4 de abr de 2016

QUAL GOLPE VOCÊ ESCOLHERIA?

Estamos numa época difícil. O tempo todo estão querendo que a gente escolha um lado para ficar, para defender ou para se posicionar. Parece uma guerra. Talvez seja uma guerra mesmo. Pois bem, para não dizer que não falei das flores, eis o meu.

QUAL GOLPE VOCÊ ESCOLHERIA?
(Daniel Munduruku)

N
ão falo em nome dos povos indígenas. Nunca falei. Algumas pessoas até me cobraram isso convidando-me para “representar” os indígenas em eventos, passeatas, cultos ecumênicos, jogos de futebol. Nunca aceitei. Não sou “o índio de plantão” para satisfazer curiosidades. Digo sempre – e repito aqui – que não tenho legitimidade para falar em nome de outrem. Aliás, como diriam pensadores mais célebres, não vejo dignidade em falar por quem quer que seja.
Dito isso, gostaria de dizer que sou contra o golpe. Se depender de mim, não vai ter golpe. Digo essas palavras que saem da minha boca (ou da minha escrita). São minhas palavras e não representam outras tantas palavras oriundas de pessoas que militam no movimento indígena que podem pensar diferente (e este é um direito que defenderei sempre).
Nossos povos indígenas (aqui me coloco como parte dessa grande população originária) têm sofrido muitos golpes ao longo da história. Foram golpes vindos da direita ou da esquerda, do centro ou da periferia, de dentro e de fora. Essa gente sempre foi a parcela da população brasileira (ao menos era assim que uns e outros a tratam de acordo com seus interesses) mais atingida pelas loucuras desenvolvimentistas que assolaram o país ao longo de sua trajetória histórica. Apesar de tantos golpes essa gente resistiu e continua resistindo, ou Re-existindo (para usar uma expressão cunhada por Gustavo Gurgel do Amaral, em recente defesa de doutorado): foi assim com a crueldade dos primeiros, segundos, terceiros e quartos colonizadores; foi assim com a imposição eclesiástica; foi assim com a sanha militar; foi assim com a política de privatizações e é assim com a atual megalomaníaca empreitada das hidroelétricas ou do agronegócio. Nossa gente viveu cada uma das investidas com rara coragem. Talvez tenha sido o único grupo social que sempre defendeu verdadeiramente essa terra da qual nos orgulhamos pertencer.
Foram muitos golpes. Para não cansar sua leitura, meu caro leitor ou cara leitora, vou pular a parte cansativa que é descrever como se deu a estratégia de massacre e também a estratégia de sobrevivência. O que importa aqui é dizer qual dos golpes eu prefiro escolher ou evitar pensando nos acontecimentos do momento, pois na raiz disso tudo está uma volta ao passado que nem sempre foi muito generoso com nossa gente.
Lá no passado foi enterrada em nosso coração a espada acompanhada de uma cruz. Um destruiu nosso corpo o outro nossa alma;
Lá no passado impuseram leis que nos empurraram para lugares que não eram tradicionais e nos obrigaram a aprender uma cultura que não era a nossa;
Lá no passado disseram que não éramos nada, ninguém e roubaram nossa terra, humilharam nosso corpo e jogaram nossa autoestima na lama;
Lá no passado escravizaram nossos corpos, feriram nossa dignidade e impuseram uma identidade;
Lá no passado nos enganaram e colonizaram nosso pensamento agredindo toda nossa dignidade afirmando que não éramos legítimos e que precisávamos deixar de ser quem éramos para sermos alguém.
Infelizmente tudo isso tem se repetido até nossos dias. Passado e presente estão mais uma vez se encontrando, nos visitando para nos lembrar que somos seres cíclicos. No entanto, tem uma novidade nessa visita: o passado nos encontra mais sólidos, mais fortes, mais dignos. Hoje estamos mais conscientes de nosso papel porque o presente nos oferece algo que o passado não nos deu: autonomia, liberdade de expressão, protagonismo. É, talvez, por isso que não aceito este novo golpe que está sendo engendrado no coração do Brasil porque atinge diretamente nosso direito à livre expressão, nossos direitos democraticamente conquistados.
Afirmo aqui que para este golpe eu digo não, como já dissemos para tantos outros. Os outros golpes nós absorvemos e nos reinventamos porque esses atingiram nossos corpos e nos calaram com a força e brutalidade. Apesar do sofrimento que ainda experimentamos por conta de políticas equivocadas ou pela traição que o atual governo praticou contra nossa gente, o que está se descortinando no horizonte é uma volta ao passado triste em que não podíamos falar, nos manifestar.
Queremos nosso direito de manifestação garantido. Quero a democracia garantida. Quero um país sem corrupção. Quero um Brasil forte. Quero, sobretudo, um país que aceite sua sociobiodiversidade. Quero um povo descolonizado em seu pensamento, capaz de perceber quando está sendo manipulado por grupos de interesses. Um povo que saiba perceber que quando chega ao nível de aceitar a violência contra qualquer cidadão que compartilha a mesma terra, o mesmo chão, está dando um tiro no próprio pé e abrindo mão de sua liberdade.
Não. Não compactuo com este governo e suas tramoias. Não compactuo com o descuido que teve com seu povo. Não aceito suas traições e o abandono de seus ideais utópicos. Não morro de amores por suas ações contra a natureza e o meio ambiente. Não darei meu voto para gente ou partido assim. Nunca mais. Ainda assim defendo o sistema que o elegeu. Defendo a legalidade do voto popular. Defendo a imparcialidade da justiça na investigação de todo e qualquer crime relacionado às coisas públicas. Defendo o direito de termos direitos e o direito de sermos direitos.
É contra este golpe que me insurjo. Este golpe eu escolho combater para poder garantir meu direito de lutar contra as injustiças desse ou de outro governo; para garantir os direitos sociais conseguidos após muita luta; para garantir meu direito de lutar por uma educação efetiva e transformadora; para garantir um reforma agrária de fato em que as pessoas tenham direito à terra; para não perder o direito ao protagonismo que já conquistamos; para poder lutar por um país que seja realmente democrático; para evitar um discurso de ódio contra as classes e movimentos sociais.
Minhas convicções dizem que os 54 milhões de brasileiros que escolheram este governo precisam ser respeitados e ainda que 53 milhões possam ter dito não, a democracia se faz com a maioria. Por respeito a esta maioria – e a despeito de todas as ressalvas e desconfianças – eu sou contra o impeachment da presidenta Dilma.

Não pretendo que você, meu amigo leitor e minha amiga leitora, pense como eu. Desejo apenas que pense.
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