'Não precisamos de grandes projetos para Amazônia'

Entrevista com Sydney Possuelo: sertanista
Na avaliação de Possuelo, Mangabeira repetiu discursos que agradam a setores conservadores
da economia dos EUA


Leonencio Nossa, BRASÍLIA

As propostas do ministro Roberto Mangabeira Unger para a Amazônia, como construir aquedutos para o Nordeste, não são vistas como idéias mirabolantes ou inovadoras de um doutor de Harvard. Um dos ativistas que mais conhecem a Amazônia, o sertanista Sydney Possuelo, avalia que ele repete discursos velhos e preconceituosos que agradam a setores conservadores da economia dos Estados Unidos.

"Seu projeto me parece uma coisa importada e totalmente deslocada no contexto nacional", critica. "Queremos um progresso que não destrua a soberania nacional e a floresta. O projeto só legaliza o saque da Amazônia."

Possuelo aproveita para elogiar o trabalho do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira. Para ele, Meira é uma boa surpresa do governo Lula. "Não precisamos de grandes projetos para a Amazônia, mas de pessoas sensíveis que sabem dialogar com índios e ribeirinhos."

Como o senhor avalia a proposta de Mangabeira de educar os índios em mais de uma língua e cultura?

O ministro não falou novidade. Existem programas antigos de educação bilíngüe no Brasil. A maior parte dos povos indígenas fala o português e seu idioma. Há muitas escolas nas aldeias de ensino bilíngüe, isso não é novidade nem uma idéia inovadora para longo prazo.

É possível desenvolver projetos de mineração que garantam distribuição de renda na região?

Toda vez que se pensou na entrada de empresários na floresta se pensou em saques nos territórios indígenas. O projeto do ministro parece ter essa característica. Vamos tirar madeira, água, regulamentar a retirada de minério... Nada disso é novo. A biodiversidade da região continua sendo saqueada e o amazônida continua um ribeirinho carente. O que se quer é usar a Amazônia para produzir soja e criar bois para exportação. A idéia de desenvolvimento do ministro é violenta. Ele diz que a solução não é reverter o desmatamento, mas usar áreas desmatadas para agricultura e pecuária. Tudo me lembra coisas que já estão acontecendo. Agora quer levar as águas "inúteis" da Amazônia. É uma mentalidade preconceituosa, uma visão de fora. Suas idéias são de quem não conhece a floresta, quem acha que o verde significa atraso.

Não há uma "sobra inútil" das águas da região amazônica?
O ministro fala que sobra água inutilmente na Amazônia. Onde já se viu águas inúteis? Essas águas são tão inúteis como os Andes. A floresta não pode ser floresta, não pode cumprir sua função de abrigar diversidade biológica fantástica, onde habitam povos de culturas distintas. Não, a floresta tem de ter resultados econômicos. A Amazônia tem de dar lucro. É uma proposta para enriquecer meia dúzia e nos destruir.

O que incluiria num projeto de governo para a Amazônia?
A saúde. Os índios do Vale do Javari estão passando a fronteira, para serem atendidos por médicos do Peru e da Colômbia, países mais carentes que o Brasil. Está tudo ao Deus-dará. Também discutiria os problemas das cidades amazônicas. O que se deve discutir não é a sobra de água nas cidades, mas sua distribuição e uso.

O senhor continua crítico da política indigenista do governo?

Márcio Meira tem se mostrado sensível. O problema é que o governo destina recursos para várias organizações, mas pouco para a Funai. Eu, porém, estou otimista. Meira é um homem de qualidade, capaz de buscar de forma sensível novos caminhos para a Funai. Ele é de muito diálogo. O governo tem de lhe dar mais apoio.