1 de dez de 2015

SOBRE ARANHAS E LIVROS

Mais uma da série "Crônicas a granel", para meus amigos.
Nunca fui chegado à leitura de livros. Houve um encanto inicial logo que entrei na escola. Tudo ali era um encanto, pura magia. As palavras saiam da boca de meus professores trazendo histórias que estavam dentro das páginas de livros que eles pegavam para ler para nós. Meus colegas e eu ouvíamos com certo encantamento imaginando de onde vinham aquelas histórias. Autor nunca sabia quem era. Quase sempre gente morta. Era um completo mistério.
Quando cresci um pouco mais a leitura ficou um tédio. Os professores do ginásio (nomenclatura da época para o que hoje é o fundamental II) não tinham mais paciência conosco. Ao invés de nos encantarem com a leitura das histórias que os livros traziam, passaram a nos desencantarem com a obrigatoriedade de ler para passar de ano. Os livros passaram a ser nossos inimigos e as histórias que traziam, um xarope que a gente tinha que enfiar goela abaixo.
Quando eu passei para a quinta série, tinha uns 13 anos de idade. Já era um “galalau”, como se dizia à época. Ou seja, já passara a ser adolescente e com outras responsabilidades diante de minha família, da sociedade e da escola. Isso tinha diferentes repercussões dentro de mim. Primeiro porque eu não suportava a ideia de ser “índio” e viver enclausurado a uma comunidade, tipo, no meio da floresta. Meus pais queriam que eu seguisse todas os rituais e assim o fiz, mas alguma coisa dentro de mim me inquietava; a sociedade em que vivia na cidade me desprezava e desprezava os meus. Como poderia eu querer contribuir com uma sociedade assim? E a escola onde passava maior parte do meu tempo era muito chata e enfadonha. Estava, portanto, numa “sinuca de bico” que me colocava a necessidade de escolher.
Foi ai que descobri a leitura. Melhor, descobri a biblioteca. Ou quem sabe a leitura tenha me descoberto. A escola em que estudava era bem diversificada em livros. E uma das nossas contribuições à instituição era ajudar na limpeza e organização dos espaços. Um dia fui escalado para limpar a biblioteca. Esse era um lugar para mim indiferente porque quase nunca íamos lá. Parecia-me hermético demais para ser visitado. Adentrei o estabelecimento. Estava bastante organizada, mas um pouco suja. Passei a varrer o chão do lugar. De repente notei que tinha uma aranha que fazia sua teia em uma estante de livro. Meu trabalho era justamente limpar e não deixar que aquela coisa tomasse conta do lugar. Assim, fui lá e passei o espanador na teia da aranha que tratou de se esconder para não ser varrida junto. Meu trabalho estava feito.
Quando voltei no dia seguinte vi que a aranha tinha feito novamente a teia na mesma prateleira sem se importar com meu trabalho. Não pensei duas vezes e fui logo limpando o local para não permitir acúmulo de sujeira. Teia retirada, trabalho realizado. Tudo conforme a ordem estabelecida. O pior, no entanto, foi voltar no terceiro dia – que seria meu último naquela função – e ver que a maldita aranha tinha novamente montado sua teia naquele mesmo lugar. Fiquei tão furioso que quis saber por quais motivos a bendita insistia com aquela armação toda. Sem desespero fui até a estante e olhei sobre quais livros a teia estava montada. O primeiro livro que tirei me chamou a atenção porque trazia um menino louro usando uma roupa colorida na capa. Comecei a folhear o objeto. Não era um livro comum. As letras eram um pouco maiores que os de leitura obrigatória e logo na primeira página tinha a imagem de uma cobra que engolira um elefante. Achei aquilo muito esquisito e passei a ler do que se tratava. Contava a história de um menino que se perdera de seu mundo e tinha vindo parar no deserto. Era a história de O Pequeno Príncipe.
Não consegui parar de ler o livro. Queria logo saber como acontecera aquele acidente e como o menino tinha resolvido o problema. Pedi para o colega que iria me substituir na função me deixasse ficar ali mesmo por mais alguns dias. Ele topou desde que eu fizesse alguns favores a ele. Eu concordei sem pestanejar.
Todos os dias eu voltava para a biblioteca e lia um pouco aquela obra. Fui decorando as falas e as repetia para os outros colegas para não esquecê-las. Além daquele livro passei a buscar outros que me ensinassem algo tão fantástico assim. Peguei gosto pela leitura e nunca mais parei de frequentar bibliotecas em todos os lugares por onde passava. Eu levava os livros comigo e os lia sempre que tinha um tempo livre ou andava de ônibus ou podia sentar na praça perto de casa.

Nunca mais esmaguei aranhas. Elas desenvolveram em mim o gosto pela leitura. Conseguiram me prender em sua teia.
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