Indígenas viram mestres e doutores

Reportagem publicada no jornal Correio Brasiliense da Capital Federal do dia 31 de agosto de 2008.





Em vez de uma estrela, colorida, brilhante, como diz Caetano Veloso, os índios brasileiros estão preferindo sentar nos bancos escolares para ler muito e se tornarem mestres e doutores do conhecimento do homem branco para ajudarem seus irmãos que ficam nas aldeias. É o que mostra reportagem publicada neste domingo, 31/08, pelo jornalista Leonel Rocha, do jornal Correio Braziliense (DF), ao informar sobre os índios e índias que já se tornaram intelectuais como os brancos, alguns até com curso de especialização no exterior. Saibam quem são esses índios no Brasil.



Da aldeia à academia

Leonel Rocha – Correio Braziliense



Índios deixam as tribos para se dedicar aos estudos e produzir teses e dissertações sobre cultura, língua e patrimônio das etnias. A formação ajuda também na defesa dos direitos de seus povos



Vindos de uma tradição baseada principalmente na oralidade, os índios brasileiros conseguiram chegar à academia. Nos últimos anos, passaram a registrar em teses, artigos e livros, publicados em várias línguas, suas histórias e parte do pensamento de 238 povos diferentes, que falam 180 línguas e reúnem cerca de 700 mil pessoas - metade delas vivendo fora das aldeias. Uma primeira geração que saiu das aldeias para estudar, apesar de ainda pequena, conseguiu atravessar cursos de graduação em várias universidades, fazer mestrado, doutorado e até pós-doutorado. Segundo estimativas do Ministério da Educação e de entidades autônomas criadas pelos próprios índios, existem cerca de 5 mil estudantes de várias etnias nas salas de aula de diversas faculdades.

Na última quarta-feira, o país conheceu a advogada Joênia Batista de Carvalho Wapixana. Ligada ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ela fez história ao se transformar na primeira indígena a atuar como advogada no Supremo Tribunal Federal (STF). Emocionada e pintada como seus parentes das aldeias, ela defendeu a demarcação da reserva da Raposa Serra do Sol, em Roraima, em áreas contínuas, como foi demarcada pelo governo. No estado, existem 260 indígenas estudando em faculdades. A maioria quer ser colega de Joênia.

Há dois anos, Maria Pankararu se transformou na primeira indígena a concluir o curso de doutorado. Aos 44 anos, casada, mãe de uma menina e tendo vivido na aldeia até os 10 anos, na zona rural de Pernambuco, a professora fez um estudo descritivo da língua do povo Ofayé, do Mato Grosso do Sul. Morando em regiões muito próximas às cidades pernambucanas, os Pankararu deixaram de falar a própria língua. Maria, porém, compensou a perda aprendendo inglês e se aperfeiçoando no português para dar aulas na Universidade Federal de Alagoas, onde se graduou em letras. "Estudar e ampliar o conhecimento é fundamental para entender melhor o seu próprio mundo, a sociedade nacional e melhor defender nossos direitos", ensina.

Maria é irmã de Paulo Celso de Oliveira Pankararu, 37 anos, primeiro índio a conseguir a carteira vermelha da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Formado pela Universidade Católica de Goiás, Paulo se especializou em direitos humanos e cooperação internacional pela Universidade Carlos II, na Espanha. Também fez mestrado em direito econômico e social na Universidade Católica do Paraná com o trabalho Gestão territorial indígena. Integrado à vida urbana desde criança, assumiu a coordenação geral de Defesa dos Direitos Indígenas da Fundação Nacional do Índio (Funai) há pouco mais de um mês.



Carteira vermelha



Quem também assumiu um cargo no governo recentemente foi Gersem Baniwa. Com 44 anos, casado, dois filhos, ele é coordenador-geral de Educação Escolar Indígena do Ministério da Educação. Gersem ainda conserva hábitos e tradições da aldeia Yakirana, localizada às margens do Rio Içana, no Amazonas, onde nasceu e tem família. Alfabetizado em uma escola pública na aldeia, ele continuou os estudos com os padres salesianos instalados em uma missão religiosa no povo Tucano. Formou-se em filosofia pela Universidade Federal do Amazonas e, entre 2004 e 2006, fez mestrado em antropologia com uma dissertação sobre alternativas econômicas das comunidades do Rio Negro. Hoje, faz doutorado na Universidade de Brasília (UnB).

Além de estudar, Gersem atua politicamente como dirigente do Centro Indígena de Estudos e Pesquisas (CINEP). Na década de 1980, ajudou a fundar a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. Já foi filiado ao PT e chegou a ser secretário municipal de Educação e Meio Ambiente em São Gabriel da Cachoeira (AM), município com 99% da população oriunda das florestas. Na sua gestão, criou o primeiro sistema municipal escolar com material didático e metodologia de ensino específicos para as tribos.

O filósofo e antropólogo nunca participou de eleições e hoje é simpatizante do Partido Verde. Domina duas línguas tradicionais - baniwa e nheegatu -, além do inglês, espanhol e o português caprichado de ex-seminarista. "Os índios podem não querer estudar engenharia para ir à lua, mas não abrem mão de conhecer as tecnologias para aumentar a produção agrícola", explica Gersem. "Estuda-se na comunidade branca em busca de poder e dinheiro. Nas aldeias, não. Lá, não precisamos de prédios, mas de uma produção coletivista e ambientalmente sustentável", defende.



Luta estratégica



A carteira vermelha da OAB é considerada estratégica pelas tribos na luta por seus direitos. Foi com este objetivo que o povo Kaingang, do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, escolheu Lúcia Fernanda Jófej, 30 anos, para fazer o curso de direito. Mestre em direito público pela UnB e vice-presidente do Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (Inbrapi) - dirigido pelo escritor Daniel Munduruku -, ela conseguiu barrar o envio ao Congresso, pelo governo, de um projeto de lei que estabeleceria critérios para o acesso aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais. "Mais de 80% dos remédios

fitoterápticos são baseados nos nossos conhecimentos tradicionais, mas isso não tem se revertido em benefícios para as aldeias", reclama Fernanda.

Outro índio intelectual é Francisco Kennedy Araújo de Souza. Aos 38 anos, filho de uma apurinã e de um cearense, ele é formado em economia pela Universidade Federal do Acre e fez mestrado no Center of Latin American Studies da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Lá, ele se especializou em conservação e desenvolvimento tropical. Com bolsa da Fundação Ford, faz doutorado em ciência ambiental na Universidade de Indiana, onde estuda o impacto da exploração de gás e petróleo nas terras dos seus ancestrais pela Petrobras. Por enquanto, por influência de Kennedy, a comunidade é contra a atuação da empresa em suas terras porque não foi apresentado estudo sobre o impacto que a atividade terá sobre a floresta.

O grupo de doutores diverge sobre temas importantes, como infanticídio de crianças doentes, prática que ainda existe em algumas aldeias, e atuação de religiosos nas comunidades, por exemplo. Consenso entre eles são a manutenção do multiculturalismo na convivência entre os povos e a produção coletivista. O grupo também tem consciência do valor de suas terras, que guardam reservas bilionárias de minérios, petróleo, gás e o incalculável patrimônio da biodiversidade.



Elite intelectual em formação



Filósofo e mestre em educação, Daniel Munduruku sonha em ver uma universidade dedicada a estudos sobre as mais variadas etnias. Temor é de que representantes urbanizados se distanciem da própria cultura .

O escritor Daniel Munduruku recebeu em julho um prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo livro O olho bom do menino. Considerada a melhor obra de ficção infanto-juvenil lançada no ano passado, o livro narra a história de um menino cego. Munduruku conseguiu a façanha aos 44 anos, depois de nascer e crescer entre dois mundos - o indígena e o urbano - perto de Belém (PA). A premiação traz um desafio ao mercado editorial, porque a narrativa não trata da temática indígena, especialidade do autor, que já publicou 35 livros, inclusive um destinado a educadores.

Filósofo formado em um seminário de padres salesianos, mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP) com especialização em psicologia e história, Munduruku tem obras editadas no Canadá, México e Espanha. Além de escrever em ritmo industrial, ele preside o Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (Inbrapi) e quer transformar a instituição em uma universidade dedicada aos estudos do seu povo.

Desde 1987, o escritor mora em Lorena (SP) e ressalta que tem apenas uma mulher (o homem mundurucu pode ter várias) e três filhos. Na opinião dele, já é possível falar em uma elite intelectual indígena brasileira. Ele alerta, porém, que ainda não se formulou uma linha ideológica para o "pensamento" indígena. "Com muito esforço individual e pouca ajuda institucional, estamos começando a pensar o Brasil pela ótica dos índios", comemora Munduruku, que sabe latim, português, inglês, espanhol, um pouco de francês e arranha o italiano.

A primeira geração de estudantes universitários indígenas, em 1978, desafiou a ditadura. Os pioneiros foram quatro: dois terenas, um karajá e um kaapor, que chegaram a ser aconselhados pelo governo do general João Figueiredo a voltar para as aldeias. Mesmo assim, o grupo se manteve em Brasília. Entre eles, estava Marcos Terena, que, aos 23 anos, foi o primeiro índio a entrar em um faculdade no Brasil - ele fez administração na Universidade Católica, sem concluir o curso. Formado como piloto comercial civil, Marcos chegou a ser candidato a deputado federal pelo Mato Grosso, terra dos seus parentes, mas não se elegeu. Hoje, dirige o Centro de Tradições Indígenas e tem receio de que os índios intelectuais se distanciem de suas aldeias. Por isso, gosta de lembrar o antigo slogan de militância: "Posso ser o que você é sem deixar de ser quem sou". (Leonel Rocha - Da equipe do Correio)