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Dom Song coordena a mais indígena diocese do país, em cidade no rio Amazonas

Da longínqua São Gabriel da Cachoeira, no rio Amazonas, para Piracicaba. O bispo chinês dom José Song Sui Wan é coordenador da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, considerada a mais indígena dos municípios brasileiros, com mais de 80 mil índios de 22 tribos diferentes. O religioso está no município desde o final de dezembro, em tratamento médico para cura de malária e aproveita o tempo livre para ir no colégio Dom Bosco, da família Salesiana da qual faz parte.
"Já havia vindo aqui umas cinco vezes e acho uma cidade encantadora, palco de um povo muito hospitaleiro. Um padre amigo me havia indicado a cidade para repouso e ele estava certo". No alto dos seus 66 anos, o religioso chinês deve ficar em terras piracicabanas até o final do mês, quando retorna para a diocese que tem área superior a de todo o Estado de São Paulo. Dom Song coordena a segunda maior diocese indígena, atrás apenas da Diocese do Xingu. "Porém, a nossa diocese tem um número maior de índios", diz ao lembrar dos cerca de 80 mil indígenas espalhados em 22 tribos diferentes. "Tive de aprender a me comunicar com eles nos dialetos locais. O mais engraçado é que eu não aprendi todas as palavras, mas apenas como se diz alguns dos pecados mais comuns, para que eu pudesse entender o que eles diziam ao confessar", completa. Dom Song nasceu em Xangai em 1941 e sua família foi mais uma das vítimas da perseguição religiosa realizada pelos comunistas na era de Mao Tsé-Tung. "Em 1949 minha família abandonou a terra natal e partiu para Hong Kong, onde precisei aprender o cantonês (até então, Song era versado no mandarim, língua oficial da China)" - o pai do bispo escrevia artigos religiosos na revista da Universidade Aurora de Xangai e entrou para a 'lista negra' do governo. "A gente devia ir embora ou as coisas podiam se complicar". Depois da fuga, Song demorou quase três meses para chegar ao Brasil de navio. Nesse meio tempo, dentro da embarcação, aprendeu com o pai a falar português, língua que considera a mais complexa com a qual já teve contato - e não são poucas, levando em conta que o bispo fala latim, grego, três dialetos chineses, inglês, francês, italiano e tem noções de alemão e espanhol. Em solo brasileiro, o religioso continuou a estudar para se tornar um missionário jesuíta. "Cheguei com 17 anos no Brasil e, de lá para cá, não saí mais", lembra. Depois de cursar o ensino médio no Seminário Salesiano de Hong Kong, de 1955 a 1959. No Brasil, licenciou-se em Filosofia em Lorena-SP (1962-1966), cursou Mestrado em Filosofia na Universidade Pontifícia Salesiana de Roma (1968-1971). Ele possui licenciatura em Letras e - veja só – deu aulas de Língua Portuguesa em alguns colégios do Brasil. Como padre salesiano, trabalhou em obras salesianas de Lorena,Cruzeiro, Lavrinhas, Campinas e Araras.Nomeado bispo pelo Papa João Paulo II em 23 de janeiro de 2002 e ordenado bispo em 27 de abril de 2002, dom Song partiu para o município que fica dentro do rio Amazonas há seis anos. Local que é palco "de natureza fabulosa, mas com peculiaridades muitas vezes difíceis de serem transpostas". "Me lembro de uma história muito boa, em que eu pedi aos índios que não viessem nus na missa do domingo, porque eles teriam a presença do bispo. Eles concordaram em ir com roupas, mesmo não sendo do feitio deles. Porém, quando o bispo terminou de rezar a missa, começou a tirar alguns dos paramentos que vestia (como estola, crucifixo, faixas) e os índios entenderam que aquilo era um sinal de que poderiam começar a se despir dentro da igreja. Não deu outra", lembra aos risos.

Igreja x política
Da China, dom Song sabe apenas notícias que lê em jornais, revistas e internet. "Nunca mais voltei para lá". O assunto igreja Católica versus política chinesa ainda é delicado, embora um pouco menos em relação aos anos de chumbo de Tsé-Tung que fizeram com que o bispo viesse ao Brasil. "Há esforços do Vaticano (como a tentativa frustrada de João Paulo II visitar o país e a vontade de Bento XVI realizar tal feito), mas as relações diplomáticas continuam delicadas. Acredito que a Muralha da China ainda cairá, tal qual a de Berlim". Enquanto isso, dom Song continua no Brasil, catequizando as dezenas de milhares de índios que freqüentam a diocese de São Gabriel da Cachoeira. Sem desanimar jamais. Muito pelo contrário. Dom Song busca cativar os seus fiéis, seja pela prática de mágica ou de números musicais. Na visita episcopal ao Vaticano, tocou gaita e fez mágicas para o Papa João Paulo II, recebendo aplausos e elogios do Pontífice. "São artifícios para tornar a maneira de me comunicar mais atrativa. Em um mundo em que se tem tantas informações, é cada vez mais difícil ter o seu discurso mais sedutor do que os outros". Sábias palavras de alguém com uma história de vida tão sedutora quanto às canções que dedilha no piano do Dom Bosco Cidade Alta.
Fonte: Clipping da 6ªCCR do MPF.

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Daniel Munduruku, índio e escritor

Postado no Blog da TV CULTURA
28/07/2009 | 18h00 | Mariana Del Grande

Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

Em breve a Loja…

Garimpo invade bacia do Tapajós

por


Os riscos apontados para a bacia do Tapajós deixam claro que a região amazônica, apesar do aumento nos índices de queda no desmatamento, continua a ser tratada como o grande almoxarifado de recursos naturais do planeta. As ações planejadas para a maior bacia hidrográfica do mundo não se restringem a planos de construção de uma sequência de usinas rios adentro. Bastou o governo informar que parte das terras que pertenciam às unidades de conservação da Amazônia havia sido desvinculada das áreas protegidas para que se tornassem alvo de ações de garimpo e extrativismo ilegal. A reportagem é de André Borges e publicada pelo jornal Valor, 26-07-2012. A pressão cresceu e o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) tem procurado controlar a situação e deter a entrada de pessoas na região, mas seu poder de atuação ficou reduzido, porque está restrito às áreas legalmente protegidas. “Com a desafetação (redução) das áreas, muita gente está se mexendo para…