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DA MÁQUINA DE ROUBAR ALMAS À MAQUINA DE REGISTRAR MEMÓRIAS

Naine Terena

Eu já me transformei em imagem. Mesmo que eu morra vocês irão me ver.(pajé do Povo HuniKui, no vídeo Já me transformei em imagem).

Numa referência realizada ao trabalho do fotografo Boggiane, em terras do povo kadiweu em 1934, Pavel Fricova e Yvonna Frici, escrevem sobre os retratos tirados pelo fotografo na aldeia, comentando sobre as relações mutuas, as desconfianças dos kadiweus para com a máquina fotográfica e o medo de perder ‘sua alma’ (1997). Pensando nesta observação, refletimos sobre uma das muitas trajetórias percorridas pelos povos indígenas brasileiros, num longo processo de manutenção da cultura. Se por muitas décadas acreditava-se que os índios seriam extintos e perderiam totalmente a sua cultura, vemos o processo de adaptação, assimilação e apropriação de elementos da cultura não indígena com o intuito de manter os costumes. Se a entrada das tecnologias (em especial a televisão) oferecem alto risco por causa dos valores transmitidos aos mais jovens, com o tempo os próprios indígenas conseguiram vislumbrar a utilização desses meios para mostrarem-se ao mundo e para si mesmo.
É o que diz o pajé Huni Kui no vídeo Já me transformei em imagem, Isaac Dias, liderança Terena, em Quem chorará por nós, e tantos outros anciãos que posicionam-se em frente a câmera para realizar suas narrativas. Com características orais, os povos indígenas vêm demonstrando cada vez mais afinidade com os equipamentos de áudio e vídeo. Isaac visualizou a utilização do registro de parte de sua memória na escola indígena de sua aldeia. Ele comenta durante as gravações de sua ‘entrevista’ que falaria naquele momento por que sabia que os realizadores deixariam uma cópia na escola: “Eu comecei a escrever (as memórias) e não enxergo mais. Mas se a senhora vai deixar uma cópia na escola, fica mais fácil”.Dois fatores são importantes na utilização dos equipamentos (ao meu ver) – o primeiro esta relacionado a preocupação com o registro da memória, da manutenção da cultura, da transmissão cultural; o segundo com a necessidade de se apresentar ao mundo dos não indígenas, para que estes entendam, compreendam e respeitem o sistema de vida indígena.
Se na década de 30 os kadiwéu (e talvez outros povos) temiam a captura da alma pelos equipamentos, hoje esse temor se transformou a ponto de que cada povo manipule seu equipamento e capture parte da alma que queiram que seja capturada. O domínio dos equipamentos pelos próprios indígenas lhes dão autonomia para que registrem apenas o que querem que seja registrado. Que divulguem apenas o que pensam que deve ser importante ser divulgado. É a autonomia tecnológica dos povos contemporâneos. Walter Benjamin escreve que o filme não deve ser considerado um mero instrumento de registro e reprodução, ele é autoral e capaz de representar o mundo. Neste caso, o mundo que os povos indígenas querem representar e apresentar (faça então uma reflexão mais apurada, o que se vê sobre índios nas tv´s brasileiras? Com que freqüência? como são apresentados?)
Podemos lembrar ainda alguns trechos escritos por Arlindo Machado, sobre como os diversos grupos indígenas estão aprendendo a dominar criativamente as modernas tecnologias de enunciação para utilizá-las em seu benefício – seja como registro de suas memórias, seja como luta política. Escreve Machado:
[...] vem sendo incorporado por algumas nações indígenas não apenas como instrumento de registro passivo de suas tradições, mas também de luta política. Para os povos sem tradição escrita como é o caso dos índios, o vídeo se converteu rapidamente numa forma de escritura que lhes permite comunicar-se rapidamente com outras tribos, registrar a ação dos emissários nas instituições de poder (como forma de prestar conta à tribo posteriormente) e angariar a adesão ou a solidariedade de instituições protecionistas ou ecológicas internacionais.
Os indígenas deixam de aparecer como objetos passivos, para garantir a preservação não mais da pureza étnica ou cultural, mas de sua autonomia política e de sua opção por um modelo de vida diferenciado, sem apelar para a estereotipação, mas identificando-se como índios perante os brancos, como povos diferenciados por tradições próprias, e sendo sujeitos de registros - antes o que era realizado pelo olhar do outro, agora se torna elemento para a visualização de si mesmo (Arlindo Machado).
Diante de tudo isso, penso que talvez, o temor não fosse pela máquina roubar suas almas, mas sim de não poderem escolher quais partes de suas almas gostariam que fossem resguardadas.

A citação foi lida e retirada do livro Fotografia e Antropologia – olhares fora-dentro de Rosane de Andrade.

Mais em: http://oraculocomunica.blogspot.com.br/p/artigos-e-textos.html

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Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

Em breve a Loja…