Funai alerta para contaminação de grupos isolados do Vale do Javari

A possibilidade de contaminação por doenças infecto-contagiosas dos indígenas que vivem sem contato com a sociedade no Vale do Javari (AM) representa motivo de preocupação, afirma o coordenador do Departamento de Índios Isolados da Funai, Elias Biggio. Isso porque o local concentra o maior número e a maior diversidade de grupos de índios isolados do país. Dos 69 grupos conhecidos pela Fundação Nacional do Índio (Funai), 16 estão no Javari.

Em entrevista ao programa Amazônia Brasileira, da Rádio Nacional da Amazônia, Biggio explicou que povos isolados são aqueles que não mantêm contato regular com a sociedade. Atualmente, a política da Funai é a de não tentar aproximação com esses grupos e uma das razões principais é justamente o risco de transmissão de doenças.

"Hoje não fazemos contato (com as populações isoladas) porque vimos quanto é nefasto e problemático”, explica. “Sempre que se fazia contato havia muitas mortes. Os sertanistas e indigenistas se sentiam vitoriosos quando 50% do grupo contatado morria.”

Muitas etnias brasileiras desapareceram por causa de doenças como gripe, sarampo e varíola. Há vários casos registrados de povos exterminados após receberem como presente, roupas, tecidos e cobertores que pertenciam a pessoas contaminadas. Sem nenhuma defesa no organismo, os indígenas sofrem com os efeitos devastadores das doenças.

Para Elias, a situação no Vale do Javari é complicada. Ele recomenda que, em caso de contato dos isolados com não-indígenas, seria necessária uma imediata operação conjunta da Funai e da Fundação Nacional da Saúde (Funasa). “Temos de estar alertas para uma eventual situação de contato, porque aí teremos de imunizar esses índios. É uma operação que necessita de extremo cuidado. Precisaremos de uma equipe multidisciplinar para que eles possam fazer a vacinação, que levará um longo tempo”, diz.

Segundo Elias, grupos de índios isolados têm mantido contato esporádico com povos contatados como os Matís e Kanamari. A Funai considera o fato preocupante. “O problema da aproximação entre índios contatados (pela Funai) e índios isolados é que esses índios hoje são portadores de determinados vírus, como o da gripe, que pode ser fatal para os não-contatados”, informa.

Para Elias, seria necessário fazer um cinturão de vacinação das populações que vivem em torno dos povos isolados, que se estenda até a Tabatinga, a 33 quilômetros de Atalaia do Norte, cidade mais próxima da entrada da área indígena: “Além dos grupos do Vale do Javari, todo mundo tem de estar vacinado, inclusive a população ribeirinha que vive no entorno deve estar também com as vacinas em dia para que os índios não levem as doenças para o interior do Vale do Javari”. (Agência Brasil)