Das Coisas que aprendi - Entrevista com Daniel Munduruku



8 DE MARÇO DE 2015

livroDaniel Munduruku é um nome que se destaca dentro da Literatura Indígena brasileira e é uma voz de destaque não só para os povos indígenas tradicionais do Brasil, mas do mundo todo; pois suas palavras não se restringem a questões exclusivas do povo Munduruku, elas expressam uma essência humana que vem se perdendo na proporção em que a “cultura” capitalista ganha espaço.


Em sua nova obra Das Coisas que Aprendi, o autor apresenta ao leitor suas inquietações e impressões sobre o mundo em que vivemos, ele é composto por textos inspirados por essa essência humana da qual necessitamos para dar sentido ao ato de existir. Como definiu o autor, “O livro é um passeio pela alma ancestral”.
Apresentamos uma entrevista concedida, gentilmente, por Daniel Munduruku; em que ele fala sobre o seu novo livro, sobre o seu “chamado” para a Literatura e, brilhantemente, nos leva a refletir sobre a importância dos povos ancestrais para toda a humanidade.
PINDORAMA – Você já comentou em palestras e em livros que, na infância, você já teve vergonha de ser “índio”; e explica todo o contexto social que o levava a sofrer com a discriminação e com o descaso que a sociedade brasileira demonstra com os povos indígenas. Mas algo despertou em você e o levou a compreender a riqueza guardada pelos povos que ainda mantêm as tradições antigas das matas e florestas da nossa terra. Fale um pouco sobre essa experiência e o que o inspirou a se tornar um autor da Literatura Indígena.
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Foto: ©MoisésMoraes. Fonte: Revista de História.com.br
DANIEL – Realmente não creio que tenha tido um começo consciente ou que eu tenha ouvido uma voz interior que me dissesse que eu deveria seguir por este caminho. Sou um tanto cético para estas coisas de conspiração cósmica para a gente poder estar aqui ou ali. Não sou muito bom em explicar o inexplicável. Sinto que sempre estive aberto para as coisas do universo e ele recompensou minha atenção possibilitando que eu pudesse adentrar um mundo que não era meu.
Quando criança nunca pude imaginar que tornar-se escritor era uma opção de vida. É uma falha minha, talvez. Bem depois descobri que a escrita é uma forma ousada de dizer algo. Ela é tão ousada que é uma roupa que não serve pra todo mundo. Tem gente que se engana achando que é escritor apenas porque escreve. Semanticamente talvez seja isso mesmo, mas na prática não é assim. O mundo da escrita é para iluminados, sim, especialmente porque o escritor precisa encontrar seu caminho. Não basta, portanto, ter talento. O talento não te garante um caminho, não te garante a entrada no mundo da literatura.
Digo isso para afirmar que não tenho talento para escrita. Aprendi, com o passar do tempo, que a escrita é como uma possessão transcendental. A escrita é como um espírito livre que baixa em quem quiser, quando quiser e para dizer o que quiser. Tenho impressão que foi assim que aconteceu comigo. Durante anos eu neguei o dom da escrita que carregava comigo por acreditar que eu não podia ser um felizardo. Isso acontecia comigo porque desde sempre ouvi dizer que nosso povo é atrasado, está fora do tempo ou é ignorante nas coisas da modernidade. Crescer ouvindo isso nos coloca muitas dúvidas sobre nossa real capacidade de interferir no mundo. Mesmo me formando em filosofia e tendo passado por muitas etapas da formação superior, achava que tudo não passava de ilusão. Depois que já havia escrito mais de 20 livros é que resolvi aceitar a escrita como meu talento maior. Aceita essa etapa eu percebi que tudo ficou mais fácil e suave. Hoje tenho a alegria de saber que ajudei a formar um grande número de autores indígenas; de ter organizado, por 12 anos consecutivos, o encontro de escritores e artistas indígenas; ter influenciado a mudança de atitude de muitos educadores; ter promovido a escrita indígena à literatura; ter ajudado as universidades a olharem para os indígenas também como autores e produtores de literatura; ter inspirado crianças e jovens brasileiros a escreverem sua própria história; ter incentivado a leitura literária e proporcionado o contato de centenas de leitores com os autores preferidos. Acho que sou uma pessoa realizada.
PINDORAMA – Quem acompanha o seu trabalho percebe que a poesia está em toda a sua obra, o que garante aos seus textos uma linguagem que fala direto com a alma do leitor. O seu novo livro, Das coisas que aprendi, parece querer levar o leitor a um universo mais profundo ainda, tanto que nele foram incluídas imagens, do fotógrafo Antonio Carlos Ferreira Banavita, o que torna a experiência com o texto ainda mais íntima, pois a imagem amplia a sua compreensão. Fale um pouco sobre o processo de idealização da obra. Como surgiu a inspiração para os textos e como surgiu a ideia de incluir as imagens?
DANIEL – Este mais recente trabalho é fruto de um sonho que acalento há algum tempo. Não é incomum as pessoas me perguntarem onde arranjo a minha aparente tranquilidade (coisas que elas percebem como parte de mim); ou porque falo com calma, lentamente, sem parecer ter pressa e desespero. De onde tiro minhas inspirações ou de onde nascem as palavras que escrevo. Enfim, são muitas as questões que me são apresentadas que me revelam que as pessoas estão sedentas por alguma resposta. Foi o que fiz nesse livro: respondi essas indagações. Nele digo no que acredito, como acredito no que acredito e como procuro viver as coisas em que acredito. Escrevi para mim mesmo embora tenha pensado nas perguntas das pessoas. Eu realmente quis fazer um livro de autoajuda. Quis ajudar as pessoas a olharem para dentro de si e encontrarem as respostas que precisam. Não é um livro de certezas, mas de indagações, de novas perguntas. Veja que alguns dos textos já estavam prontos há muito tempo, os quais já partilhei no blog ou no facebook. Outros textos, preparei especialmente para o livro quando me ocorreu a ideia de fazê-lo. A ideia de rechear de imagens veio depois na medida em que ia ficando pronto. Já acalentava fazer um livro com fotografias e texto. Quando vi os textos tomando forma achei que seria o momento certo para fazer o livro. Convidei, então, meu amigo Banavita para escolher as fotos após a leitura do texto. Ele o fez com muita maestria.
Vale lembrar que esse é um livro construído a muitas mãos, pois foi escrito por mim, ilustrado poeticamente pelas imagens do Banavita e complementado soberbamente pelo tino artístico e empresarial da Vera Martins, proprietária de uma rede de restaurantes e lojas que fornece alimento saudável. Ela criou, como braço de difusão literária, o Grão Literário, um selo que pretende publicar livros que tragam uma mensagem positiva para o corpo e o espírito das pessoas. A parceria deu super certo e pensamos, inclusive, fazer mais coisas juntos.
PINDORAMA – Seu currículo é extenso. Você é graduado em Filosofia, História e Psicologia; tem doutorado em Educação e pós-doutorado em Literatura; já ganhou muitos prêmios e já viajou por vários países. Dessa forma, embora tenha recebido uma educação na Cultura Munduruku, seu contato com a cultura ocidental é muito grande e, mesmo assim, quem acompanha o seu trabalho pode perceber que o mundo capitalista e o conhecimento acadêmico não lhe fizeram desprezar a Cultura Ancestral, mas sim o levou a valorizar ainda mais essa Cultura. Qual a influência da Sabedoria Ancestral na obra Das coisas que aprendi? O que o leitor pode esperar de Cultura Indígena nessa obra?
DANIEL – O livro é um passeio pela alma ancestral. Gosto de pensar assim. Especialmente porque não é uma obra “de índio”, mas um manual de sobrevivência nessa selva maluca que são as cidades e seus problemas. O livro tem um apelo universal e junta a ancestralidade presente no mundo. Por acaso o autor pertence a um povo indígena brasileiro, mas o que está ali contido não é propriedade desse autor, mas do universo. Apenas o estilo de escrever é meu; a reflexão é minha; as inquietações são minhas. No entanto, o que está ali depositado está no mundo e quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.
PINDORAMA – Na sua opinião como educador, qual seria a contribuição da Cultura Indígena para a sociedade brasileira hoje?
Tenho a impressão que esta pergunta é apenas retórica. Educação é a estratégia usada por uma determinada cultura para transmitir os conhecimentos que acha fundamentais para a formação da identidade das suas crianças. Na verdade, a sociedade brasileira aprende os elementos que são fundamentais para se manter enquanto cultura. A escola vai transmitir estes conhecimentos baseada numa tradição. Nenhuma sociedade busca no conhecimento de uma terceira, motivos para se transformar. O Brasil não olha para as sociedades indígenas como modelo identitário. A história mostra que foi preciso menosprezar a sabedoria nativa para que o país ganhasse sua própria identidade social. Claro que isso foi uma bobagem histórica que o Brasil procura rever, mas é preciso que se diga com todas as letras que as sociedades indígenas são povos que buscam sua sobrevivência de forma autônoma porque possui todos os sistemas sociais ativos e capazes de responder todos os seus dilemas. Da mesma maneira que as pessoas acham que o Brasil não precisa dos indígenas, penso que é preciso dizer que as sociedades indígenas poderiam viver muito bem sem o Brasil. Isso hoje já não é possível, reconheço. Quando, no entanto, o Brasil olhar para os indígenas com o espírito da diferença e da autonomia estará preparado para receber o que estes povos têm para ensinar. O que quero dizer é que sem um verdadeiro olhar de tolerância e respeito – acreditando de fato que essas populações não são inúteis – é que o país terá amadurecido para aceitar outros saberes. Por enquanto, o Brasil é um adolescente que não consegue ouvir, aceitar e respeitar os mais velhos.
PINDORAMA – Atualmente a classe artística parece começar a despertar para o fato de que, salvo algumas exceções, a sociedade brasileira tem sangue indígena; e esse “despertar” está levando muita gente a buscar mais informações sobre a Cultura e a História Ancestral. O resultado dessa busca tem aparecido em trabalhos de diversas áreas, como a música, a dança, as artes visuais e, principalmente, a Literatura. A produção dos trabalhos dos autores da Literatura Indígena tem contribuído muito para o desenvolvimento dessas obras. Qual é a sua opinião sobre esse processo e o que você considera ser a razão dessa busca por nossa raiz indígena?
DANIEL – Minha impressão é que tudo isso esteve presente no ethos brasileiro desde sempre. O brasileiro sabe o que ele é. Aceitar-se isso tem sido mais difícil. A juventude consegue, em alguns momentos, abstrair e mergulhar em sua própria identidade ancestral. É o que imagino estar acontecendo agora quando percebemos novas linguagens tomando forma seja através da música, da arte, da literatura ou das manifestações culturais. É uma busca por algo que realmente represente o país em sua diversidade cultural. Não a toa muitas músicas atuais cantam a africanidade brasileira ou a indianidade nacional. É um passo importante para a construção da identidade. Essa construção quer considerar as diferenças. Ela tem que se construir na diferença. Se engana quem acha que o brasileiro é uma mistura cultural. Eu realmente acho que são povos diferentes que precisam interagir. Aqui não falo em mistura, mas em diferenças que convivem. As pessoas precisam saber que há indígenas, negros, brancos, asiáticos, etc. formando a linda nação brasileira. Usando uma imagem piegas: o arco-íris é um, mas carrega consigo muitas cores. Penso o Brasil como um arco-íris.
PINDORAMA – Caso queira, deixe algumas considerações para os leitores do blog.
DANIEL – Nosso país é constituído de uma grande diversidade de povos indígenas. A palavra Índio, usada e abusada ao longo da história, não consegue congregar toda essa diversidade cultural, linguística e social. O Brasil precisa conhecer melhor sua diversidade para poder aprender a conviver com ela. Isso é fundamental para que a gente construa uma nação realmente una e coletiva. O que eu trago para meus leitores é sempre a possibilidade de encontrarmos novos caminhos para a convivência. Que seja uma convivência que não negue um ser a favor do outro. Que não segregue. Que não renegue e, principalmente, que não negue ao outro o direito de ser.
Tem sido esta minha principal razão de ser e viver. Juntem-se aos muitos outros que estamos nesta batalha pela sobrevivência física e espiritual de toda a diversidade.
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