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Benki Pianko e os saberes da floresta






Líder dos ashaninka, que nos últimos 15 anos se tornaram conhecidos no Brasil e no exterior por seu modelo exemplar de desenvolvimento sustentável, Benki Piyãko decidiu fazer da educação a principal arma na defesa do meio ambiente e dos saberes da floresta. A decisão de Benki e das demais lideranças do povo ashaninka, que vive em um amplo território localizado na fronteira entre o Brasil e o Peru, culminou com a inauguração, em julho passado, do Centro de Formação Aiyoreka Ãntame, que pretende unir os saberes indígenas ancestrais e o conhecimento científico da civilização ocidental no esforço para salvar o homem e o planeta.



A Escola Aiyoreka Ãntame, cujo nome significa, justamente, Saberes da Floresta, está localizada no município de Marechal Thaumaturgo, na confluência dos rios Amônia e Juruá. Com as negociações visando a demarcação de seu território, a Terra Indígena Kampa do rio Amônia, os ashaninka residentes no Brasil abandonaram definitivamente seu tradicional nomadismo e se fixaram em torno da aldeia Apiwtxa. Começava, assim, uma experiência inédita, com a implantação do primeiro sistema de recuperação do território, com a utilização de práticas de manejo sustentável. Desde então, os ashaninka já reflorestaram dezenas de hectares que haviam sido desmatados pelos brancos antes da demarcação de suas terras e, além das roças de mandioca e arroz, plantaram árvores frutíferas regionais, reservando grandes áreas de floresta para o repovoamento das populações de animais silvestres. Em torno das casas da aldeia, as abelhas produzem grandes quantidades de mel e, em açudes, crescem pequenos peixes para, mais tarde, serem espalhados pelo rio Amônia, onde passam a se multiplicar.



Guardiões da floresta



Com sua terra sob a constante ameaça dos madeireiros, em sua maior parte procedentes do Peru, e de caçadores de animais silvestres, Benki cedo se deu conta de que o único caminho para a preservação seria um amplo programa de conscientização e educação, com base na valorização da cultura e dos saberes de seu povo. Para implementar e disseminar esse programa entre o ashaninka e, mais tarde, entre os demais povos indígenas da Amazônia, Benki criou a figura do agente florestal. Os agentes, depois articulados em rede, demonstram aos indígenas os prejuízos causados pelas práticas predatórias e ensinam como utilizar os recursos da floresta de forma sustentável. E os orientam e ajudam na defesa de seus interesses.



O êxito da experiência de Benki fez com que o governo do Acre, que se intitula “governo da floresta’, transformasse os agentes em funcionários, garantindo, assim, a continuidade e a ampliação do trabalho”. Com grande capacidade de articulação, Benki passou a estabelecer contatos com lideranças da Amazônia e com o meio acadêmico, abrindo, assim, caminho para a criação da Escola Aiyoreka Ãntame. Benki faz questão de salientar que a escola “é fruto da experiência de nosso povo com a sustentabilidade e atuará como centro de formação, educação, intercâmbio e difusão de práticas de manejo sustentável”. Além de formar jovens e adultos da região em novas formas de manejo da floresta e dos recursos naturais, a Aiyoreka Ãntame tem por objetivo ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o equilíbrio sustentável dos recursos naturais e disseminá-los para outras etnias, no Brasil e no exterior.



Benki já ampliou o seu programa de educação e conscientização para mais de 20 territórios indígenas, onde os agentes florestais implementam o modelo construído elaborado pelos ashaninka: a elaboração de um projeto de pesquisa para analisar as riquezas do território e, em seguida, a criação de alternativas de sustentabilidade econômica e ambiental com vistas à autonomia de seus habitantes. Benki promove também programas para divulgar a cultura de seu povo no mundo dos brancos, como o intercâmbio que reúne jovens ashaninka com jovens de diversas regiões do Brasil.



O Centro de Formação Aiyoreka Ãntame está aberto a instituições e interessados para seminários, intercâmbio e oficinas com projetos de educação, cultura e meio ambiente. O curso padrão a ser ministrado aos habitantes da região terá uma duração de 20 a 40 dias, aproximadamente, com aulas e oficinas sobre coleta e tratamento de sementes, técnicas de apicultura, criação e preservação de peixes e quelônios, manuseio de ovos de tartaruga e sua proteção da ação de predadores e construção de açudes, entre outras.



Um dos objetivos desse projeto é fortalecer os conhecimentos tradicionais, para que a população tenha uma nova visão da floresta. Uma visão que inclua saber como usar os recursos naturais sem agredir o meio ambiente e a natureza, de forma que esse saber possa ser reconhecido como ciência de conhecimentos práticos, recuperando terras, florestas e animais e cuidando da biodiversidade em geral – diz Benki.

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Daniel Munduruku, índio e escritor

Postado no Blog da TV CULTURA
28/07/2009 | 18h00 | Mariana Del Grande

Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

Em breve a Loja…

Garimpo invade bacia do Tapajós

por


Os riscos apontados para a bacia do Tapajós deixam claro que a região amazônica, apesar do aumento nos índices de queda no desmatamento, continua a ser tratada como o grande almoxarifado de recursos naturais do planeta. As ações planejadas para a maior bacia hidrográfica do mundo não se restringem a planos de construção de uma sequência de usinas rios adentro. Bastou o governo informar que parte das terras que pertenciam às unidades de conservação da Amazônia havia sido desvinculada das áreas protegidas para que se tornassem alvo de ações de garimpo e extrativismo ilegal. A reportagem é de André Borges e publicada pelo jornal Valor, 26-07-2012. A pressão cresceu e o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) tem procurado controlar a situação e deter a entrada de pessoas na região, mas seu poder de atuação ficou reduzido, porque está restrito às áreas legalmente protegidas. “Com a desafetação (redução) das áreas, muita gente está se mexendo para…