem os seus portadores atuais. É preciso libertar-se do efeito “túnel do tempo”, da abordagem objetificante e da relação tutelar.

Os debates sobre Belo Monte nos evidenciam essa complexidade. Ali se expressam as velhas concepções sobre os indígenas, que alimentam tanto argumentos desenvolvimentistas quanto ambiguidades do discurso tutelar. Manifestase também uma tensão no interior do novo paradigma, uma vez que os indígenas buscam exercer o seu protagonismo, mesmo assumindo posições temporariamente antagônicas — como no caso da aldeia Paquiçamba. Aprender a respeitar e a lidar com a contemporaneidade do indígena será um aprendizado importante para as autoridades.

Os embates ideológicos fizeram curiosamente reviver o potencial utópico da figura do índio, apropriando-se agora da poderosa máquina de fabricação de mitos que é o cinema e remetendo-os ao futuro. A retórica dos ecologistas estabeleceu um paralelo entre os Na’vi e os indígenas atuais da região, visando a apontar os riscos para o ecossistema amazônico e mesmo planetário. A disputa pela autenticidade remete agora a 2154!

JOÃO PACHECO DE OLIVEIRA
é antropólogo, professor
titular do Museu
Nacional/UFRJ.


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Xipat Oboré (Tudo de Bom!)
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Daniel Munduruku
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27 de abr. de 2010

Conclave com cem caciques decidirá resposta contra hidrelétrica


Índios da região do Rio Xingu, no sudoeste do Pará, abandonaram pelo menos por enquanto quaisquer ideias mais radicais para lutar contra construção da Hidrelétrica de Belo Monte. Reunidos em assembleia nos dois últimos dias, em Altamira, a cerca de 900 quilômetros a sudoeste de Belém, eles decidiram fazer um conclave envolvendo todos os caciques da região, cerca de 100.
No encontro - ainda sem data marcada, por causa da logística de transporte que envolve dias e dias em jornadas de canoas, dinheiro para contratar aviões e voadeiras - eles pretendem cobrar do governo explicações mais detalhadas sobre a obra e, principalmente, sobre o alcance da barragem, que deverá ter cerca de 500 quilômetros quadrados. No domingo, o cacique Akiaboro, líder geral de todas as aldeias Caiapó, havia afirmado que os índios poderiam ir à luta, talvez até sangrenta, contra a construção da usina. "Ou o governo inicia um diálogo com os índios ou teremos de ir à guerra. Isso será muito ruim, porque haverá muitos mortos."
Hoje, depois de ouvir cerca de 20 lideranças indígenas, Akiaboro comunicou que os caciques de todas as tribos de nove etnias é que vão decidir o que fazer. Akiaboro disse que é amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente da Funai, Márcio Meira. Mas, segundo ele, embora os índios tenham pedido a abertura de canais de negociação com o governo, nada conseguiram "Estive com o presidente Lula na inauguração da Reserva Raposa/Serra do Sol, no dia 19. Ao final, entreguei a ele um documento e pedi que ouvisse os índios", relatou o cacique.
Segundo Akiaboro, Lula disse que faria sim o diálogo. "Mas agora li na internet que o presidente afirmou estar disposto a fazer a usina, de qualquer jeito". O cacique disse que pessoalmente é contra a construção da barragem de Belo Monte. Mas não pode falar sozinho. Por isso, quer ouvir os outros índios e também o governo. O cacique lembrou que é um dos integrantes do Conselho Nacional de Política Indígena (CNPI) e que, nesta condição, vai exigir do governo a abertura de um diálogo para que sejam dadas as explicações sobre o alcance da barragem da Hidrelétrica de Belo Monte.
Os índios do Xingu estão mais comedidos do que desejavam as organizações sociais que também atuam na área, numa frente de combate à construção da usina. Entre elas, a Prelazia do Xingu, o Instituto Socioambiental (Isa) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Elas queriam a princípio que os índios ocupassem a Ilha do Pimental, a cerca de 40 quilômetros de Altamira, no local onde será construído o paredão da barragem.
Para o cacique, a Funai deu a anuência para a construção de Belo Monte porque é um órgão do governo e não vai brigar contra si mesma. Nesse caso, segundo ele, a Funai não pode falar pelos índios. "Tem muita gente que mora nas cidades, estudou, não vai mais à aldeia. O governo tem de ouvir os que moram nas aldeias " Os contrários à construção de Belo Monte afirmam que o desvio da água do rio para dois canais que irrigarão o reservatório vai secar um trecho chamado de Volta Grande, onde ficam diversas comunidades indígenas. Com isso, suas atividades de sobrevivência e busca de alimentos poderiam ficar inviabilizadas
A Hidrelétrica de Belo Monte está prometida há 30 anos. Quando ficar pronta, deverá gerar até 11.233 megawatts de energia - a terceira maior do mundo. Deverá custar R$ 19 bilhões. Seu leilão ocorreu no último dia 20. Antes, o governo teve de derrubar todas as liminares contra o leilão concedidas pela Justiça Federal de Altamira. (João Domingos - AE)

21 de abr. de 2010

Museu de Pré-História Casa Dom Aquino dá início ao III Encontro Indígena

Da Redação

Para nós todo dia é dia do índio”. Esta frase é do indígena Márcio Parameriri, da etnia Bororo, que integrou a mesa redonda que deu início as atividades do III Encontro Indígena, que acontece hoje (19.04), no Museu de Pré-História Casa Dom Aquino, em celebração ao Dia do Índio. Compondo a mesa junto a ele estavam Suzana Hirooka, coordenadora da Casa Dom Aquino, os indígenas Onizokaece (Paresi), Yamalui (Kuikuro), Tuínaki (Karajá), Tserité (Xavante) e representando a Secretaria de Estado de Cultura, o secretário Oscemário Daltro, a coordenadora de Ações Artístico-Cultural, Ana Moreira, e a coordenadora de Patrimônio Histórico, Maria Antúlia.
O Encontro teve início logo pela manhã, conforme a programação, com a abertura da Academia dos Saberes Indígenas. Márcio destaca que este será um espaço democrático aberto para todas as etnias participar e contribuir. De acordo com ele, esta ação é importante por se preocupar em registrar a memória e riqueza da cultura indígena. “O povo que não tem história não tem rumo a seguir. Somente no Mato Grosso há 42 etnias indígenas. Por isso é importante registrar essa diversidade”, afirma.
O secretário Oscemário Daltro ressaltou a importância desse momento. Ciente da necessidade de valorização dos povos indígenas, ele aproveita a ocasião para convidar a todos para visitar a exposição com temática indígena, que está na Galeria de Artes Visuais da Secretaria de Estado de Cultura, localizada na av. Getúlio Vargas, n º 247.
Após a mesa redonda, houve apresentação de dança de duas etnias: Kuikuru e Xavante. A primeira, do município de Canarana, apresentou uma dança que se chama “Dança que alegra as aldeias”. Já a segunda, de Campinápolis, agraciou o público com uma dança intitulada “Bem-vindos ao encontro”. Os estudantes da rede pública e particular que visitaram o local no período da manhã ficaram com os olhos fixos na apresentação dos indígenas, que despertou olhares curiosos pela pintura que apresentavam em seus corpos.
Além dos Kuikuru e Xavante, outras três etnias participam do Encontro. Karajá, do município de São Félix do Araguaia, Pareci, de Tangará da Serra e Boboro, de Rondonópolis.
As atividades do Encontro continuam no período vespertino. Ainda dá tempo de prestigiar e agraciar este Encontro que celebra e comemora a riqueza e diversidade indígena do nosso Estado.

Fonte: O Documento

A milenar arte de educar dos povos indígenas

Daniel Munduruku · Lorena, SP
19/04/2010

Educar é dar sentido. É dar sentido ao nosso estar no mundo. Nossos corpos precisam desse sentido para se realizar plenamente. Mas também nossos corpos são vazios de imagens e elas precisam fazer parte da nossa mente para possamos dar respostas ao que se nos apresenta diuturnamente como desafios da existência. É por isso que não basta dar alimento apenas ao corpo, é preciso também alimentar a alma, o espírito. Sem comida o corpo enfraquece e sem sentido é a alma que se entrega ao vazio da existência.
A educação tradicional entre os povos indígenas se preocupa com esta tríplice necessidade: do corpo, da mente e do espírito. É uma preocupação que entende o corpo como algo prenhe de necessidades para poder se manter vivo.
Esta visão de educação é sustentada pela idéia de que cada ser humano precisa viver intensamente seu momento. A criança indígena é, então, provocada para ser radicalmente criança. Não se pergunta nunca a ela o que pretende ser quando crescer. Ela sabe que nada será se não viver plenamente seu ser infantil. Nada será por que já é. Não precisará esperar crescer para ser alguém. Para ela é apresentado o desafio de viver plenamente seu ser infantil para que depois, quando estiver vivendo outra fase da vida, não se sinta vazia de infância. A ela são oferecidas atividades educativas para que aprenda enquanto brinca e brinque enquanto aprende num processo contínuo que irá fazê-la perceber que tudo faz parte de uma grande teia que se une ao infinito.
Num mesmo movimento ela vai sendo introduzida no universo espiritual. Embalada pelas histórias contadas pelos velhos da aldeia, a criança e o jovem passam a perceber que em seu corpo moram os sentidos da existência. Este sentido é oferecido pela memória ancestral concentrada nos velhos contadores de histórias. São eles que atualizam o passado e o fazem se encontrar com o presente mostrando à comunidade a presença do saber imemorial capaz de dar sentido ao estar no mundo.
Este processo todo é alimentado por rituais que lembram o passado para significar o presente. São movimentos corpóreos embalados por cantos e danças repetidos muitas vezes com o objetivo de “manter o céu suspenso”. A dança lembra a necessidade de sermos gratos aos espíritos criadores; contam que precisamos de sentidos para viver dignamente; ordena a existência. Cada grupo de idade ritualiza a seu modo. Cada um se sente responsável pelo todo, pela unidade, pela continuidade social.
Educar é, portanto, envolver. É revelar. É significar. É mostrar os sentidos da existência. É dar presente. E não acaba quando a pessoa se “forma”. Não existe formatura. Quem vive o presente está sempre em processo.
É por isso que a criança será sempre criança. Plenamente criança. Essa é a garantia de que o jovem será jovem no seu momento. O homem adulto viverá sua fase de vida sem saudades da infância, pois ele a viveu plenamente. O mesmo diga-se dos velhos. O que cada um traz dentro de si é a alegria e as dores que viveram em cada momento. Isso não se apaga de dentro deles, mas é o que os mantém ligados ao agora.
Resumo da ópera: A educação tradicional indígena tem dado certo. As pessoas se sentem completas quando percebem que a completude só é possível num contexto social, coletivo. Cada fase porque passa um indígena – desde a mais tenra idade – alimenta um olhar para o todo, pois o conhecimento que aprendem e vivem é um saber holístico que não se desdobra em mil especialidades, mas compreende o humano como uma unidade integrada a um Todo maior e Único.
Olhar os povos indígenas brasileiros a partir de uma visão rasa de produção, de consumo, de riqueza e pobreza é, no mínimo, esvaziar os sentidos que buscam para si.
Pense nisso.

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Xipat Oboré (Tudo de Bom!)

20 de abr. de 2010

Usina Belo Monte: Alternativas energéticas para um Brasil sustentável.

Com a vitória do consórcio liderado pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) e a Queiroz Galvão, chega ao final uma novela que começou no período da ditadura, mas especificamente em 1975. A construção da usina Belo Monte, no rio Xingu, no estado do Pará, é motivo de discordância entre ambientalistas, índios, comunidades ribeirinhas e o governo e as principais indústrias do setor elétrico. Enquanto uns argumentam que a hidrelétrica - considerada a terceira maior do mundo - vai tirar o Brasil do sufoco, evitando apagões como o de 2001, outros acreditam que os benefícios trazidos por esse empreendimento será muito menor do que os impactos socioambientais de se embarreirar um dos maiores afluentes do rio Amazonas. Belo Monte é realmente necessária? Ou há alternativas sustentáveis, que causem menor impacto?
Até mesmo o leilão que decidiu qual consórcio iria construir a hidrelétrica foi realizado depois de muita briga. Só na semana passada, o Tribunal Federal do Pará cassou a autorização e, logo depois, o Ministério Público recorreu da decisão e validou o leilão. No início deste mês, o consórcio formado pelas gigantes da construção civil, Odebrecht e Camargo Correa desistiu de participar da disputa. De acordo com as empresas, um estudo rigoroso das condições do edital e as respostas que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) divulgou sobre as questões feitas pelos técnicos das duas construtoras foram a razão da desistência.
De acordo com a Eletronorte, Belo Monte, com valo estimado em R$ 19 bilhões, seria "um excelente investimento" se for associada ao Sistema Elétrico Brasileiro, com capacidade de gerar 11.233 megawatts, com um reservatório de 516 km² e ainda contaria com uma segunda casa de força. Ela serviria para melhorar o aproveitamento da vazão do rio e, segundo a estatal, reduzir os impactos ambientais, porque precisa de menor volume de água para ser movimentada além de produzir mais 27,5 megawatts por km². Como identificado nos estudos da empresa, esse seria um dos melhores aproveitamentos do mundo, se considerado, por exemplo, com a usina de Tucuruí (2,8 megawatts) ou Itaipu (8,6 megawatts). A Eletronorte ainda prevê outros seis barramentos só no rio Xingu.
"Espero que grande parte desta energia seja consumida no próprio Pará, mas isso ainda é um sonho. No cenário atual, ela será incluída dentro do Sistema Elétrico Brasileiro, e acho que a tendência natural será utilizar a energia não usada no Pará para suprir o Nordeste, para suprir todo o país", afirmava José Muniz Lopes, presidente da Eletronorte, em 2002.
Contra a corrente
Assim que Belo Monte começou a ser pensada, em meado da década de 1970, ambientalistas de todo o mundo, além de índios e comunidades ribeirinhas se mobilizaram para impedir que a hidrelétrica fosse construída.  Em 1986, o Plano Nacional de Energia Elétrica 1987/2010 é concluído. Nele, é proposta a construção de 165 usinas hidrelétricas até 2010, 40 delas só na Amazônia Legal (área que engloba nove estados brasileiros com floresta amazônica), com o aumento de potência nacional de 43 mil megawatts para 160 mil. O texto desta que "pela sua dimensão, o aproveitamento do Rio Xingu se constituirá, possivelmente, no maior projeto nacional no final deste século e começo do próximo".
No início de 1989, como resposta a este documento, é realizado o 1º Encontro dos Povos Indígenas, em Altamira, no Pará. O objetivo era protestar contra as decisões tomadas na Amazônia sem a participação dos índios, além de um manifesto contra a construção do Complexo Hidrelétrico do Xingu. O encontro acabou ganhando uma imprevista notoriedade com a participação de 650 índios de diversas partes do país, políticos, cerca de 300 ambientalistas e 150 jornalistas.
Apesar de toda estrutura, o que mais chamou atenção foi o gesto da índia Tuíra que se levantou da platéia e encostou a lâmina de seu facão no rosto do então diretor da Eletronorte, José Muniz Lopes. A cena foi reproduzida em vários jornais de todo o mundo e se tonou histórica. O evento foi encerrado sem uma decisão final sobre a usina, mas com o lançamento da Campanha Nacional em Defesa dos Povos e da Floresta Amazônica, que exigia a revisão dos projetos de desenvolvimento da região.
Impactos socioambientais
"O projeto não pode ser aprovado de forma emergencial antes de um estudo independente amplamente divulgado que contenha informação precisa quanto à potência total gerada, ao número real de atingidos, à necessidade de complementação do projeto com um complexo de hidrelétricas no Rio Xingu, e ao posicionamento dos povos indígenas, que devem ter respeitado o seu direito de veto." Assim o documento formulado pelo Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, durante a avaliação dos 10 anos da Rio 92, em maio de 2002, pediu  a revogação da condição estratégica da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e elaborou a plataforma mínima para o setor energético brasileiro.
De acordo com levantamentos feitos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe),  Belo Monte vai afetar direta e indiretamente milhares de pessoas. Desde as comunidades isoladas que precisam do rio Xingu para se locomoverem, índios que terão que ser removidos das áreas que ficarão debaixo d’água até o ecossistema da região.
Para a professora de geografia da PUC-Rio e especialista em hidrologia e climatologia, Adriana Silgueira, a remoção de centenas de famílias das áreas alagadas rompe as raízes com o ambiente em que elas viviam e com a forma de se relacionar. Adriana também cita a criação do Movimento dos Atingidos por Barragens, que reúne as populações que não foram realocadas pelo governo depois de perderem suas terras e seu meio de sustento.
"As pessoas criam raízes com o meio ambiente e tem uma forma de se relacionar com esse meio. Elas vivem da terra e, com a construção da barragem, essas relações são rompidas".
No caso da reservas indígenas, Adriana considera a remoção ainda mais grave, pois os diferentes povos têm relações de afetividade e fé com o lugar que habitam.
"As reservas indígenas dão a entender que são grandes jaulas, mas isso é um mal necessário, é um espaço onde eles podem reproduzir suas culturas. Se eles tiverem que sair, seus ritos, que estão ligados aquele ponto especial, tudo terá que ser abandonado", afirmou.
Apesar de todos esses impactos, Adriana reconhece que a construção de Belo Monte vai dar ao Brasil um potencial energético ainda maior, mesmo considerando essa capacidade subutilizada.
"Tem muito impacto, mas gera muito energia. Tudo depende do objetivo que essa energia vai ser usada. Não podemos nos espelha em Tucuruí, que foi um desastre".
O Ministério do Meio Ambiente liberou, em fevereiro deste ano, a licença ambiental para a construção da usina, porém, as questões centrais para avaliar a obra não foram totalmente esclarecidas. O parecer dos técnicos do Ibama, feito no final de novembro de 2009, indica que os estudos não conseguem prever os impactos na vida dos peixes em um trecho de mais de 100 km de rio e, consequentemente, não indica o que pode acontecer com as pessoas que dependem desse alimento, como as comunidades indígenas ribeirinhas.
A professora Adriana Silgueira acredita que os impactos ambientais desse projeto começam no alagamento da floresta. Ela explica que as árvores, por estarem debaixo da água, vão começar a se decompor e, com isso, liberar gases tóxicos, como o metano - um dos principais agravadores do efeito estufa -, e isso contaminaria a água do rio, ameaçando o ecossistema marinho. Outro ônus ambiental observado pela professora é a alteração da vida dos seres vivos do local onde a barragem será construída. De acordo com Adriana, os animais estão adaptados a um tipo de vazão e muitas hidrelétricas acabam transferindo esse processo para outra parte do rio.
"As árvores estariam ameaçadas de extinção, elas não têm a capacidade de adaptação tão rápida como o necessário nesses casos. Muitas vezes é feita a remoção dos animais, mas pensando no ponto de vista de sobrevivência, há risco", afirma.
O assoreamento do rio também é apontado por Adriana como um dos pontos mais graves. De acordo com a especialista, quando o rio não tem barragem, a carga de sedimentos flui com as chuvas, mas quando um desvio é construído, esses segmentos se acumulam no fundo da represa.
O artigo 231 da Constituição Federal de 1988 prevê que o aproveitamento de recursos hídricos em terras indígenas só pode ser feito com a autorização do Congresso Nacional e depois das comunidades afetadas serem ouvidas. Levando em consideração a briga entre os índios e a Eletronorte, essa lei não vem sendo cumprida. A importância desse artigo só foi reconhecida pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2002, ministro Marco Aurélio Mello, que negou o pedido da União para cassar a liminar que suspendia o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), feito pela Eletrobras. Na prática, só uma lei ordinária poderia tirar a posse dessas terras das mãos dos indígenas.
Porém, por causa do apagão de 2001, o governo de Fernando Henrique Cardoso editou a Medida Provisória 2.152-2, conhecida como MP do Apagão, que, entre outras ações, determina que o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabeleça um licenciamento simplificado de empreendimentos do setor elétrico, classificados como de "baixo impacto ambiental". Nesta época também é criado o Relatório Ambiental Simplificado, que se aplica às obras que não precisarão do EIA.
Alternativas
Para o professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Bernardo Vainer, a construção de Belo Monte é desnecessária, pois os impactos causados pelas obras, se comparados com a geração de energia da usina, é infinitamente maior. De acordo com Vainer, este empreendimento responde aos interesses de determinados grupos financeiros e não beneficiaria toda a sociedade. Uma prova da tese do professor é o estudo da ONG International Rivers Network, que comprovou que as empresa de alumínio utilizam 8% de toda energia elétrica do país e cerca de 2% no mundo. Aproximadamente 50% da energia elétrica no Brasil é consumida por indústrias, sendo que 30% se restringe a seis setores: cimento, aço, alumínio, ferro-ligas, petroquímica e papel e celulose.
"A experiência internacional e brasileira mostra que o projeto custa quatro vezes mais que o previsto e isso mobiliza interesses muito poderosos, como os das grandes empreiteiras e empresas do setor elétrico. Tudo isso é protegido pelo Estado brasileiro, que oferece financiamentos, através do BNDES, a juros baixos, ou seja, uma enorme mobilização de recursos públicos para um interesse privado", afirmou.
Assim com a professora Adriana Silgueira, Vainer também acredita que, com o barramento do rio Xingu, a biodiversidade que só existe naquele local fica muito comprometida. De acordo com o pesquisador, nós transformamos rios em fontes de energia que não será consumida no Brasil, mas exportada para países como o Japão em forma de alumínio. E, um dos erros que Vainer considera como "lamentável" é acabar com esses recursos sem que a população opine sobre o tema.
"O rio é fundamental, tem uma biodiversidade inigualável. Só no Xingu há uma biodiversidade quatro vezes maior do que a de todas as bacias da Europa juntas e a construção dessa barragem é uma declaração de morte dessas espécies do local".
Há diversas alternativas para a construção de Belo Monte e não precisa ser um país rico para utilizar energia 100% limpa. Na Argentina, por exemplo, 10% da energia produzida vem da força dos ventos. No caso do Brasil, de acordo com Carlos Bernardo Vainer, falta investimento nesta área, que não gerariam grandes negócios na área da construção civil, mas diminuiria os impactos ambientais do Sistema Elétrico Brasileiro. Além disso, Vainer propõe uma mudança mais profunda na sociedade, atingindo o modelo de produção brasileiro que, enquanto as grandes potências produzem materiais sofisticados, ainda está exportando matérias-primas aparentemente sem muito valor.
"O modelo econômico tem que ser revisto, pois exportar produtos eletrointensivos em pleno século XXI é o mesmo que exportar café no século XIX . Os outros países estão em uma área de fronteira do conhecimento, exporta energia é exporta floresta", disse.
O pesquisador ainda toca em um ponto que causa discordância. Para ele, não é necessário construir nenhuma hidrelétrica se for, por exemplo, aproveitada a iluminação do sol.  O professor aponta que a adoção de energia totalmente limpa seria mais eficiente do que a construção de usinas e consequente assoreamento dos rios. Vainer acredita que a opção para a destruição da Amazônia é a escolha de que tipo de sociedade queremos ser: desejamos acabar com as florestas e rios ou queremos a preservação da nossa natureza?
"É uma chantagem permanente que se faz na sociedade. Cerca de 30% da energia vai para o sistema produtor e as pessoas ficam sem eletricidade. É para os grandes grupos que estamos entregando a nossa energia. Temos que nos perguntar sobre a divisão das riquezas na sociedade, porque isso se demonstra na divisão da energia. É possível se fazer uma reforma agrária de energia".
Além disso, Vainer aponta o desperdício nas linhas de transmissão e a privatização das empresas de energia, no governo Fernando Henrique Cardoso, como um dos maiores problemas do setor. Estima-se que no Brasil o desperdício nas linhas de transmissão - 15% ou 54 milhões de MW/h - seja quatro vezes maior do que na Europa. Porém, para que esse gasto fosse evitado, seria necessário melhorar o isolamento nas linhas e substituir equipamentos defeituosos, como os transformadores.
"Foi uma tragédia entregar um bem do povo ao setor privado. Eles só querem lucro e com a ausência do Estado, não há um controle social do serviço. Uma parcela importante dos nossos rios estão nas mãos dessas empresas".
De acordo com as conclusões do seminário internacional Fontes Alternativas de Energia e Eficiência Energética - Opção para uma Política Energética Sustentável no Brasil, organizado em junho de 2002 pela Fundação Heinrich Böll e a ONG Coalização Rios Vivos, apesar de projetos de lei em tramitação e dos recentemente aprovados - como o que cria o Programa Prioritário de Desenvolvimento da Energia Eólica no Nordeste e o que institui o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica -, ainda falta um marco regulatório que oriente o setor. Isso porque constantes mudanças e anúncio de normas e medidas provisórias criam um clima de incerteza para os investidores e têm inibido a ampliação de negócios em fontes alternativas de energia no Brasil.
A visão do ex-presidente da Eletrobras José Muniz Lopes comprova a tese de que o Brasil não quer descobrir novas formas de produzi energia, mas dar mais forças para as usinas hidrelétricas.
"Todo ano são mais 3 milhões de pessoas incorporadas à população em condições de trabalhar, e vamos atender a esse crescimento como? Com células fotovoltáicas, com biomassa, com energia solar? Por que os mais desenvolvidos não fazem isso? Porque não tem escala para isso. O grande diferencial do Brasil é o potencial hidrelétrico. Mas, se essas opções não saírem, vamos ter que ir para energia nuclear ou gás combustível, mas gás de onde? Os Estados Unidos têm gás, carvão, dominam o petróleo do mundo, e o Brasil domina o quê? Em Joanesburgo, durante a Rio + 10, nenhum país desenvolvido quis assumir isso. Por que nós vamos querer? Não estou defendendo a posição dos Estados Unidos. Mas estou dizendo o seguinte: será que eles estão errados e nós estamos certos ou nós estamos errados? Não sei. É para ser avaliado."

A questão indígena: Caminhos e Desafios

Data:  23 de abril a 29 de maio de 2010
Horário:  das 19h às 22h
Carga Horária: 36 horas
Preço:
Não disponível
Local: Anfiteatro da Defensoria Pública da União
Endereço: Rua Fernando de Albuquerque, 155
Cidade: São Paulo (capital) - SP
Objetivo:

O curso espera fornecer ferramentas que permitam a implementação da lei 11.435/2008, que tornou obrigatório o estudo dos povos indígenas no currículo oficial das escolas de ensino fundamental e médio das redes públicas e privadas, além de já levar ao aluno conhecimentos sobre as várias culturas indígenas para poder defender seus direitos.
Público Alvo:
Professores de ensino fundamental e médio, membros da Defensoria do Estado e da União, lideranças indígenas, estudantes etc.
Programa:
23/04 (sexta-feira) – Abertura oficial
Tema: Desafios da questão indígena na escola
Palestrantes: Benedito Prezia e Edson Kaiapó
24/04 (sábado)
Tema: Conhecendo as várias culturas indígenas
Palestrantes: Niminon Suzel Pinheiro e Marcos Tupã
07/05 (sexta-feira)
Tema: Os povos do cerrado – Xavante Bororo
Palestrantes: Renate Vietler e Jurandir Siridiwê Xavante
08/05 (sábado)
Tema: Os indígenas do Nordeste e os povos resistentes
Palestrantes: Renato Pankararé e Dora Pankararu
14/05 (sexta)
Tema: Utopias indígenas
Palestrantes: Marilia Ghizzi Godoy e Rose Kariri
15/05 (sábado)
Tema: A contribuição indígena para a cultura brasileira
Palestrantes:  Benedito Prezia, Daniel Munduruku e Edson Kaiapó
21/05 (sexta-feira)
Tema: Questão indígena: uma questão política
Palestrantes:  Gerá, Lucia Helena Rangel e Rejane Pankarau.
22/05 (sábado)
Tema: Questão indígena em São Paulo e o acesso à justiça
Palestrantes: Emerson Guarani, Pedro Macena, Magna Kambé e representantes da Defensoria Pública do Estado de São Paulo e Defensoria Pública da União.
29/05 (sábado)
Encontro dos Defensores Públicos com as lideranças indígenas no CECI Jaraguá, Centro de Educação e Cultura Indígena localizado na aldeia guarani Aldeia Tekoa Pyau, no Jaraguá, zona Norte da cidade de São Paulo.
Palestrante(s):
Benedito Prezia, Edson Kaiapó, Niminon Suzel Pinheiro, Marcos Tupã, Renate Vietler, Jurandir Siridiwê Xavante, Renato Pankararé, Dora Pankararu, Marilia Ghizzi Godoy, Rose Kariri, Daniel Munduruku, Edson Kaiapó, Gerá, Lucia Helena Rangel, Rejane Pankarau, Emerson Guarani, Pedro Macena, Magna Kambé.

Organizador: Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Telefone:  (à tarde)

FUNAI reconhece existência de povos indígenas no Piauí e promete assistência às comunidades locais.


Resultado do recente reconhecimento por parte da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) da existência de povos indígenas no Estado do Piauí tal como os índios Itacoatiara, em Piripiri, os Codó Cabeludo na região de Pedro II e os Cariris em Queimada Nova, a Coordenação Regional da Funai de Fortaleza, na pessoa do seu presidente Márcio Augusto Freitas de Meira, determinou, através da Portaria nº 344 a devida prestação assistencial às comunidades indígenas do Piauí.
Espera-se para o início do mês de maio a realização de reunião com representantes da Funai, Governo do Estado do Piauí, Fundação Cultural do Piauí (FUNDAC) para discutir a criação de uma coordenação técnica local que possa dá a devida atenção a uma população antes subestimada.
"Recebo com alegria o reconhecimento da FUNAI da necessidade de garantir assistência à população indígena piauiense, ainda mais estando a FUNDAC na realização da VIII Semana dos Povos Indígenas do Piauí, esta semana. Vejo isso como resultado positivo de todo um processo de pesquisa, de reconstrução da nossa história, da visibilidade e autoreconhecimento das comunidades remanescentes. Desde 2003 que a fundação tem procurado apoiar e fomentar toda iniciativa que reconheça o índio como agente de sua própria história”, falou a presidente da FUNDAC, Sônia Terra.

A VIII Semana dos Povos Indígenas entra no seu segundo dia, nesta terça (20) com uma palestra da Prof.ª Mestra Joina Freitas que abordará o tema “Índios Tremembés”. Logo em seguida a palestra será sobre “Cultura Indígena e o Cotidiano Familiar”, ministrada por Aliã Wamiri que é uma descendente Guajajara e graduanda do curso de Artes da UFPI.

Durante toda a semana haverá uma visitação guiada pelo Museu do Piauí. A VIII Semana dos Povos Indígenas estará aberta ao público e as inscrições para as palestras podem ser realizadas através do email: museudopiaui@ig.com.br.

O evento é uma realização da FUNDAC com o apoio da Associação Amigos do Museu do Piauí, Universidade Federal do Piauí – Curso Arqueologia e Memorial das Nações Indígenas. Para mais informações o telefone para contato é 3221-6027.
 
Fonte: 45Graus

17 de abr. de 2010

MPF tem mais de 160 investigações sobre violações aos direitos dos índios em Rondônia


Órgão quer garantir aos índios direitos fundamentais, como saúde, educação, registro civil, preservação cultural, terras tradicionais, compensações ambientais, entre outros.
Porto Velho (RO), 17.04.2010 – O Dia do Índio, lembrado na próxima segunda-feira, 19 de abril, motivou o Ministério Público Federal (MPF) em Rondônia a divulgar suas ações na defesa dos 54 povos que vivem no estado. O órgão relata que atualmente sua atuação nas questões indígenas resulta em mais 160 inquéritos civis públicos (investigações) que estão em andamento, além de ações civis públicas e recomendações expedidas a órgãos públicos para garantir direitos fundamentais, como saúde, educação, registro civil, preservação cultural, terras tradicionais, compensações ambientais, entre outros.
Na área de educação, uma das conquistas recentes dos povos indígenas de todo o estado foi a elaboração conjunta de uma minuta do projeto de lei para criação da carreira pública de professor indígena. A minuta foi entregue em 15 de março ao Governo do Estado para ser enviada à Assembléia Legislativa como projeto de lei. O MPF foi um incentivador da elaboração da proposta e articulou povos indígenas, diversas instituições públicas e entidades da sociedade civil organizada. Se aprovado o futuro projeto de lei, o professor terá que ser indígena, aprovado em concurso público com provas de conteúdo específico. Construção de escolas indígenas, prestação de contas de convênios e de merenda escolar e formação de professores indígenas são outros assuntos acompanhados pelo MPF.
Cultura
A preservação da identidade cultural também tem acompanhamento pelo MPF. Um provimento do Tribunal de Justiça de Rondônia, em outubro do ano passado, atendeu ao pedido do MPF para garantir emissão de certidões de nascimento e óbito para indígenas em suas línguas tradicionais. Mas ainda há cartórios que se recusam a fazer o registro civil dos índios. Estes são casos em que o MPF atua para garantir o direito dos povos indígenas em preservar suas tradições e costumes, considerando que o nome é parte essencial da cultura de qualquer povo.
Segundo o MPF, o atendimento à saúde dos índios é um dos pontos críticos. Por isto há acompanhamentos específicos sobre prestação de atendimento pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), rede pública, vistoria em Casas de Saúde do Índio (Casai) e fornecimento de medicamentos.
Os inquéritos civis públicos em curso no MPF também tratam sobre demarcação de terras indígenas, revisão de limites, fiscalização por parte da Fundação Nacional do Índio (Funai), extração de madeira, mineração, caça e pesca predatória, entre outros. Além disto, houve coordenação de operações visando o combate à exploração ilegal de madeira em terras indígenas, em especial nas áreas Sete de Setembro e Igarapé Loudes.
As investigações são também sobre compensações ambientais de empreendimentos que afetam terras indígenas, como as hidrelétricas do Madeira. O conflito entre índios Cinta-Larga e garimpeiros e pesquisa mineral na terra indígena Roosevelt também são alvos de investigação.
Em campo
Os três procuradores que atuam na defesa dos povos indígenas de Rondônia – Reginaldo Trindade, Lucyana Pepe e Daniel Fontenele – fizeram centenas de encontros e reuniões desde o começo de 2009. Eles e suas equipes visitaram aldeias, reuniram-se com órgãos públicos de várias esferas e atuaram no atendimento aos indígenas que procuram a instituição para apresentarem suas demandas, tanto individualmente quanto de forma coletiva.
Ações judiciais
As ações civis públicas movidas pelo MPF em favor dos indígenas abordam, entre outros assuntos, revisão de limites de áreas indígenas, assistência jurídica, reparação de danos ambientais e morais, compensação ambiental na área de impacto da BR-429.
Órgão quer garantir aos índios direitos fundamentais, como saúde, educação, registro civil, preservação cultural, terras tradicionais, compensações ambientais, entre outros
Porto Velho (RO), 17.04.2010 – O Dia do Índio, lembrado na próxima segunda-feira, 19 de abril, motivou o Ministério Público Federal (MPF) em Rondônia a divulgar suas ações na defesa dos 54 povos que vivem no estado. O órgão relata que atualmente sua atuação nas questões indígenas resulta em mais 160 inquéritos civis públicos (investigações) que estão em andamento, além de ações civis públicas e recomendações expedidas a órgãos públicos para garantir direitos fundamentais, como saúde, educação, registro civil, preservação cultural, terras tradicionais, compensações ambientais, entre outros.
Na área de educação, uma das conquistas recentes dos povos indígenas de todo o estado foi a elaboração conjunta de uma minuta do projeto de lei para criação da carreira pública de professor indígena. A minuta foi entregue em 15 de março ao Governo do Estado para ser enviada à Assembléia Legislativa como projeto de lei. O MPF foi um incentivador da elaboração da proposta e articulou povos indígenas, diversas instituições públicas e entidades da sociedade civil organizada. Se aprovado o futuro projeto de lei, o professor terá que ser indígena, aprovado em concurso público com provas de conteúdo específico. Construção de escolas indígenas, prestação de contas de convênios e de merenda escolar e formação de professores indígenas são outros assuntos acompanhados pelo MPF.
Cultura
A preservação da identidade cultural também tem acompanhamento pelo MPF. Um provimento do Tribunal de Justiça de Rondônia, em outubro do ano passado, atendeu ao pedido do MPF para garantir emissão de certidões de nascimento e óbito para indígenas em suas línguas tradicionais. Mas ainda há cartórios que se recusam a fazer o registro civil dos índios. Estes são casos em que o MPF atua para garantir o direito dos povos indígenas em preservar suas tradições e costumes, considerando que o nome é parte essencial da cultura de qualquer povo.
Segundo o MPF, o atendimento à saúde dos índios é um dos pontos críticos. Por isto há acompanhamentos específicos sobre prestação de atendimento pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), rede pública, vistoria em Casas de Saúde do Índio (Casai) e fornecimento de medicamentos.
Os inquéritos civis públicos em curso no MPF também tratam sobre demarcação de terras indígenas, revisão de limites, fiscalização por parte da Fundação Nacional do Índio (Funai), extração de madeira, mineração, caça e pesca predatória, entre outros. Além disto, houve coordenação de operações visando o combate à exploração ilegal de madeira em terras indígenas, em especial nas áreas Sete de Setembro e Igarapé Loudes.
As investigações são também sobre compensações ambientais de empreendimentos que afetam terras indígenas, como as hidrelétricas do Madeira. O conflito entre índios Cinta-Larga e garimpeiros e pesquisa mineral na terra indígena Roosevelt também são alvos de investigação.
Em campo
Os três procuradores que atuam na defesa dos povos indígenas de Rondônia – Reginaldo Trindade, Lucyana Pepe e Daniel Fontenele – fizeram centenas de encontros e reuniões desde o começo de 2009. Eles e suas equipes visitaram aldeias, reuniram-se com órgãos públicos de várias esferas e atuaram no atendimento aos indígenas que procuram a instituição para apresentarem suas demandas, tanto individualmente quanto de forma coletiva.
Ações judiciais
As ações civis públicas movidas pelo MPF em favor dos indígenas abordam, entre outros assuntos, revisão de limites de áreas indígenas, assistência jurídica, reparação de danos ambientais e morais, compensação ambiental na área de impacto da BR-429.


Fonte : MPF/RO    Autor : MPF-RO

Editora resgata cultura indígena da Amazônia


Kurumĩ Guaré, no Coração da Amazônia é uma das obras lançadas pela Editora FTD com temas indígenas

CAROLINE CANAZART
contato@agenciaamzonia.com.br
SÃO PAULO – Os povos indígenas nos remetem a origem de nossa cultura e sociedade, mas ao longo do tempo vimos esvaecer seus costumes e tradições, e hoje até mesmo seu povo luta para manter viva sua raiz nas novas gerações. No próximo dia 19 de abril é celebrado o Dia do Índio, e a Editora FTD apresenta em seu catálogo obras que apresentam a riqueza deste povo pelo olhar daqueles que viveram uma imersão, como o sertanista Orlando Villas Bôas e também de autores indígenas como Daniel Munduruku e Yaguarê Yamã.

O livro Orlando Villas Bôas – História e causos é uma autobiografia póstuma do famoso indigenista falecido em 2002 aos 88 anos. Trata-se de uma obra de fôlego, na qual Orlando relembra sua trajetória, da infância em Botucatu (SP) à aposentadoria na capital paulista, passando pelo extraordinário mergulho no mundo dos índios brasileiros que foi a Expedição Roncador–Xingu, liderada por Orlando com seus irmãos Cláudio e Leonardo.

No livro, Orlando faz pela primeira vez um registro sistemático de suas ideias e histórias, muitas delas já disponíveis de maneira dispersa em livros, entrevistas e reportagens. Só com o irmão Cláudio, por exemplo, Orlando publicou doze livros.

Outro que registrou suas experiências no Xingu foi Walde-Mar de Andrade e Silva, em Lendas e Mitos dos Índios Brasileiros. O livro reúne 24 lendas indígenas entre elas a de Potyra, Yara e Tucumã, conhecidas pelo autor durante sua convivência de oito anos com as principais tribos da região.

A Editora FTD também reúne em seu acervo obras de escritores indígenas como o renomado Daniel Munduruku. Em Um Estranho Sonho de Futuro, o autor se transforma em personagem para dar vida a história de um adolescente urbano que decide embrenhar-se em uma aldeia indígena.

KURUMÎ GUARÉ

Garoto tipicamente urbano, Lucas vai conhecer uma realidade completamente diferente. Um lugar aonde em vez de ir ao supermercado, as pessoas têm de caçar, pescar ou coletar frutos das plantas para se alimentar. E Lucas aprendeu muitas coisas com a experiência. Percebeu, por exemplo, que os indígenas são menos egoístas, mais acolhedores e sinceros do que os homens da cidade grande.

Outra obra que partilha as tradições e valores dos povos da floresta com as crianças e adolescentes, é a de Yaguarê Yamã que conta como foi sua infância no livro Kurumĩ Guaré, no Coração da Amazônia. Para facilitar a compreensão dos termos utilizados pelo autor, o livro apresenta um glossário com o significado das expressões e palavras do idioma Nhengatu e outro com a tradução dos símbolos e gravuras, desenhadas pelo próprio autor, e presentes na obra.



Entre os rituais descritos no livro, Yaguarê conta como superou o rito de passagem para a maioridade, o tukãdera. O ritual consiste em colher algumas formigas e colocá-las dentro de uma luva e o menino veste a luva e dança junto com a tribo. Tukãdera é o nome de uma espécie de formiga da Amazônia cuja picada é muito dolorosa, dez vezes mais dolorida que a picada de uma vespa. De acordo com a cultura indígena, após o ritual, o jovem rapaz está curado de doenças, indolência e principalmente do medo.

Serviço

Orlando Villas Bôas – História e Causos
Páginas: 216 (versão livro-arte) - Preço sugerido: R$ 85,70
Páginas: 206 (versão prática) – Preço sugerido: R$ 65,70

Lendas e Mitos dos Índios Brasileiros
Autor e ilustrador: Walde-Mar de Andrade e Silva
Preço sugerido: R$ 59,10

Um Estranho Sonho de Futuro
Autor Daniel Munduruku, com ilustração de André Sandoval
Páginas: 112
Preço sugerido: R$ 26,60

Kurumĩ Guaré, no Coração da Amazônia
Autor e ilustrador: Yaguarê Yamã
Páginas: 88
Preço sugerido: R$ 29,80

Editora FTD – SAC 0800-158555

13 de abr. de 2010

Durante dez dias, Pará celebra índios como guardiões da floresta

Da Redação
Secretaria de Comunicação








Reforçar a resistência e a identidade cultural indígena é o principal objetivo da IV Semana Estadual dos Povos Indígenas, a partir de 18 de abril
"Nós Indígenas - Guardiões da Floresta" será o tema da IV Semana Estadual dos Povos Indígenas, de 18 a 28 de abril, cujo principal objetivo é afirmar a livre expressão dos povos indígenas como sujeitos da história e reforçar expressões culturais materiais e imateriais indígenas para fortalece-los.
O evento será realizado em Belém e nas aldeias indígenas e seus respectivos municípios: aldeia Trocará do povo Assurini, em Tucuruí; aldeia Cateté do povo Xicrin, em Parauapebas; aldeia Mapuera dos Wai Wai, em Oriximiná; aldeia do povo Borari, em Alter- do-Chão, Santarém, São Félix do Xingu e Altamira.
Os eixos que nortearão os debates são: meio ambiente, sustentabilidade e produtividade; educação, cultura e tecnologias; saúde, segurança alimentar e habitação; justiça, cidadania, direitos humanos e assistência social.
Na abertura oficial, no dia 18 de abril, a Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz se apresentará, junto com os Tembé, Assurini, Guarani, Kayapó, além da cantora Liliane Xipaia. Haverá também a abertura do "Circuito Cultural Nós Indígenas", com exposições de acervos indígenas e um panorama da cultura desde os primeiros contatos até os tempos atuais.
Atos públicos, manifestações culturais, palestras, oficinas, mesas-redondas, exposições culturais, mostra de vídeos e atividades nas escolas de Educação Básica, envolvendo os povos indígenas e não indígenas, além de vivências e oficinas para auxiliar na construção desses diálogos.
Resultados - Educação, cultura, comunicação, saúde, tecnologia e esportes, direitos humanos e cidadania são temas recorrentes na pauta desde o primeiro encontro, que resultou no Plano Estadual Pará Indígena, com políticas públicas específicas, e um Fórum permanente reunindo lideranças indígenas de várias regiões do Pará.
As aldeias Trocará, em Tucuruí, Catete, em Parauapebas, e Mapuera, em Oriximiná, terão a oficina "Formação de documentaristas indígenas", programação de três dias durante os quais eles trabalharão temas para documentar a própria realidade e criarão curtas ou minidocumentários. Indígenas capacitados em 2009 darão apoio técnico às atividades.
Estão sendo implantados pontos de cultura nas aldeias Trocará, Cateté e Mapuera, cada um deles com kit multimídia, computador com acesso à internet de banda larga e placa de vídeo para edição, filmadora, fitas além de outros equipamentos de áudio visual. A intenção é reforçar a comunicação como ferramenta de valorização cultural e de fortalecimento da identidade.
Um ciclo de debates também vai movimentar a IV SEPI, com discussões sobre territórios etno-educacionais indígenas, marcas da cultura indígena na sociedade contemporânea, políticas de assistência indigenista, meio ambiente e sustentabilidade. Em 19 de abril, o Dia Nacional do Índio, haverá o debate virtual "Grandes Projetos da Amazônia e os Impactos Socioculturais às Populações Indígenas", transmitido via web TV para toda a Amazônia Legal. A Governadora Ana Júlia Carepa estará em Tucuruí, na aldeia Assurini, e participará do debate, juntamente com o ministro da Cultura, Juca Ferreira.
A IV Semana Estadual dos Povos Indígenas é uma realização do Governo do Estado, através do Comitê Instersetorial de Política Indigenista, que reúne todos os órgãos do Estado voltados ao trabalho com os povos indígenas, além da Fundação Nacional do Índio (Funai), Universidade Federal do Pará e Ministério da Educação.
Secom, com informações da Ascom/Fundação Curro Velho
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11 de abr. de 2010

Jovens serão julgados amanhã por morte de índio em MS


RICARDO VALOTA - Agência Estado
O julgamento dos três acusados de matar o cacique guarani-kaiowá Marcos Veron, líder indígena reconhecido no Brasil e no exterior, está marcado para amanhã em São Paulo.
O crime ocorreu em janeiro de 2003, no município de Juti (MS). Os réus são Estevão Romero, Carlos Roberto dos Santos e Jorge Cristaldo Insabralde. A acusação será auxiliada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e o júri acompanhado por organizações internacionais.

O julgamento ocorre em São Paulo pelo fato de a Justiça Federal ter aceitado o argumento do Ministério Público Federal (MPF) de que um júri formado em Mato Grosso do Sul não teria a isenção necessária para julgar o crime.

Na avaliação do antropólogo Rubem Thomaz, a realização do júri tem grande valor simbólico no enfrentamento da violência contra os indígenas de MS. Ele ressalta que a impunidade em crimes contra os índios é frequente e que muitos inquéritos não chegam sequer a apontar suspeitos. Simbolicamente é de muita relevância julgar o assassinato de um índio, o que não é corriqueiro ocorrer em Mato Grosso do Sul", afirmou o antropólogo em entrevista à Agência Brasil.

De acordo com o MPF, a morte do cacique foi consequência de uma série de três ataques ao longo de dois dias contra os índios que estavam acampados na fazenda Brasília do Sul, reivindicada por eles como terra indígena Takuara.

8 de abr. de 2010

A luta por direitos do povo guarani em São Paulo


Na zona oeste da cidade, as aldeias Guarani, Tekoá Pyaú e Tekoá Ytú enfrentam problemas como a inserção de grandes projetos na região, carências no atendimento à saúde e educação

Nhanderu (Deus) está triste. Ele quis deixar seu corpo e seu espírito aqui na terra. Mas os juruá (não-indígenas) não estão colaborando com sua obra e estão destruindo tudo. A terra vai ficando pobre, mal cuidada e vai se revoltando. Aí vemos coisas ruins acontecendo como terremotos, enchentes e deslizamentos. As palavras em tom de lamento, ditas por Alísio, liderança Guarani Mbyá, em São Paulo, refletem o sentimento das comunidades indígenas que vivem nas periferias da grande metrópole.
A terra para os Guarani é fonte de vida e sobrevivência e, segundo o subsídio Semana dos Povos Indígenas - 2009, do Conselho Indigenista Missionário, (CIMI) "não é só a base do sustento, mas também o lugar onde jazem os ancestrais, onde se reproduzem a cultura, a identidade e a organização social".
Na zona oeste de São Paulo as aldeias Guarani, Tekoá Pyaú e Tekoá Ytú, localizadas perto do Pico do Jaraguá, enfrentam problemas como a inserção de grandes projetos na região, carências no atendimento à saúde e educação. A Tekoá Pyaú está entre as menores aldeias do Brasil que esperam pela demarcação de sua terra de apenas 2,7 hectares, onde vivem mais de 80 famílias. Considerando o aumento da população, esta área exígua será insuficiente para abrigar um número maior de
famílias.
Para o Xeramoi (pajé) José Fernandes, da aldeia Tekoá Pyaú "o processo de demarcação da aldeia está indo bem mal, porque os juruá (não-índios) são muitos e não sabem como realizar", afirma. A preocupação maior das lideranças locais advém da morosidade dos órgãos públicos que deveriam agir conforme a Constituição Federal que assegura os direitos dos povos originários.
Porém, os processos são lentos e quase nunca se estabelece um diálogo preciso com as comunidades envolvidas, mesmo sabendo que a não consulta prévia aos povos, fere a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante este direito aos povos indígenas, quando estes forem afetados. Neste sentido, cabe ao poder público atender as comunidades indígenas no Brasil, expostas à violência por conta da negação de suas terras e interferência de grandes projetos. 
Megaprojetos
Um grande sofrimento destas comunidades no Jaraguá teve início em 1998, ainda no governo Mário Covas (1995- 2001), quando a empresa Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa) iniciou a construção do Rodoanel Mário Covas, cortando parte de aldeias e interferindo em outras. Ainda assim, as propagandas do governo de São Paulo insistem que "O Rodoanel não é apenas a maior obra viária do Brasil. É também a que mais emprega".
As lideranças afirmam que, na época, não foram consultadas sobre este projeto e suas interferências. A empresa propõe atualmente negociações junto à comunidade, através da compra de terras como medida compensatória. A comunidade tem dialogado, mas se posiciona na exigência da demarcação da terra no Jaraguá.
Estes fatos remontam à inserção de projetos pelo Brasil. Vale lembrar as críticas em relação à construção da usina hidrelétrica Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará. Como obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), custará milhões de dólares e afetará toda a população. Dom Erwin Kräutler, bispo da Prelazia do Xingu e presidente do CIMI, denuncia que a obra terá conseqüências irreversíveis e imprevisíveis, inundando bairros inteiros, afetando 30 mil famílias e causando a destruição de terras indígenas.
Saúde
Para as lideranças do Jaraguá, em sintonia com outros povos que vivem na cidade de São Paulo, este é um assunto preocupante. Em maio de 2009, enquanto lideranças indígenas, incluindo as das aldeias Guarani de São Paulo, no 6º Acampamento Terra Livre, em Brasília, elaboravam uma nova proposta de texto para o novo Estatuto dos Povos Indígenas abrangendo, também, a questão da saúde, outras lideranças deste povo, em conjunto com representantes de 36 aldeias do estado de São Paulo, ocupavam a sede da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) na cidade de São Paulo, reivindicando, entre outras coisas, a demissão do coordenador regional Raze Razek, avaliado por essas comunidades como péssimo gestor na ação efetiva do atendimento médico e sanitário.
Em dezembro de 2009, no Encontro de Articulação das lideranças indígenas de São Paulo, representantes de diversas etnias reuniram-se na aldeia Tekoá Pyaú para retomar os compromissos assumidos após a ocupação, como reclamar do descaso de remédios e de atendimento, tendo presente as necessidades emergenciais que vivem as comunidades. Novamente, se constatou que não ocorreram muitos avanços por parte do poder público no atendimento diferenciado aos povos que vivem na área urbana, considerando suas reais necessidades e reivindicações.
Educação
Uma dificuldade está na preservação da educação tradicional que sempre foi transmitida oralmente, desde seus antepassados, às crianças e jovens e que é "omitida" ou descaracterizada nas escolas públicas. Na aldeia Tekoá Pyaú, um projeto interessante, desde 2001, é o Centro de Educação e Cultura Indígena que nasceu a partir "da necessidade de se fazer frente à influência crescente da cultura não indígena, nas aldeias Guarani existentes na cidade de São Paulo". É um espaço onde as crianças da aldeia contam com ensino bilíngüe.
Na aldeia Tekoá Ytú há também uma escola onde se fala e ensina a língua Guarani, mas, para Davi Martim, professor Guarani, muitos avanços na educação escolar das crianças ainda são necessários. Para ele, faltam recursos pedagógicos para atuar dentro da escola e a educação na aldeia deve ser pensada de forma diferenciada, levando em conta a especificidade cultural de seu povo. Assim, "não há como aplicar, na escola da aldeia, o modelo não indígena que existe nas escolas públicas do estado e do município de São Paulo", enfatiza.
Em São Paulo, uma conquista que pode ser observada nesta área é o Programa Pindorama da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que, em parceria com a Pastoral Indigenista e comunidades indígenas, oferece bolsas de graduação aos indígenas de várias etnias. Davi, por exemplo, é estudante de Ciências Sociais. A universidade torna-se um espaço possível para a atuação desses estudantes, conferindo-lhes a oportunidade de participar na construção de novas formas de pensar.
Descaso do poder público
Grande parte da sociedade reforça a idéia de que a cidade e a periferia, não são espaços para indígenas viverem. Para as lideranças da aldeia no Jaraguá, esse tipo de afirmação é discriminatória. "Os povos indígenas que vivem na área urbana não
deixam de ser indígenas por isso", apontam. 
Para eles, é preciso que a sociedade repense seus conceitos e preconceitos, as concepções pejorativas e discriminatórias a que, por séculos, foi levada a pensar. Além do preconceito, o que se evidencia é o descaso dos órgãos públicos na efetivação dos direitos dos povos indígenas, agindo com lentidão e sem reposta às necessidades de demarcação de terras, educação, saúde, moradia e reconhecimento destes povos que vivem na cidade de São Paulo. Mais que urgente, deve-se perceber que os antigos moradores de nossa terra estão esquecidos e reduzidos por interesses econômicos e políticos corruptos. 
(Por Beatriz Catarina Maestri e Vanessa Ramos, Brasil de Fato, 07/04/2010)

4 de abr. de 2010

Daniel Munduruku no Lançamento do Movimento CYAN


Autor de livros como "Histórias de Índio' e "Coisas de Índio", Daniel Mundukuru acredita que o ser humano deve mudar a sua maneira de lidar com a água, estabelecendo uma relação de parentesco. Foi o que ele disse em sua palestra durante o lançamento do Movimento CYAN, em evento realizado na segunda-feira (22/03), Dia Mundial da Água, no Parque Ibirapuera.

Formado em Filosofia e licenciado em História e Psicologia pela Universidade de São Paulo, Mundukuru destacou que os índios consideram como avôs os quatro elementos: água, terra, fogo e ar.

O Movimento CYAN é uma iniciativa da Ambev em favor do uso racional da água.

Postado no youtube por Canal AMBEV Brasil

 

3 de abr. de 2010

Entidades contrárias à construção da Hidrelétrica de Belo Monte levam discussão à ONU

Grupos denunciam supostas violações de direitos humanos causadas pela obra

Cem entidades civis que representam 40 comunidades de 11 municípios do Pará apresentaram um documento de 20 páginas a sete relatores da Organização das Nações Unidas (ONU). Eles denunciam supostas violações de direitos humanos causadas pela possível construção da Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingú.

O leilão para a construção da hidrelétrica está previsto para o dia 20 de abril. A usina será a segunda maior do país e a terceira do mundo e terá capacidade instalada de geração de mais de 11 mil megawatts (MW). A hidrelétrica formará dois reservatórios de 516 quilômetros quadrados (km²). Segundo as entidades, os lagos da represa inundarão a área onde se localizam 30 terras indígenas legais e afetará um terço do município de Altamira (PA), onde vivem 20 mil pessoas.

Para Andressa Caldas, diretora da organização não governamental Justiça Global, o licenciamento ambiental da hidrelétrica “sofreu pressão política” e fere a Convenção nº 169, sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em abril de 2004.

De acordo com o Artigo 15 da convenção, “os governos deverão estabelecer ou manter procedimentos com vistas a consultar os povos interessados, a fim de se determinar se os interesses desses povos seriam prejudicados, e em que medida, antes de se empreender ou autorizar qualquer programa de prospecção ou exploração dos recursos existentes em suas terras.”

O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizou quatro audiências públicas com a participação de indígenas no ano passado e o presidente do instituto, Roberto Messias, se reuniu em Brasília com lideranças dos povos. Para os movimentos sociais, o número de audiências foi insuficiente e por isso reivindicam a realização de mais 13 encontros.

No começo do mês de março, o juiz federal de Altamira, Antônio Campelo, reconheceu a validade das audiências realizadas pelo Ibama e apontou no despacho que não vislumbrava “necessidade de realização de audiências em todas as comunidades atingidas”.

A denúncia na ONU ocorre após as entidades civis não terem conseguido na Justiça suspender a licença prévia concedida pelo Ibama em 1º fevereiro deste ano. À época, o bispo de Altamira, dom Erwin Krautler, disse em entrevista à Rádio Nacional da Amazônia que a licença não era oportuna, pois “o projeto arrasa com toda a região”. Segundo ele, “esse projeto não vai ser o único, vai ser seguido por outros projetos”. A organização não governamental Internacional Rivers aponta que há mais de cem grandes barragens planejadas para os rios da Amazônia.

O Ibama informou à Agência Brasil que a licença prévia só saiu após o instituto receber parecer favorável da Fundação Nacional do Índio (Funai). A licença, que não autoriza o início da obra mas apenas o leilão, tem 40 condicionantes entre elas uma que exige a criação de novas unidades de conservação na região.
AGÊNCIA BRASIL

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...