18 de fev de 2016

UM FURO NO FUTURO

UM FURO NO FUTURO
(Ao amigo Justino Sarmento Rezende)

Tenho verdadeira fascinação com o tempo. Gosto de pensar nele, imaginá-lo, entendê-lo nas suas mais complexas variações.
Às vezes me pego observando as pessoas apenas para vê-las “usando” seu tempo. Sento-me na praça de minha pequena cidade para olhar as crianças, os jovens, os velhos que jogam carta. Fico ali apreciando, ou melhor, exercitando minha imaginação tentando encontrar uma pequena centelha de explicação para compreender o tempo que passa naquele exato momento em que estou ali. Apenas o vento que bate nas árvores – quando bate – me dá a sensação de concretude. De resto, tudo é pura imaginação.
É provável que alguém esteja se perguntando o motivo pelo qual faço o que faço. Não saberia respondê-lo de maneira objetiva. Acho que ninguém jamais irá sabê-lo.
Particularmente aprendi a olhar o tempo como algo real apenas no exato momento em que estou escrevendo este texto. Sei também que esta minha ação é fruto de uma história passada, inventividade humana que dominou mecanismos, instrumentos, fórmulas para oferecer-me neste meu momento a máquina que está à minha frente recebendo meus pensamentos. Sim. A verdade é que meu pensamento pode ficar registrado no texto que escrevo e compartilho com quem o lê. Tenho, portanto, diante de mim a memória que traz consigo o passado e o agora que me permite, inclusive, debruçar-me sobre o tempo que já fez parte da saga de meus ancestrais.
A questão que me coloco no momento, no entanto, é como juntar o passado ao presente e fazer com que essa mistura de tempo me permita, por um breve instante, antever um tempo que não tenho, mais conhecido como futuro? É que me parece que é na fricção entre os tempos que se abre uma pequena brecha que nos permite perceber a emersão do tempo vindouro. Talvez seja a isso que os religiosos chamam profecia; os economistas, especulação; os artistas, inspiração; os esotéricos, transformação; os jovens, oportunidade.
Eu, que não sou nenhum desses citados, acho que o mundo está na curva do espiral. Tem algo novo no horizonte que está se descortinando justamente porque o passado e o presente estão novamente no seu momento de fricção nos permitindo sentir algo novo. É como se um furo no futuro estivesse se abrindo nos oferecendo a oportunidade de olhar para o que está por vir. E o que está por vir?
Se fosse um profeta diria que é tempo de conversão; se economista, de economizar; se artista, de profetizar; se esotérico, de silenciar; se jovem, de criar. Como sou apenas um filho de selvagens, como reza a lenda, permaneço na mais completa ignorância permitindo que o tempo faça em mim marcas capazes de orgulhar meus ancestrais.

Sei que alguém poderá dizer que estou louco. Não estou louco, nem bêbado, nem drogado. Tampouco estou lúcido (com luz). Conheço, no entanto, um louco que me inspirou este texto. Ele era maluco porque conseguia antever as coisas dentro de seu universo transloucado. É dele a mais completa definição do tempo que eu conheço. É uma definição que escapa à religião e à ciência; ao esoterismo e à economia. É pura intuição. Coisa de maluco beleza: “O hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar” (Raul Seixas).
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