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MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS

O dono dos sonhos adormecido

Sangradouro, anos 1980

SÉRGIO MEDEIROS

Nos anos 1980, quando eu era aluno das Faculdades Unidas Católicas, em Campo Grande, ouvi falar pela primeira vez de Jerônimo Tsawé, um índio xavante que teria 100 anos e gozava de grande prestígio na sua aldeia por ser uma espécie de profeta. Devo a descoberta aos padres salesianos. Respeitáveis etnógrafos, os salesianos são os autores da "Enciclopédia Bororo", cujo primeiro volume, publicado em 1962, foi saudado com entusiasmo por Claude Lévi-Strauss. O antropólogo francês extraiu de suas páginas, ao longo dos anos 1960, dados para compor sua monumental "Mitológicas".

Os salesianos se dedicaram também à coleta de narrativas xavantes, que são vizinhos dos bororos, e publicaram, em 1975, as narrativas de Jerônimo Tsawé, em dois volumes: "Jerônimo Conta" e "Jerônimo Sonha".

Aconselhado pela professora Aurora Bernardini, que se tornou minha orientadora na USP em 1987, decidi visitar Jerônimo na aldeia em que ele morava, em Mato Grosso, para iniciar o estudo das narrativas xavantes.

A viagem de São Paulo até a reserva indígena de Sangradouro, no leste de Mato Grosso, é longa. Fiz de ônibus várias vezes o trajeto, sempre com a expectativa de conversar com ele. Numa ocasião, o jornalista Antônio Gonçalves Filho, então trabalhando na Folha, me acompanhou; noutra, um fotógrafo espanhol, que estava tirando fotos para o jornal "El País".

Tanto o jornalista quanto o fotógrafo estavam interessados em conhecer Jerônimo, porque ele era "wamaritede'wa", o dono dos sonhos, o sonhador oficial da aldeia. No passado, fora um líder respeitado e seus sonhos proféticos teriam influenciado a vida dos demais indígenas. Muito provavelmente ainda os tinha.

Jerônimo usava no lóbulo de ambas as orelhas um pedaço da madeira do cerrado chamada "wamari", que tem a propriedade de provocar sonhos em seu portador. Os demais xavantes usam outros tipos de madeira na orelha, e, numa ocasião em que encontrei alguns deles em São Paulo, portavam pedaços de uma árvore cuja principal propriedade, segundo me explicaram, era a de pacificar o espírito hostil dos brancos.
Jerônimo era um índio magro que caminhava lentamente apoiado num cajado. Muito simpático, usava uma barbicha branca muito rala e estava sempre sorrindo, mas não falava português. Sempre se recusou a me revelar seus sonhos. Alegava que já não sonhava como antes.

Passou-me, certa vez, uma folha de papel coberta de grafismos. Dizia que estava aprendendo a escrever e que aqueles traços que flutuavam meio enviesados eram a sua assinatura.

Num dia nublado e frio, Jerônimo me recebeu em sua casa, construída pelos salesianos. Estava sentado no chão, na penumbra. Iria me contar o mito da origem do fogo, que eu conhecia bem. É uma história longa. Dispensei o intérprete porque queria estar a sós com Jerônimo e assistir à tão aguardada "performance" do renomado narrador. A narrativa poderia durar horas.

Jerônimo falou durante uns dez minutos, em voz baixa e sem gesticulação. Então, deitou-se no chão.

E adormeceu em seguida. Seu sono era tranquilo. Eu permaneci ali, velando o sono do dono dos sonhos.

Hoje, recordando essa cena, não posso deixar de citar uma passagem da obra de Lewis Carroll, cujos livros sempre me acompanharam em minhas viagens à reserva indígena de Sangradouro.

Alice, inicialmente, está num mundo cujas leis desconhece por completo e, depois, num mundo cujas leis conhece, porém se recusa a aceitar.

Eu me sentia sempre oscilando entre esses dois extremos. E, agora, descrevendo o sono do grande "wamaritede'wa" xavante, imóvel na penumbra, talvez não seja falso de minha parte citar o que disseram a Alice quando ela presenciou o rei dormindo: "Ora, você é só uma espécie de coisa no sonho dele!"

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