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Mudança do clima ameaça culturas

José Eduardo Mendonça
Povos indígenas são mais vulneráveis
Há mais de 7 mil línguas no mundo hoje. A previsão é que metade delas, em muitos casos os repositórios de culturas indígenas, terão desaparecido nos próximos 50 anos.
Isto tem ocupado muito a mente de Brigitte Baptiste, que assumiu este ano o cargo de diretora do Instituto de Recursos de Pesquisas Biológicas Alexander von Humboldt, do ministério do ambiente da Colômbia. Embora avaliações rigorosas da vulnerabilidade sejam escassas, disse ela, sabe-se que a mudança do clima causa alterações no crescimento da flora e da fauna em ecossistemas locais, em migrações animais e em ciclos naturais, como a polinização. Em alguns locais, as mudanças exigem que culturas indígenas se adaptem rapidamente ou pereçam, com a dificuldade de sustentar seus meios tradicionais de subsistência, diz o New York Times.
Os wayuu, por exemplo, que viveram durante séculos no árido noroeste colombiano, dependem do rio Ranchera, alimentado por uma geleira, e de duas estações de chuva para sustentar uma cultura rica em pesca e criação de gado. Mas o encolhimento da geleira faz com que o rio fique frequentemente com níveis mais baixos do que costumava ter, e o clima sazonal está ficando ao mesmo tempo menos difícil de prever, e mais violento.
Durante longos períodos de tempo, disse Baptiste, o conhecimento indígena acompanhou a mudança, assegurando a viabilidade da comunidade. Mas no caso de uma rápida mudança do clima, “se esta capacidade de adaptação, já enraizada no tecido das culturais locais, não consegue dar respostas rápidas, os membros mais jovens da comunidade podem abandonar as tradições.”
Muitos jovens indígenas já estão se mudando para áreas urbanas, por causa do deslocamento tribal e a atração da economia de consumo, um fenômeno exemplificado pelo povo Nukak-Makú da Colômbia. A mudança do clima apenas agravará o problema, afirmou Baptiste. Ela manifestou esta preocupação em agosto no Segundo Congresso Nacional do Clima, na Colômbia.
À primeira vista, a perda de diversidade cultural pode parecer insignificante, em comparação com mudanças do clima como a elevação do nível do mar, a acidificação do oceano ou a extinção em massa de plantas e animais. Mas assim como a diversidade biofísica aumenta a resiliência de sistemas naturais e age como um tampão contra condicões adversas, a diversidade cultural oferece uma base de conhecimento resiliente para a adaptação e reação aos efeitos da mudança do clima.
A pouco conhecida Declaração Kaua, um documento de duas páginas assinado por 41 dos mais eminentes botanistas do país, afirma que toda cultura “representa um abordagem filosofica e pragmaticamente diferente da natureza”. Cada perda cultural, portanto, diminui o entendimento do mundo e, com isso, a capacidade de adaptação.
Esforços nascentes para a fortificação e a preservação de culturas indígenas estão ganhando impulso na maioria dos continentes. Na África, o Comitê de Coordenação dos Povos Indígenas ajuda uma rede de 150 povos indígenos a criar respostas locais e regionais para a mudança do clima. Na Europa, o Instituto de Estudos de Desenvolvimento está estabelecendo uma Rede de Pesquisa de Conhecimento Indígena e Mudança do Clima, que pretende “examinar em maior profundidade o aprendizado, as trocas e o valor do conhecimento indígena sobre a mudança do clima”, de acordo com Blane Harvey, um dos três diretores do projeto.
Cientistas americanos estão colaborando com líderes inuit para entender as mudancas no Ártico e os potenciais impactos nas vidas nativas. Na Colômbia, Baptiste contou que o Instituto Humboldt recentemente criou uma iniciativa nacional para incluir todos os povos indígenas que têm terras comuns, em um debate amplo sobre a administração da biodiversidade. Grupos indígenas têm pelo menos metade das terras selvagens remanescentes do país. Mesmo assim, Baptiste afirmou que, pelo menos na Colômbia, a maioria das discussões sobre a preservação e disseminação da cultura indígena é pouco mais que oratória política, divorciada da ação concreta.

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Postado no Blog da TV CULTURA
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Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

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