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Literatura indígena e meio ambiente Rumo a Rio+20

O ano de 2012 me traz à lembrança um acontecimento que marcou definitivamente a relação do povo brasileiro com as questões ambientais: a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, mais conhecida como ECO–92. Foi uma tentativa de encontrar caminhos para que o desenvolvimento pretendido pelos países não tomasse o rumo da destruição. Foram dias intensos, de muitos debates, protestos, manifestações pró e contra o desenvolvimento econômico.
A sociedade brasileira vivia um momento especial: a aprovação da nova carta magna de 1988 trouxe muitas esperanças e acenava com mudanças sensíveis no processo histórico. O movimento social estava atuando de modo intenso, pautando agendas ambientais e mobilizando a sociedade a participar das grandes transformações que o Brasil e o mundo pediam.
As populações indígenas também viveram de modo intenso esse momento histórico. Capitaneados por líderes como Marcos Terena, Ailton Krenak, Alvaro Tukano, Raoni e o saudoso Mário Juruna, e apoiados por organizações não-governamentais do Brasil e do mundo, puderam participar maciçamente de eventos paralelos onde se discutia o papel dos saberes ancestrais na retomada de uma visão holística capaz de salvar o planeta e, consequentemente, os seres humanos, seus principais degradadores.
Foi nessa época que primeiro ouvi falar da Carta da Terra. Fiquei curioso e também quis participar, aproveitando meu recente ingresso no programa de mestrado em Antropologia Social na Universidade de São Paulo. Era um prato cheio para um pesquisador ávido de novas emoções. Não me arrependi. Foram dias muito ricos, de contatos saudáveis com líderes tradicionais – como Davi Yanomami –, que me colocaram, para sempre, no contexto das lutas do movimento indígena brasileiro.
Confesso que não tinha ideia do que poderia ser um evento desse porte e ainda que carregasse comigo alguns pensamentos trazidos do bojo de minha comunidade, me surpreendi com a capacidade organizacional, com nível da participação, com o grau de comprometimento que meus parentes indígenas demonstraram durante aqueles dias. Ainda que a grande imprensa procurasse explorar acontecimentos negativos – foi quando veio a público a suspeita que o grande líder Paulinho Paiakan havia estuprado uma funcionária – o que mais eu presenciava era uma sensação de pertencimento a essa grande nação brasileira. Meu orgulho cresceu e meu compromisso com a causa também.
Em 2002 já houve outro acontecimento importante: a Rio+10. Infelizmente o impacto não foi o mesmo. Nem as articulações aconteceram no mesmo nível. Alias, em nenhum outro momento repetiu-se a fenomenal Rio-92, a maior conferência jamais realizada e que culminou com grandes transformações na forma de encarar os recursos naturais disponíveis no planeta. Hoje, ainda vivemos suas repercussões e grande parte do que conhecemos sobre o meio ambiente é fruto das resoluções que foram tomadas vinte anos atrás. Estados nacionais foram motivados a mudar suas legislações; instituições precisaram rever suas metas; indústrias tiveram que se adequar às novas proposições; foram criados programas e políticas públicas a partir da Carta da Terra; enfim, o mundo não foi mais o mesmo após a ECO-92.

logo Rio + 20

Agora, em 2012, o Rio de Janeiro irá sediar a RIO+20. Os países membros irão reunir-se novamente para as rodadas de negociações na tentativa de encontrar termos de convivência possível para que o Planeta Terra, nossa Nave-Mãe, tenha uma sobrevida capaz de sustentar a existência humana por mais algum tempo. O resultado, ninguém sabe. Há muitos entraves que podem brecar o avanço nas negociações; há muita força contrária à redução do efeito estufa, principal ameaça ao clima do planeta; há muitos interesses contrários à preservação das florestas ou da biodiversidade; há muita disposição das indústrias de alimento e farmacêuticas no sentido de não garantir o direito dos detentores dos conhecimentos tradicionais. Portanto, as forças irão continuar se digladiando para defender seus interesses.
E o que tem a literatura com tudo isso?
Tem tudo. A ECO-92 nos ensinou que fazemos parte de uma Grande Teia que se une ao infinito ainda não desvendado. Lembrou-nos que somos responsáveis pelo que pode acontecer a esse nosso planetinha e que cada pessoa pode dar sua contribuição – mínima que seja – para que a coisa não degringole de vez. Desde já começamos a assumir uma nova postura ambiental que passa pela mudança de comportamento e pela aceitação de que “não somos donos da teia da vida, mas apenas um de seus fios” (Chefe Seattle). Essa compreensão levou ao surgimento de muitos livros que indicam comportamentos mais saudáveis para nossas crianças e jovens; gerou uma legislação nacional sobre o meio ambiente; criou nas instituições de ensino a obrigatoriedade de se trabalhar o tema ambiental não mais separado das outras disciplinas e ordenou, juridicamente, o modus operandi para a proteção do ambiente, comum a todos nós.
Digo, com alguma certeza, que esse evento universal foi responsável, também, pelo surgimento de uma literatura indígena, uma vez que motivou jovens nativos a colocarem no papel sua própria compreensão de mundo, de natureza, de compromisso com um universo que não pertence a ninguém, porque é de todos e para todos. Isso fica visível na produção literária que os indígenas estão fazendo, nas ações do movimento indígena organizado, na crescente produção cinematográfica de indígenas empreendedores, nas discussões cada vez mais qualificadas sobre o fundamental papel das populações indígenas como guardiães do tesouro ambiental que ainda existe nesse país (e não pela participação dos monocultores que detonam o ambiente como propriedade privada).
Por tudo isso, estamos pensando nossas ações baseados na reunião da RIO+20 que irá acontecer em junho. O 9º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas – que acontecerá durante o Salão FNLIJ de Livros para Crianças e Jovens – terá como tema o meio ambiente e sua relação com a literatura. Almejamos criar uma caravana literária que faça chegar o tema às escolas brasileiras. Queremos provocar as universidades a unir pensamentos; desejamos participar de feiras internacionais para colocarmos o modo de pensar de nossos povos. É nossa modesta contribuição para alimentar, ainda mais, a visão de que podemos – se unirmos forças – manter o céu suspenso por longo tempo ainda.
Quem vem conosco?

Daniel Munduruku


Matéria Publicada na Revista Emília -  Leitura e literatura para crianças e jovens 
http://www.revistaemilia.com.br/mostra.php?id=141

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Postado no Blog da TV CULTURA
28/07/2009 | 18h00 | Mariana Del Grande

Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

Em breve a Loja…