23 de jul. de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO: UMA ILUSÃO


Por Daniel Munduruku

Tenho lido bastante coisa sobre uma certa escola sem partido, proposta feita por um grupo de deseducadores nacionais.
Fiquei pensando muito compenetradamente sobre o tema e achei por bem dar minha versão sobre o grupo que propõe tão descarado projeto.
A escola sem partido já existiu no Brasil. Ela começou em 1964 quando por aqui foi engendrado um golpe militar. Nessa ocasião, os direitos dos cidadãos foram cassados pela ideia de que era preciso construir uma pátria voltada para os princípios da moral e do civismo. Todos os brasileiros deveriam aprender a honrar sua pátria e sua família. Professores não podiam falar de revoluções com o risco de serem considerados inimigos da verdade que nasce com os princípios morais. Todos deveriam pensar do mesmo jeito e ponto final.
Eu, filho da floresta, fui vítima dessa ideologia que não se queria ideologia porque defendia uma pátria sem ideologia. Levado para a escola me impuseram uma língua única; o aprendizado de disciplinas universais; a necessidade de falar uma língua estrangeira; bater continência à bandeira sem me explicar o que isso significava; uma profissão que me dignificava como cidadão. Eu fazia parte de uma “nação que vai pra frente, um povo unido de grande valor”. E o mais interessante: eu era feliz por causa disso. Por isso eu marchava no dia 7 de setembro; cantava o hino nacional com orgulho; dedicava-me ao exercício de ser “um brasileiro autêntico”.
Meus professores me ensinavam coisas muito práticas que me conduziam para um bem estar social. Aprender português ou matemática era apenas um passo para ser completamente feliz. Pensar era um luxo desnecessário.
Por incrível que pareça eu estudei numa escola religiosa desde a mais tenra idade. Era uma escola que primava pelo fato de ensinar às crianças e jovens uma profissão que os tornariam “indigentes” do sistema. Acontece que esta mesma escola que me alienava, aceitando a generosa oferta do Estado, também me ofereceu um olhar crítico sobre o mundo.
Confesso que naquela ocasião eu nunca ouvira falar de Caetano, Chico ou Gil. Eu ouvia músicas religiosas que enlevavam meu espírito à porta do paraíso e nada mais. Passei os primeiros quinze anos de minha vida sem saber que a merenda que eu comia na escola era fruto de falcatruas engendradas no coração do sistema que me pedia cidadania plena. Eu era massa de manobra. Mas eu não sabia disso.
Foi a mesma igreja que me alienou deu-me um olhar crítico sobre o mundo. Era prática à época achar meios de driblar a censura. Foi ela que me ofereceu as canções de Geraldo Vandré (pra não dizer que não falei das flores); Jair Rodrigues (cavalgada); Belchior (Como nossos pais); Cálice (Chico Buarque), entre outras. Não me apresentaram Marx ou Che Guevara; não falaram para mim de Gramsci ou Paulo Freire. Disseram-me sobre um certo Jesus, revolucionário que curava as pessoas, dava comida aos pobres, questionava a riqueza dos ricos, vivia no meio de prostitutas e mendigos; não tinha nojo das feridas sociais e convivia pacificamente com aqueles que cobravam impostos. Foi este revolucionário que me chamou atenção. Os demais, só viria conhecer anos depois quando já frequentava os bancos da universidade que fazia questão de lembrar que eu era um zé ninguém e que ali não era meu lugar.
Eu cresci um homem de esquerda. O acesso à universidade quebrou um destino que já estava traçado para mim: eu seria um ninguém com carteira de trabalho assinada. Seria a massa de manobra que o Estado brasileiro desejava. Seria o funcionário padrão tão desejado pelas corporações alimentadas pela ideia da ideologia única. Tudo estava devidamente escrita no script do filme de minha vida.
Tudo estava certo. Eu, no entanto, quebrei o escrito. Por força da crença no tal revolucionário Jesus eu saí daquilo que era considerado meu destino. Comecei a ter acesso a livros que falavam sobre possibilidades de sermos fraternos de verdade, que não era justo meia dúzia ter toda riqueza enquanto milhões passavam fome; não era possível ficar assistindo os comerciais de margarina, onde as pessoas são sempre felizes, enquanto houvesse pessoas na penúria. Que uma sociedade multiétnica pudesse ser comandada por uma elite branca. Não foi Karl Marx que me disse isso; não foi seu “livro vermelho”, mas um certo livro de cabeceira que reunia a história de muitos povos em diferentes épocas. Tempos depois descobri que tal livro se chamava Bíblia Sagrada.
Hoje fico pasmo quando alguém defende a tal escola sem partido como se isso fosse uma novidade contra a invasão marxista. É simplesmente o jeito de defender a volta da ideologia militar dos anos 1970 porque se trata de perseguir pessoas que pensam diferentes; se trata de evitar que pobres tenham acesso ao sistema de ensino que os empodera; se trata de continuar a dividir as populações indígenas oferecendo a elas a figura do “capitão” em detrimento da autoridade do “cacique”. Em resumo, trata-se da infeliz ideia de tornar a todos nós massa de manobra de uma elite que não aceita dividir o poder, não admite a ideia da democracia como partilha de direitos.
Será que as pessoas não veem isso como um retrocesso? Será mesmo que todos pensem que as doutrinas de esquerdas são macabras? Será que todo mundo acha que o mundo todo é estúpido? Tá certo que o comunismo não deu certo, mas o pensamento dialético está presente em nossa leitura de mundo. O capitalismo não nos oferece o contraditório; quem faz isso é a lei baseada nos princípios universais dos direitos humanos, fruto de uma luta mundial; o fim da escravidão não foi apenas uma benesse do Estado Brasileiro, mas fruto das revoltas populares nascidas da consciência dos direitos; a demarcação das terras indígenas não é caridade, mas direito conquistado. Será que é disso que estamos falando?
Por fim, penso nos parentes indígenas que defendem com unhas e dentes a FUNAI. Penso que as pessoas mais conscientes sabem da importância desse órgão para as populações indígenas, mas sabem também que é preciso avançar. Normalmente quem a defende são aqueles que estão atrelados a um esquema de privilégios. No meu ponto de vista, pensar na manutenção da instituição tal qual ela se encontra só é compreensível se imaginarmos que ela é a reprodução da tal escola sem partido. A FUNAI é alienante. Ela nunca serviu para conscientizar as populações sobre seus direitos porque este não é o papel do Estado que ela representa. A FUNAI não liberta. Ela aprisiona. A escola sem partido, também. É uma ilusão. As duas.


30 de jun. de 2016

TAWÉ - NAÇÃO MUNDURUKU - UMA AVENTURA NA AMAZÔNIA

TAWÉ - NAÇÃO MUNDURUKU - UMA AVENTURA NA AMAZÔNIA
WALTER ANDRADE PARREIRA
EDITORA DECÁLOGO

(primeira edição publicada em 2006)



 Prefaciei este livro há alguns anos atrás. Eu o fiz porque seu autor é uma pessoa maravilhosamente gentil, extremamente comprometida com a causa das populações indígenas e um educador de primeira linha (entenda-se educador em seu mais belo sentido). Fi-lo também porque a leitura me causou um sentimento muito profundo de saudade de casa. Walter conseguiu descrever com detalhes a sutileza invisível dos parentes Munduruku. Talvez - me arrisco dizer - tenha observado coisas que somente pessoas com o coração puro possa enxergar. Sem desejar ser um estudioso, sem desejar interferir ou julgar o que via, ele sentiu com o coração a punjância de uma cultura que sabe olhar para o mundo de forma holística, plural, dinâmica, atual e ancestral. Tudo isso ao mesmo tempo. 
Penso que poucos estudiosos - antropólogos, etnólogos - ou religiosos - católicos e protestantes -, conseguiram ir além da aparência ou daquilo que os Munduruku quiseram mostrar. Walter não. Walter foi além. Foi à alma de nossa gente que encontrou nele um aliado, amigo, baripnia (parente). Tem coisas que os Munduruku só revelamos para nossos baripnia. Não pense que isso foi dito teoricamente, pois não foi. Isso foi passado através da silenciosa linguagem que sai de um coração e vai para o outro. O autor soube captar com sua sensibilidade,
O livro do meu amigo Walter traz narrado esse encontro. É uma leitura necessária para quem quer encontrar algumas respostas para as agruras dos dias atuais. É um livro que quem o lê se auto-ajuda.
Vale lembrar que a visita de Walter aos Munduruku se deu na década de 1970, portanto é de um tempo que quase se perde na memória porque nossa gente ainda vivia com certo isolamento dessas questões políticas que hoje a assola. Talvez por isso seja uma leitura tão rica e agradável. Vale a pena conferir!
Já não é tão fácil encontrá-lo porque não está disponível em livrarias e penso que logo, logo nosso selo editorial deverá fazer uma edição dentro de nosso projeto de publicar livros que revelem os saberes ancestrais de nossa gente.
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4 de abr. de 2016

QUAL GOLPE VOCÊ ESCOLHERIA?

Estamos numa época difícil. O tempo todo estão querendo que a gente escolha um lado para ficar, para defender ou para se posicionar. Parece uma guerra. Talvez seja uma guerra mesmo. Pois bem, para não dizer que não falei das flores, eis o meu.

QUAL GOLPE VOCÊ ESCOLHERIA?
(Daniel Munduruku)

N
ão falo em nome dos povos indígenas. Nunca falei. Algumas pessoas até me cobraram isso convidando-me para “representar” os indígenas em eventos, passeatas, cultos ecumênicos, jogos de futebol. Nunca aceitei. Não sou “o índio de plantão” para satisfazer curiosidades. Digo sempre – e repito aqui – que não tenho legitimidade para falar em nome de outrem. Aliás, como diriam pensadores mais célebres, não vejo dignidade em falar por quem quer que seja.
Dito isso, gostaria de dizer que sou contra o golpe. Se depender de mim, não vai ter golpe. Digo essas palavras que saem da minha boca (ou da minha escrita). São minhas palavras e não representam outras tantas palavras oriundas de pessoas que militam no movimento indígena que podem pensar diferente (e este é um direito que defenderei sempre).

14 de mar. de 2016

13º CONCURSO FNLIJ CURUMIM - LEITURA DE OBRAS DE ESCRITORES INDÍGENAS

13º CONCURSO FNLIJ CURUMIM - LEITURA DE OBRAS DE ESCRITORES INDÍGENAS:
Se você desenvolveu, em sua escola, alguma atividade que abrange a leitura de obras de escritores indígenas esta é a oportunidade de tornar sua experiência conhecida por professores de todo Brasil. 

- Poderão participar professores e educadores brasileiros residentes no Brasil;
- O candidato inscrito deve informar a vinculação a uma escola ou instituição;
- O texto inscrito deve ser fruto de um trabalho de leitura dos livros de literatura para crianças e jovens de autoria de escritores indígenas;
- O texto pode vir apresentado em forma de relato e deve mencionar a(s) obra(s) de autor(es) indígena(s) trabalhada(s), com a referência bibliográfica completa. O relato deve expressar o trabalho com a leitura dos livros de autores indígenas pelo professor junto às crianças e seus desdobramentos, tais como interpretações, textos, propostas;
- A FNLIJ apresenta uma sugestão de obras de autores indígenas, feita em parceria com o escritor Daniel Munduruku, em anexo, para a pesquisa e o trabalho dos professores. Além dessas, poderão ser trabalhadas outras obras de autoria indígena, que não foram contempladas na lista sugerida;
- Cada texto deve ser apresentado impresso em t rês cópias, em papel A4, fonte Arial 12, espaçamento 1,5, tendo o máximo de t rês laudas, com o título do trabalho e com pseudônimo;
- Separadamente, em uma folha, o participante deve informar seus dados pessoais (nome completo, instituição a que pertence, endereço/ cep pessoal e profissional, telefone, e-mail, cidade e estado) e uma breve biografia de 5 linhas com sua experiência como promotor de leitura;
- Os trabalhos deverão ser enviados até 30 de abril de 2010 para a sede da FNLIJ: Rua da Imprensa, 16 sala 1215, CEP 20030-120 Rio de Janeiro RJ;
- Após o concurso, os trabalhos não serão devolvidos.
Os trabalhos deverão ser enviados até o dia 31 de Maço de 2016 para a sede da FNLIJ: Rua da Imprensa, 16, Sala 1215
CEP: 20030-120 | Rio de Janeiro RJ

Para participar, acesse a página da FNLIJ e confira o edital: www.fnlij.org.br
Realização: Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ
Parceria: Instituto UKA - Casa dos Saberes Ancestrais




13º Concurso Tamoios de Textos de Escritores Indígenas - 2016

Estão abertas as inscrições para o 13º Concurso Tamoios de Textos de Escritores Indígenas - 2016, promovido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ em parceria com o Instituto UKA - Casa dos Saberes Ancestrais. 
A iniciativa, que este ano chega à décima terceira edição, é destinada à novos autores indígenas, ou que possuam filiação com alguma etnia.
O concurso seleciona e premia textos literários inéditos. 
A ação foi criada com a finalidade de fortalecer a nova década dos povos indígenas proclamada pela UNESCO. Os trabalhos devem ser enviados até o dia 31 de Março. 
Mais informações e o edital no site www.fnlij.org.br.


6 de mar. de 2016

UM LIVRO PARA NÃO SE LER

UM LIVRO PARA NÃO SE LER
(Daniel Munduruku)

Costumo ir às livrarias para verificar o que há de novo sobre a temática indígena, especialmente os livros que são escritos para crianças e jovens. É um hábito que tenho adotado, afinal eu preciso estar antenado sobre o que se escreve sobre nossos povos, mas principalmente sobre como se escreve e que como nossa gente é representada seja através dos textos, seja nas ilustrações.
Bom, o fato é que um dia desses fui à Livraria da Vila para um lançamento. Enquanto aguardava minha amiga chegar, fui olhar as prateleiras atrás dos títulos lançados. Nessa livraria os livros são organizados de maneira muito especial e por isso se consegue identificar os livros logo na primeira passada de olhos. Próximo a uma prateleira aonde se concentra muitos dos títulos escritos por mim, tem os livros de outros autores indígenas e não-indígenas. É aí que me concentro. Vasculho com os olhos, coloco as mãos na massa e pacientemente vou garimpando cada livro que me reporte à temática indígena. Encontrei vários lançamentos e alguns ainda irei comentar aqui neste espaço.
Quero, no entanto, me concentrar em um livro que encontrei e que me chamou atenção, primeiro pelo título, depois pela capa e, enfim, pelo projeto gráfico. Ele traz uma proposta interessante logo de cara, pois é um livro bilíngue tupi-guarani/português. Bravo! Um a zero para o livro. Depois disso, no entanto, fui ficando cada vez mais decepcionado. Vamos por parte.
“Cabeça oca, cabeça seca” é o título. Imaginem o que pensei diante desse título...A imagem da capa é muito caricata e remete – ao menos para mim – a totens antigos, coisa de museu. No miolo do livro as imagens se repetem não identificando nenhum povo em particular. A propósito a capa traz estampada a informação de que é uma edição bilíngue tupi-guarani/português, como já disse anteriormente. Isso é uma informação que não explica muita coisa porque o tal tupi-guarani não é exatamente uma língua falada. Trata-se de uma família linguística que acolhe diferentes línguas. Quem não está informado a respeito acaba acreditando que esta é uma língua e ponto final. Aliás.. bom falo disso depois.

Outra coisa que precisa ser dita: o projeto gráfico não valoriza o conteúdo. As letras são tão pequenas que não ajudam a leitura do texto. Já na capa há uma grande dificuldade porque o fundo verde enfraquece as letras brancas não permitindo ler, por exemplo, o nome do autor e do ilustrador. Mesmo o nome da editora – SESI-SP – fica prejudicado devido o fundo verde.
Quando a gente abre o livro o pior acontece: as letras continuam pequenas com difícil leitura e a versão guarani quase que desaparece totalmente. É preciso muito esforço para acompanhar a leitura seja em português, seja em guarani.
As ilustrações são totalmente estereotipadas se pensarmos em nossa diversidade cultural o que prejudica o jeito de ver os povos indígenas brasileiros. Enfim, é um livro que não pode ser lido sem levar em consideração essas pequenas observações. Não é um livro que facilite o trabalho de professores em sala de aula e, penso, não é produtivo, pedagógico e livre de ideias preconcebidas sobre os povos indígenas brasileiros.

E olhe que nem falei do conteúdo que seria uma história a parte.

Título: CABEÇA OCA, CABEÇA SECA
autor: Franco Vacarini
Ilustrações: Pablo Picyk
Editora: SESI-SP editora
Ano de publicação: 2014. 

18 de fev. de 2016

UM FURO NO FUTURO

UM FURO NO FUTURO
(Ao amigo Justino Sarmento Rezende)

Tenho verdadeira fascinação com o tempo. Gosto de pensar nele, imaginá-lo, entendê-lo nas suas mais complexas variações.
Às vezes me pego observando as pessoas apenas para vê-las “usando” seu tempo. Sento-me na praça de minha pequena cidade para olhar as crianças, os jovens, os velhos que jogam carta. Fico ali apreciando, ou melhor, exercitando minha imaginação tentando encontrar uma pequena centelha de explicação para compreender o tempo que passa naquele exato momento em que estou ali. Apenas o vento que bate nas árvores – quando bate – me dá a sensação de concretude. De resto, tudo é pura imaginação.
É provável que alguém esteja se perguntando o motivo pelo qual faço o que faço. Não saberia respondê-lo de maneira objetiva. Acho que ninguém jamais irá sabê-lo.
Particularmente aprendi a olhar o tempo como algo real apenas no exato momento em que estou escrevendo este texto. Sei também que esta minha ação é fruto de uma história passada, inventividade humana que dominou mecanismos, instrumentos, fórmulas para oferecer-me neste meu momento a máquina que está à minha frente recebendo meus pensamentos. Sim. A verdade é que meu pensamento pode ficar registrado no texto que escrevo e compartilho com quem o lê. Tenho, portanto, diante de mim a memória que traz consigo o passado e o agora que me permite, inclusive, debruçar-me sobre o tempo que já fez parte da saga de meus ancestrais.
A questão que me coloco no momento, no entanto, é como juntar o passado ao presente e fazer com que essa mistura de tempo me permita, por um breve instante, antever um tempo que não tenho, mais conhecido como futuro? É que me parece que é na fricção entre os tempos que se abre uma pequena brecha que nos permite perceber a emersão do tempo vindouro. Talvez seja a isso que os religiosos chamam profecia; os economistas, especulação; os artistas, inspiração; os esotéricos, transformação; os jovens, oportunidade.
Eu, que não sou nenhum desses citados, acho que o mundo está na curva do espiral. Tem algo novo no horizonte que está se descortinando justamente porque o passado e o presente estão novamente no seu momento de fricção nos permitindo sentir algo novo. É como se um furo no futuro estivesse se abrindo nos oferecendo a oportunidade de olhar para o que está por vir. E o que está por vir?
Se fosse um profeta diria que é tempo de conversão; se economista, de economizar; se artista, de profetizar; se esotérico, de silenciar; se jovem, de criar. Como sou apenas um filho de selvagens, como reza a lenda, permaneço na mais completa ignorância permitindo que o tempo faça em mim marcas capazes de orgulhar meus ancestrais.

Sei que alguém poderá dizer que estou louco. Não estou louco, nem bêbado, nem drogado. Tampouco estou lúcido (com luz). Conheço, no entanto, um louco que me inspirou este texto. Ele era maluco porque conseguia antever as coisas dentro de seu universo transloucado. É dele a mais completa definição do tempo que eu conheço. É uma definição que escapa à religião e à ciência; ao esoterismo e à economia. É pura intuição. Coisa de maluco beleza: “O hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar” (Raul Seixas).

12 de fev. de 2016

Literatura x literatura indígena: consenso?

Literatura x literatura indígena: consenso?
A produção de literatura dos indígenas brasileiros
POR DANIEL MUNDURUKU

Tenho ouvido com toda atenção os puxões de orelhas levados de amigos escritores e de universidades questionando o fato de denominar literatura indígena aos escritos literários de autores nativos. Nossos interlocutores alegam que o que se escreve, sendo literatura, literatura é. Não precisaria, pois, colocar o qualificativo para indicar a origem de quem escreve. O texto literário falaria por si só.

Há também a alegação de que isso cria certo segregacionismo reforçando a separação entre os membros de uma mesma sociedade, no caso, brasileira. Dizer que uma literatura é indígena ou negra; branca ou judia; oriental ou ocidental levaria as pessoas a criar uma reserva com relação à qualidade do que se produz. Seria algo como falar do “politicamente correto” criando preconceitos e reforçando estereótipos.

http://mauricionegro.blogspot.com.br/
A finalidade deste texto não é rebater essas críticas ou reflexões realizadas por amigos ou simpatizantes, mas colocar um pouco de lenha na fogueira, apimentar o tucupi.

Confesso que fico incomodado quando alguém me diz que eu deveria abandonar a expressão "indígena" na literatura que escrevo [se é que faço literatura mesmo]. Isso me lembra uma questão muito comum que vez ou outra volta ao cenário. Há pessoas que dizem que sou “um índio que deu certo”. Outras pensam, mas não dizem. Isso me faz pensar muito no nível de compreensão que a sociedade brasileira tem sobre si mesma e sobre o papel dos indígenas na formação de sua identidade. E quando ouço uma “bomba” dessas, sempre acho que o Brasil ainda não chegou lá... e, pior, acho que não vai chegar nunca!

Sem entrar nos detalhes já que não sou especialista na matéria, entendo que a história da literatura brasileira passou por diferentes fases e quase todas elas receberam denominações que ora apresentavam especificações regionais e rurais, ora urbanas. Elas sempre foram formas de fixar determinados conceitos ou apresentar características sui generis para um movimento que queria se distanciar do anterior. Surgiam expoentes que aceitavam escrever submetendo suas criações a um modelo x ou y. A cultura literária acabava por aceitar isso como uma forma de mudança necessária para o crescimento da própria literatura nacional. Ainda hoje é assim. E, além disso, não se pode esquecer que a própria literatura foi usada como instrumento de reverberação de ideias. Ideologias utilizavam os estilos literários para passar suas crenças numa ou noutra sociedade sonhada.

Lembro aqui, ainda, que o indigenismo de José de Alencar foi uma “encomenda” do imperador dom Pedro II, que desejava criar uma identidade para um país que era dependente de Portugal e do qual queria se distanciar. A “leitura” que Alencar propôs encontrou na cultura indígena um componente fundante para essa identidade. Daí as pérolas literárias por ele criadas e que embalaram o ser brasileiro por anos a fio. Tais pérolas só foram questionadas pelo antropofagismo de Oswald de Andrade – e de um grupo de literatos e artistas – que propunha uma leitura múltipla dessa mesma identidade nacional. Macunaíma é um bom exemplo [na mitologia indígena de Roraima, Macunaima – sem acento – é um ente legislador que nada tem a ver com a versão literária de Mario de Andrade].

A antropologia também teve sua parcela de contribuição nessa releitura identitária. Foi o árduo trabalho do Marechal Cândido Mariano Rondon – de descendência bororo – que fez o país conhecer uma parte de seu território ainda desconhecida. Ele abriu a “clareira” para que a literatura tivesse novos horizontes para pensar o passado nacional. E aqui cabe uma pergunta: será que a literatura soube lidar com esta novidade de forma satisfatória? A resposta fica a critério de quem está lendo este artigo, mas se imaginarmos o lamentável equívoco que ainda hoje se repete em nossas escolas, a resposta não poderia ser positiva. Mesmo lembrando os heroicos trabalhos dos pesquisadores brasileiros – ou indigenistas do porte dos irmãos Villas-Bôas – em apresentar à sociedade a realidade dos povos indígenas, a literatura preferiu ficar em seu lugar comum reproduzindo estereótipos e conceitos ultrapassados.

Ainda que lembremos de Darcy Ribeiro – brasileiro marrento e idealista – que em todas suas áreas de atuação [universidade, política, educação, literatura] sempre alertou a sociedade nacional para a leviandade que se estava cometendo contra os indígenas, mesmo assim a literatura tem ignorado essas contribuições e alimentado uma visão folclórica e antiga sobre nossa gente.

A literatura que os autores indígenas estão criando é nova sim. Traz um olhar sobre suas próprias sociedades e culturas. Traz um viés particular – embora, às vezes, contaminado pela cultura branca, europeia – capaz de confirmar e reafirmar suas identidades distanciando-os do conceito cínico do “ser brasileiro com muito orgulho e com muito amor”, cantado nos estádios de futebol. É uma literatura autenticamente brasileira – no sentido do pertencimento ao lugar onde se vive e no qual se enterra seus mortos. É uma literatura – na falta de um termo melhor – que está além da própria literatura, já que não faz distinção dos jeitos como ela é produzida.
http://tematicaindigena.blogspot.com.br/


Nossos escritos são literaturas, sim. E são indígenas, sim. Não há motivo para negar isso e menos ainda para partilhar com os escritores não-indígenas o merecimento que nosso esforço tem conseguido em tão pouco tempo. Dizer que o que escrevemos é “apenas” literatura brasileira, é dividir com todos aqueles que escreveram, escrevem e escreverão coisas medíocres a respeito de nossa gente, um status que não foi construído por eles. Nossa literatura é indígena para que não se venha repetir que “somos os índios que deram certo”

4 de fev. de 2016

3º Edição do Livro "O Banquete dos Deuses"

Chegou a 3º Edição do Livro "O Banquete dos Deuses" de Daniel Munduruku, com Ilustrações de Mauricio Negro e Luciano Tasso.
Mais um lançamento da Editora Global.
Peça já o seu, enviamos para todo Brasil!
Xipat Oboré (tudo de bom)!
SINOPSE
'O banquete dos deuses' pretende oferecer contribuições culturais das sociedades indígenas, das suas formas de percepção dos ciclos vitais, entre outras temáticas. Os pais podem ler este livro para e com os seus filhos, como uma forma de partilhar com eles a compreensão dos povos indígenas haurida da voz de um de seus representantes. Os professores, sobretudo do ensino fundamental, poderão encontrar material para o desenvolvimento de temas interdisciplinares como Ética e Pluralidade Cultural.
título: O BANQUETE DOS DEUSES: CONVERSA SOBRE A ORIGEM E A CULTURA BRASILEIRA
isbn: 9788526013971
idioma: Português
encadernação: Brochura
formato: 16 x 23
páginas: 104
ano de edição: 2009
ano copyright: 2006
edição: 3ª
Preço: R$ 40,00 + frete
Para adquirir, visite a nossa loja no Facebook: https://www.facebook.com/instituto.uka

LITERATURA INDÍGENA NA ESCOLA

Envie-nos uma mensagem inbox ou através do email: ukacontato@gmail.com, ou ainda pelo telefone 12 3301-2190. E conheça as nossas propostas para você Gestores de Ensino e demais interessados em trabalhar a temática indígena através da literatura.
Xipat Oboré (tudo de bom)!


1 de fev. de 2016

KIT 20 Anos de "HISTÓRIAS DE ÍNDIO"

2016 é o ano em que se comemora 20 anos de lançamento do primeiro livro do escritor Daniel Munduruku, e nós do Instituto UKA trazemos uma oferta especial para você!
Confira as seleções de títulos que pensamos com todo carinho para os nossos seguidores.
Entre em contato conosco e solicite orçamento in box na nossa página do Facebook!
Xipat Oboré (tudo de bom)!



29 de jan. de 2016

VENDENDO “CHOPP”, ACUMULANDO SONHOS

[ Mais uma crônica da Série "Memórias a Granel"]
Minha família era pobre, já disse. Meu pai trabalhava como carpinteiro em muitas obras para poder sustentar tantas bocas num lugar que não era nosso. Todos os irmãos antes de mim, com exceção de um, eram meninas. Nessa época, meninas não trabalhavam. Meu irmão mais velho e eu tínhamos que ajudar em casa com o que fosse possível.
Meu pai era um profissional bastante requisitado, mas não tão valorizado financeiramente. Muitas vezes teve que viajar para lugares mais distante de nossa cidade para poder ganhar um pouco mais de dinheiro para nos sustentar. Suas longas ausências de casa deixava minha mãe solitária e com muito mais trabalho a realizar. Minhas irmãs, eram quatro, ajudavam no que podiam, sobretudo no trabalho caseiro como cuidar da casa, cuidar dos irmãos mais novos, lavar roupa, etc. E ainda tinham que ir para a escola, coisa que meus pais prezavam muito.
Mamãe teve que “se virar nos trinta”, como se diz. Trabalhadora, nunca deixou “a peteca cair”, também como se diz. Lavou roupa para outras pessoas, fazia docinhos para vender na porta de casa, tornou-se mestra na arte de fazer e vender tacacá no final do dia em frente de casa. Tacacá é uma bebida quente preparada com vários ingredientes e é muito apreciada pelos paraenses. Ela preparava também algumas coisas mais simples que pudessem nos entregar para garantirmos alguns trocados no final do dia.
Uma das coisas que ela preparava eram sacolas confeccionados a partir de sacos de cimento jogados fora nas obras de construção civil para que pudéssemos vender nas feiras livres. Eles eram preparados de maneira artesanal e que davam um trabalho danado fazer. Eram resistentes, ecológicos e práticos. Nas feiras livres haviam muitos vendedores desse material. Eu era um deles. Levava uma grande quantidade desses sacos para vender para as pessoas que não tinham sacolas em mãos. Eu os oferecia a elas que pagavam um valor por eles. No final do dia, normalmente aos sábados, eu tinha algum dinheiro para levar para casa. No final da feira conseguia um pouco de produtos que eram desprezados pelos feirantes: bananas, verduras, legumes, hortaliças. Eram produtos que garantiriam uma boa sopa no final do domingo.
Aos domingos eu saia vendendo chopp. Esse é suco congelado revestido por saquinho e que sempre faz um grande sucesso sobretudo aos finais de semana quando a rapaziada se reunia para jogar futebol. Minha mãe fazia um chopp maravilhoso e que era um sucesso entre os jogadores. Vendia uns cinquenta a cada domingo. Entre um jogo e outro, muitos atletas vinham tomar o chopp de dona Maria. Eu ficava feliz, mas acontecia que as vezes também era enganado e não poucas vezes cheguei em casa com menos dinheiro no bolso. Minha mãe me xingava, mas entendia que eu era apenas um menino.

Além dos suquinhos envelopados em sacos plásticos, durante a semana eu ia para as portas das escolas vizinhas a minha casa com um tabuleiro onde eu vendia amendoim torrado, paçoquinha, menta e outras coisinhas que agradavam alunos no intervalo da escola. E olha que eu não tinha mais que nove anos quando isso estava acontecendo. Como e disse antes, fazia isso para ajudar em casa porque nossa família era pobre aos olhos do sistema econômico que vivia nos lembrando que para viver na cidade a gente precisava de dinheiro. Como éramos muitos, precisávamos de mais dinheiro para comprar alimento. Na cidade não há natureza, apenas egoísmos e disputas. Eu via meus pais no maior sacrifício para nos dar o mínimo de estrutura para vivermos. Eu me sentia na obrigação de ajudar por ser o segundo filho homem da casa. Era assim que eu tinha aprendido. Era isso que meu pai me ensinava sobre responsabilidade  e sobre família. Por isso, enquanto vendia os chopps, salgados, docinhos e tudo mais, eu ia aprendendo um jeito de  compreender o mundo que a gente vivia. Não era nada fácil, mas isso me garantiu poder estudar, trabalhar e acreditar em dias melhores. Entre dores, dificuldades, saudades da mata, vazios de significados, alegrias, conquistas, vitorias, houve momentos de puro aprendizado aos quais agradeço e sinto que isso forjou a pessoa que sou hoje e que posso ter a certeza de que valeu a pena ter passado por tudo aquilo, pois isso me ajudou e me ensinou a olhar o mundo da cidade de uma maneira diferente e me permitiu compreender muitas coisas, inclusive a incompreensão que as pessoas têm dos povos tradicionais do nosso país. Tem coisas que a gente só aprende com a dor, com o sofrimento. Eu posso dizer, hoje, que sou filho do sofrimento. Isso não me deixou vazio. Ao contrário, me encheu de sonhos.

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...