21 de mar. de 2020

MANIFESTO

Tendo nascido em uma sociedade onde as pessoas são educadas para sentirem-se parte do todo;
Onde o tempo não é linear impedindo que as pessoas desperdicem suas vidas correndo atrás de riqueza e poder;
Onde cada fase de vida é tratada como um processo que nunca mais se repetirá e por isso deve ser vivida em sua plenitude;
Onde a relação com a natureza não é de domínio, mas de convivência;
Onde as pessoas se sentem solidárias umas às outras e capazes de partilhar seu pão e sua poesia;
Onde o passado é visto e respeitado como memória e o presente como uma dádiva que precisa ser usufruída e agradecida em todo momento;
Onde as crianças tudo podem porque são educadas pelos velhos, que tudo sabem;
Onde os saberes são partilhados pelas histórias contadas nas noites sem lua para nos lembrarem que somos partes do mundo e não seus donos;
Onde, enfim, somos desde que nascemos e nascemos para sermos inteiros, completos, não no futuro distante, mas no agora, no presente, hoje...
Entendo que é preciso valorizar todos os saberes;
Respeitar todas as diferenças;
Estimular cada vida;
Aceitar a diversidade de ideias;
Despertar cada vocação;
Alimentar cada sonho;
E sonhar, sonhar, sonhar.
Sonhar um sonho possível de tolerância, respeito, dignidade, direitos.
Sonhar um mundo que nos faça ter dignidade por acolher o que cada ser é.
Sonhar uma realidade que seja composta de alegria, alimentada pela liberdade de ser, viver sem competir para mostrar mérito sobre a outra pessoa.
Ah, como tenho o desejo de construir uma realidade em que possamos, de fato, sermos mais por sermos Um!
Alguém dirá que é utopia. Dirá bem, dirá certo. É.
O mais legal é saber que ela é possível. Eu a vivi. Eu vim de lá.
É o que quero oferecer aqui. Esse é o bem viver que aprendi de minha gente. É ser Presente. É ser parte. É pertencer. É me importar com meu lugar. É me comprometer com a minha realidade. É não ficar indiferente. É não aceitar que digam que não posso fazer. É ser livre. É entender que minha realização só é possível quando o outro também se realiza. É ser solidário, solícito e coletivo.
Enfim, é Ser.

Daniel Munduruku
Lorena, verão de 2020.
áudio deste texto pode ser ouvido em: https://www.youtube.com/watch?v=0uPZY7FVI_A

DEIXANDO QUE O OUTRO SEJA - Educação como prática de Liberdade



Educar é um ato heroico em qualquer cultura.

Talvez seja pelo fato de que educar exija que a pessoa saia um pouco de si e vá ao encontro do outro; um outro desconhecido; um outro anônimo; um outro que me questiona; um outro que me confronta com meus próprios fantasmas, meus próprios medos, minha própria insegurança.
Talvez seja pelo fato que educar exija sacrifício, exija renúncia de si, exija abandono, exija fé, exija um salto no escuro.
Talvez por isso seja algo para poucos.
Seja para pessoas que acreditam nas outras pessoas.
Seja para pessoas que não se acomodaram diante da mesmice que a sociedade pede todos os dias.
Talvez por isso seja mais fácil encontrar professores que educadores:
Professores são donos do conhecimento.
Educadores são mediadores.
Professores são profissionais do ensino.
Educadores fazem do ensino um estímulo para seu crescimento pessoal.
Professores usam a palavra como instrumento.
Educadores usam o silêncio.
Professores batem as mãos na mesa.
Educadores batem o pé no chão.
Professores são muitos,
Educadores são Um.
O educador tem os pés no chão, mas sua cabeça está sempre nas alturas porque acredita que quem está à sua frente não é um cliente esperando para ser atendido, mas uma pessoa aguardando orientações para seguir seus passos. Esta é a razão de ser do educador. Esta é sua esperança. E para isso, o educador precisar ser inteiro, precisar ser completo, precisa estar em sintonia consigo mesmo e com o universo.
Por isso é para poucos, mas não deveria ser assim. O ideal era que toda sociedade estivesse voltada para a realização de todos e não apenas para a de alguns privilegiados que se sentem como deuses e querem decidir a vida das pessoas. O certo era que todo ser humano desenvolvesse seus dons e talentos para o bem de todos e que não fosse algo extraordinário alguém sobressair-se por causa de seu potencial artístico. Simplesmente deveria ser assim com todos; deveria ser comum todos os seres poderem expressar sua alegria de estar vivo sem precisar “vender” seus talentos para manter-se vivo.
Infelizmente, no entanto, a realidade que vivemos foi “pensada” de um jeito tal que as pessoas são compreendidas como máquina de ganhar de dinheiro, como objeto de consumo, como um monte de estrume que servirá apenas de esterco para aqueles que dominam o sistema atual.
É preciso reverter este quadro. É preciso que os professores criem uma consciência nova, dinâmica, ancestral para que um novo jeito de pensar venha à tona e possa colocar em xeque uma sociedade que desvaloriza o ser humano em detrimento do dinheiro, do acúmulo, do consumo. É preciso que os professores virem educadores de verdade e possam despertar nossos jovens para o futuro que se inscreve em nossa memória ancestral. Só assim teremos um amanhã.
É nessa direção que se inscreve uma educação que se queira libertadora, emancipadora. Compreender o outro, o aluno, o aprendente como um ser livre, capaz de fazer suas próprias escolhas desde que lhe sejam oferecidas ferramentas para perceber a realidade onde vive e, sobretudo, com capacidade de olhar para trás, sentir-se integrado ao universo, para ter condições de lançar-se para o tempo que há de vir. Para que isso aconteça, a criança não deve ser cobrada para que seja outra coisa além de ser criança. Para cada fase da vida, suas preocupações. Na educação sonhada, há uma única verdade: nunca perguntar à criança o que ela vai ser quando crescer. Numa sociedade que se queira equilibrada é preciso oferecer brincadeiras, jogos, lazer, espaço, circularidade, música, arte, cooperação...É assim que uma criança aprende, é assim que ela cresce equilibrada, é assim que ela conseguirá responder aos desafios do mundo e da vida. É assim que ela crescerá livre.
Os educadores sabem que é assim que funciona. Infelizmente a eles se tem cobrado resultados, números, aprovações, conteúdos. A escola, no sistema atual, cobra dos educadores uma educação competitiva e não colaborativa; uma educação para a produção e não para o ócio (tão necessário para fazer brotar a criatividade); uma educação acrítica porque pensada para formar robôs alienados.
Não é esta a educação que precisamos. Precisamos de gente comprometida, gente criativa, gente colaborativa, gente que compreenda que construir o futuro é, sobretudo, uma aposta no presente. É a criança do presente que me motiva; é o jovem do presente que me anima; é o adulto do presente que me provoca; é o velho do presente que me movimenta. Se cada fase for bem tratada, humanos novos surgirão para dar continuidade ao mundo que iremos construir.

Daniel Munduruku
Lorena, verão de 2020.

24 de jan. de 2020

Quem tem medo do bobo mau?

QUEM TEM MEDO DO BOBO MAU?
Daniel Munduruku
 
Estamos todos indignados com a fala do presidente a respeito dos povos indígenas. Sei que deveria estar também e estou. Estou sem estar, na verdade. Primeiro porque nunca imaginei nada diferente saído da boca de alguém com este histórico de vida. Segundo, porque não se pode esperar que nasçam pérolas de latrinas mentais. Terceiro, porque a formação que ele tem é tão pobre que ele só sabe repetir impropérios, embora ele não saiba o que isso signifique.
Seria como imaginar que ele pudesse nomear alguém para a área da cultura que não odiasse a cultura. Ou para a pasta do meio ambiente um ser que não fosse tão mesquinho, ignóbil e sem noção como o seu atual titular. O que se pode esperar de alguém que indica para o ministério da educação um quase analfabeto?
O infeliz, como se pode notar, nunca cresceu de fato. Ele é de uma geração que aprendeu preconceitos e estereótipos e não consegue se livrar deles porque isso exigiria que se tornasse tolerante, respeitoso, humano. Mas isso dá trabalho demais. Isso exige leitura demais e já sabemos que livros têm letras demais que lhe embaralha as ideias. Pensar cansa e ele está acostumado a cumprir ordens (de militares ou do Trump).
Peço que desculpem minha falta de indignação. É que, graças ao esforço de toda a sociedade civil organizada e consciente, um tipo como ele está sendo deixado para trás. Eu sei que está. Quando vejo as crianças ansiosas em aprender com nossas histórias; felizes por lerem nossos livros; satisfeitas por dançarem nossas danças ou verem os filmes que fazemos, uma esperança me invade. Quando vou às escolas e vejo a ação dos educadores acontecendo, sei que logo teremos uma geração capaz de dar uma resposta mais positiva, digna e humana a estes desmandos.
Continuemos a trabalhar. Governos passam, mas a história continua. Nossa gente sempre soube responder a esse tipo de pária social com mais empenho e participação. Com mais luta e resistência. Com mais arte e rito. Apenas digo: estejamos preparados para responder com criatividade. O que este energúmeno disse sobre nós é a cara dele e de seus asseclas. Isso nada tem a ver com a sociedade brasileira que nos vê como parte dela porque sabe que ela é parte de nós.

17 de jan. de 2020

Eu proponho

Eis aqui uma verdadeira proposta de governo para as próximas eleições municipais.

EU PROPONHO

Que o ministro das relações exteriores,
ao invés de produto interno bruto,
trate bem das questões interiores,
essas tantas isentas de tributo

Que se ocupe, o distinto Ministério,
em criar fundamentos exitosos
Sentimentos comuns aos hemisférios
com base em tratados amistosos

Eu proponho:
estabeleça-se a lei fundamental
sob os pressupostos da poesia
Que haja em toda casa uma recital
inda pela manhã e ao fim do dia

E que toda criança em formação
conheça, com prazer, um instrumento
e aprenda a tocar, com emoção,
os acordes do santíssimo invento

O presente decreto, faça-se cumprir em todos os povos
sob as penas da lei já em vigor,
pra que, em breve, se tenham humanos novos
a cuidar desse mundo com amor.
 

Socorro Lira 
Aquarelar, 2007. Edição da autora

5 de jan. de 2020

PARA ALÉM DOS MUSEUS, A MEMÓRIA






Recentemente foi noticiado o fato de que lideranças do povo Munduruku estiveram em um Museu de História Natural de Alta Floresta/MT de onde retiraram as “urnas funerárias” da instituição. As tais urnas haviam sido surrupiadas do território dessa gente quando da construção das Usinas Hidrelétricas Teles Pires e São Manoel.
Segundo consta, para a construção da referida barragem foram necessárias a destruição de lugares considerados sagrados pela gente Munduruku, apesar dos protestos e das negociações em curso para que tal ação não ocorresse, pois incidiria sobre a sua crença ancestral.
Conversa vai, promessa vem o consórcio vencedor do certame garantira que nada iria ocorrer sem a devida autorização dos indígenas Munduruku. Isso, claro, não foi cumprido. Aliás, não faz parte manter palavra para quem só pensa em dinheiro. O ato se consumou e as urnas foram retiradas e levadas para o museu acima citado.
Acontece que com as “formigas guerreiras” não se brinca e nem se faz promessa vazia.  Cerca de 70 guerreiros e guerreiras, alicerçados na crença de que não se pode prender os espíritos da natureza, se dirigiram ao Museu de História Natural de Alta Floresta – MT e reivindicaram a devolução dos objetos para seu lugar de origem.
O objetivo era muito claro: estabelecer o equilíbrio entre o homem e a natureza; devolver os espíritos para seu lugar de origem para que tudo voltasse ao seu estado normal. Somente assim a paz pode reinar.
Refletindo cá com meus botões fico imaginando o que passa na cabeça dessa gente que acha que pode colonizar a crença das pessoas; acha que pode entrar na casa dos outros e saquear tudo e ainda pensar que “está fazendo o bem”. Penso que há muito o que descolonizar para que, quem sabe, a gente consiga harmonizar nossas existências.
Para quem pensa que “objetos são apenas objetos” e que por isso podem virar produtos, costumo lembrar que, para além dos museus, existe a memória viva. É ela quem nos torna partes do mundo em que vivemos. É ela que nos permite compreender quem somos e porque estamos neste mundo. Nossa memória não tem preço. Nossos ancestrais estão vivos em nós. Sawé!
Quem desejar ler as justificativas dadas pelos Munduruku para sua ação de “reintegração sagrada de posse” basta visitar o site: https://movimentoiperegayu.wordpress.com/2019/12/30/resgate-das-itiga-pelo-povo-munduruku/?fbclid=IwAR0hmQ4HY1B49bJe2hKDv6xlektgsWMUGT1IYdrdVMZLbcOtHs4TUkXyGwY

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...