Abordagem da cultura indígena nas obras de Daniel Munduruku


por Fernanda Faustino | 08/01/2013
Daniel Munduruku: “Meu interesse ao escrever um livro é dialogar com crianças e jovens. Procuro encontrar um cantinho na cabeça deles”
“Meu interesse ao escrever um livro é dialogar com crianças e jovens. Procuro encontrar um cantinho na cabeça deles”, diz Daniel Munduruku, escritor indígena graduado em filosofia e educador social, ao abordar a reprodução da cultura indígena e o processo de criação de suas obras.
Com mais de 40 livros publicados, Daniel esteve em vários países da Europa, participando de conferências e ministrando oficinas culturais para crianças, com o intuito de dialogar sobre a cultura indígena. Ele conta que nunca escolheu ser escritor, contudo, o fato de ter algo a dizer sobre seu povo o motivava a fazer com que sua própria história e a de seus ancestrais fosse registrada e disseminada. “A escrita foi tomando conta de mim e, aos poucos, fui me aceitando: aceitando o fato de que minha escrita tem algo a dizer, aceitando ser dono de um estilo de narrativa que me foi oferecido por meus antepassados”, ressalta.
Apesar de tudo o que é feito para retratar e propagar a cultura indígena, o autor aponta que ainda há muito a ser feito. “A cultura indígena ainda é vista como folclórica. Isso é fruto de uma política que sempre tratou os indígenas como seres do passado, parados no tempo, sem história”, relata. “O resultado disso tem sido desastroso para a própria sociedade, pois acabou negando a participação efetiva de nossa gente indígena na composição da identidade nacional.”
Pela Global Editora, Daniel tem publicadas as seguintes obras: A Caveira Rolante, A Mulher-Lesma e Outras Histórias Indígenas de AssustarA Palavra do Grande ChefeA Primeira Estrela que Vejo É a Estrela do Meu Desejo e Outras Histórias Indígenas de AmorContos Indígenas BrasileirosO Banquete dos DeusesOutras Tantas Histórias Indígenas de Origem das Coisas e do UniversoParece que Foi OntemSabedoria das ÁguasVocê Lembra, Pai?, além de integrar as antologias Conto Com Você e Um Fio de Prosa.
Confira a entrevista completa com o autor:

A partir de que momento você decidiu que queria ser escritor?
A escrita foi tomando conta de mim. Nunca escolhi ser escritor, mas me deixei contaminar pela doença que é escrever. Aos poucos, fui aceitando o fato de que minha escrita tem algo a dizer, aceitando ser dono de um estilo de narrativa que me foi oferecido por meus antepassados. A eles sou sempre grato.
Em seus livros, que aspectos da cultura indígena você procura retratar?
Meu interesse ao escrever um livro é dialogar com crianças e jovens. Procuro encontrar um cantinho na cabeça deles. Sei que há muito preconceito com relação às populações indígenas, mas procuro ocupar esse espaço com assuntos que podem substituir o olhar equivocado. Talvez seja por isso que crio e conto histórias, reconto histórias tradicionais e trago informações. Ainda há muito a ser dito sobre a cultura indígena. E é pensando nisso que incentivo os jovens indígenas a escreverem suas histórias, pois não tenho sensibilidade suficiente para tratar de toda a magia que envolve nossa gente.
Como você enxerga a reprodução da cultura indígena na sociedade?
Infelizmente a cultura indígena é ainda vista como folclórica. Isso é fruto de uma política que sempre tratou os indígenas como seres do passado, parados no tempo, sem história. A sociedade brasileira acabou incorporando esse equivoco e aceitando como uma verdade absoluta. O resultado tem sido desastroso para a própria sociedade, pois acabou negando a participação efetiva de nossa gente na composição da identidade nacional. Além disso, esconde, não sem cinismo, o componente indígena de seu DNA.
Veja aqui os títulos do autor publicados pela Editora Global
De onde surge a inspiração para seus livros?
Meus textos são frutos de minha observação da realidade. Procuro não esquecer a beleza que há em cada momento, mesmo que não seja muito favorável. Busco o invisível num mundo onde reina apenas a aparência. Procuro não julgar, mas compreender. É dessa postura que nasce minha inspiração. Ela nasce no momento em que fecho os olhos para enxergar melhor.
Como educador, qual você considera ser a maior barreira quando se trata da disseminação da cultura indígena?
A maior barreira está no interior dos educadores. Educar é professar um ato de fé no ser humano. Para fazê-lo, é necessário saber fechar os olhos para se jogar em um abismo do improvável. O problema maior é que grande parte dos educadores não acredita em si mesmo. Ou seja, não é capaz de fechar os olhos para enxergar melhor a si mesmo e ver que há nele um universo inteiro que clama por uma verdadeira humanidade. Não crendo em si mesmo, como pode crer nas outras pessoas? Como educar para a diversidade? Como poderá ver a beleza que há no outro? Educar é sair de si e ir ao encontro do outro. É um ato de generosidade, de renúncia. Numa sociedade onde o que vale é o egoísmo, parece que pedir isso de alguém é absoluta falta de bom senso. Mas é justamente aí que mora a grande dificuldade da educação nacional.
Apesar do que vem sendo feito para propagar a cultura indígena, de que forma você acredita que a sociedade pode contribuir para que essa cultura seja, cada vez mais, difundida? 
A cultura indígena não precisa ser difundida. Não creio que os povos nativos estejam desejando ser melhor compreendidos ou conhecidos. A luta deles tem sido em direção de se sentirem parte da sociedade. O que tem ocorrido é uma invisibilidade patrocinada pelo sistema capitalista que prima pela destruição das diferenças procurando homogeneizá-las através do processo educativo. Penso que o melhor caminho é o da tolerância. Isso passa pela educação familiar e não pela escola. Aprende-se a respeitar o outro observando o exemplo dos adultos, mas a escola tem sido o lugar do desaprendizado, pois ensina a separação, a divisão, a multiplicação, o controle do outro, o domínio e o poder. Tolerar é deixar que o outro seja quem ele quiser ser e não o que desejamos para ele. Quando o outro pode ser plenamente o que é, a beleza acontece. É um aceitando o que é belo no outro e não acentuando o que há de feio, de triste. Isso é valorizar o menos ao invés do mais. Precisamos construir o caminho da tolerância, do respeito ao outro, do encontro com a diversidade.
Com tanta influência dos meios externos, quais são as maiores dificuldades das povos indígenas para manter sua tradição?
Quero deixar claro que há um equivoco ao ligar a tradição como algo do passado longínquo. Tradição é um método de manutenção da cultura. Método é caminho e caminho é movimento. Se há caminho, há segurança, continuidade. Manter a tradição não é andar sempre pelo mesmo caminho, mas não permitir que esqueçamos o caminho já percorrido. Este é o desafio dos povos indígenas hoje: como percorrer os caminhos que temos pela frente sem sair do caminho construído por nossos pais. Manter a tradição é, pois, ser fiel ao que nos foi ensinado. E o que nos foi ensinado? Que temos de viver o momento presente com a intensidade que ele se nos apresenta. E justamente por respeitarmos a tradição é que temos que fazer o exercício contínuo de atualizar a memória ancestral utilizando os instrumentos que hoje temos a nossa disposição. Portanto, dominar as novas tecnologias da informação e servir-se delas para difundir o caminho dos antepassados e construir uma nova relação com a sociedade nacional, é a melhor forma de nos sentirmos partícipes do universo sonhado pelos espíritos criadores.
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