28 de mar. de 2013

O progresso e as ilusões


Para o escritor paraense Daniel Munduruku, autor de 42 livros, indígenas podem ajudar o país a despertar para os engodos do desenvolvimento capitalista e do consumismo
Por: Spensy Pimentel
Publicado em 16/02/2013
 
O progresso e as ilusões
Daniel: "Os indígenas não criam conceitos para definir a existência nem inventar teorias sobre o sentido da vida" (Foto: Jonas Barbetta/Netnews.com Soluções)
Ele não costuma aparecer nas listas de mais vendidos em jornais e revistas, mas é presença obrigatória nas bibliotecas infanto-juvenis. De forma discreta, mas contundente, foi a partir das crianças, o “coração” da nossa sociedade, que Daniel Munduruku e um grupo de escritores de vários povos, de norte a sul do país – como o guarani Olívio Jekupé, o maraguá Yaguarê Yamã e René Nambikuara –, traçaram sua estratégia para transformar a visão dos brasileiros a respeito dos indígenas do Brasil.
Tudo indica que já começaram a ter sucesso. Daniel calcula que seus 42 livros, lançados por 14 editoras, já venderam 2 milhões de exemplares – muitos deles, como lembra, adquiridos pelo sistema público de ensino. São títulos como Meu Avô Apolinário, premiado pelas Nações Unidas, O Segredo da Chuva ou O Olho Bom do Menino, entre os mais conhecidos. Histórias de Índio, o primeiro da carreira, de 1996, já tem 17 edições. Hoje, segundo ele, a chamada literatura indígena brasileira tem mais de 40 escritores e cerca de 120 livros lançados.
Nascido em Belém, em 1964, o escritor, cujos pais deixaram sua aldeia na região do Rio Tapajós nos anos 1950, estudou com os salesianos. Formado em Filosofia, mestre em Antropologia e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, Daniel atualmente reside em Lorena, no interior paulista , mas é figura constante em feiras do livro e outros eventos literários pelo Brasil.
Na entrevista a seguir, à qual preferiu responder por escrito, nosso mais conhecido escritor indígena fala sobre sua obra e também sobre o país e as mudanças que têm atingido a Amazônia. Para ele, os brasileiros têm de superar a “ilusão do progresso”, e é nessa tarefa que os saberes dos povos indígenas podem colaborar de forma fundamental.
Escritor, filósofo, doutor: sua trajetória reúne vários elementos que desafiam estereótipos sobre o que é ser indígena. Como você percebe a persistência desses preconceitos?
Há pessoas que dizem que sou um “índio que deu certo” por conta do caminho que faço dentro da sociedade. Não há maior falácia que essa afirmação. Ela está baseada no estereótipo e no preconceito. Eu sinto que, agora que o Brasil já não consegue ignorar a presença indígena, o preconceito começou a se requintar sob outros formatos, escondendo velhos chavões. Esse requinte tem feito muito mal para a identidade dos indígenas. Há um debate ideológico real, mas com a economia como pano de fundo. É uma reedição acerca da reforma agrária, só que desta vez as vítimas não são os sem-terra, mas os povos indígenas. Isso acontece graças aos avanços que o movimento indígena tem conseguido, a imersão na sociedade, a participação na vida política e a entrada de jovens nas universidades. Os novos latifundiários estão usando seu poder econômico para fazer prevalecer o preconceito contra os direitos constitucionais dos povos indígenas.
O recente censo do IBGE mostra que quase 40% dos 897 mil indígenas no Brasil residem em centros urbanos. Você percebe, ainda, uma maior dificuldade dos brasileiros de compreender a experiência dos indígenas na cidade?A consciência dos brasileiros foi forjada pela ilusão de progresso, desenvolvimento, crescimento a todo custo. Pouco se sabe sobre as consequências de invadir territórios ancestrais e deslocar pessoas, grupos, culturas. Cada vez menos pessoas conseguem fazer uma leitura crítica sobre esses fenômenos e se deixam levar por ilusões de riqueza e bem-estar. A maioria do povo brasileiro tem acreditado que sair da miséria é poder comprar bens moveis ou imóveis. Uma consequência dessa mentalidade é desprezar a história e olhar para o próprio umbigo. Outra é não ser capaz de olhar para o que está acontecendo ao nosso redor e perceber que há uma revolução social sendo gestada, porque o capitalismo não nos permite olhar para os lados. É assim que percebo o fenômeno da urbanização das aldeias. Afora o fato de muitos indígenas estarem sendo jogados para fora de suas terras tradicionais, muitos que estão na cidade percebem que chegou a hora de alertar a sociedade brasileira para o engodo em que está caindo. Estar na cidade não é uma “traição” da cultura ancestral. Ao contrário, é oferecer a possibilidade de o Brasil olhar sua realidade sob um prisma diferenciado. É possível ser indígena vivendo no mundo urbano. É possível ser urbano vivendo numa aldeia indígena. A questão não é de local. É uma questão interna.
Deixar as instituições religiosas operando em terra indígena é entregar esses povos ao extermínio cultural (Foto: Jonas Barbetta/Netnews.com Soluções)
É possível falar em uma “filosofia indígena”, uma forma indígena de encarar o mundo?
Deixar as instituições religiosas operando em terra indígena é entregar esses povos ao extermínio cultural (Foto: Jonas Barbetta/Netnews.com Soluções)   
 Costumo repetir que o “índio” não filosofa, vive o que acredita. Quando isso acontece fatalmente ele se compromete com o momento presente. Os indígenas não criam conceitos para definir a existência, pois aprendem, desde cedo, que é preciso agir no sentido de tornar a vida mais tranquila e pacífica. Caçar, pescar, tecer, colher, entre outras ações, são formas de tornar a vida melhor. Contar e ouvir histórias, brincar, cantar, ritualizar as ações, são formas de alimentar o espírito. Para chegar a isso não é preciso criar outras tantas necessidades materiais e menos ainda inventar teorias para descobrir o sentido da vida. É simples assim.
Seus livros estão presentes nas bibliotecas das escolas de todo o país. Nossa escola tem mudado?No campo da educação formal há muito ainda o que avançar. Já foi aberta uma picada, mas ela ainda tem de ser pisada muitas vezes para poder virar um caminho seguro. Nos últimos 20 anos se lançaram bases para mudanças, e a Lei nº 11.645/08 (que institui a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileiras e indígenas nas escolas do país) foi um marco essencial para que isso vire realidade. No entanto, na educação tudo é muito lento e passa por burocracias infindáveis, que não permitem o deslanchar. Nossos livros estão chegando às escolas; os currículos já começaram a ser modificados; professores já conseguem interagir com a cultura indígena... No entanto, ainda é preciso capacitá-los ideologicamente para o embate com o diferente; é preciso investir nessa qualificação. Criar acervos nas bibliotecas para que os educandos tenham acesso à literatura indígena. É urgente criar, dentro das secretarias de Educação, grupos de estudos e pesquisas que possam oferecer munição aos educadores. Fazer um banco de dados confiável sobre grupos culturais indígenas que possam visitar as escolas e formar os formadores. Sem isso, é chover no molhado.
"A Amazônia é um mito na mente brasileira. A história nunca contará de forma adequada sua história" (Foto: Jonas Barbetta/Netnews.com Soluções)
E nossas universidades: estão preparadas para acolher os povos indígenas e seus saberes?Elas estão piores que as escolas. Os professores doutores se acham senhores absolutos do saber. Na escola formal há uma política pública que determina ações, mas as universidades se fecham para isso. Mesmo quando se fala de políticas de inclusão, as maiores barreiras são os professores. Há pesquisadores que querem fazer trabalho sobre literatura indígena, mas muitos titulares dizem não existir esse tema e se negam a orientá-los na pesquisa. Os estudantes indígenas – que entram pela política de cotas – estão sendo massacrados nos estudos porque não conhecem os trâmites universitários, e os professores se negam a ajudá-los ou a aprender com eles. De qualquer forma, também nas universidades os indígenas já começam a fazer a diferença, e isso é bonito de ver.
"A Amazônia é um mito na mente brasileira. A história nunca contará de forma adequada sua história" (Foto: Jonas Barbetta/Netnews.com Soluções)
Sua obra dialoga, muito, com as crianças. Como tem sido essa experiência? Você nota mudanças em relação à forma como os indígenas são vistos por esse público?
Resolvi escrever para crianças por um motivo: esperança. No início foi bem complicado, mas aos poucos fui impondo meu jeito de narrar, contar nossas histórias. Hoje sinto que atingi não apenas as crianças, mas, e sobretudo, os adultos que têm contato com meu trabalho. Tenho procurado incentivar jovens indígenas a entrar no mundo das letras para que possamos compor um grupo consistente e fazer prevalecer um estilo próprio de narrar.
Quais obras de autores indígenas mais recentes o têm impressionado?
Tem surgido uma leva de autores indígenas cuja escrita ainda vai sobressair. Estamos vivendo um momento embrionário, em que o novo está despontando, nascendo das bases. Eu penso que o grupo atual, por ser pioneiro, está, de certo modo, preso aos cânones ocidentais. Não vejo isso como coisa ruim. Ao contrário, esse grupo usa a literatura como instrumento, mas o novo irá emergir muito brevemente. Ele está nas universidades estudando, criando, ao mesmo tempo em que hiberna até que chegue o momento propício para a metamorfose. Com relação aos outros países, estamos, em certo contexto, adiantados. Temos uma vasta produção para o público infantil e juvenil. São quase 120 títulos voltados para esse segmento. Em nenhum outro país há esse expressivo número. Somos mais de 40 autores de diferentes regiões e povos, o que é um universo de informações e saberes. Em outros países, pelo pouco que conheço, há sempre um ou outro autor de destaque e muito bons na escrita, mas desconheço uma organização que atue no sentido de incentivar novos autores, como nós fazemos. A propósito, este ano virá ao Brasil um grande poeta do povo Mapuche, do Chile, o Elikura Chihuailaf, para participar de um sarau lítero-musical que denominamos Caxiri na Cuia. Será na Universidade Federal de São Carlos, entre 9 e 11 de maio. Na ocasião haverá um grande encontro com escritores e escritoras indígenas.
Qual o lugar que os indígenas estão buscando no futuro do país? Em pleno século 21, o que é ser indígena?
De algum tempo para cá tem surgido uma consciência nova entre os indígenas, sobretudo entre os jovens. Nossos antigos sábios brigaram bravamente para nos mantermos indígenas, e isso tem sido valorizado. No entanto, os novos tempos trouxeram uma demanda em que os jovens têm um papel fundamental. Trata-se de lutar pela manutenção da cultura, e isso não é possível senão pela atualização dessa mesma cultura. Ser tradicional não significa estar preso ao passado, mas antenado ao presente. Ninguém é tão tradicional quanto aquele que é capaz de reverenciar o passado e os antepassados atualizando os saberes para o momento presente. E o que nos pede o presente? Honrar a tradição. Como se faz isso? Atualizando-a. Atualizar os saberes significa contribuir para sua disseminação entre as pessoas. Para tanto é preciso dominar os instrumentais que o Ocidente desenvolveu e criar uma linguagem que seja capaz de comunicar nossa visão de mundo ao mundo e, quem sabe, ajudar na sua transformação.
Histórias de índio
Sua trajetória pessoal é ligada à Igreja Católica, uma instituição que atuou muito fortemente na história do país, em relação aos indígenas.
Sou fruto da Igreja Católica. Estudei com os salesianos do fundamental ao superior. Quis tornar-me padre por ter muita admiração pela atuação missionária. Com o passar do tempo fui percebendo que isso não era um caminho para mim. Minha consciência crítica – alcançada graças à minha educação salesiana – foi surgindo aos poucos e percebi que a atuação missionária em terra indígena é nociva. Tenho clareza que, se não tivesse recebido tal educação, talvez não alcançasse o que alcancei, e não posso ser ingrato, mas muitos jovens da minha geração não tiveram a mesma sorte e acabaram na sarjeta, embora tivessem a mesma formação. Ou seja, o que nos foi ensinado
A primeira estrela que vejo é a estrela do meu desejo
acabou se virando contra a gente graças a uma “lavagem cerebral” que foi sendo introjetada em nossas mentes. Muitos não conseguem se libertar disso nunca mais. Para a maioria restam o ódio e o desejo de vingança contra a instituição, pois no final nos resta apenas a saudade de algo que nos foi arrancado violentamente. Hoje sou radicalmente contra a presença missionária em terra indígena e acho que essa presença é uma afronta ao caráter laico do Brasil, uma vez que as populações indígenas são de responsabilidade do governo brasileiro. Deixar as instituições religiosas operando em terra indígena é entregar esses povos ao extermínio cultural.
Livros escritos por Daniel Munduruku sobre histórias da cultura indígena (Foto: Divulgação)
O governo federal tem retomado projetos de grandes obras na Amazônia, como Belo Monte. O próximo alvo é o Rio Tapajós, região onde vivem os Munduruku – ali devem ser construídas pelo menos duas grandes usinas até 2020. Que notícias têm lhe chegado lá do seu povo?
Tenho visto com muita preocupação tudo o que está acontecendo. É uma novela reprisada. O governo atua hipocritamente, pois supõe que o desenvolvimento hidrelétrico é o que o povo precisa. Além disso, define povo como apenas uma parcela da população, aquela movida pelo consumo frenético que enriquece umas poucas empresas e escraviza a outra parte. O resultado disso, podemos perceber: população ribeirinha desatendida, populações indígenas e quilombolas expulsas das terras que tradicionalmente ocupam, cidades pequenas inchadas e sem infraestrutura e o preço da energia elétrica entre os mais caros do mundo. Alguns precisam sofrer para o bem da maioria, dizem os cínicos. Sei bem que esse pensamento já não é tão verdadeiro. Trata-se de falácias engendradas no coração do povo brasileiro por alguns poucos que defendem o crescimento a qualquer custo. O Brasil não precisa de hidrelétricas. As construtoras precisam. O que o país precisa é de maior distribuição de renda. E só.
Como amazônida, como você percebe que o brasileiro em geral pensa a região? É dado o devido respeito à floresta e a seus habitantes?
A Amazônia é um mito na mente brasileira. A maioria da população não faz e nunca fará ideia do que ela seja realmente. A história nunca contará de forma adequada sua história. Ela continuará sendo o que sempre foi: um mito, um ideal, um eldorado. Meu maior receio é que vire mesmo um deserto.

Fonte, matéria original: REVISTA DO BRASIL - EDIÇÃO 80 - FEVEREIRO DE 2013

Páscoa é Passagem...



Lembro que o primeiro texto que tive coragem de mostrar para meu professor de português foi sobre a páscoa. Eu tinha por volta de 16 anos de idade e fazia o primeiro ano colegial (ensino médio hoje).
Vivendo num ambiente extremamente religioso e imbuído do espírito pascal que a escola me proporcionava, redigi uma redação onde colocava o que eu considerava o verdadeiro sentido da minha fé juvenil: conversão, mudança, transformação. Falei sobre isso com a desenvoltura de um teólogo e tomei coragem de apresentar ao saudoso professor Benedito, homem com espírito de mestre. Ele tomou meu texto nas mãos e leu sem esboçar nenhuma reação que demonstrasse gostar ou desgostar do que estava escrito. Ao final ele fitou-me nos olhos e disse sem rodeios: - Vá reproduzir no estêncil a álcool e passe cópias para seus colegas de classe. Seu texto é muito emocionante!
Não soube o que dizer. Fiquei numa felicidade tamanha! Não consegui esconder meu contentamento, dei um forte abraço no professor e corri para o local onde ficava o mimeógrafo e as máquinas datilográficas. Eu queria ver meu texto pronto. No dia seguinte entreguei para que cada colega de classe pudesse tê-lo em mãos na hora da leitura conjunta. Não lembro muito qual foi a reação da classe e, confesso, não me importava nem um pouco. A felicidade que sentia me enchia de satisfação e os olhos de meu professor marejando de emoção não saiam de minha cabeça.
Depois disso não recordo de ter escrito qualquer texto que tenha valido a pena enquanto durou minha vida escolar. O certo é que o olhar imperceptível de meu professor me fez um bem danado. Nunca disse isso a ele, mas sua atitude arrancou de mim o medo de escrever e, o que é mais difícil, mostrar a outras pessoas. Perdi o receio delas não gostarem ou criticarem meu estilo.
Aquela Páscoa foi para mim um momento marcante. Talvez tenha sido um sinal do que viria acontecer depois. Talvez tenha sido uma provocação divina para mim. Não sei ao certo e nunca irei saber. Talvez tenha sido apenas a inspiração necessária para iniciar um caminho que sequer sabia qual era. Não importa. O fato é que comecei a gostar da Páscoa pelo que ela representava para minha fé: um momento de passagem da morte para a vida; do sofrimento para a alegria; da angústia para a liberdade; da solidão para a glória. Tudo isso passou a repercutir dentro de mim com a mesma certeza do olhar do professor que me fizera crer na minha capacidade de me comunicar de forma escrita. Nesse dia, eu também ressuscitei. E passei a mirar os detalhes. E a notar as coincidências da vida. E a me abrir para o desconhecido. E a dizer sim sempre que o não era mais forte.
Desde então procuro não perder a linda celebração que antecede o domingo pascal. É um ritual que enaltece toda a história da fé cristã. É uma celebração que emociona porque me coloca em sintonia com o princípio de tudo. Penso que é a mais indígena de todas as celebrações da igreja, pois ela canta a história de uma pessoa que viveu plena e radicalmente sua humanidade. No dizer de Leonardo Boff: “Jesus era tão humano que só podia ser Deus”.
Feliz Páscoa a todos nós!

25 de mar. de 2013

I Encontro de Povos e Comunidades Tradicionais do Sertão.


Entre os dias 21 e 22 de março, foi realizado na aldeia Capateira, TI Entre Serras Pankararu, o I Encontro de Povos e Comunidades Tradicionais do Sertão, esse evento foi idealizado e realizado pela Associação Indígena de Entre Serras Pankararu – AIPES e a Secretaria de Meio Ambiente de Pernambuco, contou também com os apoios da Prefeitura de Tacaratu – PE, Prefeitura de Jatobá – PE, Quilombo Malunguinho, APOINME, Secretaria de Transporte de Pernambuco, Secretaria de Agricultura Familiar de Pernambuco, IPA, Fundarpe, Ministério Publico de Pernambuco, OAB – PE, FUNAI e Pólo Básico da SESAI Entre Serras Pankararu. Esse encontro contou com a presença de mais de 300 pessoas entre elas indígenas, juremeiros, quilombolas, pescadores, ciganos e ribeirinhos, pois o objetivo foi de socializar os conhecimentos tradicionais dos participantes, e com isso unir e fortalecer o movimento e a luta desses seguimentos.
E na abertura do evento teve a apresentação do grupo de dança Pankararu Nação Cultural que mostrou a dança do Búzio Pankararu, em seguinte foi formado a mesa com as diversas autoridades presentes, como os caciques e representantes indígenas, os prefeitos de Tacaratu e Jatobá, promotores públicos de Pernambuco, secretario do meio ambiente de Pernambuco, representantes dos seguimentos presentes, entre outros, após a fala de cada um Sergio Xavier Secretario do Meio Ambiente de PE, assinou um convenio com os prefeitos de Tacaratu e Jatobá, esse convenio é voltado a preservação do meio ambiente nesses municípios, onde cada prefeito se comprometeu a executar essa ação de uma forma que abranja os limites de seus municípios, e com isso favorecer a cultura do bem viver.
Após a assinatura dos convênios, Bernadete Azevedo Procuradora do Ministério Publico de Pernambuco, falou sobre o racismo na atual conjuntura judicial, e segundo ela os procurados hoje estão se preparando para atender e respeitar as diferenças e esficidades de cada povo originário e de cada comunidade tradicional de Pernambuco, para que acabe com os preconceitos judiciários no estado, e dando sequencia aos debates os participantes falaram bastante de suas experiências negativas e preconceituosas, que sofreram no momento que precisaram se dirigir a uma delegacia ou algum estabelecimento judiciário do estado, onde pudemos perceber em alguns relatos a extrema emoção e indignação das pessoas, e que tocou bastante Bernadete, pois ela se mostrou muito sensível a causa e empenhada a mudanças.
Quebrando o protocolo e a pauta do evento, os seguimentos presentes proporcionaram uma noite cultural, onde teve o toré do povo Pankararu, Fulni-ô e o samba de coco puxado pelo mestre Grio Zeca do Rolete e pessoas da jurema e dos quilombos presentes.
No segundo dia foi o momento dos povos e comunidades presentes, onde teve palestras sobre folhas sagradas e medicinais, ancestralidade e tradição, trocas de experiências, trabalhos em grupos para unificar as propostas de todos os seguimentos com o intuito de buscar uma melhoria de vida entre todos e fortalecer seus movimentos sociais. No termino do dia foi eleito a Comissão Sertaneja de povos e comunidades Tradicionais e depois apresentações culturais.
Esse encontro com certeza atingiu seus objetivos, e ficou para a historia e na memória de quem participou dele, e não temos duvida que foi um passo para a união e fortalecimento dos seguimentos.

http://apoinme.org.br/2013/03/i-encontro-de-povos-e-comunidades-tradicionais-do-sertao/

19 de mar. de 2013

Na Amazônia, uma disputa entre cônsul e Ibama pelo livro sagrado.

Órgão multa holandês por captura de conhecimento indígena; estrangeiro nega.
Roberto Maltchik (Email · Facebook · Twitter)


Receitas xamânicas foram produzidas e compiladas em livro na língua nativa da etnia Kaxinawá, em aldeia (na foto) localizada no Baixo Rio Jordão (AC)
Foto: Divulgação/Ibama
Receitas xamânicas foram produzidas e compiladas em livro na língua nativa da etnia Kaxinawá, em aldeia (na foto) localizada no Baixo Rio Jordão (AC) Divulgação/Ibama

RIO - A ação de uma ONG baiana, presidida pelo cônsul honorário da Holanda em Salvador, numa terra indígena no Acre, quase na fronteira com o Peru, pôs o Ibama em alerta e se transformou em mais um rumoroso episódio de suspeita de acesso ilegal ao patrimônio genético da biodiversidade brasileira. Em jogo, o conteúdo de um livro da etnia Kaxinawá, com a linguagem e as receitas xamânicas relacionadas a 516 ervas medicinais, que teriam o poder de curar 386 tipos de doenças tropicais, especialmente provocadas pelo contato entre o homem e outros animais.
O caso remonta ao ano de 2010, quando o etnomusicólogo brasileiro Ricardo Pamfilio de Souza, financiado pela ONG Arte, Meio Ambiente, Educação e Idosos (Amei), entrou em contato com o pajé Augustinho, da Terra Indígena Kaxinawá do Baixo Rio Jordão (AC), uma das onze áreas oficialmente povoadas pela etnia em solo brasileiro. O Brasil tem cerca de 6 mil índios Kaxinawá. Outros 4 mil vivem no Peru.

Da conversa entre o visitante e o pajé, surgiu o projeto para publicar um livro, em língua nativa, cujo objetivo seria preservar a cultura e o Hãtxa Ruin — a língua dos Kaxinawá. Ocorre que, para “preservar a linguagem escrita”, Panfílio diz que o pajé Augustinho escolheu justamente o conteúdo secular das receitas xamânicas, o “Livro Vivo dos Kaxinawá”, um tesouro da biodiversidade amazônica que, inclusive, já foi alvo de estudos e publicações de botânicos brasileiros, mas com anuência do Conselho de Gestão do Acesso ao Patrimônio Genético (Cgen), presidido pelo Ministério do Meio Ambiente.

A Funai informa que não mediou o acordo entre a Amei e os Kaxinawá e que a comunidade não se beneficiou da ação. Para o Ibama, o livro “pode conter um conjunto de ‘senhas’ para usos de plantas medicinais brasileiras, potencialmente úteis à saúde humana e cobiçadas pela indústria farmacêutica mundial”.

Após mais de um ano de investigação, Pamfílio e Hans Joseph Leusen, empresário de 73 anos, cônsul honorário da Holanda em Salvador e presidente da Amei, foram multados, no ano passado, em R$ 100 mil, sob a acusação de usar o conhecimento tradicional para prospectar, ilegalmente, plantas com potencial uso comercial. Ambos tiveram acesso ao conteúdo do “Livro Vivo”, sendo que os originais continuam na aldeia.

Em 2011, durante operação do Ibama no Baixo Rio Jordão, o pajé Augustinho afirmou, de acordo com relatório da investigação ao qual o GLOBO obteve acesso, que Pamfílio teria armazenado informações em seu notebook com a intenção de produzir dois livros, um de ensino vegetal e outro, o “Livro Vivo”, que seria composto por relatos feitos na floresta pelo próprio pajé, apresentando as plantas e seus respectivos usos. Em meados de 2012, com fortes dores abdominais, o pajé Augustinho caminhou para floresta em um ritual de morte. Hoje, a publicação está embargada.
“Leusen e Panfílio desenvolveram ardiloso mecanismo para obterem dados do conhecimento tradicional associado do povo Kaxinawá, mediante sutil aliciamento de seu pajé, com vistas a terem posse de informações peculiares sobre como e para quais finalidades devem ser utilizadas espécies da flora brasileira, em evidente bioprospecção”, pontua trecho do relatório de investigação.
Mas o Ibama não conseguiu provar se houve transferência do conhecimento absorvido pela Amei para agentes de dentro ou de fora do Brasil. Pamfilio e Leusen recorreram das autuações, e o processo administrativo no Ibama será julgado nos próximos dias. O cônsul holandês demonstra revolta com a ação do Ibama, que classifica como equivocada.

— Esse processo já me custou uma fortuna de advogados por uma coisa que nós não fizemos. Nós não fizemos nada de errado e estamos sendo multados. Esse livro é feito pelos índios, e nós iríamos ajudá-los. É completamente diferente (do que o Ibama afirma). Dentro do processo não há prova! Eu sou o cônsul da Holanda, eu plantei 140 mil árvores na Mata Atlântica, eu ajudo idosos na rua e o Ibama vem destruir o meu nome! — protesta Leusen, que admite que a negociação ocorreu sem autorização da Funai: — Vamos ser honestos: quando você pede alguma coisa para a Funai, você não recebe resposta. Nós fomos lá e fomos convidados pelos índios.
A sustentação é corroborada por Pamfílio, ao ressaltar que a Constituição assegura a qualquer pessoa livre acesso à terra indígena, desde que haja convite formalizado pela comunidade.
— Eu comuniquei à Funai o convite dos índios. Não é uma investigação científica de bioprospecção. É um trabalho educacional indígena, cuja língua nativa está se perdendo. Não é acesso aos conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético. Nem eu nem o Hans conhecemos laboratórios ou conversamos com laboratórios. Eu só quero concluir o meu trabalho — afirma Pamfílio.

Questionado, o Ibama sustentou a versão do relatório: “temos uma reunião de provas obtidas ao longo de meses de investigação que fornecem a materialidade necessária aos processos instaurados de penalização”. O resultado da apuração foi encaminhado ao Ministério Público Federal, mas, como é uma infração administrativa, processo no MPF foi arquivado.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/na-amazonia-uma-disputa-entre-consul-ibama-pelo-livro-sagrado-7862194#ixzz2NzxAsl4W
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16 de mar. de 2013

Os 70 autores de Frankfurt

Jã estão definidos os 70 autores brasileiros que irão à Feira de Frankfurt. Nós estamos ali também.


PublishNews - 14/03/2013 - Redação
Comitê organizador divulga lista de autores brasileiros que irão à Feira de Frankfurt em outubro

Durante uma coletiva de imprensa na Feira do Livro de Leipzig, o comitê que organiza a participação do Brasil como convidado de honra na Feira de Frankfurt este ano anunciou a lista dos 70 autores que irá representar o Brasil em outubro, na feira. Os nomes foram escolhidos por uma comitiva composta pelo crítico literário Manuel da Costa Pinto, Antonio Martinelli, do Sesc-SP e Antonieta Cunha, diretora de Livro, Leitura e Literatura da FBN. Os critérios foram a diversidade e a pluralidade, o equilíbrio entre escritores consagrados e a nova geração, a variedade de gêneros (prosa; poesia; ensaio, biografia e crítica literária; literatura infanto-juvenil e obras técnicas e científicas) e a qualidade estética, privilegiando também autores que já foram publicados ou estão em vias de serem publicados no exterior. Dos 70 autores, apenas 19 não são da região Sudeste do país.
 
Comitiva dos autores brasileiros na Feira do Livro de Frankfurt 2013:
 
Adélia Prado (MG)
Adriana Lisboa (RJ)
Affonso Romano de Sant'Anna (MG)
Age de Carvalho (PA)
Alice Ruiz (PR)
Ana Maria Machado (RJ)
Ana Miranda (CE)
André Sant’Anna (MG)
Andrea del Fuego (SP)
Angela-Lago (MG)
Antonio Carlos Viana (SE)
Beatriz Bracher (SP)
Bernardo Ajzenberg (SP)
Bernardo Carvalho (RJ)
Carlos Heitor Cony (RJ)
Carola Saavedra (RJ)
Chacal (RJ)
Cíntia Moscovich (RS)
Cristovão Tezza (SC)
Daniel Galera (RS)
Daniel Munduruku (PA)
Eva Furnari (SP)
Fábio Moon e Gabriel Bá (SP)
Fernando Gonsales (SP)
Fernando Morais (MG)
Fernando Vilela (SP)
Ferréz (SP)
Flora Süssekind (RJ)
Francisco Alvim (MG)
Ignácio de Loyola Brandão (SP)
João Almino (RN)
João Gilberto Noll (RS)
João Ubaldo Ribeiro (BA)
Joca Reiners Terron (MT)
José Miguel Wisnik (SP)
José Murilo de Carvalho (MG)
Lelis (MG)
Lilia Moritz Schwarcz (SP)
Lourenço Mutarelli (SP)
Luiz Costa Lima (MA)
Luiz Ruffato (MG)
Manuela Carneiro da Cunha (Portugal - SP)
Marçal Aquino (SP)
Marcelino Freire (PE)
Maria Esther Maciel (MG)
Maria Rita Kehl (SP)
Marina Colasanti (RJ)
Mary Del Priori (RJ)
Mauricio de Sousa (SP)
Michel Laub (RS)
Miguel Nicolelis (SP)
Nélida Piñón (RJ)
Nicolas Behr (MT)
Nuno Ramos (SP)
Patricia Melo (SP)
Paulo Coelho (RJ)
Paulo Henriques Britto (RJ)
Paulo Lins (RJ)
Pedro Bandeira (SP)
Roger Mello (DF)
Ronaldo Correia de Brito (CE)
Ruth Rocha (SP)
Ruy Castro (MG)
Sérgio Sant’Anna (RJ)
Silviano Santiago (MG)
Teixeira Coelho (SP)
Veronica Stigger (RS)
Walnice Nogueira Galvão (SP)
Ziraldo (MG)
http://www.publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=72464

15 de mar. de 2013

Práticas Educativas no SESC Bauru - SP

Espero por vocês no SESC Bauru para um ciclo de encontros que tem por objetivo desmistificar a separação entre teoria e prática, vivenciar a diversidade e trazer para o dia a dia todas as possibilidades do aprender, sob perspectiva humanizadora. Destinado a educadores, profissionais e estudantes de educação física, dança, recreacionistas, técnicos esportivos, pedagogos e interessados em geral.

Xipat Oboré


9 de mar. de 2013

Almir Suruí recebe o título de Doutor da Unir



A Fundação Universidade Federal de Rondônia (Unir) concederá nesta sexta-feira o título de Doutor Honoris Causa ao líder indígena Almir Narayamoga Suruí, 38 anos. O evento será na no auditório da Unir Centro, às 16 horas durante uma sessão extraordinária do Conselho Superior Acadêmico (CONSEA), aberta ao público em geral.
Almir é o líder do povo indígena Suruí que habita a Terra Indígena Sete de Setembro, situada na região de Cacoal-RO. A população é de aproximadamente 1.400 índios, que se autodominam Paiter, que quer dizer “gente de verdade”.
Aos 15 anos, entendendo pouco o português, aceitou convite da Universidade Católica de Goiás para estudar Biologia Aplicada. Ao retornar, passou a atuar na Associação Metareilá do Povo Indígena Suruí, junto com outras lideranças, além de investir em ações que defendem o meio ambiente e a cultura indígena. Em 1999, conseguiu que o Ministério do Meio Ambiente realizasse o Diagnóstico Agroambiental da Terra Indígena Sete de Setembro. Em 2005, contrariado com a comercialização ilegal de madeira no território de seu povo, deu início à implantação de um projeto de reflorestamento, com a proposta de recuperar pastos, capoeiras e enriquecer a floresta, adensando-a com espécies florestais retiradas pelos invasores e madeireiros. Com a visibilidade do trabalho desenvolvido em prol povo Suruí e da Amazônia, Almir assumiu o Departamento Etnoambiental da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).
Em 2007 Almir foi à cidade de São Francisco nos Estados Unidos, e fechou uma parceria com o Google. Com o gigante da internet, os Suruí tiveram acesso aos mais recentes computadores do mundo, a um sistema de comunicação para as aldeias e ao uso do Google Earth. A parceria faz parte do projeto Google Earth Outreach, que tem como objetivo usar a tecnologia para atender demandas sociais e ambientais em várias partes do mundo. A iniciativa da parceria foi do próprio Almir, quando ele conheceu o Google Earth e conseguiu visualizar suas terras na tela do computador, viu uma grande oportunidade para o seu povo. Hoje pelo programa do Google, é possível caminhar virtualmente por toda a Terra Sete de Setembro, onde reside o povo Suruí.
A concessão do título foi proposta pelo colegiado do curso de Mestrado em Geografia da Unir e aprovada em reunião do Conselho Superior Acadêmico (CONSEA) em agosto de 2011.

Fonte: Assessoria
http://www.rondoniaovivo.com/noticias/almir-surui-recebe-o-titulo-de-doutor-da-unir/98465

4 de mar. de 2013

A TEMÁTICA INDÍGENA EM SALA DE AULA (SESC Belenzinho)

SESC Belenzinho
Dia(s) 16/03 Sábado, das 11 às 16h.
O encontro apresenta e discute a lei 11.645, que desde 2008 garante o ensino da temática indígena em todos os níveis de ensino. Buscando motivar os educadores a conhecer e praticar a lei e contribuir para a diminuição do preconceito e da exclusão social a que nossos povos foram submetidos ao longo da história, o encontro colocará em pauta o tema dos povos indígenas brasileiros e sua diversidade, a educação e arte indígena, entre outras questões. Orientação: Daniel Munduruku. Daniel Munduruku é graduado em Filosofia e doutor em educação pela USP. É comendador da ordem do mérito cultural da presidência da república e autor de 43 livros para crianças, jovens e adultos. Duração: 1 encontro. 30 Vagas. Oficina 3. Inscrições: dia 05/3 [TERÇA], pessoalmente, a partir das 14h, no estacionamento. Havendo disponibilidade de vagas, as inscrições seguirão no 1º pavimento a partir do dia 06/3 [QUARTA], às 11h.
Não recomendado para menores de 16 anos
Grátis Fonte: http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=240899

2 de mar. de 2013

A literatura indígena, segundo Daniel Munduruku (Entrevista para o Blog do Inst. Ecofuturo)



"O brasileiro precisa conhecer de verdade que o que ensinam para ele – sobre nossos povos e outros temas – é mentira", afirma Daniel Munduruku em entrevista exclusiva ao Instituto Ecofuturo. Autor de mais de 40 livros e um dos mais respeitados autores indígenas do país, Munduruku fala da vitalidade dos saberes ancestrais e de como os brasileiros, que são também indígenas na sua essência, ignoram tradições fundadoras da nossa própria identidade. À frente do Instituto Uka – Casa dos Saberes Ancestrais, o escritor acredita na força da literatura como “grito consciente e consistente” de povos cujas vozes foram, durante séculos, silenciadas e luta para que se cumpra a lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira e História e Cultura Indígena nas escolas.
 
 
Como você descobriu a literatura, como leitor e escritor?
 
Nunca fui um exímio leitor. Descobri a leitura – e não a literatura – quando já era adolescente. Na escola religiosa em que eu estudava, tinha uma excelente biblioteca e isso me seduzia bastante. No entanto, os livros eram em sua maioria religiosos. Me peguei, assim, lendo biografias de santos; livros que tratavam de questões espirituais. Enfim, eram leituras que tinham a ver com minha formação dessa época de estudos. Um pouco depois passei a escrever alguns textos ligados à catequese e aos momentos de festejos religiosos. Lembro que o primeiro texto que escrevi e tive coragem de mostrar para meu professor de português foi sobre a páscoa. Ele achou tão bom que pediu que eu reproduzisse no mimeógrafo a tinta e distribuísse na paróquia no dia da páscoa. Para mim isso foi a glória. Eu tinha uns 16 anos. Depois disso, não lembro de nenhum outro texto que tenha escrito e se tornado público. Recordo-me, porém, que me tornei um leitor voraz de textos literários que me caíam nas mãos.
 
Como foi a sua experiência, ao se deparar com narrativas e representações tão diferentes das do imaginário indígena, que são aquelas veiculadas pelo cânone literário? Houve conflitos de alguma espécie?
 
Eu sempre fui muito curioso, desde criança. Nada me surpreendia no mundo imaginário de minha infância. Isso foi fundamental para que não tivesse problemas com as leituras posteriores. Eu entendia que a literatura era um devaneio de gente morta. Autor para mim era um ser distante, habitante de outro mundo. Algumas vezes achava que eles não eram humanos. O que me deixava furioso era como eles conseguiam “amarrar” tantos personagens numa história comovente e verdadeira. As histórias indígenas são muito bem elaboradas também, mas normalmente têm poucos personagens e não têm dramas tão elaborados. Lembro que chegava a perguntar para meus pais e avós sobre isso e eles diziam: “O homem branco não sabe ser simples”. Não entendia nada do que eles falavam naquela hora. Só entendi bem depois – o que me deixou bastante contente, pois era um pensamento muito coerente com a compreensão que tinham da vida.
 
A apropriação da escrita e da literatura, com todo o seu potencial transformador, pode aproximar diferentes etnias e funcionar como mediadora nos entrechoques de diferentes culturas? Como?
 
Tenho trabalho na perspectiva de que a literatura é um caminho de aproximação entre os diferentes povos indígenas. Mesmo sabendo que há uma grande diversidade de saberes e culturas, sinto que a literatura pode funcionar como elemento aglutinador, além de ser um instrumento para “soltar a voz” que tem ficado entalada na garganta de nossa gente ancestral. Nosso desafio é ajudar nossa gente a aprender a usar a escrita como porta-voz. Na medida em que isso for acontecendo, o que era apenas um murmúrio irá tornar-se um grito consciente e consistente.
 
De que forma os povos indígenas se apropriam da cultura escrita e como a utilizam em seu favor?
 
A escrita é uma técnica. A gente aprende a escrever. O que a gente tem é que fazer uma ligação entre o pensamento que domina a cultura e a escrita que congela este pensamento. Mas isso também é uma questão de tempo, de treino. Gosto de pensar que a gente indígena já tem a parte mais difícil introjetada no seu próprio ethos: o conteúdo a ser escrito. Temos trabalhado no sentido de ajudar nossos parentes indígenas a colocarem seus pensamentos no papel e dar a ele uma forma literária, acadêmica ou apenas como exercício de reflexão. Quando isso chega inteligível à sociedade brasileira, acreditamos que é nossa forma de contribuir para diminuir a exclusão social a que ainda estamos submetidos.
 
O que é literatura indígena e quais as abordagens narrativas que geralmente a caracterizam, se é que se trata disso?
 
Nós remamos contra a maré. Entendemos literatura indígena como o conjunto de manifestações culturais que são reproduzidas por nossa gente em seus rituais, desenhos, cantos, danças, rezas, etc. Fugimos um pouco da ideia de literatura como escrita. Queremos mostrar que este nosso jeito de comunicar é literário. Se pensarmos que no mundo literário é preciso que haja iniciados nele para compreendê-lo, podemos imaginar que nossa forma de fazer literatura é um código que a sociedade não indígena precisa aprender para poder nos compreender. Nosso esforço em compreender a sociedade brasileira passa pelo domínio das novas tecnologias (a escrita entre elas). É justo que a sociedade letrada pense no movimento de nossos corpos como literatura. Claro que estamos tentando aprender direito e adentrando no universo da literatura ocidental seguindo os cânones estilosos que nos propõem, mas queremos criar um jeito todo próprio de nos comunicar a partir desses instrumentos não indígenas.
 
Tributários que somos como brasileiros, de uma forte tradição indígena, que é parte constitutiva de nós mesmos, quais os estereótipos que ainda persistem na nossa “representação do índio” e como podemos superá-los, reconhecendo essa tradição como nossa ancestralidade?
 
A ancestralidade não é para ser pensada como algo atrasado e parado no tempo. Este é um dos estereótipos que estão presentes na mente brasileira. O mesmo se pode dizer da tradição. Este conceito está ligado a sociedades paradas no tempo. Não tem falácia mais imprópria. Isso tem que ser combatido com novos conceitos e vivências. É preciso que as pessoas entendam que não há nada de errado em respeitar o passado. O errado é negá-lo. Acontece que muita gente “olha para trás” para ver o passado. Os povos indígenas não fazem isso. O passado se une ao agora, ao presente. Não há nenhuma possibilidade de um indígena chorar o passado, pois ele sabe que este tempo é memorial. Ele não é real. Portanto, o brasileiro é um indígena essencialmente. O indígena é brasileiro apenas por acidente geopolítico. Por isso não entendo um país que não valoriza seus antepassados sem precisar chorar por eles, uma vez que eles estão no seu sangue. Por que isso acontece? Porque nunca ninguém disso isso ao brasileiro. A ele foi ensinado que índio é bicho, atrasado, incompetente no uso da terra, preguiçoso, desumano. Isso é ainda hoje ensinado – se não pelas escolas, em casa – ao inconsciente nacional. A mídia tem muita responsabilidade sobre isso, até mais que a escola. Aliás, a escola é sempre a última a receber notícias atualizadas sobre os povos indígenas; há muitas dezenas de anos que ensina a mesma coisa porque acredita que o que está estabelecido é a verdade absoluta. O brasileiro precisa conhecer de verdade que o que ensinam para ele – sobre nossos povos e outros temas – é mentira.
 
Em entrevista recente, você afirmou: “Um adulto, se quiser ler meus livros, terá que fazer um exercício para ouvir suas vozes ancestrais. Isso as crianças fazem sem esforço”. Por quê?
 
As crianças têm um canal aberto com sua ancestralidade. Elas são emotivas e conseguem chegar onde os adultos não chegam. Os adultos costumam ser bloqueados pelas vozes da escola, da economia ou da política. Isso os impede de “acordar” as memórias ancestrais que trazem em si. O adulto precisa se curvar a esta verdade, caso queira compreender a escrita indígena.
 
Se oferecermos, desde a primeira infância, a música dessa voz ancestral, teremos chance de formar adultos melhores, capazes de ouvir, respeitar e dialogar com essa voz?
 
Penso que crianças completas serão adultos completos. Ponto. Simples assim. A criança vem sem defeito de fábrica. Portanto, vem trazendo consigo todo o equipamento para viver bem. Acontece que ela cai num mundo que acha o contrário, pensa que ela vem sem nada e que precisa ser formada – colocada na forma – para ser “alguém” na vida. A solução do dilema é educar a criança para  ser criança e nada mais. Qualquer outra tentativa de fazê-la ser o que ela não pode ser vai transformá-la em adulto frustrado.
 
Uma das frentes trabalhadas pelo Instituto Uka – Casa dos Saberes Ancestrais é a Caravana Mekukradjá, que visa difundir a literatura indígena. Entre as atividades oferecidas, há cursos e palestras para professores sobre como trabalhar a questão indígena em sala de aula. Em linhas gerais, quais as orientações repassadas aos docentes?
 
Procuramos mostrar aos educadores exatamente o que dissemos atrás: tá tudo errado na compreensão de nossos povos indígenas. A gente tem que desconstruir o paradigma que eles trazem dentro de si, fruto da educação familiar e escolar. Fruto da universidade que não o ajudou a colocar algo novo em sua mente. Dizemos aos educadores que é preciso tratar a criança como criança e não como um investimento futuro. Dizemos que é preciso que o educador saiba que tipo de ser humano ele acredita estar formando. Aí questionamos as suas crenças, seus dogmas. Às vezes temos êxito, outras não. Isso faz parte do processo.
 
O Concurso FNLIJ Curumim chega este ano à sua 10ª edição. O que há para comemorar e quais os desafios ainda encontrados?
 
Comemoramos muitas conquistas. Uma delas é termos chegado à 10ª edição com muitos bons resultados. Este concurso, assim como outras iniciativas que mantemos, tem valorizado o professor que trabalha a temática indígena em sala de aula utilizando a literatura como instrumento. Faz com que o educador procure conhecer a produção literária dos indígenas brasileiros; ele influencia seus alunos; ajuda-nos a “corromper” a cabeça das crianças e jovens para aquilo que consideramos um ganho futuro: teremos adultos mais conscientes de seu papel numa sociedade multicultural como a nossa. Ainda assim, temos desafios. Temos que fazer as escolas e os educadores conhecerem a lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira e História e Cultura Indígena nas escolas; temos que formar educadores para trabalharem a temática indígena de forma adequada; temos que organizar muitas caravanas para mostrar nossa produção literária. Daí a importância do Instituto Ecofuturo e do Instituto C&A, que são nossos parceiros nesta empreitada, porque, como nós, acreditam na possibilidade de formamos seres humanos mais compatíveis com a realidade multifacetada que hoje temos.
 
Além da literatura, quais outros instrumentos e expressões estéticas podem contribuir para a abordagem aprofundada da questão indígena?
 
Dizia mais acima que todas as manifestações da cultura indígena se prestam para a compreensão de nossa diversidade. Neste sentido é importante pensar estas manifestações como parte da cultura e não separada dela. A cultura é um conjunto. É bobagem tentar extrair dela elementos distintos. Uma cultura tem que ser compreendida em sua totalidade e não apenas através de suas manifestações. Quem faz isso é o ocidental, que aprende a dividir os conhecimentos em quadrados guardados a sete chaves. A nova escola tem que pensar no conjunto. O novo ser humano tem que ter isso claro. Caso contrário, ele não será novo.
 
 
Escritor indígena com 43 livros publicados, Daniel Munduruku é graduado em Filosofia, com licenciatura em História e Psicologia. Doutor em Educação pela USP, é Diretor Presidente do Instituto UKA - Casa dos Saberes Ancestrais. Pelo seu trabalho, recebeu diversos prêmios, no Brasil e no exterior, como o Prêmio Jabuti, Prêmio da Academia Brasileira de Letras, Prêmio Érico Vanucci Mendes (CNPq) e Prêmio Tolerância (UNESCO). Muitos de seus livros receberam o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ.
 
 
 

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...