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Minha Prece de Natal

Deus-Mãe não despreza a força da/o mulher/homem que reza
 Daniel Munduruku
Quando eu era criança e corria pelado pela aldeia não sabia o que era natal. Não sabia o que poderiam ser aqueles dias corridos, coloridos e felizes que as pessoas das grandes cidades viviam.
Na escola meus colegas sempre falavam que era uma época de pedir presente para um certo pai de todos – que se chamava Noel – e que andava pelo mundo todo entregando presentes para os bons meninos e meninas. Foi nessa época que ouvi a primeira vez que alguém pode ser bom ou ruim.
Sempre fui ruim. Ao menos pensava assim, pois o tal pai de todos quase nada deixava para mim. Mas eu não ficava triste não. Corria para o mato e fabricava meus próprios brinquedos na tentativa de ser um bom menino para o ano vindouro. Cresci acreditando no pai de todos da mesma forma que acreditava na mula-sem-cabeça, no curupira e na matinta-perera. Ele fazia parte do meu imaginário e acreditava que ele vivia – apesar de ser feio por parecer com um poodle – no meio da mata com as outras entidades da floresta.
Depois que fiquei grande – e já vivendo na cidade – descobri que o Pai de todos era, na verdade, um grande sentimento de solidariedade que percorria a todos na época de fim de ano. Esse sentimento era propagado pela igreja através das grandes celebrações litúrgicas que preparavam o advento do Menino, filho do Pai de Todos. Foi nessa época que me senti irmão do mundo, de todos os homens e mulheres do mundo. Era como eu me sentia: membro de uma grande família. E uma família sempre celebra com os seus. E era assim que entendia as festas do final de ano. Havia troca de presentes, símbolos do kairós – o tempo que se chama hoje. Havia a partilha do pão, do abraço, do afeto, do carinho. Ágape, amor que não cabe em si. Amor que se entrega, como o menino-deus que veio cumprir sua missão.
Hoje, mais curtido pelo tempo indelével, continuo acreditando na magia que se instaura no coração do ser humano. Do mesmo jeito que creio na existência do curupira, da matinta-perera, na boiúna ou no negrinho do pastoreio. Creio na necessidade do encontro, do encanto e da partilha. Creio no poder do silêncio e da reza, do mesmo jeito que creio nos passos das danças sagradas, na coreografia da natureza e no bailar silencioso dos astros e estrelas que estão lá ainda que não estejam mais.
Confesso, porém, que está difícil resistir à tentação de “jogar a toalha”, “entregar o jogo” e virar as costas ao tabuleiro. Nessas horas – e elas estão cada vez mais constantes – só me resta ajoelhar-me diante do Filho-menino e dizer o texto-testemunho de Tania, minha esposa há tantos anos:

Minha prece
(Tania Mara de Aquino Costa)
Querida Senhora
Venho com toda a minha humanidade
Dizer que estou aqui
Não sei bem o porquê.
Sinto que venho só pela Senhora
E por seu filho querido
Não sei o que pedir
Por isso não vou pedir nada
Apenas espero sua intercessão
Junto ao seu filho
Ele sabe do que preciso, portanto saberá o que fazer por mim.

Sabe, minha Senhora,
Eu estou num estado sem vontade
Uma preguiça no sentir, no ser.
Creio que estou em estado de choque
Um estado que me paralisa.
Só venho aqui porque, apesar de tudo,
Minha alma sente saudades suas e de seu filho
Mesmo assim, não tenho muito a dizer.
Por isso, digo apenas:
Que estou aqui!

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