28 de mar de 2013

Páscoa é Passagem...



Lembro que o primeiro texto que tive coragem de mostrar para meu professor de português foi sobre a páscoa. Eu tinha por volta de 16 anos de idade e fazia o primeiro ano colegial (ensino médio hoje).
Vivendo num ambiente extremamente religioso e imbuído do espírito pascal que a escola me proporcionava, redigi uma redação onde colocava o que eu considerava o verdadeiro sentido da minha fé juvenil: conversão, mudança, transformação. Falei sobre isso com a desenvoltura de um teólogo e tomei coragem de apresentar ao saudoso professor Benedito, homem com espírito de mestre. Ele tomou meu texto nas mãos e leu sem esboçar nenhuma reação que demonstrasse gostar ou desgostar do que estava escrito. Ao final ele fitou-me nos olhos e disse sem rodeios: - Vá reproduzir no estêncil a álcool e passe cópias para seus colegas de classe. Seu texto é muito emocionante!
Não soube o que dizer. Fiquei numa felicidade tamanha! Não consegui esconder meu contentamento, dei um forte abraço no professor e corri para o local onde ficava o mimeógrafo e as máquinas datilográficas. Eu queria ver meu texto pronto. No dia seguinte entreguei para que cada colega de classe pudesse tê-lo em mãos na hora da leitura conjunta. Não lembro muito qual foi a reação da classe e, confesso, não me importava nem um pouco. A felicidade que sentia me enchia de satisfação e os olhos de meu professor marejando de emoção não saiam de minha cabeça.
Depois disso não recordo de ter escrito qualquer texto que tenha valido a pena enquanto durou minha vida escolar. O certo é que o olhar imperceptível de meu professor me fez um bem danado. Nunca disse isso a ele, mas sua atitude arrancou de mim o medo de escrever e, o que é mais difícil, mostrar a outras pessoas. Perdi o receio delas não gostarem ou criticarem meu estilo.
Aquela Páscoa foi para mim um momento marcante. Talvez tenha sido um sinal do que viria acontecer depois. Talvez tenha sido uma provocação divina para mim. Não sei ao certo e nunca irei saber. Talvez tenha sido apenas a inspiração necessária para iniciar um caminho que sequer sabia qual era. Não importa. O fato é que comecei a gostar da Páscoa pelo que ela representava para minha fé: um momento de passagem da morte para a vida; do sofrimento para a alegria; da angústia para a liberdade; da solidão para a glória. Tudo isso passou a repercutir dentro de mim com a mesma certeza do olhar do professor que me fizera crer na minha capacidade de me comunicar de forma escrita. Nesse dia, eu também ressuscitei. E passei a mirar os detalhes. E a notar as coincidências da vida. E a me abrir para o desconhecido. E a dizer sim sempre que o não era mais forte.
Desde então procuro não perder a linda celebração que antecede o domingo pascal. É um ritual que enaltece toda a história da fé cristã. É uma celebração que emociona porque me coloca em sintonia com o princípio de tudo. Penso que é a mais indígena de todas as celebrações da igreja, pois ela canta a história de uma pessoa que viveu plena e radicalmente sua humanidade. No dizer de Leonardo Boff: “Jesus era tão humano que só podia ser Deus”.
Feliz Páscoa a todos nós!
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