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TIRADENTES 2011: Documentário critica missões católicas no Amazonas.

Remições do Rio Negro
Foto: Divulgação
Heitor Augusto, enviado especial a Tiradentes
Garanto que Remições do Rio Negro é um documentário muito mais atraente do que o título permite supor. Exibido na noite de terça-feira (25/1), o filme recupera e coloca em perspectiva critica as missões salesianas no Amazonas. Qual é a base desse processo que modificou profundamente o que havia restado das culturas indígenas?

Os documentaristas Erlan Souza e Fernanda Bizarria iniciam a busca por essa resposta com o padre Casimiro Béksta, que atuou na região do Alto Rio Negro nos anos 1950. Com forte sotaque lituano, ele relembra suas histórias como o professor dos índios, esforçado em aprender suas línguas, registrar suas músicas e fonemas. Quase um Dom Sebastião dos índios.

O rascunho de um filme exaltação dos missionários e sua função civilizadora se transforma num retrato crítico da posição colonizadora dos padres. O idílico início de Remições do Rio Negro dá lugar a uma gradativa prestação de contas. Aí o filme cresce.

Largamos o padre Casimiro e somos conduzidos aos índios. O pau quebra no filme. Não que o documentário busque a polêmica barata ou uma estrutura “atire no padre”, mas a força dos depoimentos é acachapante. “A nossa cultura virou coisa de passado, não é vivida no nosso presente”, atesta um dos índios.

A surpresa com o que está por vir é a sustentação desse documentário. Quando supomos um filme conciliador, surge uma posição crítica. Quando deduzimos uma iminente confrontação insustentável,Remições do Rio Negro complexifica as relações entre índios e brancos.

Nazismo

Entrevistas contemporâneas são intercaladas com imagens de arquivos, registros das missões dos anos 1920, 50 e um “documentário” de 1980 auxiliam na condução do filme. Coerente com seu ritmo e narrativa, Remições do Rio Negro usa seus instrumentos na hora certa.

Quando já temos um panorama mínimo do que foram as missões salesianas e de como os índios as encararam, Erlan Souza e Fernanda Bizarria encaixam perfeitamente as imagens de arquivo. Parece que estamos de frente a campos de concentração nazista: todos os índios vestem as mesmas roupas, têm o mesmo corte de cabelo e são obrigados aos mesmos gestos. Não passam de uma multidão comandada pelos padres.

Talvez se não estivessem colocadas dentro deste documentário, essas imagens não atingissem uma força além da curiosidade antropológica. Graças à edição, o filme conseguiu ir além.

Índios em Tiradentes

Na seleção Aurora, a mais importante da Mostra de Tiradentes, em 2010, foi exibido o documentário Terras. Uma das personagens, líder indígena, trouxe um pouco da questão abordada em Remições do Rio Negro.

A mais sensível diferença deste para aquele documentário é, além da proposta, o questionamento da própria posição dos cineastas. Vamos até os índios e registramos sua história: somos diferentes dos missionários?

Em teoria, sim, já que se trata de um filme empenhado em reescrever a história oficial. Mas nem por isso essa questão essencial (brancos X índios) deixa de estar presente na realização do filme, ainda mais por que, quando caminhava para um confronto, o longa apresenta o único personagem que respeitava padre Casemiro.

“Tudo que sei de música aprendi com ele”, diz o índio Pedro. Relações humanas são realmente complicadas. Remições do Rio Negro caminha para a mais que justificada crítica às missões, mas esbarra em uma pessoa que deixa tudo ainda mais complicado.

Por isso o documentário foge do comum e surpreende. Quando poderia encerrar, Remições do Rio Negro expande.


*O repórter viajou a convite da organização do festival.

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