Eliane Potiguara: Literatura e Mídias Indígenas

Eliane Potiguara

ELIANE POTIGUARA (Eliane lima dos santos) meus avós são de origem potiguara, então sou de origem Potiguara, nasci no Rio de Janeiro, em 29/09/1950, tenho 61 anos de luta e mais de 40 na luta indígena. 
Estudei Faculdade de letras Portugues-literatura e formada em Educação


Cinemaartes: Eliane fala sobre a luta por mídias como instrumentos de divulgação e defesa dos direitos dos povos indígenas.
Eliane Potiguara: Sabemos que povos indígenas possuem sua cultura oral, suas origens de vida contadas verbalmente por diversas gerações. No entanto, com a contemporaneidade, as mídias, a internet chegaram rapidamente aos povos indígenas. Eu mesma participei com a organização "Povos da Floresta", presidida por Ailton Krenak nas discussões com o governo para a implantação da internet nas áreas indígenas. Os conteúdos das mídias devem estar totalmente voltados para a cultura indígena e para a defesa dos direitos humanos das etnias. Outro conteúdo que não étnico deve ser ético. Deve ser uma mídia seletiva e há de se enfatizar isso. Por outro lado os professores devem estar abertos para a temática. Ailton Krenak criou o 1º jornal tablóide e eu criei o 1º jornal tablóide feminino de 8 páginas, na luta contra a hidrelétrica Kararaô ( Belo Monte hoje). Foi um escândalo na década de 70 para 80 e ninguém falava sobre gênero, recorte étnico-racial, mídias indígenas, jornais indígenas, gestão, desenvolvimento comunitário auto-sustentável, etc. Tudo era produzido por padres, antropólogos, fotógrafos e cineastas.
Nós indígenas, somos vitoriosos. E essa força veio do Grupo de Trabalho nas Nações Unidas em Genebra onde participamos por uma década da elaboração da Declaração Universal dos Direitos Indígenas e as Assembléias pelos Dureitos Indígenas no Brasil. Os indígenas Kunas, do Panamá, os Samí da Noruega e os Maias do México eram VANGUARDA no teatro, na literatura e nas rádios! As Primeiras Nações do Canadá cresciam com seus projetos de pisciculturas e os indígenas americanos criavam seus próprios Bancos. Eu conto no meu livro, METADE CARA, METADE MÁSCARA. Mas os jovens de hoje deveriam pesquisar mais o que os antigos líderes conquistaram e respeitá-los.
Livro:
Metade Cara, Metade Máscara
Cinemaartes: Eliane fala sobre a lei 11.645/08 que trata de História e Culturas Indígenas nas escolas brasileiras e como os professores podem usar o audiovisual produzido pelos povos indígenas. 
Eliane Potiguara: Eu pessoalmente visitei centenas de escolas urbanas como Educadora e escritora não só no Brasil, como em outros países, como México, por exemplo, onde fizemos uma grande maratona pelas montanhas rochosas e nas mais longínquas escolas indígenas apresentando essa lei tão revolucionária que muda concepções.Também estivemos no Equador auxiliando uma nova proposta de educação. Também fomos convidadas por Hugo Chaves a dialogar com dezenas de etnias em galpões e escolas de vários graus para não só falar dessa lei, como situar a questão da literatura indígena no Brasil e como ela é tão transformadora nas mentes de professores e alunos.
Em Portugal, nas universidades contei o que foi a colonização deles ás nossas terras. Eles não sabem de nada. Acham que foi pelo bem do Brasil! No Rio de Janeiro a Secretaria de Educação adquiriu um boa cota de meu livro METADE CARA, METADE MÁSCARA, editado por Daniel Munduruku importante GLOBAL EDITORA. As bibliotecas possuem esse meu livro e é um subsidio para professores e alunos. Na minha bagagem levava vídeos feitos por indígenas para dinamizar minhas palestras. Os não indígenas nunca mais poderão se "apropriar" dos conhecimentos indígenas porque hoje existem Leis de proteção à Biodiversidade Indígena e o Inbrapi fez um maravilhoso trabalho para a essa defesa. Os professores podem utilizar materiais audiovisual feitos por indígenas sim, como material de apoio, solicitando em sites, em bancos de dados, no google.

Mensagem: Professores e alunos devem ler muito as lendas indígenas, recontá-las na perspectiva atual. Ler os livros dos escritores indígenas porque o texto na realidade é a base do roteiro de películas, filmes, vídeos. Acabo de escrever "Barba Azul e as drogas". Lanço dois livros esse ano: "A Cura da Terra" pela perspectiva atual e "A história do dia e da noite". Sabemos que a drogatização está chegando as aldeias, assim como violência doméstica, física e alcoolismo já chegaram. O alcoolismo já é um tema discutido há mais de décadas, mas não se fala nas drogas. Sabemos os índices de drogatização entre povos indígenas? Porque não se fala no asssunto? Povos indígenas são tão seres humanos como qualquer povo de qualquer lugar, mas a antropologia oficial tenta esconder os efeitos do capitalismo e da neo-colonização, para que os temas de estudos antropológicos e culturais não desfoquem da cultura tradicional. A cultura é mutável, principalmente num mundo conturbado como esse, um mundo que está destruindo o planeta, as águas, os animais. Por que manter uma mitificação sobre povos indígenas, quando a maioria dos jovens já vivem em cidades e querem estudar? Ser indígena não é estar desnudo no meio do mato. Ser indígena é ter consciência de sua origem e de sua identidade preservada! É ter sua ancestralidade firme como as patas de um rinoceronte fincadas na lama africana! A história de Iracema de José de Alencar ficou no passado. Hoje conversamos com indígenas que estudaram em Cuba, com advogadas que fizeram mestrados na Alemanha, indígenas que estudaram inglês ou espanhol com bolsas de estudos na Espanha, que falam línguas... E ninguém perdeu sua identidade indígena. Pelo contrário. Fortificou mais ainda!Quanto às drogas, elas estão muito fáceis de serem conseguidas e introduzidas aos jovens. Isso sim, precisa ser estudado pelos antropólogos, cientistas para evitar um dano maior. Há novos desvios de caráter produzidos pela mídia televisiva, mas a mídia e literatura indígenas devem ser mais forte que o inimigo. Deve ser um instrumento de conscientização, de luta e transformação social para o bem da cultura e cosmovisão indígena.