Ampliando as políticas de proteção e promoção dos povos indígenas, A Fundação Nacional do Índio (Funai), com apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), revitaliza e amplia o Ikuiapá – Centro de Preservação e Difusão do Patrimônio Cultural Indígena, em Cuiabá. O lançamento do projeto será feito pelo Presidente da Funai, Márcio Meira, no dia 22 de janeiro. O objetivo é transformar o espaço em um ambiente de afirmação cultural para as 42 etnias do estado, além de ser referência na manutenção da identidade, memória e tradições dos povos indígenas.
Fundado em 2002, o Ikuiapá é formado por Biblioteca dos Povos Indígenas, Acervo Etnográfico com 1.700 artefatos e Setor de Documentação, além de uma Loja Artíndia que, vinculada à Coordenação-Geral de Artesanato da Funai (CGART), incentiva a produção e comercializa o artesanato, promovendo geração de renda para os povos indígenas. Com a proposta de revitalização, a Funai pretende expandir as atividades do Centro de Preservação e Difusão do Patrimônio Cultural Indígena, com a construção de uma maloca multimídia e um espaço para realização de oficinas durante os eventos culturais.
A reativação das atividades reforça a importância da manutenção e divulgação da cultura indígena, por meio de documentos históricos, relatos, imagens, sons, artes visuais, cartografias e demais produções documentais, despertando o interesse da sociedade e fortalecendo as manifestações culturais indígenas. Para isso, a Funai investiu R$ 250 mil em 2007, e planeja aplicar cerca de R$ 300 mil este ano, em reformas, equipamentos, sistemas informatizados, livros, serviços e mobiliário. O investimento, resultado do acúmulo de experiências da Funai sobre mecanismos de apoio à divulgação da cultura indígena, permitirá que os povos do Mato Grosso expressem suas manifestações artísticas e culturais e que a comunidade usufrua dos acervos documental e etnográfico do Ikuiapá, aberto ao público.
Com população estimada em 30 mil índios, o Mato Grosso congrega 75 Terras Indígenas, que representam cerca de 12% do território do estado, onde as comunidades, incluindo índios isolados, vivem em diferentes graus de convivência com a sociedade nacional. Desde 1987, a Funai, por meio da CGART, promove feiras e exposições para divulgação cultural e comercialização de artesanato. Com a revitalização, o Ikuiapá será um espaço definitivo de promoção da cultura e tradição dos povos indígenas do Mato Grosso. Para potencializar a ação, a Funai já discute parceria com o Governo do Estado do Mato Grosso e Universidades e poderá, ainda, firmar parcerias com Ministério da Ciência e Tecnologia e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Fonte: 24 horas News – 18/01/2008
28 de jan. de 2008
23 de jan. de 2008
Pistas clandestinas poderão atender índios, sugere Funasa
O Ministério da Justiça poderá rever o programa de destruição de pistas de pouso clandestinas e preservar as que servem para transporte de medicamentos e vacinas para comunidades indígenas e outras áreas remotas na Amazônia. A medida, sugerida pela Funasa, será analisada pelo ministério, em conjunto com o Ministério da Defesa, o Comando do Exército e a Polícia Federal, órgão encarregado de dinamitar as pistas, conforme afirmou ontem o ministro da Justiça, Tarso Genro. Mas ele faz um alerta: "Onde houver possibilidade de se criar um esquema de controle eficaz, não vejo problema, mas o governo não vai permitir o uso de aeroportos ilegais para tráfico de drogas, o roubo da nossa biodiversidade e a ocupação ilegal do nosso território por interesses estranhos ao País". O programa de destruição de pistas clandestinas foi deflagrado em 2005 e desde então, já foram dinamitadas mais de cem pistas, várias em terras indígenas e área de preservação ambiental - OESP, 23/1, Nacional, p.A10.
Situação crítica
Relatório da Funasa, indica que a situação mais grave é a do Vale do Javari, onde epidemias de malária e de hepatite saíram de controle nos últimos anos. A região, uma das mais preservadas da Amazônia brasileira, fica entre o Acre, o Amazonas e a fronteira com o Peru. Nela vivem cerca de 5 mil índios de várias etnias. Várias pistas clandestinas na reserva vinham servindo de suporte para invasões de madeireiras, inclusive algumas oriundas do Peru, e por traficantes de drogas. No Vale do Javari, o número de vítimas fatais das epidemias de malária e hepatite pulou de 30 casos em 2005 para 39 em 2006 e mais de 50 no ano passado, um crescimento de cerca de 60% em dois anos, conforme os dados da Funasa. No início do ano, cerca de 500 índios da região atravessaram a fronteira para buscar atendimento médico no Peru contra malária e hepatite - OESP, 23/1, Nacional, p.A10.
Situação crítica
Relatório da Funasa, indica que a situação mais grave é a do Vale do Javari, onde epidemias de malária e de hepatite saíram de controle nos últimos anos. A região, uma das mais preservadas da Amazônia brasileira, fica entre o Acre, o Amazonas e a fronteira com o Peru. Nela vivem cerca de 5 mil índios de várias etnias. Várias pistas clandestinas na reserva vinham servindo de suporte para invasões de madeireiras, inclusive algumas oriundas do Peru, e por traficantes de drogas. No Vale do Javari, o número de vítimas fatais das epidemias de malária e hepatite pulou de 30 casos em 2005 para 39 em 2006 e mais de 50 no ano passado, um crescimento de cerca de 60% em dois anos, conforme os dados da Funasa. No início do ano, cerca de 500 índios da região atravessaram a fronteira para buscar atendimento médico no Peru contra malária e hepatite - OESP, 23/1, Nacional, p.A10.
22 de jan. de 2008
Funai alerta para contaminação de grupos isolados do Vale do Javari
A possibilidade de contaminação por doenças infecto-contagiosas dos indígenas que vivem sem contato com a sociedade no Vale do Javari (AM) representa motivo de preocupação, afirma o coordenador do Departamento de Índios Isolados da Funai, Elias Biggio. Isso porque o local concentra o maior número e a maior diversidade de grupos de índios isolados do país. Dos 69 grupos conhecidos pela Fundação Nacional do Índio (Funai), 16 estão no Javari.
Em entrevista ao programa Amazônia Brasileira, da Rádio Nacional da Amazônia, Biggio explicou que povos isolados são aqueles que não mantêm contato regular com a sociedade. Atualmente, a política da Funai é a de não tentar aproximação com esses grupos e uma das razões principais é justamente o risco de transmissão de doenças.
"Hoje não fazemos contato (com as populações isoladas) porque vimos quanto é nefasto e problemático”, explica. “Sempre que se fazia contato havia muitas mortes. Os sertanistas e indigenistas se sentiam vitoriosos quando 50% do grupo contatado morria.”
Muitas etnias brasileiras desapareceram por causa de doenças como gripe, sarampo e varíola. Há vários casos registrados de povos exterminados após receberem como presente, roupas, tecidos e cobertores que pertenciam a pessoas contaminadas. Sem nenhuma defesa no organismo, os indígenas sofrem com os efeitos devastadores das doenças.
Para Elias, a situação no Vale do Javari é complicada. Ele recomenda que, em caso de contato dos isolados com não-indígenas, seria necessária uma imediata operação conjunta da Funai e da Fundação Nacional da Saúde (Funasa). “Temos de estar alertas para uma eventual situação de contato, porque aí teremos de imunizar esses índios. É uma operação que necessita de extremo cuidado. Precisaremos de uma equipe multidisciplinar para que eles possam fazer a vacinação, que levará um longo tempo”, diz.
Segundo Elias, grupos de índios isolados têm mantido contato esporádico com povos contatados como os Matís e Kanamari. A Funai considera o fato preocupante. “O problema da aproximação entre índios contatados (pela Funai) e índios isolados é que esses índios hoje são portadores de determinados vírus, como o da gripe, que pode ser fatal para os não-contatados”, informa.
Para Elias, seria necessário fazer um cinturão de vacinação das populações que vivem em torno dos povos isolados, que se estenda até a Tabatinga, a 33 quilômetros de Atalaia do Norte, cidade mais próxima da entrada da área indígena: “Além dos grupos do Vale do Javari, todo mundo tem de estar vacinado, inclusive a população ribeirinha que vive no entorno deve estar também com as vacinas em dia para que os índios não levem as doenças para o interior do Vale do Javari”. (Agência Brasil)
Em entrevista ao programa Amazônia Brasileira, da Rádio Nacional da Amazônia, Biggio explicou que povos isolados são aqueles que não mantêm contato regular com a sociedade. Atualmente, a política da Funai é a de não tentar aproximação com esses grupos e uma das razões principais é justamente o risco de transmissão de doenças.
"Hoje não fazemos contato (com as populações isoladas) porque vimos quanto é nefasto e problemático”, explica. “Sempre que se fazia contato havia muitas mortes. Os sertanistas e indigenistas se sentiam vitoriosos quando 50% do grupo contatado morria.”
Muitas etnias brasileiras desapareceram por causa de doenças como gripe, sarampo e varíola. Há vários casos registrados de povos exterminados após receberem como presente, roupas, tecidos e cobertores que pertenciam a pessoas contaminadas. Sem nenhuma defesa no organismo, os indígenas sofrem com os efeitos devastadores das doenças.
Para Elias, a situação no Vale do Javari é complicada. Ele recomenda que, em caso de contato dos isolados com não-indígenas, seria necessária uma imediata operação conjunta da Funai e da Fundação Nacional da Saúde (Funasa). “Temos de estar alertas para uma eventual situação de contato, porque aí teremos de imunizar esses índios. É uma operação que necessita de extremo cuidado. Precisaremos de uma equipe multidisciplinar para que eles possam fazer a vacinação, que levará um longo tempo”, diz.
Segundo Elias, grupos de índios isolados têm mantido contato esporádico com povos contatados como os Matís e Kanamari. A Funai considera o fato preocupante. “O problema da aproximação entre índios contatados (pela Funai) e índios isolados é que esses índios hoje são portadores de determinados vírus, como o da gripe, que pode ser fatal para os não-contatados”, informa.
Para Elias, seria necessário fazer um cinturão de vacinação das populações que vivem em torno dos povos isolados, que se estenda até a Tabatinga, a 33 quilômetros de Atalaia do Norte, cidade mais próxima da entrada da área indígena: “Além dos grupos do Vale do Javari, todo mundo tem de estar vacinado, inclusive a população ribeirinha que vive no entorno deve estar também com as vacinas em dia para que os índios não levem as doenças para o interior do Vale do Javari”. (Agência Brasil)
21 de jan. de 2008
AQUI COMEÇA O BRASIL
José Ribamar Bessa Freire
20/01/2008 - Diário do Amazonas
Chove forte na fronteira do Brasil, Peru e Colômbia. No hospital de Benjamin Constant (AM), no rio Javari, o vigia cochila. Seu radinho de pilha sintonizado na Nova Onda FM 104.9 anuncia a logomarca da emissora: “Aqui começa o Brasil”. Um relâmpago risca o céu escuro. O trovão acorda vários doentes, que ouvem, então, Abílio Faria cantando ‘Hoje eu quero você’, sob o patrocínio do Açougue Coelho e do “Frigorífico do nosso amigo Totó”. Era a madrugada de terça-feira, 13 de novembro de 2007.
Naquele mesmo instante, num leito do hospital, a índia Kokama Alexandrina Cauamare, de 105 anos, indiferente ao trovão, permanece dormindo. Não ouve, na seqüência da programação, a música brega ‘O dia em que a alegria me disse adeus’ de Reginaldo Rossi. É que seu sono não tem mais volta. “Ela morreu que nem um passarinho, mas não foi de baladeira, morreu em paz”, conta sua neta Necy Silva de Souza. Com ela, desaparece um dos últimos cem falantes da língua Kokama.
Dona Alexandrina vivia na comunidade ‘Novo Oriente’. Trabalhou na roça e ralou mandioca até os cem anos de idade. Casada com Antônio Cauamare, com quem se comunicava em Kokama, teve doze filhos, mas nenhum herdou a língua materna, porque desde cedo abandonaram a aldeia e foram morar na cidade. Uns foram para bem longe, outros ficaram ali perto como Wilson - marceneiro em Letícia, Misael - vendedor de frutas em Tabatinga, ou Pitácio e Angélica - residentes em Benjamin Constant.
Há alguns anos, os dois filhos que andavam desaparecidos em Rondônia telefonaram de Porto Velho para a Diocese de Benjamin Constant, pedindo notícias da mãe. O padre colocou o aviso no ‘Bocão’ – o serviço de alto-falante da paróquia. Dona Alexandrina, porém, nada entendeu, porque o `Bocão` é monolingüe, como a rádio e as demais instituições locais, que só falam português. “Aqui começa o Brasil”, berra triunfante a Nova Onda FM. “Aqui começa o Brasil” – repete, como num eco, o `Bocão`.
Caboco sutil
O “Bocão” não conta o que aconteceu com os Kokama, parentes dos Omagua, que ocupavam a calha central do Alto Solimões e a confluência do rio Amazonas com os rios Napo, Ucayali e Huallaga. No século XVI, organizados em grandes cacicados, eles construíam imponentes malocas, teciam mantas coloridas de algodão e redes de dormir, fabricavam canoas e instrumentos musicais, mantinham currais de tartarugas, torravam farinha, produziam alimentos em abundância, narravam seus mitos, constituindo aquilo que o arqueólogo americano Donald Lathrap denominou de “civilização da mandioca”.
No período colonial, foram dizimados pelos espanhóis do Alto Amazonas e pelas tropas portuguesas, que vinham de Belém do Pará para escravizá-los. No Império e na República, sofreram investidas dos patrões seringalistas. Uma parte se dispersou, então, pelos centros urbanos, misturando-se à sociedade regional, criando os filhos sem os valores e a consciência étnica de seus avós. É o caso de muitos Kokama que moram hoje em Tefé e Manaus. É o caso, também, da filha de Santiago Moraes, que casou com um engenheiro civil e vive atualmente no Rio de Janeiro.
Outros, no entanto, resistiram, permanecendo camuflados nas comunidades, disfarçados de cabocos. Ninguém tinha interesse em ser identificado. Para continuar sendo índios, tinham que fingir que não eram. “A gente tinha muito medo, não ensinava a língua para os filhos, para que não fossem reconhecidos como índios, pois seriam humilhados, castigados e explorados”, explica Francisco Samias, professor Kokama. Clandestinos, os Kokama se tornaram tão invisíveis que Darcy Ribeiro considerou-os extintos, desde 1946, ignorando definição de Jorge Amado para quem “todo caboco é um índio sutil”.
Recentemente, os Kokama deixaram a sutileza de lado, seguindo o exemplo dos Ticuna com quem conviviam. Iniciaram o processo de etnização em 1986, quando a Funai foi à aldeia Sapotal interrogá-los. “Nós não somos índios” – disseram alguns, pensando que podiam ser perseguidos como nos tempos passados. Mas um grupo seguiu Antônio Samias, que declarou: “Quem quiser ser branco, que seja. Mas eu sou Kokama no céu, na terra e no inferno”. Para não haver dúvidas, desandou a falar em seu idioma, fazendo justiça aos versos de Fernando Pessoa: “Minha Pátria é minha língua”.
Língua anêmica
A língua é uma marca identitária importante, embora não seja a única. Os Kokama buscaram recuperar e afirmar sua identidade, lutando pela demarcação de suas terras, em defesa da língua, da cultura, da saúde e da escola diferenciada. Procuraram se pensar como cidadãos, com direitos diferenciados, o que foi facilitado pela Constituição do Brasil aprovada em 1988. Eles criaram a Coordenação de Apoio aos Índios Kokama (COIAMA), que contribuiu para que mostrassem sua cara.
Hoje, tem Kokama no Peru (Yurimaguas, Pebas e Ramón Castilla), na Colômbia (Ilha de Ronda e Letícia) e no Brasil. Só na região do Alto Solimões, em território brasileiro, cerca de 20 mil Kokama abandonaram, nos últimos vinte anos, suas máscaras de cabocos, dos quais 15 mil já foram reconhecidos pela FUNAI, apesar da oposição de alguns prefeitos, para quem “eles não são mais índios, porque estão vestidos, falam português e anseiam por bens materiais”.
A língua, falada por aproximadamente cem velhos, está em perigo. Cada vez que morre um de seus falantes, como ocorreu com dona Alexandrina, em novembro do ano passado, o alarme soa, porque não surgem novos falantes. Crianças e jovens desconhecem o idioma. Por isso, o Kokama foi considerado “língua moribunda”. Agora, com a assessoria da lingüista da Universidade de Brasília, Ana Sueli Arruda Cabral, os Kokama estão tentando revitalizar a língua e colocá-la dentro da sala de aula, o que não é tarefa fácil.
O Kokama foi estudado por Ana Suely, que defendeu, em 1995, sua tese de doutorado, na Universidade de Pittsburgh. Nesse momento, ela está em Benjamin Constant, convidada pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) para dar aulas no Curso de Licenciatura Indígena. Os professores indígenas estão motivados e os resultados começam a aparecer.
Depois de quase meio século, pela primeira vez a língua Kokama volta a ser falada por crianças em São Paulo de Olivença. Rose Moçambite Maurício, 8 anos, da Comunidade Monte Santo, e Alcir Moçambite, 9 anos, da Comunidade Jordânia constituem indícios de que a língua Kokama não vai desaparecer com a morte dos velhos. É uma língua anêmica, mas não moribunda.
“Em Santo Antônio do Içá, por enquanto só os velhos falam. Mas a situação vai mudar. Acho que tinha de ter um serviço de alto-falante em Kokama, para ensinar o gingado da língua, a pronúncia e a figuração”, propõe Leonel, aluno da Licenciatura Indígena. Eles estão retomando também a culinária, as canções acompanhadas por flauta (keno) e tamborim (totu) e o artesanato tradicional de tucum, fabricando bolsa, chapéu, pulseira, abano, pote, prato, como informa outra aluna do Curso, Lúcia Kokama.
Quem sabe, o serviço de alto-falante ‘Bocão’ e a Rádio Nova Onda em breve poderão anunciar em várias línguas: “Aqui começa o Brasil sábio, profundo e generoso, que abraça sua identidade pluricultural e se reconhece nos Ticuna, nos Kokama, nos Kambeba e nos Kaixana”. Quem sabe?
P.S.1 – Passei as duas últimas semanas em Benjamin Constant, ministrando aulas no Curso de Licenciatura Indígena, na aldeia Filadélfia. Agradeço as dicas de Necy Souza, casada com Edmar Cauamare, neto de dona Alexandrina, bem como as informações dos kokama Avelino Januário, Francisco Samias, Lúcia, Leonel, Orlanda Salvador e dos ticunas Paulo Mendes e Odiléa Carneiro Januária.
P.S.2 – O Governo do Amazonas pagou no final do ano passado R$ 18 milhões à empresa Pampulha por obras e serviços de infra-estrutura e urbanização no sistema viário de municípios do Alto Solimões. As obras são “fantasmas”, não foram realizadas. As cidades estão abandonadas. De protesto, um carro circulava em Tabatinga com a frase: “Tabatinga, com lama ou sem lama, nós te ama”.
20/01/2008 - Diário do Amazonas
Chove forte na fronteira do Brasil, Peru e Colômbia. No hospital de Benjamin Constant (AM), no rio Javari, o vigia cochila. Seu radinho de pilha sintonizado na Nova Onda FM 104.9 anuncia a logomarca da emissora: “Aqui começa o Brasil”. Um relâmpago risca o céu escuro. O trovão acorda vários doentes, que ouvem, então, Abílio Faria cantando ‘Hoje eu quero você’, sob o patrocínio do Açougue Coelho e do “Frigorífico do nosso amigo Totó”. Era a madrugada de terça-feira, 13 de novembro de 2007.
Naquele mesmo instante, num leito do hospital, a índia Kokama Alexandrina Cauamare, de 105 anos, indiferente ao trovão, permanece dormindo. Não ouve, na seqüência da programação, a música brega ‘O dia em que a alegria me disse adeus’ de Reginaldo Rossi. É que seu sono não tem mais volta. “Ela morreu que nem um passarinho, mas não foi de baladeira, morreu em paz”, conta sua neta Necy Silva de Souza. Com ela, desaparece um dos últimos cem falantes da língua Kokama.
Dona Alexandrina vivia na comunidade ‘Novo Oriente’. Trabalhou na roça e ralou mandioca até os cem anos de idade. Casada com Antônio Cauamare, com quem se comunicava em Kokama, teve doze filhos, mas nenhum herdou a língua materna, porque desde cedo abandonaram a aldeia e foram morar na cidade. Uns foram para bem longe, outros ficaram ali perto como Wilson - marceneiro em Letícia, Misael - vendedor de frutas em Tabatinga, ou Pitácio e Angélica - residentes em Benjamin Constant.
Há alguns anos, os dois filhos que andavam desaparecidos em Rondônia telefonaram de Porto Velho para a Diocese de Benjamin Constant, pedindo notícias da mãe. O padre colocou o aviso no ‘Bocão’ – o serviço de alto-falante da paróquia. Dona Alexandrina, porém, nada entendeu, porque o `Bocão` é monolingüe, como a rádio e as demais instituições locais, que só falam português. “Aqui começa o Brasil”, berra triunfante a Nova Onda FM. “Aqui começa o Brasil” – repete, como num eco, o `Bocão`.
Caboco sutil
O “Bocão” não conta o que aconteceu com os Kokama, parentes dos Omagua, que ocupavam a calha central do Alto Solimões e a confluência do rio Amazonas com os rios Napo, Ucayali e Huallaga. No século XVI, organizados em grandes cacicados, eles construíam imponentes malocas, teciam mantas coloridas de algodão e redes de dormir, fabricavam canoas e instrumentos musicais, mantinham currais de tartarugas, torravam farinha, produziam alimentos em abundância, narravam seus mitos, constituindo aquilo que o arqueólogo americano Donald Lathrap denominou de “civilização da mandioca”.
No período colonial, foram dizimados pelos espanhóis do Alto Amazonas e pelas tropas portuguesas, que vinham de Belém do Pará para escravizá-los. No Império e na República, sofreram investidas dos patrões seringalistas. Uma parte se dispersou, então, pelos centros urbanos, misturando-se à sociedade regional, criando os filhos sem os valores e a consciência étnica de seus avós. É o caso de muitos Kokama que moram hoje em Tefé e Manaus. É o caso, também, da filha de Santiago Moraes, que casou com um engenheiro civil e vive atualmente no Rio de Janeiro.
Outros, no entanto, resistiram, permanecendo camuflados nas comunidades, disfarçados de cabocos. Ninguém tinha interesse em ser identificado. Para continuar sendo índios, tinham que fingir que não eram. “A gente tinha muito medo, não ensinava a língua para os filhos, para que não fossem reconhecidos como índios, pois seriam humilhados, castigados e explorados”, explica Francisco Samias, professor Kokama. Clandestinos, os Kokama se tornaram tão invisíveis que Darcy Ribeiro considerou-os extintos, desde 1946, ignorando definição de Jorge Amado para quem “todo caboco é um índio sutil”.
Recentemente, os Kokama deixaram a sutileza de lado, seguindo o exemplo dos Ticuna com quem conviviam. Iniciaram o processo de etnização em 1986, quando a Funai foi à aldeia Sapotal interrogá-los. “Nós não somos índios” – disseram alguns, pensando que podiam ser perseguidos como nos tempos passados. Mas um grupo seguiu Antônio Samias, que declarou: “Quem quiser ser branco, que seja. Mas eu sou Kokama no céu, na terra e no inferno”. Para não haver dúvidas, desandou a falar em seu idioma, fazendo justiça aos versos de Fernando Pessoa: “Minha Pátria é minha língua”.
Língua anêmica
A língua é uma marca identitária importante, embora não seja a única. Os Kokama buscaram recuperar e afirmar sua identidade, lutando pela demarcação de suas terras, em defesa da língua, da cultura, da saúde e da escola diferenciada. Procuraram se pensar como cidadãos, com direitos diferenciados, o que foi facilitado pela Constituição do Brasil aprovada em 1988. Eles criaram a Coordenação de Apoio aos Índios Kokama (COIAMA), que contribuiu para que mostrassem sua cara.
Hoje, tem Kokama no Peru (Yurimaguas, Pebas e Ramón Castilla), na Colômbia (Ilha de Ronda e Letícia) e no Brasil. Só na região do Alto Solimões, em território brasileiro, cerca de 20 mil Kokama abandonaram, nos últimos vinte anos, suas máscaras de cabocos, dos quais 15 mil já foram reconhecidos pela FUNAI, apesar da oposição de alguns prefeitos, para quem “eles não são mais índios, porque estão vestidos, falam português e anseiam por bens materiais”.
A língua, falada por aproximadamente cem velhos, está em perigo. Cada vez que morre um de seus falantes, como ocorreu com dona Alexandrina, em novembro do ano passado, o alarme soa, porque não surgem novos falantes. Crianças e jovens desconhecem o idioma. Por isso, o Kokama foi considerado “língua moribunda”. Agora, com a assessoria da lingüista da Universidade de Brasília, Ana Sueli Arruda Cabral, os Kokama estão tentando revitalizar a língua e colocá-la dentro da sala de aula, o que não é tarefa fácil.
O Kokama foi estudado por Ana Suely, que defendeu, em 1995, sua tese de doutorado, na Universidade de Pittsburgh. Nesse momento, ela está em Benjamin Constant, convidada pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) para dar aulas no Curso de Licenciatura Indígena. Os professores indígenas estão motivados e os resultados começam a aparecer.
Depois de quase meio século, pela primeira vez a língua Kokama volta a ser falada por crianças em São Paulo de Olivença. Rose Moçambite Maurício, 8 anos, da Comunidade Monte Santo, e Alcir Moçambite, 9 anos, da Comunidade Jordânia constituem indícios de que a língua Kokama não vai desaparecer com a morte dos velhos. É uma língua anêmica, mas não moribunda.
“Em Santo Antônio do Içá, por enquanto só os velhos falam. Mas a situação vai mudar. Acho que tinha de ter um serviço de alto-falante em Kokama, para ensinar o gingado da língua, a pronúncia e a figuração”, propõe Leonel, aluno da Licenciatura Indígena. Eles estão retomando também a culinária, as canções acompanhadas por flauta (keno) e tamborim (totu) e o artesanato tradicional de tucum, fabricando bolsa, chapéu, pulseira, abano, pote, prato, como informa outra aluna do Curso, Lúcia Kokama.
Quem sabe, o serviço de alto-falante ‘Bocão’ e a Rádio Nova Onda em breve poderão anunciar em várias línguas: “Aqui começa o Brasil sábio, profundo e generoso, que abraça sua identidade pluricultural e se reconhece nos Ticuna, nos Kokama, nos Kambeba e nos Kaixana”. Quem sabe?
P.S.1 – Passei as duas últimas semanas em Benjamin Constant, ministrando aulas no Curso de Licenciatura Indígena, na aldeia Filadélfia. Agradeço as dicas de Necy Souza, casada com Edmar Cauamare, neto de dona Alexandrina, bem como as informações dos kokama Avelino Januário, Francisco Samias, Lúcia, Leonel, Orlanda Salvador e dos ticunas Paulo Mendes e Odiléa Carneiro Januária.
P.S.2 – O Governo do Amazonas pagou no final do ano passado R$ 18 milhões à empresa Pampulha por obras e serviços de infra-estrutura e urbanização no sistema viário de municípios do Alto Solimões. As obras são “fantasmas”, não foram realizadas. As cidades estão abandonadas. De protesto, um carro circulava em Tabatinga com a frase: “Tabatinga, com lama ou sem lama, nós te ama”.
A LIÇÃO DO RIO
A LIÇÃO DO RIO
(à Leila Santos)
E o RIO corre sozinho.
Vai seguindo seu caminho.
Não necessita ser empurrado.
Pára um pouquinho no remanso.
Apressa-se nas cachoeiras.
Desliza de mansinho nas baixadas.
Precipita-se nas cascatas,
Mas, no meio de tudo isso vai seguindo seu caminho.
Sabe que há um ponto de chegada.
Sabe que seu destino é para a frente.
O rio não sabe recuar.
Seu caminho é seguir em frente.
É vitorioso, abraçando outros rios, vai chegando no mar.
O mar é sua realização.
É chegar ao ponto final.
É ter feito a caminhada.
É ter realizado totalmente seu destino.
A vida da gente deve ser levada do jeito do rio.
Deixar que corra como deve correr.
Sem apressar e sem represar.
Sem ter medo da calmaria e sem evitar as cachoeiras.
Correr do jeito do rio, na liberdade do leito da vida,
sabendo que há um ponto de chegada.
A vida é como o rio.
Por que apressar?
Por que correr se não há necessidade? Por que empurrar a
vida?
Por que chegar antes de se partir?
Toda natureza não tem pressa.
Vai seguindo seu caminho.
Assim é a árvore, assim são os animais.
Tudo o que é apressado perde gosto e o sentido.
A fruta forçada a amadurecer antes do tempo perde o
gosto.
Tudo tem seu ritmo.
Tudo tem seu tempo.
E então,por que apressar a vida da gente?
Desejo ser um rio.
Livre dos empurrões dos outros e dos meus próprios.
Livre das poluições alheias e das minhas. Rio original,
limpo e livre.
Rio que escolheu seu próprio caminho.
Rio que sabe que tem um ponto de chegada.
Sabe que o tempo não interessa.
Não interessa ter nascido a mil ou a um quilômetro do
mar.
Importante é chegar ao mar.
Importante é dizer "cheguei".
E porque cheguei, estou realizado.
A gente deveria dizer: não apresse o rio, ele anda
sozinho.
Assim deve-se dizer a si mesmo e aos outros: não apresse
a vida, ela anda sozinha.
Deixe-a seguir seu caminho normal. Interessa saber que
há um ponto de chegada e saber que se vai chegar lá.
É bom viver do jeito do rio!
"Se não houver frutos,
valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a
sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a
intenção da semente."
Henfil
(à Leila Santos)
E o RIO corre sozinho.
Vai seguindo seu caminho.
Não necessita ser empurrado.
Pára um pouquinho no remanso.
Apressa-se nas cachoeiras.
Desliza de mansinho nas baixadas.
Precipita-se nas cascatas,
Mas, no meio de tudo isso vai seguindo seu caminho.
Sabe que há um ponto de chegada.
Sabe que seu destino é para a frente.
O rio não sabe recuar.
Seu caminho é seguir em frente.
É vitorioso, abraçando outros rios, vai chegando no mar.
O mar é sua realização.
É chegar ao ponto final.
É ter feito a caminhada.
É ter realizado totalmente seu destino.
A vida da gente deve ser levada do jeito do rio.
Deixar que corra como deve correr.
Sem apressar e sem represar.
Sem ter medo da calmaria e sem evitar as cachoeiras.
Correr do jeito do rio, na liberdade do leito da vida,
sabendo que há um ponto de chegada.
A vida é como o rio.
Por que apressar?
Por que correr se não há necessidade? Por que empurrar a
vida?
Por que chegar antes de se partir?
Toda natureza não tem pressa.
Vai seguindo seu caminho.
Assim é a árvore, assim são os animais.
Tudo o que é apressado perde gosto e o sentido.
A fruta forçada a amadurecer antes do tempo perde o
gosto.
Tudo tem seu ritmo.
Tudo tem seu tempo.
E então,por que apressar a vida da gente?
Desejo ser um rio.
Livre dos empurrões dos outros e dos meus próprios.
Livre das poluições alheias e das minhas. Rio original,
limpo e livre.
Rio que escolheu seu próprio caminho.
Rio que sabe que tem um ponto de chegada.
Sabe que o tempo não interessa.
Não interessa ter nascido a mil ou a um quilômetro do
mar.
Importante é chegar ao mar.
Importante é dizer "cheguei".
E porque cheguei, estou realizado.
A gente deveria dizer: não apresse o rio, ele anda
sozinho.
Assim deve-se dizer a si mesmo e aos outros: não apresse
a vida, ela anda sozinha.
Deixe-a seguir seu caminho normal. Interessa saber que
há um ponto de chegada e saber que se vai chegar lá.
É bom viver do jeito do rio!
"Se não houver frutos,
valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a
sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a
intenção da semente."
Henfil
20 de jan. de 2008
Injustiça e descaso marcam a relação do estado brasileiro com os povos indígenas da Raposa Serra do Sol
Nota do Conselho Indígena de Roraima sobre o descaso do Governo Brasileiro para com a solução definitiva para os conflitos que acontecem na área Raposa Serra do Sol.
A falta de comprometimento do Estado brasileiro com os povos indígenas da Raposa Serra do Sol (RSS) faz-se evidente com a não - implementação do Decreto Presidencial de homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RSS) de 2005 e agrava-se com o quadro de violência, impunidade e crescente discriminação racial contra os povos indígenas na região. Apesar de demarcada, a terra indígena RSS permanece sendo ocupada de maneira ilegal.
A falta de ação do Estado obriga os povos indígenas a conviverem com ocupantes não-indígenas extremamente hostis, que por meio da violência forçam sua permanência, ainda que ilegal, na terra indígena. Os ocupantes ilegais da RSS não apenas intimidam e agridem física e verbalmente os membros das comunidades indígenas, destroem o meio-ambiente e geram conflitos; como também ameaçam - com o uso do poder público a seu favor - a existência dos povos indígenas e suas organizações como tais. A patente situação de injustiça e impunidade exacerba a possibilidade de conflitos e resulta em si uma violação de direitos fundamentais.
Portanto, ao não proceder com a desintrusão da RSS (com prazo vencido em 15 de abril de 2006) nem promover segurança aos povos indígenas, o Estado viola direitos fundamentais dos povos indígenas e passa a ser doméstica e internacionalmente responsável pela discriminação e violência que se alastra contra as comunidades indígenas na RSS.[1][1][1]
Exemplo concreto dessa violação de direitos ocorreu no dia 12 de janeiro de 2008. Nessa data, os meios de comunicação de Boa Vista, anunciaram que estaria ocorrendo conflitos entre índios e não-índios em uma estrada da terra indígena. Na verdade, as lideranças indígenas realizavam serviços de proteção e vigilância de sua terra no ponto do Lago Caracaranã, orientando os não índios para que não trafegassem em alta velocidade nem jogasse lixo na estrada.
Em reação às ações de fiscalização indígena (estas amplamente aparadas pela Constituição brasileira), e sob pressão da mídia e políticos locais que são contrários à proteção da RSS como terra indígena, uma equipe da Polícia Federal foi até a região para averiguar a situação acompanhada de autoridades locais e da polícia militar. As lideranças indígenas relataram à equipe policial as ameaças e agressões cometidas por um homem que se dizia "oficial militar". Apesar de toda disponibilidade dos indígenas na apuração dos fatos, estes foram maltratados e humilhados pelas autoridades. Ainda de forma abusiva, sete lideranças indígenas foram detidas e levadas a Delegacia da PF em Boa Vista. Após o depoimento o Coordenador Regional Clodomir Malheiros, preso por estar com munições no bolso, foi encaminhado para Penitenciária. Após providencias judiciais do CIR, foi posto em liberdade.
O antropólogo Jankiel Campos, do Ministério Público Federal, acompanhou a operação da Polícia Federal e relatou o tratamento discriminatório e a injusta reversão dos fatos em desfavor dos indígenas, que se acentua no contexto da disputa pela terra. Segundo Jankiel "A PF tratou os índios como criminosos perigosos, enquanto que os invasores da terra indígena, que estavam em flagrante delito, foram tratados com cortesia e condescendência."
O indígena Macuxi Gercimar Malheiros no mesmo sentido encaminhou sua versão a corregedoria da Policia Federal, onde afirma que durante seu deslocamento para a Delegacia em Boa Vista, era obrigado a ouvir o tratamento discriminatório. Isto demonstra quanto a PF em Roraima não esta consciente dos direitos dos povos indígenas, e quanto falta ao Estado brasileiro como um todo fazer valer os seus direitos.
Diante da total falta de garantia de direitos dos povos indígenas, da insustentável falta de segurança na área, e do sério quadro de violação de direitos humanos, um pedido de medidas especificas para proteger a integridade das comunidades indígenas e o seu direito a terra foi encaminhado ontem (17 de janeiro de 2008) ao Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU. O pedido inclui proteção à vida e integridade das lideranças indígenas da RSS e coordenadores do CIR. Semelhante comunicado será enviado à Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos este mês.
Conselho Indígena de Roraima
A falta de comprometimento do Estado brasileiro com os povos indígenas da Raposa Serra do Sol (RSS) faz-se evidente com a não - implementação do Decreto Presidencial de homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RSS) de 2005 e agrava-se com o quadro de violência, impunidade e crescente discriminação racial contra os povos indígenas na região. Apesar de demarcada, a terra indígena RSS permanece sendo ocupada de maneira ilegal.
A falta de ação do Estado obriga os povos indígenas a conviverem com ocupantes não-indígenas extremamente hostis, que por meio da violência forçam sua permanência, ainda que ilegal, na terra indígena. Os ocupantes ilegais da RSS não apenas intimidam e agridem física e verbalmente os membros das comunidades indígenas, destroem o meio-ambiente e geram conflitos; como também ameaçam - com o uso do poder público a seu favor - a existência dos povos indígenas e suas organizações como tais. A patente situação de injustiça e impunidade exacerba a possibilidade de conflitos e resulta em si uma violação de direitos fundamentais.
Portanto, ao não proceder com a desintrusão da RSS (com prazo vencido em 15 de abril de 2006) nem promover segurança aos povos indígenas, o Estado viola direitos fundamentais dos povos indígenas e passa a ser doméstica e internacionalmente responsável pela discriminação e violência que se alastra contra as comunidades indígenas na RSS.[1][1][1]
Exemplo concreto dessa violação de direitos ocorreu no dia 12 de janeiro de 2008. Nessa data, os meios de comunicação de Boa Vista, anunciaram que estaria ocorrendo conflitos entre índios e não-índios em uma estrada da terra indígena. Na verdade, as lideranças indígenas realizavam serviços de proteção e vigilância de sua terra no ponto do Lago Caracaranã, orientando os não índios para que não trafegassem em alta velocidade nem jogasse lixo na estrada.
Em reação às ações de fiscalização indígena (estas amplamente aparadas pela Constituição brasileira), e sob pressão da mídia e políticos locais que são contrários à proteção da RSS como terra indígena, uma equipe da Polícia Federal foi até a região para averiguar a situação acompanhada de autoridades locais e da polícia militar. As lideranças indígenas relataram à equipe policial as ameaças e agressões cometidas por um homem que se dizia "oficial militar". Apesar de toda disponibilidade dos indígenas na apuração dos fatos, estes foram maltratados e humilhados pelas autoridades. Ainda de forma abusiva, sete lideranças indígenas foram detidas e levadas a Delegacia da PF em Boa Vista. Após o depoimento o Coordenador Regional Clodomir Malheiros, preso por estar com munições no bolso, foi encaminhado para Penitenciária. Após providencias judiciais do CIR, foi posto em liberdade.
O antropólogo Jankiel Campos, do Ministério Público Federal, acompanhou a operação da Polícia Federal e relatou o tratamento discriminatório e a injusta reversão dos fatos em desfavor dos indígenas, que se acentua no contexto da disputa pela terra. Segundo Jankiel "A PF tratou os índios como criminosos perigosos, enquanto que os invasores da terra indígena, que estavam em flagrante delito, foram tratados com cortesia e condescendência."
O indígena Macuxi Gercimar Malheiros no mesmo sentido encaminhou sua versão a corregedoria da Policia Federal, onde afirma que durante seu deslocamento para a Delegacia em Boa Vista, era obrigado a ouvir o tratamento discriminatório. Isto demonstra quanto a PF em Roraima não esta consciente dos direitos dos povos indígenas, e quanto falta ao Estado brasileiro como um todo fazer valer os seus direitos.
Diante da total falta de garantia de direitos dos povos indígenas, da insustentável falta de segurança na área, e do sério quadro de violação de direitos humanos, um pedido de medidas especificas para proteger a integridade das comunidades indígenas e o seu direito a terra foi encaminhado ontem (17 de janeiro de 2008) ao Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU. O pedido inclui proteção à vida e integridade das lideranças indígenas da RSS e coordenadores do CIR. Semelhante comunicado será enviado à Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos este mês.
Conselho Indígena de Roraima
'Não precisamos de grandes projetos para Amazônia'
Entrevista com Sydney Possuelo: sertanista
Na avaliação de Possuelo, Mangabeira repetiu discursos que agradam a setores conservadores
da economia dos EUA
Leonencio Nossa, BRASÍLIA
As propostas do ministro Roberto Mangabeira Unger para a Amazônia, como construir aquedutos para o Nordeste, não são vistas como idéias mirabolantes ou inovadoras de um doutor de Harvard. Um dos ativistas que mais conhecem a Amazônia, o sertanista Sydney Possuelo, avalia que ele repete discursos velhos e preconceituosos que agradam a setores conservadores da economia dos Estados Unidos.
"Seu projeto me parece uma coisa importada e totalmente deslocada no contexto nacional", critica. "Queremos um progresso que não destrua a soberania nacional e a floresta. O projeto só legaliza o saque da Amazônia."
Possuelo aproveita para elogiar o trabalho do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira. Para ele, Meira é uma boa surpresa do governo Lula. "Não precisamos de grandes projetos para a Amazônia, mas de pessoas sensíveis que sabem dialogar com índios e ribeirinhos."
Como o senhor avalia a proposta de Mangabeira de educar os índios em mais de uma língua e cultura?
O ministro não falou novidade. Existem programas antigos de educação bilíngüe no Brasil. A maior parte dos povos indígenas fala o português e seu idioma. Há muitas escolas nas aldeias de ensino bilíngüe, isso não é novidade nem uma idéia inovadora para longo prazo.
É possível desenvolver projetos de mineração que garantam distribuição de renda na região?
Toda vez que se pensou na entrada de empresários na floresta se pensou em saques nos territórios indígenas. O projeto do ministro parece ter essa característica. Vamos tirar madeira, água, regulamentar a retirada de minério... Nada disso é novo. A biodiversidade da região continua sendo saqueada e o amazônida continua um ribeirinho carente. O que se quer é usar a Amazônia para produzir soja e criar bois para exportação. A idéia de desenvolvimento do ministro é violenta. Ele diz que a solução não é reverter o desmatamento, mas usar áreas desmatadas para agricultura e pecuária. Tudo me lembra coisas que já estão acontecendo. Agora quer levar as águas "inúteis" da Amazônia. É uma mentalidade preconceituosa, uma visão de fora. Suas idéias são de quem não conhece a floresta, quem acha que o verde significa atraso.
Não há uma "sobra inútil" das águas da região amazônica?
O ministro fala que sobra água inutilmente na Amazônia. Onde já se viu águas inúteis? Essas águas são tão inúteis como os Andes. A floresta não pode ser floresta, não pode cumprir sua função de abrigar diversidade biológica fantástica, onde habitam povos de culturas distintas. Não, a floresta tem de ter resultados econômicos. A Amazônia tem de dar lucro. É uma proposta para enriquecer meia dúzia e nos destruir.
O que incluiria num projeto de governo para a Amazônia?
A saúde. Os índios do Vale do Javari estão passando a fronteira, para serem atendidos por médicos do Peru e da Colômbia, países mais carentes que o Brasil. Está tudo ao Deus-dará. Também discutiria os problemas das cidades amazônicas. O que se deve discutir não é a sobra de água nas cidades, mas sua distribuição e uso.
O senhor continua crítico da política indigenista do governo?
Márcio Meira tem se mostrado sensível. O problema é que o governo destina recursos para várias organizações, mas pouco para a Funai. Eu, porém, estou otimista. Meira é um homem de qualidade, capaz de buscar de forma sensível novos caminhos para a Funai. Ele é de muito diálogo. O governo tem de lhe dar mais apoio.
Na avaliação de Possuelo, Mangabeira repetiu discursos que agradam a setores conservadores
da economia dos EUA
Leonencio Nossa, BRASÍLIA
As propostas do ministro Roberto Mangabeira Unger para a Amazônia, como construir aquedutos para o Nordeste, não são vistas como idéias mirabolantes ou inovadoras de um doutor de Harvard. Um dos ativistas que mais conhecem a Amazônia, o sertanista Sydney Possuelo, avalia que ele repete discursos velhos e preconceituosos que agradam a setores conservadores da economia dos Estados Unidos.
"Seu projeto me parece uma coisa importada e totalmente deslocada no contexto nacional", critica. "Queremos um progresso que não destrua a soberania nacional e a floresta. O projeto só legaliza o saque da Amazônia."
Possuelo aproveita para elogiar o trabalho do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira. Para ele, Meira é uma boa surpresa do governo Lula. "Não precisamos de grandes projetos para a Amazônia, mas de pessoas sensíveis que sabem dialogar com índios e ribeirinhos."
Como o senhor avalia a proposta de Mangabeira de educar os índios em mais de uma língua e cultura?
O ministro não falou novidade. Existem programas antigos de educação bilíngüe no Brasil. A maior parte dos povos indígenas fala o português e seu idioma. Há muitas escolas nas aldeias de ensino bilíngüe, isso não é novidade nem uma idéia inovadora para longo prazo.
É possível desenvolver projetos de mineração que garantam distribuição de renda na região?
Toda vez que se pensou na entrada de empresários na floresta se pensou em saques nos territórios indígenas. O projeto do ministro parece ter essa característica. Vamos tirar madeira, água, regulamentar a retirada de minério... Nada disso é novo. A biodiversidade da região continua sendo saqueada e o amazônida continua um ribeirinho carente. O que se quer é usar a Amazônia para produzir soja e criar bois para exportação. A idéia de desenvolvimento do ministro é violenta. Ele diz que a solução não é reverter o desmatamento, mas usar áreas desmatadas para agricultura e pecuária. Tudo me lembra coisas que já estão acontecendo. Agora quer levar as águas "inúteis" da Amazônia. É uma mentalidade preconceituosa, uma visão de fora. Suas idéias são de quem não conhece a floresta, quem acha que o verde significa atraso.
Não há uma "sobra inútil" das águas da região amazônica?
O ministro fala que sobra água inutilmente na Amazônia. Onde já se viu águas inúteis? Essas águas são tão inúteis como os Andes. A floresta não pode ser floresta, não pode cumprir sua função de abrigar diversidade biológica fantástica, onde habitam povos de culturas distintas. Não, a floresta tem de ter resultados econômicos. A Amazônia tem de dar lucro. É uma proposta para enriquecer meia dúzia e nos destruir.
O que incluiria num projeto de governo para a Amazônia?
A saúde. Os índios do Vale do Javari estão passando a fronteira, para serem atendidos por médicos do Peru e da Colômbia, países mais carentes que o Brasil. Está tudo ao Deus-dará. Também discutiria os problemas das cidades amazônicas. O que se deve discutir não é a sobra de água nas cidades, mas sua distribuição e uso.
O senhor continua crítico da política indigenista do governo?
Márcio Meira tem se mostrado sensível. O problema é que o governo destina recursos para várias organizações, mas pouco para a Funai. Eu, porém, estou otimista. Meira é um homem de qualidade, capaz de buscar de forma sensível novos caminhos para a Funai. Ele é de muito diálogo. O governo tem de lhe dar mais apoio.
18 de jan. de 2008
Índios protestam contra instalação de igreja em aldeia
Funai decidiu "defender a forma tradicional" de organização dos indígenas.
Índios de Mato Grosso do Sul pedem à Fundação Nacional do Índio (Funai) a retirada das igrejas de dentro das áreas de reserva.
Parte dos índios das aldeias de Panambi e Panambizinho não quer a instalação de uma igreja na área da reserva. Eles temem a perda da identidade cultural com o estímulo a uma tradição que não faz parte dos costumes da aldeia.
Para um cacique, se uma igreja for instalada, vai ser difícil evitar que representantes de outras religiões também queiram garantir espaço na aldeia.
O assunto gerou polêmica porque um grupo de indígenas costuma freqüentar os cultos religiosos. "Nós estamos aqui e nunca saiu briga, nada, só alegria e paz no coração", afirma o representante da igreja, Donizete Capilé.
Margarida Nicoletti, administradora regional da Funai, foi chamada para acabar com o impasse. Depois de ouvir os índios, ela tomou uma decisão. "A Funai vai trabalhar para tirar da aldeia essas religiões. Eles não estão concordando com isso. Portanto, nós vamos defender a forma tradicional de se organizarem", diz.
A decisão da Funai não deve ficar restrita à aldeia de Panambi. As igrejas situadas na reserva indígena de Dourados (MS) também serão notificadas. Para isso, a fundação vai contar com a ajuda da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.
A decisão da Funai foi baseada em uma norma que orienta a preservação da cultura indígena.
*http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL261550-5598,00.html
Índios de Mato Grosso do Sul pedem à Fundação Nacional do Índio (Funai) a retirada das igrejas de dentro das áreas de reserva.
Parte dos índios das aldeias de Panambi e Panambizinho não quer a instalação de uma igreja na área da reserva. Eles temem a perda da identidade cultural com o estímulo a uma tradição que não faz parte dos costumes da aldeia.
Para um cacique, se uma igreja for instalada, vai ser difícil evitar que representantes de outras religiões também queiram garantir espaço na aldeia.
O assunto gerou polêmica porque um grupo de indígenas costuma freqüentar os cultos religiosos. "Nós estamos aqui e nunca saiu briga, nada, só alegria e paz no coração", afirma o representante da igreja, Donizete Capilé.
Margarida Nicoletti, administradora regional da Funai, foi chamada para acabar com o impasse. Depois de ouvir os índios, ela tomou uma decisão. "A Funai vai trabalhar para tirar da aldeia essas religiões. Eles não estão concordando com isso. Portanto, nós vamos defender a forma tradicional de se organizarem", diz.
A decisão da Funai não deve ficar restrita à aldeia de Panambi. As igrejas situadas na reserva indígena de Dourados (MS) também serão notificadas. Para isso, a fundação vai contar com a ajuda da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.
A decisão da Funai foi baseada em uma norma que orienta a preservação da cultura indígena.
*http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL261550-5598,00.html
Ato da OAB terá abraço simbólico às causas indígenas
A Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul, com apoio da administração regional da Fundação Nacional do índio (Funai), estará realizando no próximo dia 18 (sexta-feira), o "Abraço Intercultural Indígena pela Paz". Previsto para às 9 horas, o ato será marcado por dois abraços à sede da OAB-MS, sendo o primeiro a de índios, e o segundo, simultâneo, de advogados em torno dos índios.
Na última semana, o presidente da Seccional, Fábio Trad, e a presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da própria OABMS, Delasnieve Miranda Daspet de Souza, reuniram-se com o administrador regional da Funai para o Baixo Pantanal, Claudionor do Carmo Miranda, acertando os detalhes do evento, que também é apoiado pela Comissão Especial de Assuntos Indígenas da Ordem no Estado.
O objetivo do abraço, segundo o presidente da OAB-MS, Fábio Trad, é chamar a atenção dos poderes públicos e da sociedade de um modo geral, para a crescente onda de violência entre os povos indígenas, principalmente em Mato Grosso do Sul. "A OAB tem por finalidade não só a denúncia social das iniqüidades e injustiças, mas também despertar a sociedade para situações de descalabros, como a que vem sendo submetida a comunidade indígena no Estado", afirmou. Os dados finais levantados pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontaram um número alarmante de mortes nas aldeias de Mato Grosso do Sul por agressão em 2007. Segundo as estatísticas, foram 44 contra 18 no ano de 2006, número considerado bastante preocupante pelas autoridades ligadas ao setor, o que também demonstra a necessidade de providências imediatas e eficientes para se combater o problema. Fábio Trad alertou que o "povo indígena está, praticamente, sendo dizimado pela insensibilidade do Estado e omissão da sociedade. O índio é nosso passado, nossa história e a nossa cultura". Ainda segundo o presidente da OAB-MS, "a nossa indiferença de hoje se compara à crueldade dos colonizadores, que tratavam os índios como 'coisas'". "Ser evoluído não é apenas aperfeiçoar-se nas tecnologias, mas sobretudo, ser um constante aprendiz da lógica do amor. Respeitar os índios é amar ao próximo", concluiu o presidente da Seccional, que já está mobilizando as comunidades indígenas e advogados da Capital e interior do estado.
Fonte: Clipping da 6ªCCR do MPF.
Na última semana, o presidente da Seccional, Fábio Trad, e a presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da própria OABMS, Delasnieve Miranda Daspet de Souza, reuniram-se com o administrador regional da Funai para o Baixo Pantanal, Claudionor do Carmo Miranda, acertando os detalhes do evento, que também é apoiado pela Comissão Especial de Assuntos Indígenas da Ordem no Estado.
O objetivo do abraço, segundo o presidente da OAB-MS, Fábio Trad, é chamar a atenção dos poderes públicos e da sociedade de um modo geral, para a crescente onda de violência entre os povos indígenas, principalmente em Mato Grosso do Sul. "A OAB tem por finalidade não só a denúncia social das iniqüidades e injustiças, mas também despertar a sociedade para situações de descalabros, como a que vem sendo submetida a comunidade indígena no Estado", afirmou. Os dados finais levantados pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontaram um número alarmante de mortes nas aldeias de Mato Grosso do Sul por agressão em 2007. Segundo as estatísticas, foram 44 contra 18 no ano de 2006, número considerado bastante preocupante pelas autoridades ligadas ao setor, o que também demonstra a necessidade de providências imediatas e eficientes para se combater o problema. Fábio Trad alertou que o "povo indígena está, praticamente, sendo dizimado pela insensibilidade do Estado e omissão da sociedade. O índio é nosso passado, nossa história e a nossa cultura". Ainda segundo o presidente da OAB-MS, "a nossa indiferença de hoje se compara à crueldade dos colonizadores, que tratavam os índios como 'coisas'". "Ser evoluído não é apenas aperfeiçoar-se nas tecnologias, mas sobretudo, ser um constante aprendiz da lógica do amor. Respeitar os índios é amar ao próximo", concluiu o presidente da Seccional, que já está mobilizando as comunidades indígenas e advogados da Capital e interior do estado.
Fonte: Clipping da 6ªCCR do MPF.
Dom Song coordena a mais indígena diocese do país, em cidade no rio Amazonas
Da longínqua São Gabriel da Cachoeira, no rio Amazonas, para Piracicaba. O bispo chinês dom José Song Sui Wan é coordenador da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, considerada a mais indígena dos municípios brasileiros, com mais de 80 mil índios de 22 tribos diferentes. O religioso está no município desde o final de dezembro, em tratamento médico para cura de malária e aproveita o tempo livre para ir no colégio Dom Bosco, da família Salesiana da qual faz parte.
"Já havia vindo aqui umas cinco vezes e acho uma cidade encantadora, palco de um povo muito hospitaleiro. Um padre amigo me havia indicado a cidade para repouso e ele estava certo". No alto dos seus 66 anos, o religioso chinês deve ficar em terras piracicabanas até o final do mês, quando retorna para a diocese que tem área superior a de todo o Estado de São Paulo. Dom Song coordena a segunda maior diocese indígena, atrás apenas da Diocese do Xingu. "Porém, a nossa diocese tem um número maior de índios", diz ao lembrar dos cerca de 80 mil indígenas espalhados em 22 tribos diferentes. "Tive de aprender a me comunicar com eles nos dialetos locais. O mais engraçado é que eu não aprendi todas as palavras, mas apenas como se diz alguns dos pecados mais comuns, para que eu pudesse entender o que eles diziam ao confessar", completa. Dom Song nasceu em Xangai em 1941 e sua família foi mais uma das vítimas da perseguição religiosa realizada pelos comunistas na era de Mao Tsé-Tung. "Em 1949 minha família abandonou a terra natal e partiu para Hong Kong, onde precisei aprender o cantonês (até então, Song era versado no mandarim, língua oficial da China)" - o pai do bispo escrevia artigos religiosos na revista da Universidade Aurora de Xangai e entrou para a 'lista negra' do governo. "A gente devia ir embora ou as coisas podiam se complicar". Depois da fuga, Song demorou quase três meses para chegar ao Brasil de navio. Nesse meio tempo, dentro da embarcação, aprendeu com o pai a falar português, língua que considera a mais complexa com a qual já teve contato - e não são poucas, levando em conta que o bispo fala latim, grego, três dialetos chineses, inglês, francês, italiano e tem noções de alemão e espanhol. Em solo brasileiro, o religioso continuou a estudar para se tornar um missionário jesuíta. "Cheguei com 17 anos no Brasil e, de lá para cá, não saí mais", lembra. Depois de cursar o ensino médio no Seminário Salesiano de Hong Kong, de 1955 a 1959. No Brasil, licenciou-se em Filosofia em Lorena-SP (1962-1966), cursou Mestrado em Filosofia na Universidade Pontifícia Salesiana de Roma (1968-1971). Ele possui licenciatura em Letras e - veja só – deu aulas de Língua Portuguesa em alguns colégios do Brasil. Como padre salesiano, trabalhou em obras salesianas de Lorena,Cruzeiro, Lavrinhas, Campinas e Araras.Nomeado bispo pelo Papa João Paulo II em 23 de janeiro de 2002 e ordenado bispo em 27 de abril de 2002, dom Song partiu para o município que fica dentro do rio Amazonas há seis anos. Local que é palco "de natureza fabulosa, mas com peculiaridades muitas vezes difíceis de serem transpostas". "Me lembro de uma história muito boa, em que eu pedi aos índios que não viessem nus na missa do domingo, porque eles teriam a presença do bispo. Eles concordaram em ir com roupas, mesmo não sendo do feitio deles. Porém, quando o bispo terminou de rezar a missa, começou a tirar alguns dos paramentos que vestia (como estola, crucifixo, faixas) e os índios entenderam que aquilo era um sinal de que poderiam começar a se despir dentro da igreja. Não deu outra", lembra aos risos.
Igreja x política
Da China, dom Song sabe apenas notícias que lê em jornais, revistas e internet. "Nunca mais voltei para lá". O assunto igreja Católica versus política chinesa ainda é delicado, embora um pouco menos em relação aos anos de chumbo de Tsé-Tung que fizeram com que o bispo viesse ao Brasil. "Há esforços do Vaticano (como a tentativa frustrada de João Paulo II visitar o país e a vontade de Bento XVI realizar tal feito), mas as relações diplomáticas continuam delicadas. Acredito que a Muralha da China ainda cairá, tal qual a de Berlim". Enquanto isso, dom Song continua no Brasil, catequizando as dezenas de milhares de índios que freqüentam a diocese de São Gabriel da Cachoeira. Sem desanimar jamais. Muito pelo contrário. Dom Song busca cativar os seus fiéis, seja pela prática de mágica ou de números musicais. Na visita episcopal ao Vaticano, tocou gaita e fez mágicas para o Papa João Paulo II, recebendo aplausos e elogios do Pontífice. "São artifícios para tornar a maneira de me comunicar mais atrativa. Em um mundo em que se tem tantas informações, é cada vez mais difícil ter o seu discurso mais sedutor do que os outros". Sábias palavras de alguém com uma história de vida tão sedutora quanto às canções que dedilha no piano do Dom Bosco Cidade Alta.
Fonte: Clipping da 6ªCCR do MPF.
"Já havia vindo aqui umas cinco vezes e acho uma cidade encantadora, palco de um povo muito hospitaleiro. Um padre amigo me havia indicado a cidade para repouso e ele estava certo". No alto dos seus 66 anos, o religioso chinês deve ficar em terras piracicabanas até o final do mês, quando retorna para a diocese que tem área superior a de todo o Estado de São Paulo. Dom Song coordena a segunda maior diocese indígena, atrás apenas da Diocese do Xingu. "Porém, a nossa diocese tem um número maior de índios", diz ao lembrar dos cerca de 80 mil indígenas espalhados em 22 tribos diferentes. "Tive de aprender a me comunicar com eles nos dialetos locais. O mais engraçado é que eu não aprendi todas as palavras, mas apenas como se diz alguns dos pecados mais comuns, para que eu pudesse entender o que eles diziam ao confessar", completa. Dom Song nasceu em Xangai em 1941 e sua família foi mais uma das vítimas da perseguição religiosa realizada pelos comunistas na era de Mao Tsé-Tung. "Em 1949 minha família abandonou a terra natal e partiu para Hong Kong, onde precisei aprender o cantonês (até então, Song era versado no mandarim, língua oficial da China)" - o pai do bispo escrevia artigos religiosos na revista da Universidade Aurora de Xangai e entrou para a 'lista negra' do governo. "A gente devia ir embora ou as coisas podiam se complicar". Depois da fuga, Song demorou quase três meses para chegar ao Brasil de navio. Nesse meio tempo, dentro da embarcação, aprendeu com o pai a falar português, língua que considera a mais complexa com a qual já teve contato - e não são poucas, levando em conta que o bispo fala latim, grego, três dialetos chineses, inglês, francês, italiano e tem noções de alemão e espanhol. Em solo brasileiro, o religioso continuou a estudar para se tornar um missionário jesuíta. "Cheguei com 17 anos no Brasil e, de lá para cá, não saí mais", lembra. Depois de cursar o ensino médio no Seminário Salesiano de Hong Kong, de 1955 a 1959. No Brasil, licenciou-se em Filosofia em Lorena-SP (1962-1966), cursou Mestrado em Filosofia na Universidade Pontifícia Salesiana de Roma (1968-1971). Ele possui licenciatura em Letras e - veja só – deu aulas de Língua Portuguesa em alguns colégios do Brasil. Como padre salesiano, trabalhou em obras salesianas de Lorena,Cruzeiro, Lavrinhas, Campinas e Araras.Nomeado bispo pelo Papa João Paulo II em 23 de janeiro de 2002 e ordenado bispo em 27 de abril de 2002, dom Song partiu para o município que fica dentro do rio Amazonas há seis anos. Local que é palco "de natureza fabulosa, mas com peculiaridades muitas vezes difíceis de serem transpostas". "Me lembro de uma história muito boa, em que eu pedi aos índios que não viessem nus na missa do domingo, porque eles teriam a presença do bispo. Eles concordaram em ir com roupas, mesmo não sendo do feitio deles. Porém, quando o bispo terminou de rezar a missa, começou a tirar alguns dos paramentos que vestia (como estola, crucifixo, faixas) e os índios entenderam que aquilo era um sinal de que poderiam começar a se despir dentro da igreja. Não deu outra", lembra aos risos.
Igreja x política
Da China, dom Song sabe apenas notícias que lê em jornais, revistas e internet. "Nunca mais voltei para lá". O assunto igreja Católica versus política chinesa ainda é delicado, embora um pouco menos em relação aos anos de chumbo de Tsé-Tung que fizeram com que o bispo viesse ao Brasil. "Há esforços do Vaticano (como a tentativa frustrada de João Paulo II visitar o país e a vontade de Bento XVI realizar tal feito), mas as relações diplomáticas continuam delicadas. Acredito que a Muralha da China ainda cairá, tal qual a de Berlim". Enquanto isso, dom Song continua no Brasil, catequizando as dezenas de milhares de índios que freqüentam a diocese de São Gabriel da Cachoeira. Sem desanimar jamais. Muito pelo contrário. Dom Song busca cativar os seus fiéis, seja pela prática de mágica ou de números musicais. Na visita episcopal ao Vaticano, tocou gaita e fez mágicas para o Papa João Paulo II, recebendo aplausos e elogios do Pontífice. "São artifícios para tornar a maneira de me comunicar mais atrativa. Em um mundo em que se tem tantas informações, é cada vez mais difícil ter o seu discurso mais sedutor do que os outros". Sábias palavras de alguém com uma história de vida tão sedutora quanto às canções que dedilha no piano do Dom Bosco Cidade Alta.
Fonte: Clipping da 6ªCCR do MPF.
Índios de cinco etnias estão na Artnor
Os povos indígenas são os principais homenageados da 14ª edição da Feira Internacional de Artesanato no Nordeste - ARTNOR. Além da ambientação, que traz ícones da tradição e cultura dos índios, uma pequena oca montada no centro da feira abriga representantes de cinco tribos brasileiras - Kariri Xocó, Xukuru Cariri e Karapotó, de Alagoas; Pataxó, da Bahia; e Terena, do Mato Grosso do Sul.
Enquanto conhecem um pouco mais da cultura indígena, os visitantes podem comprar colares, brincos, instrumentos de caça, pesca e objetos de decoração confeccionado pelos índios. O representante do Movimento Indígena Nacional, Mateus Terena, é um dos participantes da ARTNOR. Segundo Terena, a iniciativa de apoiar e incentivar o povo indígena numa feira internacional reforça o compromisso do Sebrae em promover inserção do artesão, mesmo que ele seja índio, com o mercado consumidor. Estudante de Antropologia pela Universidade Federal de Brasília (UNB), Mateus Terena, compreende que, mesmo com a interferência do "branco", das novas tecnologias e da globalização no modo de vida os povos indígenas, o índio ainda preserva suas tradições. "O índio não pode ficar à tona da realidade atual, mas está em nossas raízes a preservação da cultura e as nossas tradições são transportadas para o artesanato". Nos dias 15 e 17 de janeiro, terça e quinta-feira, as cinco tribos que estão na ARTNOR realizarão apresentações das danças indígenas.
Fonte: Clipping da 6ªCCR do MPF.
Enquanto conhecem um pouco mais da cultura indígena, os visitantes podem comprar colares, brincos, instrumentos de caça, pesca e objetos de decoração confeccionado pelos índios. O representante do Movimento Indígena Nacional, Mateus Terena, é um dos participantes da ARTNOR. Segundo Terena, a iniciativa de apoiar e incentivar o povo indígena numa feira internacional reforça o compromisso do Sebrae em promover inserção do artesão, mesmo que ele seja índio, com o mercado consumidor. Estudante de Antropologia pela Universidade Federal de Brasília (UNB), Mateus Terena, compreende que, mesmo com a interferência do "branco", das novas tecnologias e da globalização no modo de vida os povos indígenas, o índio ainda preserva suas tradições. "O índio não pode ficar à tona da realidade atual, mas está em nossas raízes a preservação da cultura e as nossas tradições são transportadas para o artesanato". Nos dias 15 e 17 de janeiro, terça e quinta-feira, as cinco tribos que estão na ARTNOR realizarão apresentações das danças indígenas.
Fonte: Clipping da 6ªCCR do MPF.
Número de assassinatos de índios aumenta 60% em 2007, revela Cimi
Pelo menos 76 índios foram assassinados no Brasil em 2007, revela levantamento preliminar do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O número supera em quase 60% os dados de 2006, quando havia sido registrado, até então, o maior número de crimes fatais da década contra integrantes de tribos indígenas.
Com 48 índios assassinados, Mato Grosso do Sul foi o estado com o maior número de mortes no ano passado. Esse número equivale ao total de homicídios desse tipo cometidos no país em 2006. Em segundo lugar nas estatísticas, aparece Pernambuco, com oito mortes nos últimos 12 meses.
Os números divulgados pelo Cimi incluem casos que receberam destaque da imprensa brasileira. Entre eles, o do líder guarani-kaiowá Ortiz Lopes, morto a tiros em Mato Grosso do Sul, e do cacique Joaquim Guajajara, da Terra Indígena Araribóia, também baleado de forma fatal no Maranhão.
O levantamento completo sobre violência contra povos indígenas deve ser divulgado em abril. Além de detalhar os casos de homicídio, o estudo deve apresentar outros abusos sofridos pelos índios que, segundo o Cimi, não são de conhecimento público.
"O Cimi vai apresentar dados completos e vai alcançar outros tipos de violência que são praticados contra a comunidade indígena que são inúmeras. O relatório vai trazer dados de 2006 e 2007", explicou o vice-presidente do conselho, Roberto Liebgott, ao comentar, em entrevista à Agência Brasil, a divulgação dos dados preliminares.
Com 48 índios assassinados, Mato Grosso do Sul foi o estado com o maior número de mortes no ano passado. Esse número equivale ao total de homicídios desse tipo cometidos no país em 2006. Em segundo lugar nas estatísticas, aparece Pernambuco, com oito mortes nos últimos 12 meses.
Os números divulgados pelo Cimi incluem casos que receberam destaque da imprensa brasileira. Entre eles, o do líder guarani-kaiowá Ortiz Lopes, morto a tiros em Mato Grosso do Sul, e do cacique Joaquim Guajajara, da Terra Indígena Araribóia, também baleado de forma fatal no Maranhão.
O levantamento completo sobre violência contra povos indígenas deve ser divulgado em abril. Além de detalhar os casos de homicídio, o estudo deve apresentar outros abusos sofridos pelos índios que, segundo o Cimi, não são de conhecimento público.
"O Cimi vai apresentar dados completos e vai alcançar outros tipos de violência que são praticados contra a comunidade indígena que são inúmeras. O relatório vai trazer dados de 2006 e 2007", explicou o vice-presidente do conselho, Roberto Liebgott, ao comentar, em entrevista à Agência Brasil, a divulgação dos dados preliminares.
16 de jan. de 2008
Empreendedorismo indígena
O Brasil terá em julho sua primeira conferência de empreendedorismo indígena. O evento já teve duas edições. Foi criado por Raul Gouvêa, economista brasileiro com doutorado pela Universidade de Illinois, hoje professor da Universidade do Novo México. A idéia nasceu do contato com alunos de origem indígena. Nesta edição, Gouvêa espera reunir, no Amazonas, pelo menos 350 pessoas entre empresas privadas, ONGs, órgãos multilaterais e representantes indígenas do Brasil e do exterior. "Para produzir mel ou uma fruta, é preciso formalizar o canal de distribuição. Vamos discutir problemas, fomentar parcerias e procurar soluções", diz. Na pauta, estão projetos de educação à distância, ecoturismo, biopirataria, patenteamento e a venda online de produtos indígenas - O Globo, 16/1, Negócios e Cia, p.28.
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