MITOS NA TERRA VERMELHA
Por Daniel Munduruku

Há alguns dias atrás Tania e eu estivemos na aldeia Guarani Krukutu em São Paulo. Saímos bem cedo de Lorena a fim de encontrar uns amigos para um bate papo muito interessante sobre literatura, mitologia e cinema.
Esta aldeia fica localizada no extremo sul de São Paulo às margens da represa Billings. Ali estão localizadas duas aldeias Guarani que buscam sobreviver apesar das transformações urbanísticas e as invasões que foram acontecendo ao longo do tempo “encurralando” seus moradores mais antigos para áreas de terras muito pequenas.
Na aldeia Tenondé Porã, mais próxima de Parelheiros, moram cerca de 900 pessoas espremidas em 26 hectares de terra. Seus moradores são oriundos de diferentes lugares e trazem na bagagem, além da história de lutas pela sobrevivência, rica espiritualidade, rituais ancestrais e uma valente teimosia em permanecerem vivos salvaguardando o uso de sua língua tradicional. Nem mesmo a proximidade com o centro urbano e dependência econômica com relação à cidade tem tirado o firme propósito dessa gente em manter sua identidade ancestral.
http://www.culturaguarani.org.br/imgs/mapaguia.gifO mesmo se pode dizer da aldeia que visitamos. Ela é um pouco mais afastada do centro urbano e está localizada em 06 hectares de terra que foram demarcados há não muito tempo. Sua população aproximada é de 300 pessoas em sua grande maioria crianças que aprendem o português apenas depois de terem sido alfabetizadas em Guarani, sua língua natal. Para sobreviver tiram da “billings” produtos da pesca; organizam visitas guiadas; vendem artesanato confeccionado em madeira e palha e recebem ajudas dos programas sociais de diferentes entidades e dos governos municipal, estadual e federal.
Eu já os conheço há 20 anos. Frequento o local desde que cheguei a São Paulo e com eles desenvolvi alguns projetos e tive a felicidade de participar de lindos rituais ancestrais e também de presenciar verdadeiros milagres do cotidiano.
Foi neste lugar que decidimos organizar uma conversa sobre literatura, cinema, mitologia. A ideia partiu de minha amiga Heloisa Prieto, escritora renomada e grande parceira de projetos literários e da vida. Aceitei logo de cara. Imediatamente fizemos contato com o escritor indígena Olívio Jekupé, morador da aldeia e presidente da Associação Guarani Nhe´ê Porã. Logo aceitou. Aí partimos para o ataque sobre quem convidar para falar sobre os temas em questão. Vimos logo que tínhamos as pessoas certas quando nos deparamos com o Marcos Martinho dos Santos, um dos maiores especialistas em letras clássicas do mundo. Ele é professor na USP e na Sorbonne e viaja pelo mundo falando sobre o tema. Também ele se dispôs a nos acompanhar aceitando falar sobre a metodologia de compilação dos mitos realizada pelos gregos clássicos. Não era uma fala acadêmica, mas informativa. Nosso desejo era que os indígenas pudessem compreender como é importante e necessária a organização de acervos para posteriores consultas e registros. E isso ele fez com a competência dos homens simples. Fez isso narrando mitos clássicos de forma vívida embriagando os presentes com o desejo de narrar seus próprios mitos, criando uma atmosfera de partilha, de envolvimento, de totalidade. Ali, os mitos foram definidos como um grande quebra cabeças simbólicos só possíveis de serem compreendidos em sua totalidade quando se alcança a maturidade humana e http://www.grupoparisfilmes.com.br/banco_arquivos/imagens/TERRA%20VERMELHA/Terra-Vermelha-web.jpgcósmica.
Para falar de cinema convidamos o roteirista e cineasta Luiz Bolognesi. Entre outros trabalhos escreveu o roteiro do filme Terra Vermelha (filme que fez e faz mais sucesso no exterior que aqui). O filme conta os motivos que levam os jovens guaranis de Dourados ao suicídio. Naquela região do Mato Grosso do Sul se concentra o maior índice per capita de suicídio no mundo. Este leitmotiv foi a mola propulsora que fez o diretor italiano Marco Bechis a montar o projeto que culminou num lindo trabalho cinematográfico.
Coube ao jovem e talentoso roteirista nos contar como se deu o trabalho com a comunidade Kaiowá, Guaranis daquela região. Para nossa surpresa nos falou que o roteiro foi construído com os próprios atores que eram todos do local (com exceção dos papéis que cabiam a atores não indígenas, obviamente) e que houve improvisações surpreendentes e por conta disso ele tinha que reescrever o roteiro vezes sem conta.
IMG_0306         Esta conversa toda aconteceu depois que assistimos ao filme. É realmente chocante, emocionante e, para não exagerar, uma aula de etnologia e humanidade dada pelos próprios indígenas guaranis. Acho que vale uma aula nas escolas de cada cidade brasileira. Nosso país precisa contar a história sobre outro enfoque. Eis aí um rico material de apoio.
Ainda nos deparamos com gratas surpresas de ver crianças participando com muita atenção desta que seria uma “conversa de adulto”. Tania a tudo registrava, seja pela lente de sua memória, sua atenção e sua participação ou pela lente de sua câmera que captou momentos muito mágicos deste lindo dia de aprendizado e alegria, como o rosto atento do pequeno curumim que se dividia entre assistir ao filme e ler um livro que carregava para todos os lugares onde fosse.
O sol já se punha quando nos despedimos de nossos anfitriões que não escondiam a satisfação de ter-nos recebido e partilhado conosco a alegria de serem filhos desta Terra Vermelha.