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SAUDADES DE CASA


Acordei com saudade de casa. Não com é saudade de gente, mas de lugar. Saudade do cheiro da chuva das três horas. Saudade do calor ventilado. Saudade do canto das araras voando sobre as mangueiras recheadas de magia.
Senti saudade do Theatro da Paz e da praça Batista Campos, um oásis de minha infância. Saudade do açaí com pirarucu na tigela. Do tacacá ao meio dia. Saudade de ver-o-peso e ver as belezas naturais. Saudade do boto e do peixe-boi.
Fechei os olhos e me vi lá banhando nos igarapés de minha criancice; subindo nas árvores gigantes, meu orgulho. Fui até meu maracanã, aldeia de outrora, para encontrar-me com os meus amigos invisíveis que habitavam o lugar. Banhei na chuva fina. Me lambuzei na lama. Corri no mato empunhando arco, flechas e sonhos.
Hoje acordei com saudade de casa. Me deu vontade de cantar para o uirapuru, imitar a Yara, gargalhar como o Curupira e encantar como o boto. Senti ausência do saber sagrado. Do silêncio do silêncio. Do farfalhar miúdo das folhas amazônicas. Das cantigas de rodas, do bumba-meu-boi, das quadrilhas juninas. Ausentou-se em mim o som dos tambores dos terreiros onde cresci, da estranha magia dos pais de santos.
Saudade de ver meu rio Pará, singrar suas águas, contemplar seu pôr-do-sol. Saudade de água em profusão, pororoca, piracema. Saudade de casa.
Ela parece me chamar. Não posso ficar surdo. Não vou.

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Daniel Munduruku, índio e escritor

Postado no Blog da TV CULTURA
28/07/2009 | 18h00 | Mariana Del Grande

Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

Em breve a Loja…