30 de nov. de 2010
29 de nov. de 2010
PIMENTA NO OLHO DOS OUTROS É REFRESCO!
Estive recentemente na Feira do Livro de Campos dos Goytacazes, uma linda cidade do Rio de Janeiro. Lá tive a oportunidade de apreciar não apenas a beleza natural, os diversos pontos turísticos [favorecidos por uma história colonial bastante rica] e as grandezas deste que é o maior município do interior fluminense com seu visível crescimento econômico, mas também sua fome de cultura e de leitura. Isso eu vi com meus olhos e ninguém pode negar.
Lá conversei com os pequenos leitores. Tive a rara oportunidade de encontrar outros escritores, ilustradores, artistas, pensadores que davam seus depoimentos com alegria e vibração assumindo o espírito que pairava no ar. Era um espírito bom, alegre, feliz. Um espírito que emanava conhecimento e descontração, dois elementos básicos de uma realidade ainda esquecida: conhecimento gera alegria. As duas juntas geram sabedoria. Fórmula simples e fácil de perceber.
Encontrei também professores. Tive a oportunidade de conversar com eles sobre os saberes indígenas e sua interação com a vida. Pude apresentar-lhes alguma coisa da grande sabedoria acumulada por nossos povos ao longo dos milênios vividos. Foi uma conversa muito agradável no seu todo.
Como sempre, no entanto, minha conversa suscitou uma questão que parecia estar latente naquele grupo. Uma pessoa me indagou sobre o infanticídio entre os povos indígenas. Foi uma pergunta sem nenhuma intenção de polemizar. Realmente a professora queria ouvir minha opinião a respeito e por isso me senti absolutamente a vontade para expressar meu sentimento a respeito daquela questão que está sempre no imaginário das pessoas, especialmente depois que são “provocadas” pela imagem que a televisão evoca em suas mentes.
Fiz questão de levantar alguns pontos [que me parecem esquecidos pela própria impossibilidade da resposta]:
1. Não se pode fazer uma pergunta tão genérica a um indígena [e aí lembrei aos presentes a diversidade dos povos indígenas brasileiros]. Perguntas genéricas mostram a fragilidade da argumentação;
2. Uma pergunta desse tipo traz consigo um juízo de valor muito perigoso [assim pude mostrar como a imposição de um pensamento sobre outro é sempre devastador e motor de incompreensões e intolerância];
3. A necessidade de se usar o senso crítico ao ouvir/ler/ver uma matéria “jornalística” [e aqui pude dissertar sobre os aparelhos ideológicos a serviço do sensacionalismo e da “piedade”];
4. Que olhar a cultura do outro com os olhos da cultura ocidental é, quase sempre, dar um tiro no próprio pé [e aqui pude lembrar que “pimenta no olho dos outros é refresco” ou “é bom olhar para a sujeira do próprio quintal antes de olhar para o quintal do outro” ou ainda (parafraseando Jesus, o pajé) “tira antes o cisco do teu olho, pecador”].
Disse tudo isso com a certeza de que não estava dando respostas absolutas, apenas jogando piolhos. Aprendi com Sócrates, o atleta, que dava verdadeiras “lavadas” utilizando o calcanhar. Este [o calcanhar] que era o ponto frágil de Aquiles, o semideus grego que era conquistador como Edir Macedo que onde toca vira ouro, feito o rei Midas que morreu por absoluta ganância. Ao menos Aquiles e Midas faziam riqueza pela guerra física. Já Edir Macedo o faz usando a ignorância das pessoas. Nesta luta não há dignidade.
A propósito:
1) Não estou afirmando que em Campos dos Goytacazes é que tudo começou. Lá foi apenas mais um lugar onde se manifestou a questão que aparece em todos os rincões e voltou à cena porque a rede Record de Televisão veiculou [mais uma vez] uma matéria execrando o “infanticídio indígena” e apresentando a ação salvadora de uma missionária que lá estava para “salvar” a alma daqueles pervertidos... E que no final pedia dinheiro para a missão salvadora não acabar. Cruzes! Voltamos à idade média (?)!!!
2) INFANTICÍDIO [conceito que não se enquadra no modo indígena de vida] NÃO EXISTE ENTRE OS INDÍGENAS BRASILEIROS.
Pense nisso!!!
Tenho dito.
Comentário DM:
Assino embaixo esta carta.
_________________________________________
CARTA DE REPÚDIO AO PROGRAMA EXIBIDO PELA TV RECORD NO DOMINGO ESPETACULAR NO DIA 07 DE NOVEMBRO DE 2010.
Nós, mulheres indígenas reunidas no Encontro Nacional de Mulheres Indígenas para a proteção e Promoção dos seus Direitos na cidade de Cuiabá entre os dias 17 e 19 de novembro de 2010, vimos manifestar nosso repúdio e indignação contra reportagem produzida pela ONG religiosa ATINI exibida no dia 07 de novembro de 2010 em rede nacional e internacional. No Programa do Domingo Espetacular, da emissora RECORD, foram mostradas cenas de simulação de enterro de crianças indígenas em aldeias dos estado de Mato Grosso (Xingu), Mato Grosso do Sul (Kaiowá Guarani) e no sul do Amazonas (Zuruaha), pelos fatos e motivos a seguir aduzidos:
1. A malfadada reportagem coloca os povos indígenas como coletividades que agridem, ameaçam e matam suas crianças sem o mínimo de piedade e sem o senso de humanidade.
2. Na aludida reportagem aparecem indígenas atores adultos e crianças na maior “selvageria” enterrando crianças.
3. A reportagem quer demonstrar que essas ações nocivas aos direitos à vida das crianças indígenas são praticas rotineiras nas comunidades, ou de outra forma, são praticas culturalmente admitidas pelos povos indígenas brasileiros.
4. Que os produtores do “filme” desconhecem e por tanto não respeitam a realidade e costumes dos indígenas brasileiros. São “produtores Hollywoodianos”.
Vale esclarecer em primeiro lugar que a reportagem não preocupou em dizer que no Brasil existem mais de 225 povos ou etnias diferenciadas em seus usos, costumes, línguas, crenças e tradições. Essa reportagem negou aos brasileiros o direito ao conhecimento de que na década de 1970 a população indígena não chegava a duzentas mil pessoas ao ponto de antropólogos dizerem que no século XX os indígenas iriam acabar.
Se de fato os indígenas estivessem matando suas crianças, a população indígena estaria diminuindo, mas a realidade é outra, pois a população naquele momento em decréscimo hoje chega ao patamar de 735 mil pessoas, segundo censo de 2000 do IBGE.
A reportagem que mostra apenas uma versão das informações, não entrevista indígenas nem antropólogos que conhecem a realidade da vida na comunidade, pois senão iriam ver que crianças indígenas não vivem em creches nem na mendicância. Crianças indígenas são tratadas com respeito, dignidade e na mais ampla liberdade.
A reportagem maldosa e preconceituosa feriu intensamente os direitos indígenas nacional e internacionalmente reconhecidos, pois colocar povos indígenas e suas comunidades como homicidas de crianças é o mesmo que dizer que certas religiões praticam seus rituais matando suas crianças ou que a população brasileira em geral abandona suas crianças em creches, nas drogas e na mendicância se sem com elas se importarem. Mais, seria dizer que pais de classes médias altas jogam dos prédios suas crianças matando-as e que é comum famílias brasileiras em geral jogas seus filhos recém nascidos no lixões das grandes cidades, ou que os lideres religiosos são todos pedófilos.
Quais são as verdades dos fatos por trás das notícias caluniosas e difamatórias contras os povos indígenas.
Não seriam razões escusas de jogar a população brasileira contra os povos indígenas para buscar aprovação pelo Congresso Nacional brasileiro de leis nefastas aos povos indígenas? Ao dizer que os indígenas não têm condições de cuidar de seus filhos automaticamente estará retirando dos indígenas a autonomia em criar seus filhos, facilitando assim a intervenção do Estado para retirar crianças do convívio familiar indígena entregando-as a adoção principalmente por famílias estrangeiras. Na reportagem, o padrão de sociedade ideal é o povo americano, pois demonstrou que a criança retirada da comunidade agora vive nos Estados Unidos da América e até já fala inglês. Sociedade justa, moderna bem-feitora. Seria mesmo a “América” o modelo padrão de sociedade justa apresentado na reportagem? Vale esclarecer que a ONG religiosa ATINI e sua produtora de Hollywood têm sua sede nos Estados Unidos.
26 de nov. de 2010
ECA deverá ser revisado para incluir cultura indígena
SÍTIO CIMI, 25.11.2010
Fonte: Agência Brasil
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que completa 21 anos em 2011 poderá ser reformado para não discriminar práticas de socialização das crianças indígenas. Um diagnóstico sobre a violação de direitos e a atual situação de crianças e adolescentes indígenas apontam que há diferenças de visão sobre o que é considerado violência e agressão contra as crianças.
De acordo com o diagnóstico em elaboração, os indígenas têm outra concepção sobre o trabalho infantil, gravidez precoce e abrigamento, previsto no ECA como ação de proteção e medida socioeducativa. "O abrigamento é um procedimento estranho e alheio. É visto como afrontamento aos seus costumes" disse à Agência Brasil Carmen Silveira de Oliveira, secretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente (Secretaria de Direitos Humanos), ao explicar que, para os índios, os filhos sempre devem ficar com a família.
De acordo com a secretária, a concepção de trabalho infantil precisa ser revisada. "Quando o adulto índio leva o seu filho para lhe acompanhar na atividade de pesca isso não pode ser considerado trabalho infantil, segundo eles. Isso é uma introdução aos seus costumes, não é visto como uma violação dos seus direitos. Pelo contrário, é uma valorização que está sendo dada à criança nesse momento", diferenciou.
Para os indígenas, a gravidez na adolescência não tem a conotação de precoce abordada nas políticas públicas de saúde. "Em várias comunidades indígenas não há a divisão etária que nós temos no nosso mundo urbano, branco e ocidental", relativiza Carmen de Oliveira.
As diferenças de visão de mundo também devem ser consideradas na expansão da escola para crianças de 4 e 6 anos. A universalização do ensino infantil para essa faixa etária (meta prevista para 2016) deve ser reconsiderada para o caso dos índios. "É bom colocar a criança com 4 anos na escola?" pergunta Gersom José dos Santos Luciano, da coordenação de Educação Indígena do Ministério da Educação e do Centro Indígena de Estudos e Pesquisas (Cinep). Segundo ele, "muitos indígenas dirão que não, que é uma fase de estar com os pais para aprender cultura".
Carmen de Oliveira e Gersom Luciano participaram hoje (25) de manhã, em Brasília, da abertura do 2o Seminário sobre Direitos e Políticas para Crianças e Adolescentes. O evento encerra a elaboração do diagnóstico sobre a violação de direitos e a atual situação de crianças e adolescentes indígenas, que pautará o Plano Decenal dos Direitos Humanos da Crianças e Adolescente (2011-2020) a ser publicado em dezembro. O texto do plano está disponível para consulta pública na página eletrônica: www.direitoshumanos.gov.br/noticias/ultimas_noticias/conselho/conanda.
Segundo a secretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, os indígenas querem ter lugar nos conselhos tutelares próximos às áreas indígenas e querem que haja mais professores, profissionais de saúde (inclusive médicos) com origem indígena para atendimento nas aldeias. Para Gersom Luciano, "é na garantia dos direitos sociais [como educação e saúde] que será possível estabelecer um processo de mudança de mentalidade e de olhar outras as culturas".
Fonte: Clipping da 6ª CCR do MPF.
SÍTIO CIMI, 25.11.2010
Fonte: Agência Brasil
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que completa 21 anos em 2011 poderá ser reformado para não discriminar práticas de socialização das crianças indígenas. Um diagnóstico sobre a violação de direitos e a atual situação de crianças e adolescentes indígenas apontam que há diferenças de visão sobre o que é considerado violência e agressão contra as crianças.
De acordo com o diagnóstico em elaboração, os indígenas têm outra concepção sobre o trabalho infantil, gravidez precoce e abrigamento, previsto no ECA como ação de proteção e medida socioeducativa. "O abrigamento é um procedimento estranho e alheio. É visto como afrontamento aos seus costumes" disse à Agência Brasil Carmen Silveira de Oliveira, secretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente (Secretaria de Direitos Humanos), ao explicar que, para os índios, os filhos sempre devem ficar com a família.
De acordo com a secretária, a concepção de trabalho infantil precisa ser revisada. "Quando o adulto índio leva o seu filho para lhe acompanhar na atividade de pesca isso não pode ser considerado trabalho infantil, segundo eles. Isso é uma introdução aos seus costumes, não é visto como uma violação dos seus direitos. Pelo contrário, é uma valorização que está sendo dada à criança nesse momento", diferenciou.
Para os indígenas, a gravidez na adolescência não tem a conotação de precoce abordada nas políticas públicas de saúde. "Em várias comunidades indígenas não há a divisão etária que nós temos no nosso mundo urbano, branco e ocidental", relativiza Carmen de Oliveira.
As diferenças de visão de mundo também devem ser consideradas na expansão da escola para crianças de 4 e 6 anos. A universalização do ensino infantil para essa faixa etária (meta prevista para 2016) deve ser reconsiderada para o caso dos índios. "É bom colocar a criança com 4 anos na escola?" pergunta Gersom José dos Santos Luciano, da coordenação de Educação Indígena do Ministério da Educação e do Centro Indígena de Estudos e Pesquisas (Cinep). Segundo ele, "muitos indígenas dirão que não, que é uma fase de estar com os pais para aprender cultura".
Carmen de Oliveira e Gersom Luciano participaram hoje (25) de manhã, em Brasília, da abertura do 2o Seminário sobre Direitos e Políticas para Crianças e Adolescentes. O evento encerra a elaboração do diagnóstico sobre a violação de direitos e a atual situação de crianças e adolescentes indígenas, que pautará o Plano Decenal dos Direitos Humanos da Crianças e Adolescente (2011-2020) a ser publicado em dezembro. O texto do plano está disponível para consulta pública na página eletrônica: www.direitoshumanos.gov.br/noticias/ultimas_noticias/conselho/conanda.
Segundo a secretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, os indígenas querem ter lugar nos conselhos tutelares próximos às áreas indígenas e querem que haja mais professores, profissionais de saúde (inclusive médicos) com origem indígena para atendimento nas aldeias. Para Gersom Luciano, "é na garantia dos direitos sociais [como educação e saúde] que será possível estabelecer um processo de mudança de mentalidade e de olhar outras as culturas".
Fonte: Clipping da 6ª CCR do MPF.
23 de nov. de 2010
Seminário apresentará, em Brasília, resultados de pesquisa nacional
sobre crianças e adolescentes indígenas
sobre crianças e adolescentes indígenas
Indígenas" acontecerá emBrasília, de 25 a27 de novembro, quando serão
apresentados os resultados preliminares de diagnóstico sobre a violação
de direitos e a atual situação de crianças eadolescentes indígenas. A
pesquisa aconteceu ao longo de 2010 coordenada pelo CentroIndígena de
Estudos e Pesquisas (Cinep), em parceria com a Secretaria deDireitos
Humanos (SDH-PR) e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e
do Adolescente (Conanda).
Para a produção do material foram realizados o I Seminário Nacional, em
Brasília,e quatro oficinas com representantes indígenas das regiões
Sul/Sudeste,Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Os relatos dos participantes
apontaram especificidadesregionais do ponto de vista indígena sobre o
conceito do que seja criança eadolescente para os povos e também as
diferenças com relação ao ponto de vistanão-indígena do que são
consideradas formas de violência e agressão contra criançase
adolescentes indígenas.
Além das especificidades de cada região, também foi possível identificar
pontos transversais nas discussões realizadas nas quatro regiões. O
alcoolismo, aviolência e a exploração sexual de meninos e meninas
indígenas, a dificuldade emrealizar o registro civil de crianças
indígenas e questões relativas à educaçãoescolar indígena (tais como a
qualidade do ensino, a ausência de escolas nasaldeias, a necessidade de
deslocamento para seguir estudando, a dificuldade demanutenção dos
estudantes fora das comunidades etc.) são ocorrências comuns atodas
regiões e integram o diagnóstico.
Estes são aspectos que constituem situações a serem apresentadas durante
o IISeminário Nacional, quando também ocorrerá uma sessão de trabalho
especial sobre a situação de crianças e adolescentes do Mato Grosso do
Sul, devido suaespecífica condição de violência e violação de direitos
indígenas. A situação do MS já foi, inclusive, divulgada pelo relator
especial da ONU para osDireitos Humanos e as Liberdades Fundamentais dos
Povos Indígenas, James Anaya,em setembro deste ano.
Durante o evento, ainda serão apresentadas as propostas enviadas ao
Conanda para compor o Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e
Adolescentes (2011-2020),que contemplam as especificidades dos povos
indígenas e se constituem comoresultado das atividades de estudo, debate
e análise em todas as regiões.
Para este II Seminário Nacional está prevista a presença de cerca de
70participantes dentre eles representantes de organizações envolvidas
com o tema,do movimento indígena, de organizações indigenistas,
pesquisadores, estudantes indígenas e membros do governo.
Serviço:
II SeminárioNacional sobre Direitos e Políticas para Crianças e
Adolescentes Indígenas
Data: 25, 26 e 27 de novembro
Horário: das 9h às 18h
Local: Bay Park ResortHotel (SHTN – trecho 2 – lote 5), em Brasília/DF.
Informações:
Clarissa Tavares – Assessora de comunicação do projeto – (61) 8506.5120
Vilmar Moura Guarany – Coordenador do projeto – (61) 8490.9387
Walisson Araújo – Coordenador Geral do Sistema de Garantia dos Direitos
da SecretariaNacional de Promoção dos Direitos da Criança e do
Adolescente da SDH – (61)2025.3961
Programação:
25 de novembro
9h- Sessão de Abertura
Presidente da mesa: Gersem José dos Santos Luciano – Diretor Presidente
do Cinep
Carmem Oliveira – Subsecretária de Promoção dos Direitos da Criança e do
Adolescente da SDH
Vilmar Guarany – Coordenador do Projeto
10h30– Sessão de Apresentação I - Crianças e Adolescentes Indígenas:
Perspectivas indígenas (resultados das oficinas regionais)
Moderador: Cristhian Teófilo da Silva (UnB)
Debatedor: Gersem José dos Santos Luciano (Cinep)
Melvino Fontes Olímpio (Oficina Regional – Norte)
Maria Inês Freitas (Oficina Regional - Sul/Sudeste)
Chiquinha Pareci (Oficina Regional - Centro-oeste)
Elisa Urbano Ramos (Oficina Regional – Norte)
14h- Sessão de Apresentação II - Crianças e Adolescentes Indígenas no
Sul do MS:Perspectivas indígenas e desafios para os Direitos Humanos.
Moderador: Vilmar Guarany (Cinep)
Elda Vasques Aquino (Aty Guasu)
Nito Nelson (Arpipan)
26 de novembro
9h- Grupo de Trabalho I - Crianças e Adolescentes Indígenas no MS:
Perspectivas indígenas e desafios para os Direitos Humanos.
Moderação: Equipe Cinep
Participantes do MS: Roberto Carlos Martins, José Barbosa Almeida,
Idevar de Chamorro Aquino,Ramona Martins Garay, Getúlio Juca, Alda da
Silva, Dionísio Gonçalves e EldaVasques Aquino
14h-Sessão de Apresentação III - Apresentação das propostas indígenas ao
Plano Decenaldos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes.
“Oque é o Plano Decenal” - Walisson Araújo (SDH)
“Sugestões ao Plano Decenal” - Cristhian Teófilo da Silva (UnB)
27 de novembro
9h- Grupo de Trabalho II – Sistematização dos resultados para elaboração
do Relatório Final.
21 de nov. de 2010
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A ANTA QUE VIROU ELEFANTE NUM DOMINGO ESPETACULAR
José Ribamar Bessa Freire
21/11/2010 - Diário do Amazonas
A segunda-feira da índia Rosi Waikhon na periferia de Manaus foi um dia de cão. Escapou, por pouco, de ser apedrejada. Ao sair de casa, várias pessoas lhe atiraram na cara frases do tipo:“Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer”. Minha amiga há muito tempo, ela me confidenciou: “Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas”.
Quem humilhou Rosi estava indignado, porque no dia anterior havia presenciado o ‘assassinato’ de crianças indígenas, cometido pelos próprios pais, que praticam o ‘infanticídio’, tudo isso exibido no programa Domingo Espetacular da TV Record. Felizmente, como nos filmes americanos, chega a cavalaria para salvar vidas ameaçadas por índios bárbaros. A missionária evangélica Márcia Suzuki, cavalgando a emissora do Edir Macedo – tololoc, tololoc – leva os bebês arrancados das garras dos ‘criminosos’ para a chácara da igreja neopentecostal. Enfim, salvos.
As pessoas viram trechos do vídeo ‘Hakani’ com o sepultamento de uma criança viva. A voz cavernosa de um narrador em off anuncia que se trata de prática generalizada: “A cada ano, centenas de crianças são enterradas vivas na Amazônia”. O xerife Henrique Afonso, deputado federal do Acre, quer prender os ‘bandidos’. Faz projeto de lei que criminaliza o ‘infanticídio indígena’, invoca a Declaração Universal dos Direitos Humanos e apela ao papa Bento XVI para que “intervenha contra o crime nefando”.
Como tem gente boa no mundo, meu Deus! Mas sobrou para Rosi que viveu uma ‘segunda-feira espetacular’. Quase foi linchada. Não foi a única. Rosi é índia Waikhon – etnia conhecida também como Piratapuia. Mora na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM) e está de passagem por Manaus. É educadora e líder da Foirn – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. Escritora, participou de dois Encontros de Escritores Indígenas na UERJ. Ela faz um apelo:
- “Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo INFANTICIDIO INDIGENA. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo”.
Xamãs e bruxos
Afinal, os índios cometem infanticídio? Essa é mesmo uma prática generalizada na Amazônia? Francisco Orellana, o primeiro europeu que cruzou o rio Amazonas dos Andes ao Atlântico, em 1540, viu coisas muito estranhas. A crônica da viagem – repleta de ‘domingos espetaculares’ - conta que ele se deparou com elefantes em plena selva, comeu carne de peru, bebeu cerveja feita pelos índios e combateu as precursoras do infanticídio - mulheres guerreiras que matavam seus filhos homens. A Europa acreditou piamente em suas histórias.
Orellana, coitado, sentiu o mesmo problema do xerife Henrique e da cavaleira Suzuki: como descrever aquilo para o qual não tenho palavras? Orellana viu antas bebendo água no rio. Não existia esse animal na Europa, nem muito menos a palavra anta nos dicionários. Como dar conta dessa realidade desconhecida, nova e estranha? O bicho era grande? Era. Tinha tromba? Tinha. Então, ele sapecou: “vi elefantes”. Afinal, elefantes são grandes e tem tromba. O mesmo com as mulheres que combateu. Na Europa, mulheres não iam pra guerra. Então, Orellana recuperou o mito grego, que a Europa conhecia muito bem.
Esse processo de equivalência entre objetos conhecidos e objetos novos foi muito usado nos registros coloniais. Ele consiste em definir fatos representativos de uma cultura com símbolos de outra cultura. Mutum passa a ser peru, caxiri se transforma em cerveja, inambu vira perdiz e mulheres que trocam o fogão pelo arco-e-flecha são amazonas. Essa operação reduz e simplifica enormemente a diversidade e a riqueza cultural, porque o símbolo não consegue transmitir toda a sua carga de significado de uma cultura a outra.
Foi assim também com os pajés e xamãs, que não existiam na Europa e foram denominados de ‘feiticeiros’ pelos colonizadores, com conotações altamente negativas que o equivalente não tem. As consequências foram trágicas, porque se ninguém mata uma anta pra extrair marfim dela, feiticeiros e bruxos eram, no entanto, condenados à fogueira.
O infanticídio é crime punido por lei. Denominar de infanticídio uma prática cultural que desconhecemos e que nos choca não ajuda a entendê-la, oculta a anta e não revela o elefante, além de ser um convite para criminalizar os povos indígenas e condená-los à fogueira. Quando os antropólogos ou agentes de pastoral do CIMI chamaram a atenção para tal leviandade e para o erro em generalizar para todos os povos, a ONG Atini os acusou de defenderem o ‘infanticídio’ porque querem impedir a mudança cultural.
Os antropologos
Todos os antropólogos – TODOS – sabem que a cultura é dinâmica, isso faz parte do bê-á-bá da antropologia. Nenhum antropólogo – NENHUM - se manifesta contrário a mudanças, até porque isso seria inútil. Ao contrário, o que os antropólogos estão dizendo, para horror do agronegócio interessado nas terras indígenas, é que índio não deixa de ser índio porque usa computador e celular. Mas a emissora do Edir Macedo grita espetacularmente contra os antropólogos, sem citar nomes:
“Há quem diga que a prática de matar crianças deficientes, gêmeas ou filhas de mães solteiras deve ser defendida para manter a cultura”.
Não cita o nome de um só antropólogo, nem o livro ou artigo de onde foi pescada tal ‘informação’, porque ela é falsa. Na realidade, o que se pretende é quebrar a parceria com os principais aliados dos índios na luta pela saúde, educação e demarcação da terra. A ABA - Associação Brasileira de Antropologia, através da Comissão de Assuntos Indígenas, já havia publicado nota esclarecedora assinada por João Pacheco.
“O vídeo Hakani – diz a nota – não é um registro documental proveniente de uma aldeia indígena, mas o resultado de uma absurda encenação realizada por uma entidade fundamentalista norte-americana. Utilizado como base para uma campanha contra o infanticídio supostamente praticado pelos indígenas, tem também a finalidade de angariar recursos para as iniciativas (certamente mais ‘pilantrópicas’ do que filantrópicas) daqueles missionários”.
Diz ainda que a prática daquilo que estão chamando inapropriadamente de infanticídio entre os indígenas “são virtualmente inexistentes no Brasil atual”. Ali onde eram localizadamente praticadas estão deixando de existir com a assistência médica e a demarcação de terras, por decisão dos próprios índios, conforme esclarece Rosi:
“Sou indígena, meu povo também tinha essa prática, mas não precisou de ONG nenhuma intervir para mudarmos. Os gêmeos, trigêmeos e os deficientes indígenas da região em que vivo estão sobrevivendo sem intervenção de Ong. Por favor, não peçam dinheiro em nome do infanticídio indígena”.
A nota da ABA reforça: “Por que substituir a mãe, o pai, os avós, as autoridades locais por uma regulação externa e arbitrária? As crianças indígenas não são órfãs. Bem ao contrário, estão melhor protegidas e cuidadas no âmbito de suas coletividades e por suas famílias. Uma intervenção indiscriminada, baseada em dados superficiais e análises simplórias, equivocadas e preconceituosas, não poderá contribuir para políticas públicas adequadas a estas populações”.
O abandono e morte de crianças indígenas com sofrimento, dor e tensão foi a resposta dada por algumas comunidades a um infortúnio ou desgraça que as acometia e que está sendo discutido e solucionado pelos próprios índios diante da nova situação em que vivem. Doía tanto quanto para Abrahão matar seu filho.
Então, ficamos combinados assim: uma anta é uma anta, um elefante é um elefante, a resposta dada por algumas comunidades tem tromba e é grande, mas não é elefante, e o Edir Macedo é....bom todo mundo sabe o que é Edir Macedo.
TROCA DE CARTAS ENTRE ROSI WAIKHON E MÁRCIA SUZUKI
Houve uma troca de cartas, via e-mail, entre a índia Rosi Waikhon e a missionária Márcia Suzuki, da Ong Atini. Rosi revisou o texto para publicação e me autorizou a fazer circular alguns trechos, aqui publicados por se tratar de um documento útil a quem se interessa pelo tema.
1ª. CARTA DE ROSE (13/11/2010) - Na primeira delas, Rosi critica:
“Encontrei na internet comentários, com mensagem racista e preconceituosa postada por um cidadão que leu a matéria de vocês intitulada ‘Infanticídio Indígena’. Ele chamou a nós indígenas de desumanos, e isso graças à forma como vocês estão tratando o assunto. Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo ‘infanticídio indígena’. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo”.
“Na sociedade de vocês, estou cansada de ver: babás filmadas por câmeras ocultas espancando bebês em suas casas; torturas nas creches; recém-nascido jogado no lixo; crianças revirando lixo nas ruas, crianças estupradas, crianças com síndrome de Dow mortas pelos pais, outras jogadas do alto dos prédios, queimadas, espancadas, mortas, assassinadas. Isso no meu olhar indígena é infanticídio, mas nós, índios, não fazemos isso. Por favor, não peçam dinheiro em nome do infanticídio indígena”.
“A questão por mim colocada é para que vocês OLHEM o infanticídio em volta de vocês no lugar de só procurarem entre os índios. O estado brasileiro QUANDO encontra a mãe que faz isso, bota a mulher na cadeia, não quer saber se essa mãe tinha casa, se estava passando fome, se sofria alguns distúrbios, se pelo menos essa mãe conseguiu fazer o pré-natal no posto de saúde. Sou contra o racismo e a xenofobia contra o nosso Povo Indígena, ainda mais provocado sem pensar, por isso recomendo que tratem do INFANTICÍDIO e não apenas dos povos indígenas”.
RESPOSTA DE MÁRCIA (13/11/2010)– A dirigente da Ong Atini responde insistindo no uso da palavra infanticídio. Argumenta que a definição do termo vem do latim – infanticidium – que significa a morte de criança, especialmente recém-nascida. Reconhece que ele é amplamente cometido na sociedade brasileira, mas que existem outras ONGs para cuidar disso: “Conheça-nos melhor, sra. Rosi, assista nossos vídeos. Veja Rosi, são os próprios indígenas que falam. Depois de assistir a esses vídeos e ler nosso material entre em contato dizendo o que achou, por favor”.
2ª. CARTA DE ROSI (14/11/2010) - Rosi assistiu o documentário ‘Quebrando o silêncio’ feito pela ONG Atini e dirigido por Sandra Terena, onde se afirma que “crianças indesejadas são condenadas à morte por nascerem com deficiência física ou mental, por serem gêmeas, filhas de mãe solteira ou ainda por serem vistas como portadoras de azar para a comunidade”. O documentário traz depoimentos de vários índios do Brasil central sobre o que a ONG classifica como infanticídio: “a tradição manda que as crianças sejam enterradas vivas, sufocadas com folhas, envenenadas ou abandonadas para morrer na floresta”.
Rosi leu o texto “A estranha teoria do homicídio sem morte”, de Marta Suzuki e deu, então, uma longa resposta, afirmando que sua interlocutora não compreendeu a profundidade do assunto, desconhece os estudos dos antropólogos, a quem ataca, e assume “as piores interpretações possíveis sobre os povos indígenas, sobretudo as questões das mulheres indígenas”.
Os principais trechos vão aqui selecionados:
“Sou indígena. Entendo perfeitamente o que meus parentes indígenas do centro do país estão dizendo. Respeito o modo de pensar deles. Meu povo também tinha essa prática, mas não precisou de ONG nenhuma intervir, achando que somos incapazes de resolver nossos problemas”.
“Quero dizer-lhe que os gêmeos, trigêmeos e os deficientes indígenas da região do Rio Negro, onde moro, estão todos vivos, sobrevivendo sem intervenção de ONGs. Apesar da ineficácia do sistema de saúde indígena, tivemos sim apoio da equipe de saúde nas reflexões e tomadas de decisões com relação ao assunto”.
“Mas a ineficácia crônica dos poderes públicos com relação à assistência aos povos indígenas é grande. Isso sim tem que ser documentado, mostrando a verdadeira face de como os povos indígenas são tratados no Brasil. Os profissionais que atuam em áreas indígenas têm que ser melhor qualificados, as escolas e as universidades devem ter aulas de história indígena para explicar a diversidade e a peculiaridade de nossos povos”.
“A falta de aprofundamento de estudos por parte da ONG deixa muito a desejar. Uma vez veiculada na mídia, a ideia do indígena ruim e mau já foi repassada, não tem como reverter. Vocês deveriam ter refletido que no nosso país tem muitos analfabetos de conhecimento indígena. Deveriam ter pensado que ao tratar dos povos indígenas, as interligações são diversas. Deveriam pensar uma melhor maneira de tratar o assunto, porque ele é mais profundo do que vocês imaginam”.
“Os internautas que são analfabetos em assunto indígena não vão querer saber o contexto de cada caso, e jamais irão compreender, pois esse assunto não se estuda em academias e muito menos nas escolas. Generalizar para eles é mais simples e fácil, provocando conceitos racistas e xenofóbicos, assim como está ocorrendo”.
“A questão não é julgar e condenar ninguém, mas esclarecer que o desejo de AJUDAR os povos indígenas não se resume em classificar cultura ruim e cultura boa, costume ruim e costume bom. Vai além disso, muito além. Quando os não-índios chegaram, também a intenção deles era AJUDAR, ‘civilizando-nos’ para os costumes deles, alegando que nossa cultura era atrasada, isso no olhar deles. Inconscientemente, vocês estão seguindo o mesmo caminho”.
“Quando procurados para resolver o assunto, deveriam ter encaminhado aos órgãos competentes brasileiros e não tomar para vocês a responsabilidade que é do Estado. Aí sim, vocês estariam ajudando o país a revisar as políticas públicas relativas aos índios e a combater a omissão do Estado”.
“Isso evitaria que os analfabetos em questões indígenas tivessem a interpretação que estão tendo, após o início da campanha de vocês. Na atualidade, o infanticídio está ligado à saúde pública e não somente à cultura desses povos. Mas o sistema de Saúde Indígena é ineficiente, com a maioria dos profissionais despreparados para atuar em áreas indígenas e lidar com tais assuntos. Os poucos profissionais competentes não são valorizados”.
“Essas questões e outras relativas à saúde pública não são aprofundadas por vocês. É fácil falar superficialmente, o difícil é falar da raiz do problema e buscar solução. O despreparo da maioria dos órgãos públicos para lidar com certos assuntos indígenas sempre foi e é um grande problema. Alguns avanços foram feitos, mas falta ainda muito a caminhar. É preciso cobrar do Estado suas responsabilidades”.
“Muitos séculos atrás, alguns naturalistas ocuparam infinitas páginas em seus diários, falando do infanticídio entre os povos indígenas. Mas pouco escreviam sobre as relações sociais familiares e a importância da criança indígena. Naquela época, éramos autônomos e felizes. Não existia Estado brasileiro, nem dinheiro, TV ou internet”.
“Por que será que registravam o infanticídio entre os povos indígenas e nada escreviam sobre o infanticídio cometido pelos povos ao qual pertenciam? É fácil enxergar e julgar os outros, o difícil é olhar ao seu redor, entender cada contexto e sua realidade”.
“Faz algum tempo, os jornais noticiaram que uma mulher seria apedrejada até a morte, no Irã, por ter cometido adultério. Então vários países foram contra, pois era uma VIDA que estava em jogo. Passado pouco tempo, os jornais noticiaram que nos Estados Unidos um homem condenado à pena de morte foi executado, uma injeção retirou a VIDA dele. Um ser humano tira a VIDA de outro ser humano, isso com o consentimento de todos. Não vi nenhuma manifestação contra a execução”.
“A questão não é se o ser humano que foi condenado é bom ou ruim, mas a discussão é sobre a VIDA. De acordo com slogan de vocês: SALVE UMA VIDA. No exemplo citado, uma vida foi tirada aos olhos do mundo inteiro. Analisemos o caso. O homem estava há anos confinado em celas do presídio. Não tinha liberdade! Isso é vida? Ele estava sozinho na cela, igual a um passarinho engaiolado. Sem sua família. Ele é um ser humano, foi gerado pelo pai e mãe, nasceu de uma mulher. Isso é vida? Talvez ele tinha uma esposa e até um filho. Mas não podia compartilhar com seus familiares. Isso é vida?”
“Para mim, que sou uma mulher indígena Waikhon, a Vida vai além do corpo físico, além dos órgãos vitais, além do espiritual, além do mundo que nos rodeia. Tudo tem vida: o ar que eu respiro, o sol que me aquece, o alimento que eu como, o rio, a mata... Mas isso é difícil para os não índios entenderem, porque vejo que estão matando a vida, por exemplo, os rios em suas cidades, vocês despejam lixo nele, tentam recuperar, mas os esgotos são canalizados para os rios e igarapés”.
“Os rios e igarapés estão chorando, estão desidratados, estão quase morrendo. Eles não são seres humanos, mas têm vida. Nós, índios e não-índios, precisamos deles, porque sem água o ser humano não vive. Ele morre. Estão vendo como uma coisa está interligada à outra?”
“Com relação ao exemplo citado do homem condenado à morte, não tiraram só uma vida dele, tiraram várias, a vida final foi a dos órgãos vitais e a do corpo físico. Estão vendo como é complicado?”
“Muito tempo atrás, os ‘civilizados’ também começaram a tirar nossas vidas. Invadiram nossas aldeias. Queimaram nossas casas. Tomaram nossas terras. Estupraram nossas mulheres. Mataram nossas crianças. Travaram brigas de índio contra índio. Escravizaram nosso povo, nos chamando de atrasados, que impediam o progresso do Brasil. Hoje, muitos são executados por causa da posse da terra. Os não-índios ricos e poderosos colocam índio contra índio, nos dividem para poder tomar posse de nossas terras”.
“Quando se trata de questão indígena, não se pode cuidar só do pé ou da mão. Nossos membros estão interligados. É preciso aprofundar o estudo sobre nossas culturas para não causar, mesmo inconscientemente, o racismo e a xenofobia na sociedade que ainda não consegue compreender os povos indígenas e as diferentes formas de sobreviver num mundo tão complicado”.
“Quero dizer aos senhores que antigamente o povo a qual pertenço praticava o que vocês chamam de infanticídio e não era infanticídio, nem indígena, pois na época não tinham nos apelidado ainda de índio. Como seria intitulado nos dias atuais, se os exploradores de nossas terras, muitas delas tomadas pelos latifundiários, que nos chamam de preguiçosos, não tivessem nos apelidado? Seria infanticídio waikhon, kamaiurá, kayabi?”
“Atualmente nós não temos mais essa prática, pois os gêmeos, trigêmeos e deficientes continuam vivos, são acolhidos muito bem, também existem não-índios solidários que ajudam cuidando dessas crianças, mas elas NÃO SÃO RETIRADAS DE SUA FAMÍLIA NEM DE SUAS ALDEIAS. Na Terra Indigena onde habito somos mais de 20 povos indígenas, entre eles tem também os Yanomami. Recentemente, nasceram trigêmeos Yanomami, a equipe de saúde ficou temerosa, porque lá ainda existe essa prática”.
“Diante disso, houve um DIÁLOGO entre a equipe de saúde, as lideranças indígenas, a família e o povo Yanomami. Sabe o que aconteceu? Depois de logos dias de diálogo, os pais ficaram com dois, os avós maternos ficaram com o terceiro. As crianças não foram retiradas do seu seio familiar, de seu povo, de suas terras, como vocês fazem. Tudo é questão do diálogo, respeito, entendimento, pois os povos indígenas, apesar das diferenças, têm inteligência e capacidade de chegar a um acordo”.
“Já que a Ong Atini está tratando do público indígena, respeito o modo de pensar de vocês. Mas quero lhe dizer que uma vez um indígena afastado de seu povo, de seu habitat, de suas terras, essas famílias e crianças não deixarão de ser índios (as), mas nunca mais serão os mesmos. Pois terão que seguir as violentas regras da civilização e do capitalismo para sobreviverem, como mão de obra barata da sociedade integracionista”.
“O que me entristece é o termo “infanticídio indígena”, era melhor vocês estudarem outro termo, porque esse atual afeta todos nós. Na atualidade, estamos tratando do assunto de forma diferente da de vocês e não ficamos pedindo dinheiro para montar uma aldeia na cidade. A Ong de vocês tem um habitat que se assemelha a uma aldeia conforme o entendimento de cada povo indígena? Porque pelo que vi lá tem pessoas de povos diferentes, tem Kamaiurá, Kayabi, Sateré-Mawé... Ou é tudo feito ao molde de vocês?”
“Cada povo indígena tem sua estrutura social, econômica, política, cultural, seu idioma, sua religião, sua alimentação...Isso aqueles que não sofreram a desestruturação do Estado brasileiro integracionista e a lavagem cerebral dos missionários que cuidam apenas da alma dos índios. Cada povo indígena sofreu a integração e a intromissão do não-índio de forma diferenciada e na atualidade tentaram de alguma forma se reorganizar e sobreviver. Vocês levam isso em conta? De que maneira?”
“Senhores, sou uma índia em busca de resposta e tentando sobreviver no mundo não-indígena. Penso que o diálogo é importante. Após a matéria de sua Ong veiculada na rede Record, sofri momentos terríveis. Sabe como os civilizados falaram na minha cara? “Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer”. Foi mais de uma pessoa, foi por isso que resolvi escrever.Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas”.
“Se vocês estivessem no meu lugar o que fariam? Registrar na delegacia? Mas como se num centro urbano desorganizado são tantas pessoas e não há polícias à disposição para tomar providências! Como pegar o nome dessas pessoas? Complicado pra quem não tem habilidade de cidade grande”.
“Fiquei muito triste por tudo. Não culpo essas pessoas, porque elas simplesmente são influenciadas pela ignorância, mal devem ter uma TV em casa, muitas vezes não têm nem o que comer, muito menos irão se aprofundar sobre o assunto. São filhas do sistema opressor da ganância, do egoísmo e do individualismo. Se aconteceu comigo, pode ter acontecido com outros”.
“Desculpem se estou ofendendo vocês, mas a cada dia que eu for ofendida por conta desse assunto, escreverei cartas, pois a escrita é a única ferramenta do não-índio que possuo. Só estou escrevendo, porque fui atingida como indígena. Não falo em nome dos povos indígenas do Brasil, porque compreendo as peculiaridades diversas e respeito a maneira de pensar dos outros parentes. Já temos problemas demais para ter que enfrentar no mundo atual. Todo cuidado é pouco para não travar brigas de índios contra índios. É isso que a Ong não consegue compreender”
| A reportagem abaixo foi publicada em 21/nov no jornal Folha de São Paulo, no endereço http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il2111201005.htm Em cinco línguas, a algaravia da política ianomâmiREPORTAGEM Democracia xamânica RESUMO Em sete dias de assembleia e eleições na comunidade de Toototobi, no Estado do Amazonas, Davi Kopenawa foi reeleito líder da associação Hutukara, que representa os interesses dos índios ianomâmis. Debates entre líderes e eleitores e negociações com o Estado brasileiro apontam o domínio dos ianomâmis sobre as artes da costura política. MARCELO LEITE Após sete dias de debates e discursos, com tradução nada simultânea nas quatro línguas ianomâmis e em português, aproxima-se o ponto alto da quarta assembleia da associação Hutukara: eleição da nova diretoria. Liderada por Davi Kopenawa Yanomami, 54, e seu filho Dário, 28, a composição atual se candidata à reeleição depois de dois anos de mandato. No centro da maloca, construída para a reunião de várias aldeias na antiga comunidade de Toototobi (no AM, perto da divisa com RR), organiza-se uma fileira de candidatos de oposição para cada posto, cara a cara com os adversários. São 15h40 de domingo, 7 de novembro, sétimo e último dia da assembleia. Pergunto a Marcos Wesley de Oliveira, do Instituto Socioambiental, há 13 anos educador entre os ianomâmis e meu guia etnológico em Toototobi, se alguém se apresentará para concorrer com Kopenawa. O líder fundou a associação formada só por indígenas em 2004, no vácuo deixado pela extinção do convênio que o Ministério da Saúde mantinha com a organização Urihi, encarregada da assistência médica aos ianomâmis, por sua vez derivada de outra ONG de brancos, a CCPY (Comissão pela Criação do Parque Yanomami, depois Comissão Pró-Yanomami). [Leia mais em folha.com/ilustrissima] O CARA Kopenawa preside a Hutukara desde sua criação e é obviamente "o cara" em Toototobi, como diriam Lula e Obama. Por isso, o guia Oliveira diz achar que ninguém se arriscaria a enfrentá-lo, mas os ianomâmis o surpreendem mais uma vez. Gilberto, um desconhecido três décadas mais moço, perfila-se diante do líder que já ganhou o Prêmio Global 500 da ONU e correu mundo em defesa de seu povo. O jovem transpira irreverência e ambição. Seu oponente parece aferroá-lo com os olhos, fazendo justiça ao nome do meio, Kopenawa, que significa "marimbondo". Mas parece mais forte a atração exercida sobre Gilberto pela vida glamourosa de Dário e os outros jovens diretores da associação, que vivem em Boa Vista (RR), sede da Hutukara, e compõem a elite de professores de educação em língua indígena cultivada por Kopenawa para receber o bastão e assumir a defesa dos interesses de seu povo diante do Estado. Democracia é uma arte dos brancos, e Kopenawa aprendeu algumas coisas com eles, "napë pë" (coletivo de "napë", ou não ianomâmi). Não adianta brigar com "napë", ensina. Se brigar, não consegue nada. Em lugar de flechas e bordunas, palavras. "O presidente [da associação Hutukara] tem de falar forte com os políticos. Vocês não têm medo?" -vocifera Kopenawa. Não é coisa para crianças, explica, mas para "pata", os mais velhos e sábios. Tem de andar pelo Brasil, pela Europa, falar com "napë" como representante do povo ianomâmi. Tem que ser valente, guerreiro. FASCÍNIO O correligionário Alfredo cobre outros flancos: "Vocês vão ter de ficar longe de suas mulheres. Mexer em computador. Seus velhos vão ficar com muita saudade". Micros, assim como filmadoras e máquinas fotográficas, exercem evidente fascínio sobre os índios, mas são poucos e jovens os que têm acesso a eles, como os dirigentes da associação. São deles também as bermudas mais vistosas (eles recebem uma ajuda de custo de R$ 150 mensais para se manterem na cidade). Os adversários se encolhem, mas não recuam. Começa a votação, cargo por cargo. A ideia de usar cédulas de papel é abandonada, porque muitos não sabem ler nem escrever. Opta-se pela formação de filas distintas para os eleitores de cada candidato à vaga de presidente, e assim por diante. Duas, três, quantas filas forem necessárias, saindo da maloca pelo terreiro, mato adentro, homens e mulheres não muito misturados. Pelo estatuto da Hutukara, todo ianomâmi com mais de 18 anos pode votar. As filas se formam com rapidez. Consomem menos tempo para se materializar que a contagem de cada uma por dois "napë". Os índios aguardam a apuração de cada fila, até que se desfaça, com a mesma paciência com que acompanharam os debates por até 12 horas, a cada dia. Mesmo candidatos a presidente se encaminham disciplinados para as fileiras. É a festa da democracia, estilo ianomâmi. Com a participação dedicada de cerca de 600 índios (as cozinheiras falam em mais de mil, com a responsabilidade de preparar 110 kg de arroz e 20 kg de feijão por dia). Muitos vieram de perto, a algumas horas ou dias de caminhada, mas convidados de aldeias a centenas de quilômetros, inclusive da Venezuela, chegaram de avião na pista de grama vizinha, a R$ 1.100 a hora de voo. Uma festa de R$ 232 mil, bancados pela Hutukara com doações de financiadores. O principal é a Regnskogfondet (Fundação Floresta Pluvial), da Noruega, que comparece com R$ 287 mil anuais. Mas o encontro teve apoio extra de sete entidades, entre elas a Fundação Nacional do Índio (Funai), que pagou 50 horas de voo. EDUCAÇÃO Na pauta da Quarta Assembleia da Hutukara Associação Yanomami, o dia 3 de novembro, uma quarta-feira, está reservado para o tema educação. Na berlinda se acha Alda Regina Amorim Franco, secretária-adjunta de Educação do governo de Roraima, um Estado pouco dado a políticas em favor dos índios (a praça central da capital, Boa Vista, conhecida como "Bola", ostenta a gigantesca estátua de um garimpeiro). Dário, filho de Kopenawa, ouve as explicações burocráticas da secretária-adjunta sobre as deficientes escolas nas aldeias. Toma então a palavra e, sem que ninguém entenda de imediato, começa a chamar para o centro da maloca representantes das 53 comunidades presentes. Pede que se organizem em duas filas, uma dos que têm escola na aldeia (35 se movem para ela) e outra dos que não têm (18). Por fim, dirige-se só aos 35 privilegiados e pergunta: Chegou material escolar? Merenda? Carteiras, lousas, armários? Todas as perguntas recebem um "não" uníssono como resposta. O desconforto das autoridades é visível. Os índios querem respostas, compromissos, prazos, explicações. Em meio aos discursos em línguas ianomâmis, pipocam vocábulos em português: "corrupção", "manipulação". As representantes da secretaria enrolam justificativas, como período eleitoral, ou dificuldade de levar cargas pesadas de móveis e livros, em avião, até as aldeias. Aproxima-se a hora limite, 16h30, para a decolagem do avião que levaria as autoridades estaduais de volta a Boa Vista. A subsecretária parece aliviada com a partida iminente. Os ianomâmis recebem então a contribuição inesperada do piloto da empresa de táxi aéreo. A notícia chega primeiro para Davi Kopenawa, que pede o microfone a Dário e anuncia: o piloto sumiu. Ou melhor, decolou. Diz, com ar divertido e sob risadas dos liderados, que vai providenciar uma rede e uma camiseta da Hutukara para cada uma das funcionárias da Secretaria de Educação: "Vocês estão na sua casa. Avião foi embora. Não estou brincando, não". A sessão de reclamações e queixas prossegue até 17h40, para ser retomada na manhã seguinte. O calor é infernal. Quem não tem o privilégio, como a secretária-adjunta retida, de tomar banho e usar os vasos sanitários do posto de saúde, única construção de alvenaria em Toototobi, se vale do rio, onde também se lavam louças e peixes, e das muitas trilhas ao redor da maloca. ELOQUÊNCIA Dormir na companhia de 600 ianomâmis pode ser revelador. Em quase todas as noites, o visitante será despertado, por volta das 4h30, por discursos numa das quatro línguas ianomâmi (yanomae, yanomamö, ninam e sanumá). Até palmas se fazem ouvir, das redes armadas sob a maloca onde acontecem as discussões. Marcos de Oliveira explica que são falas de líderes reconhecidos mais pela eloquência do que pelo mando, homens mais velhos que discorrem sobre o momento vivido pela comunidade e serviços que precisam ser realizados. Toototobi, no entanto, é uma aldeia antiga. Quase ninguém mora ali -a casa coletiva ("xapono") mais próxima, Lasasi, no tradicional formato de anel, fica a uma hora e meia de caminhada. Aos poucos, o "napë" se dá conta de que os improvisos da madrugada tratam da própria assembleia. Não são discursos para parentes e membros da aldeia de origem, mas para o coletivo ianomâmi. Os índios fazem política dia e noite, sem descanso. Isso fica mais claro na madrugada de sexta-feira. Ainda na quinta, depois do jantar, xamãs de algumas comunidades apresentam danças em que recebem os "xapiri", espíritos com que só eles se comunicam. No transe induzido por "yekuana" (pó de casca da árvore virola e outros ingredientes) soprado em suas narinas, negociam reforços de outras camadas do mundo para enfrentar os males que afligem os ianomâmis nesta terra ("hutukara"), surgida com a primeira queda do céu. A duração da dança de cada xamã, porém, foi limitada a 15 minutos e cronometrada pelos jovens diretores da associação Hutukara. Pajés célebres, como Levi, da região de Demini, se recusam a seguir a regra e deixam de se apresentar. Na madrugada, ouve-se a voz forte de Levi, em discurso de protesto. Líderes de outras comunidades veiculam boatos sobre Davi Kopenawa, que dorme longe da grande maloca, e as supostas vantagens - dinheiro, viagens, computadores - que reserva para seu grupo, entre eles o filho Dário. FOFOCAS O falatório noturno chega ao conhecimento de Kopenawa antes que os "napë" encontrem alguém para traduzir seu conteúdo. Às 8h30 de sexta, o presidente da Hutukara suspende a pauta prevista -prestação de contas pelos diretores Dário, Mozarildo, Alfredo, Marinaldo e Rogel- e convoca uma extraordinária "pata thë ã", conversa de velho, ou conversa de homem. Chama pelo nome representantes de comunidades Ajuricaba e Aracá para que venham à maloca repetir as "fofocas". Antes de passar a palavra, contudo, Kopenawa critica os jovens da Hutukara por enquadrar a apresentação dos xamãs, homens habilitados a transitar entre as camadas do mundo que a tradição tupi consagrou com a denominação de "pajés". Kopenawa controla de perto setores nevrálgicos, como a distribuição de comida, mas deixa a burocracia da pauta em plenário a cargo de seus seguidores mais jovens, intervindo só quando o caldo político ameaça entornar. Ele próprio um xamã, explica que carrega Levi em suas viagens porque se sente mais forte na sua companhia. Nega que esteja explorando o colega e que tenha recebido dinheiro em viagens que fizeram para auxiliar na montagem de uma ópera sobre a Amazônia na Alemanha. Antônio, de Ajuricaba, fala então de computadores que só vão para algumas aldeias, não a sua. Mas se declara feliz, "na frente de todos os napë", pela assembleia da Hutukara, que acompanha pela primeira vez. Morais, de Aracá, desconversa: afirma que nunca fez fofocas sobre xamãs. Ninguém pede desculpas, só "explicações". Diretores da Hutukara explicitam os critérios para escolher as comunidades que receberão equipamentos multimídia do Ministério da Cultura, parte do projeto Pontos de Cultura, para registro de rituais e produção de novos conteúdos. Um cunhado de Kopenawa diz que é tudo culpa de um missionário, que anda falando mal dele. O próprio Levi se queixa só do tratamento dado aos xamãs, não tendo dúvidas sobre o caráter de Kopenawa. Às 10h, toda a roupa suja está lavada. Seguem-se cinco apresentações xamânicas, desta vez com tempo livre. Duram até depois do meio-dia, uma média de 25 minutos por performance. A última, a cargo do concorrido Levi, se dedica a tratar as pernas da fotógrafa Claudia Andujar, 79, que sofreram quatro cirurgias desde sua última visita aos amigos ianomâmis, 11 anos atrás. CASAMENTO Sábado, em Toototobi, o dia foi dedicado à saúde, segundo ponto de atritos constantes entre indígenas e o Estado dos brancos (o terceiro é a proteção da terra indígena). O cirurgião Antônio Alves, titular da recém-criada Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) na cúpula do Ministério da Saúde, é recebido com pompa. Índias o cercam, pintam seu rosto, tiram a camisa, colocam-lhe nos braços adereços com longas penas vermelhas de arara, usados pelos xamãs e líderes. Davi Kopenawa diz que a nova aliança constitui "um casamento". O tratamento cerimonioso contrasta com o que havia sido reservado a Gonçalo Teixeira dos Santos, administrador da Funai em Roraima. Sintonizado com políticos de peso no Estado, como o senador Romero Jucá (PMDB), Santos passou pela assembleia, mas deixou Toototobi antes da quinta-feira, para quando a pauta previa debates sobre proteção contra invasores (garimpeiros, fazendeiros e pescadores). Vale dizer, cobranças ácidas sobre a inoperância da Funai no Estado. Foi, por isso, qualificado de covarde: "A Funai é como um pai que não defende o filho da onça", disparou Dário. Fora a administração em Roraima, a Funai é bem-vista. Acaba de criar uma frente de proteção ambiental específica para ianomâmis e índios isolados da região. Comandado direto de Brasília, o grupo interventor foi entregue a José Carlos Meirelles, sertanista de reputação construída em 35 anos de dedicação para manter isolados os índios isolados do Acre. Tática similar, mas de maior alcance, foi adotada pelo governo federal no terreno da saúde. Incapaz de fazer funcionar bem o atendimento a indígenas pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), criou a Sesai e a subordinou diretamente ao ministro da Saúde. Segundo Kopenawa, a seu pedido. Alves entra com gosto no casamento ianomâmi. Veste de volta a própria camisa, mas não tira os adereços do braço. Ouve Kopenawa falar das "cagadas" da Funasa, cujos quadros a Sesai herdou, e pedir a exoneração do responsável pela saúde indígena em Roraima, Marcelo Lopes. Retribui dizendo, no discurso de despedida, que agora fala sério, na condição de homem casado, e ouve risadas. Mas Alves não se compromete com nada, no discurso final. E sofre novo assédio no caminho para a pista de pouso: não adianta brigar com "napë", mas, no manual da política ianomâmi, insistir e persistir são armas lícitas. NOITE DE FESTA Dário ainda tem algo a aprender com o pai e com o que este assimilou dos "napë". O rapaz parece um dos mais nervosos com os questionamentos e a concorrência política. Seu estilo de intimidação dos adversários soa direto demais, sem a verve criativa que demonstrara quatro dias antes, ao separar representantes de aldeias com e sem escola para constranger a secretária-adjunta de Educação de Roraima. Referindo-se à incompetência da Funai para barrar os garimpeiros e fazendeiros, que, na sua visão, os adversários eleitorais não terão coragem de enfrentar, ele dispara: "Sem a Hutukara, vocês vão morrer. Vão morrer mesmo". Ao pé da letra, ele provavelmente está certo: sem organização própria, os ianomâmis permanecerão mudos diante do Estado brasileiro, incapazes de apresentar suas demandas básicas: educação, saúde e segurança fundiária. O erro juvenil de Dário é acreditar que a associação desaparecerá sem a liderança atual. Seu pai seguramente já se deu conta de que o surgimento de candidaturas avulsas sugere que o controle da democracia ianomâmi não é privilégio do grupo que a pôs em marcha como alternativa ao confronto que acaba em extermínio. Hoje, para os ianomâmis, política é a continuação da guerra por outros meios, entre aldeias ou perante os "napë". Ao final da contagem das filas, Kopenawa derrota Gilberto por 210 votos a 114. Ele ainda é o cara, o "pata". Com escores mais apertados, Dário e os outros rapazes vão se reelegendo. A votação se encerra às 17h55, mas a fila para assinar o livro prossegue até depois das 21h. Kopenawa discursa em yanomae, sua língua, e ninguém providencia tradução para os "napë". Começam os cantos e danças que atravessarão a noite. A ágora ianomâmi só se esvazia e retorna ao silêncio após as 4h30, já na madrugada de 8 de novembro. A meia dúzia de lâmpadas fluorescentes da maloca se apaga assim que o gerador é desligado. A mando de David Kopenawa, decerto. Segunda-feira é dia de branco. Nota O repórter especial Marcelo Leite viajou de Boa Vista (RR) a Toototobi (AM) a convite da Hutukara Associação Yanomami. A festa da democracia, estilo ianomâmi, mobiliza cerca de 600 índios vindos a pé ou de avião, ao custo de R$ 232 mil pagos por financiadores como a Fundação Floresta Pluvial, da Noruega Davi Kopenawa controla de perto setores nevrálgicos da assembleia, como a distribuição de comida, mas deixa o plenário a cargo dos mais jovens, intervindo só quando o caldo ameaça entornar |
17 de nov. de 2010
Kanindé treina novos agentes
Um curso básico de formação para Agente Ambiental Indígena será realizado no Centro de Cultura e Formação Kanindé e está direcionado aos povos indígenas dos corredores etnoambientais Tupi Mondé e Tupi Kawahiva – Zoró (Terra Indígena Zoró), Cinta Larga (Terra Indígena Roosevelt), Jupaú, Amondawa e Oro Towati (Terra Indígena Uru Eu Wau Wau), Jiahui (Terra Indígena Jiahui), Arara, Gavião (ambos da Terra Indígena Igarapé Lourdes) Parintintin (Terra Indígena Nove de Janeiro e Ipixuna), Tupari (Terra Indigena Rio Branco) e Suruí (Terra Sete de Setembro). O curso acontecerá no período de 19 a 26 deste mês.
Fonte: Diário da Amazônia
Livros sobre educação intercultural indígena são lançados por meio do Coeduc
Da Redação
Incluir a temática indígena na escola e facilitar a educação intercultural é o objetivo de dois livros lançados pelo Núcleo de Estudo sobre o Corpo, Educação e Cultura (Coeduc) da Universidade do Estado de Mato Grosso, por meio do Projeto financiado pela Rede CEDES/ME (Centro de Desenvolvimento do Esporte Recreativo e do Lazer) em parceria com o Grupo de Pesquisa em Movimentos Sociais e Educação (GPMSE) da Universidade Federal de Mato Grosso e o Projeto Jogos Indígenas e Educação: Produção Material Educativo Sobre os Jogos dos Povos Indígenas do Brasil.
As obras “Jogos e Culturas Indígenas: Possibilidades para a Educação Intercultural na Escola” organizado pela professora da Unemat, Beleni Salete Grando e “O eu e o outro na Escola: contribuições para incluir a história e a cultura dos povos indígenas na escola”, também organizado pela professora Beleni e pelo professor Luiz Augusto Passos (UFMT) tem como objetivo contribuir para que a temática indígena sela incluída na escola como prevê a lei nº 11.645/08, assim como contemplar a educação intercultural.
Além da versão ebook que estará sendo disponibilizada no site do Ministério do Esporte, e pela Rede CEDES, além do site da Unemat no endereço: www.unemat.br/pesquisa/coeduc, as obras também serão lançadas pela Editora da UFMT. Os exemplares impressos serão distribuídos aos Grupos de Pesquisa.
A professora Beleni Salete grando lembra que as produções reúnem autores de diferentes áreas e etnias. Segundo ela todos são parceiros no desafio de pensar uma educação para além da escola.
Fonte: O Documento
Incluir a temática indígena na escola e facilitar a educação intercultural é o objetivo de dois livros lançados pelo Núcleo de Estudo sobre o Corpo, Educação e Cultura (Coeduc) da Universidade do Estado de Mato Grosso, por meio do Projeto financiado pela Rede CEDES/ME (Centro de Desenvolvimento do Esporte Recreativo e do Lazer) em parceria com o Grupo de Pesquisa em Movimentos Sociais e Educação (GPMSE) da Universidade Federal de Mato Grosso e o Projeto Jogos Indígenas e Educação: Produção Material Educativo Sobre os Jogos dos Povos Indígenas do Brasil.
As obras “Jogos e Culturas Indígenas: Possibilidades para a Educação Intercultural na Escola” organizado pela professora da Unemat, Beleni Salete Grando e “O eu e o outro na Escola: contribuições para incluir a história e a cultura dos povos indígenas na escola”, também organizado pela professora Beleni e pelo professor Luiz Augusto Passos (UFMT) tem como objetivo contribuir para que a temática indígena sela incluída na escola como prevê a lei nº 11.645/08, assim como contemplar a educação intercultural.
Além da versão ebook que estará sendo disponibilizada no site do Ministério do Esporte, e pela Rede CEDES, além do site da Unemat no endereço: www.unemat.br/pesquisa/coeduc, as obras também serão lançadas pela Editora da UFMT. Os exemplares impressos serão distribuídos aos Grupos de Pesquisa.
A professora Beleni Salete grando lembra que as produções reúnem autores de diferentes áreas e etnias. Segundo ela todos são parceiros no desafio de pensar uma educação para além da escola.
Fonte: O Documento
12 de nov. de 2010
Estudo mostra que diversos povos indígenas praticam a paternidade múltipla.
Povos acreditam que crianças podem ter mais de um pai. De 128 sociedades analisadas, pelo menos 53 têm essa tradição.
Estudo publicado na revista científica americana “PNAS” aponta que uma grande parte dos povos indígenas sul-americanos não andinos tem por hábito a chamada paternidade múltipla, crença segundo a qual os filhos podem ter mais de um pai. Para estes povos, a mulher pode se relacionar com vários homens e o sêmen deles se mistura para gerar a criança.
A prática pode ter diversas conseqüências sociais, como um maior zelo dos homens pelas crianças, já que consideram que compartilham sua paternidade. Também garante o sustento de crianças em caso de morte de um adulto, já que cada uma delas tem mais de um pai.
Segundo os autores do estudo, a paternidade múltipla é especialmente presente nos povos dos grupos lingüísticos carib, pano, tupi, e macro-je, e geralmente ocorre nas sociedades uxorilocais, ou seja, aquelas em que, nos casamentos, os homens vão morar nas casas das famílias das mulheres.
Ao todo, os pesquisadores analisaram os hábitos de 128 povos, dos quais 53 tem a paternidade compartilhada como prática, contra 23 que têm como tradição que as crianças têm apenas um pai. Nas 52 restantes, a forma como é vista a concepção das crianças não ficou definida.
Fonte: Globo Amazônia
Cadastrada em: 12/11/2010
Estudo publicado na revista científica americana “PNAS” aponta que uma grande parte dos povos indígenas sul-americanos não andinos tem por hábito a chamada paternidade múltipla, crença segundo a qual os filhos podem ter mais de um pai. Para estes povos, a mulher pode se relacionar com vários homens e o sêmen deles se mistura para gerar a criança.
A prática pode ter diversas conseqüências sociais, como um maior zelo dos homens pelas crianças, já que consideram que compartilham sua paternidade. Também garante o sustento de crianças em caso de morte de um adulto, já que cada uma delas tem mais de um pai.
Segundo os autores do estudo, a paternidade múltipla é especialmente presente nos povos dos grupos lingüísticos carib, pano, tupi, e macro-je, e geralmente ocorre nas sociedades uxorilocais, ou seja, aquelas em que, nos casamentos, os homens vão morar nas casas das famílias das mulheres.
Ao todo, os pesquisadores analisaram os hábitos de 128 povos, dos quais 53 tem a paternidade compartilhada como prática, contra 23 que têm como tradição que as crianças têm apenas um pai. Nas 52 restantes, a forma como é vista a concepção das crianças não ficou definida.
Fonte: Globo Amazônia
Cadastrada em: 12/11/2010
Prefeito Fauzi recebe coordenadora da Fundação Ford
O prefeito Fauzi Suleiman (PMDB) recebeu em seu gabinete a Dra. Joan Dassin, coordenadora internacional da Fundação Ford. A coordenadora esteve acompanhada por caciques de todas as aldeias Terena de Aquidauana e ainda de um representante de Dois Irmãos do Buriti.
A Dra. Joan veio ao município com vários objetivos, entre eles, discutir a continuidade do apoio da Fundação Ford para a formação educacional de povos indígenas.
Iniciado em 2000, através de seu representante no Brasil, a Fundação Carlos Chagas, a Fundação Ford propõe oferecer bolsa para o Programa Internacional de Formação Superior de Povos Indígenas e Negros sem condições para tal.
Em Aquidauana, são cinco indígenas da etnia Terena contemplados, entre eles o professor Paulo Baltazar e Celma Fialho. Ambos cursam o Mestrado com recursos da Fundação Ford.

Entretanto, o programa foi elaborado para ter 10 anos de permanência e em 2010 vence o prazo para o fornecimento das bolsas.
Este foi um dos itens mais destacados na reunião: todos os caciques se pronunciaram preocupados com o final do programa que, infelizmente, só em 2007 chegou ao conhecimento dos indígenas de Aquidauana. “Perdemos muito tempo para nos inteirar do programa, fato que foi muito prejudicial. Agora estamos aqui para reivindicar outros programas semelhantes. A educação superior para os povos indígenas é um dos melhores instrumentos de romper barreiras e preconceitos”, afirmaram eles para a Dra. Joan.
O cacique Alberto, de Dois Irmãos, afirmou que “10 anos parecem muito, mas, na verdade, foi durante esse período que os cursos de ensino médio foram implantados no meu município e isso atrasou um pouco nosso ingresso no programa da Ford”.

Segundo os caciques, a demanda ainda é muito grande. “Estamos aqui hoje para solicitar a continuidade do programa. Gostaríamos muito que fossemos atendidos”, afirmou o cacique da Lagoinha, Célio Francisco dos Santos.
Para a Dra. Joan, o Brasil ocupa lugar de destaque no ranking de povos assistidos, mas, acredita que faltou um pouco mais de divulgação. “Os bolsistas brasileiros apresentam desempenho maravilhoso e essa reunião hoje aqui é prova disso. Vamos ver se conseguimos um novo programa tendo em vista sua importância para a educação dos povos indígenas e com uma divulgação em nível regional melhorada. É objetivo da Fundação Ford é que aconteça uma relação entre o conhecimento, que se dá de forma direta com os bolsistas e, depois, através deles, de forma indireta dentro das comunidades”, afirmou.
O professor Paulo Baltazar leu uma carta de agradecimento à Fundação Ford, onde destaca a importância das bolsas. “Quando estudamos e temos a chance de realizar um curso de mestrado e/ou doutorado, passamos da condição de objeto de estudos para a condição de agentes provedores de pesquisas e estudos. Essa é uma das maiores conquistas que o povo Terena poderia ter”, disse ele em um trecho da carta.
O prefeito Fauzi Suleiman destacou que desde o início de seu governo vem promovendo uma série de medidas que objetivam a valorização da etnia Terena. “Temos um população com cerca de 12 mil índios em Aquidauana e não podemos deixar de nos orgulhar dessa representação Terena, responsável em muitos aspectos pela história de Aquidauana e até mesmo antes de sua fundação. Estamos aqui na prefeitura dispostos a participar e colaborar para a continuidade do programa da Fundação Ford. Precisamos desse apoio e agradecemos a presença sua, Dra. Joan, por estar aqui conhecendo in loco a realidade indígena de Aquidauana”, disse o prefeito.
Finalizando o encontro, o prefeito Fauzi Suleiman entregou à Dra. Joan Dassin, como uma lembrança de Aquidauana uma peça de artesanato elaborada em osso. Em seguida o prefeito recebeu de presente um livro contendo trabalhos da Fundação Ford.
Fonte: Agecom
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