Pular para o conteúdo principal

Literatura indígena: balanço e perspectivas

Por Daniel Munduruku - Revista Emília

Encontros e caminhos

O ano de 2011 foi bastante profícuo para a literatura indígena. Seja por conta das publicações seja por causa dos eventos que tiveram como enfoque a produção literária de autores indígenas.
Desde 2004 acontece anualmente o Encontro Nacional de Escritores e Artistas indígenas no Salão FNLIJ de Livros para Crianças e Jovens. Naquele ano apenas 12 autores estiveram presentes e testemunharam o início de um movimento que se somaria às outras ações como a luta pela terra, a sustentabilidade, a autonomia, o meio ambiente, entre outras. Naquele momento histórico, nascia a luta pelo direito à literatura, à leitura literária entre os indígenas. Nascia um movimento que mostraria ao Brasil a rica diversidade nativa, dessa vez contada pelos próprios indígenas.
Como resultado daquele primeiro encontro foram criados dois concursos anuais: o Concurso Tamoios, voltado para descobrir talentos literários entre os indígenas; e o Concurso Curumim de leitura de textos de escritores indígenas. Esse segundo, voltado para professores brasileiros que tenham trabalhado livros escritos por indígenas em sala de aula. Ambos foram capitaneados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, parceira desde a primeira hora.
Ano após ano os encontros foram acontecendo [alguns sem patrocínios, outros com apoios diversos como do Instituto C&A, que se tornou o principal parceiro do INBRAPI]. Temas diversos eram tratados por indígenas oriundos de todas as regiões brasileiras. Cada um trazia suas expectativas, seus sonhos, suas reivindicações, seus textos. Conversas com editores, seminários para educadores, prosas com as crianças que visitavam o salão, performances artísticas, negociações, bate-papo com escritores e ilustradores fizeram parte desses anos todos de muito trabalho, na tentativa de convencer editores a publicarem nossos livros e não pelo exotismo que pudessem apresentar, mas pela qualidade da escrita e da novidade que traziam.
Muitos anos se passaram. A literatura indígena ali nascida foi tomando corpo. A produção editorial conseguiu captar a importância da iniciativa. Ilustradores foram estudando as múltiplas culturas indígenas para fugirem dos estereótipos em seus trabalhos artísticos e realizaram lindos trabalhos gráficos na composição de suas obras. Autores não-indígenas também procuraram renovar seus repertórios, refinaram suas linguagens, reaprenderam a olhar o universo indígena a partir das novas informações trazidas.
Pode até parecer presunção, mas a literatura indígena está ajudando o Brasil a se repensar. Hoje é muito raro ver um livro escrito por autor indígena que não tenha um esmero editorial, que não nos reporte para à riqueza gráfica que os indígenas carregam consigo. É um bom sinal de fumaça: é um reconhecimento. Reconhecimento que repercutiu pelas universidades brasileiras: há expressivos estudos sendo realizados em níveis de graduação, mestrados e doutorados que têm a literatura Indígena como objeto. Importantes revistas deram notícias ou fizeram matérias de capa sobre o fenômeno. Governos adquiriram acervos inteiros ligados à temática.
2011 foi, ao meu ver, um ano muito produtivo. Foram lançadas doze obras de autoria indígena [pensando apenas no núcleo que eu coordeno e sem desmerecer outros lançamentos]; aconteceu o 8º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas; a segunda edição da FLIMT – Feira do Livro Indígena do Mato Grosso; universidades organizaram eventos em que foram tratadas as temáticas da escrita e oralidade indígena [a exemplo da UFMG, UFRJ, UERJ e UFJF]. Belém organizou o I Encontro de Contadores de História da Amazônia, tendo como pano de fundo a literatura indígena. A potiguara Graça Graúna completou seu pós-doutorado em Educação, defendendo a importância dessa literatura para a aplicação de lei 11.645/08. Autores indígenas foram convidados para muitos desses eventos e puderam partilhar seus saberes com um público sempre mais interessado no que pode ser dito por representantes legítimos dessa cultura milenar. Foi organizada a Caravana Mekukradja – Literatura Indígena em Movimento que, sob o apoio expressivo da Fundação Nacional das Artes – FUNARTE – levou a literatura para municípios brasileiros como Manaus, Peruíbe e Cananéia.


A
inda há questões que sempre estão em pauta e que não podem ser esquecidas: como considerar os direitos autorais dos indígenas se as histórias são coletivas? A literatura que pretendemos escrever tem o aval daqueles que estão na base da tradição? A literatura que escrevemos na língua portuguesa é uma transliteração do que ouvimos nas comunidades? Que direito um autor indígena tem de “traduzir” para a sociedade letrada as histórias que ouviu na intimidade de sua aldeia?
Enfim, como podemos notar, estamos apenas no começo. É importante e necessário ouvir e conhecer outras experiências. Nesse sentido, há o desejo de organizar um primeiro encontro internacional de literatura indígena, onde possamos compartilhar nossas indagações com outros parentes indígenas que já viveram a experiência. Quem sabe assim possamos transformar em caminho seguro a picada que apenas abrimos.

Leiam a matéria na nova edição da Revista Emília: http://www.revistaemilia.com.br/mostra.php?id=104

Postagens mais visitadas deste blog

MINHA VÓ FOI PEGA A LAÇO

MINHA VÓ FOI PEGA A LAÇO Pode parecer estranho, mas já ouvi tantas vezes esta afirmação que já até me acostumei a ela. Em quase todos os lugares onde chego alguém vem logo afirmando isso. É como uma senha para se aproximar de mim ou tentar criar um elo de comunicação comigo. Quase sempre fico sem ter o que dizer à pessoa que chega dessa maneira. É que eu acho bem estranho que alguém use este recurso de forma consciente acreditando que é algo digno ter uma avó que foi pega a laço por quem quer que seja. - Você sabia que eu também tenho um pezinho na aldeia? – ele diz. - Todo brasileiro legítimo – tirando os que são filhos de pais estrangeiros que moram no Brasil – tem um pé na aldeia e outro na senzala – eu digo brincando. - Eu tenho sangue índio na minha veia porque meu pai conta que sua mãe, minha avó, era uma “bugre” legítima – ele diz tentando me causar reação. - Verdade? – ironizo para descontrair. - Ele diz que meu avô era um desbravador do sertão e que um dia topou com uma “tribo” sel…

Daniel Munduruku, índio e escritor

Postado no Blog da TV CULTURA
28/07/2009 | 18h00 | Mariana Del Grande

Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

Em breve a Loja…

Garimpo invade bacia do Tapajós

por


Os riscos apontados para a bacia do Tapajós deixam claro que a região amazônica, apesar do aumento nos índices de queda no desmatamento, continua a ser tratada como o grande almoxarifado de recursos naturais do planeta. As ações planejadas para a maior bacia hidrográfica do mundo não se restringem a planos de construção de uma sequência de usinas rios adentro. Bastou o governo informar que parte das terras que pertenciam às unidades de conservação da Amazônia havia sido desvinculada das áreas protegidas para que se tornassem alvo de ações de garimpo e extrativismo ilegal. A reportagem é de André Borges e publicada pelo jornal Valor, 26-07-2012. A pressão cresceu e o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) tem procurado controlar a situação e deter a entrada de pessoas na região, mas seu poder de atuação ficou reduzido, porque está restrito às áreas legalmente protegidas. “Com a desafetação (redução) das áreas, muita gente está se mexendo para…