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VOU MARINAR PARA MANTER A ESPERANÇA
[Por Daniel Munduruku]
Tenho pensado e repensado sobre o processo eleitoral deste ano. Dediquei-me especialmente em ouvir os candidatos para o cargo de presidente por considerar que temas nacionais repercutem de forma mais real no nosso dia a dia muito embora a gente não se dê conta disso.
O que as campanhas têm me mostrado é que o momento é de mudar. Não dá para continuar a manter um padrão econômico que nos leva para uma ilusão desenvolvimentista que trará arrependimento dentro de alguns anos. Sem querer ser profeta posso afirmar que a história está se repetindo e nos oferecendo sim uma ilusão que passa pela febre do consumo que, dizem, é fruto do desenvolvimento que Dilma e Serra representam. Aliás, os dois candidatos já mostraram isso através de seus partidos que governaram o país nos últimos 16 anos. De lá para cá o Brasil cresceu, seu povo não. E não adianta pensar na transferência de renda ou na passagem de uma classe a outra. Pura ilusão. Aqui falo de consciência cidadã, participação, empoderamento, acesso à cultura ou aos bens culturais. Nisso estamos a anos-luz de conquistar especialmente por conta da política econômica já mostrada por ambos partidos.
Confesso que confiava na capacidade de Lula em governar com a cara voltada para a população. Tinha expectativa de uma política voltada para os povos indígenas em que lhes fossem dadas condições para viver uma vida digna dentro de um país plural. Não aconteceu. Aos nossos povos foram dadas migalhas, como ao resto do Brasil. Migalhas, dizem, é melhor que nada. Não concordo. Migalhas são sobras do que cai da mesa dos que podem mais. Isso não é cidadania, é esmola. Esmola não dignifica, humilha. Quando percebi isso, descobri que eu também fui enganado.
Estava, por conta disso tudo, sem esperança alguma. Votar em Dilma ou Serra é como aceitar a empulhação [sf (empulhar+ção) Ato ou efeito de empulhar; logro, engano, troça, empulhamento]. É aceitar o econômico como a única e absoluta forma de viver e por isso ver a floresta amazônica sumir sob nossos olhos [e graças ao poder econômico]; as manifestações culturais [regionais, nacionais, estaduais] serem engolidas e transformadas em folclore barato através dos programas de incentivo à cultura; ver os talentos de nossos jovens transformados em bolsas [inclusão social, cotas, família, etc.]. Definitivamente isso não me interessa e não deveria interessar ao povo brasileiro.
Foi aí que surgiu a novidade.  Foi quando minha esperança saiu de seu esconderijo e fez despertar em mim aquela ponta de expectativa, aquele desejo de acreditar, aquele sentimento que vai além de mim mesmo.  Fez-me Marinar. Isso. Quero Marinar. Nisso sinto cheiro do novo, do povo, de mim mesmo. Sinto cheiro de esperança [talvez a mesma que Lula me fazia aspirar tempos atrás]. Sou movido pela esperança. Neste caso, ela tem um novo nome.
Não se sabe como seria um governo de Marina, como antes não se sabia como seria o de Lula. Havia medo. Havia temor. Havia receios. O novo nos deixa assim. Mais que normal. O que sei é que precisamos de algo novo. Algo que saiba aliar desenvolvimento com recursos naturais; crescimento com educação; a floresta e a saúde. Enfim, precisamos [de novo] que a esperança vença o medo.
Vou Marinar porque preciso de uma marina, um porto seguro [honesto, transparente, verdadeiro] para atracar meu barco [meus sonhos, meus direitos, minha humanidade];
Vou Marinar porque busco o novo [visão humanista, solidariedade, coragem];
Vou Marinar porque não perdi a fé no ser humano;
Vou Marinar porque confio na força dessa mulher [que representa a luta de todas as mulheres brasileiras];
Vou Marinar porque sou um homem do povo [indígena, lutador, corajoso, guerreiro];
Vou Marinar porque quero trocar o vermelho [ do bolso, do capital, das veias abertas, da corrupção que sangra a todos nós] pelo verde [da floresta, da esperança, da cultura, da diversidade].
E quem for sincero, honesto, humano...que me siga! [como diria Chapolim Colorado].

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Daniel Munduruku, índio e escritor

Postado no Blog da TV CULTURA
28/07/2009 | 18h00 | Mariana Del Grande

Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

Em breve a Loja…