30 de dez. de 2007

Boneca de Papel

Theresa sorriu toda contente quando tomou nas mãos sua mais nova aquisição: uma boneca toda feita de papel.
Não era uma boneca comum, pois carregava em si todo um ano de esforço e dedicação que a sobrecarregara de obrigações e compromissos para que pudesse conquistar aquele cobiçado objeto. Por isso ela o apertava junto ao peito e afagava com muito carinho.
O ano não havia sido fácil. As muitas atividades que tinha de exercer para poder ajudar em casa tomava-lhe muito tempo. Por isso também não podia ir à escola tendo que se contentar em aprender as primeiras letras com o padre durante as aulas de catequese. E isso não era muito fácil porque dobravam suas obrigações. Theresa tinha que decorar as palavras do padre e depois aprender as letras que formavam as palavras.
Decorar não era problema. Tinha boa cabeça, como sua mãe às vezes lhe dizia. O problema era o raio das letras! Que confusão elas criavam em sua cabeça! Como fazer para aprender as palavras da Ave Maria escritas em latim? Repetir ela conseguia, mas imitar a letra do catequista...
Theresa, no entanto, não colocava tanta dificuldade. Sabia que tinha que passar por isso se quisesse ganhar um presente de final de ano. Todo domingo, após a missa das 10 horas, ela ia para o salão paroquial ouvir as tais aulas de catecismo, pois só assim ela ganharia um ponto a mais em sua carteirinha de freqüência. No final do ano era só contar os pontos e escolher o presente. Se fosse uma das primeiras a entrar na sala onde estavam os objetos, poderia escolher o que bem desejasse e, assim, ter um natal bem bonito.
Ela sabia que não poderia contar com a ajuda dos pais para ter algum brinquedo. Todos labutavam muito, mas ganhavam muito pouco e quase sempre o dinheiro não dava para aquisição de brinquedos. O máximo que conseguia era uma boa ceia natalina.
Aquele ano, no entanto, seria diferente. Havia de conseguir um presente bem bonito. Seria a coroação de um plano bem bolado. Mataria dois coelhos com apenas uma cajadada: faria a primeira comunhão e conquistaria o presente cobiçado.
O final do ano finalmente chegou. A cerimônia em que recebeu a eucaristia pela primeira vez foi fabulosa. Ela vestiu um belo vestido branco confeccionado especialmente para a ocasião. Na mão direita carregou uma vela que seria acesa durante a celebração. Foi tudo maravilhoso, inclusive o almoço especial que sua mãe havia preparado para comemorar aquela data!
No domingo seguinte acordou bem cedo. Notou que o tempo estava nublado, mas não quis levar consigo a sombrinha. Sua vontade de chegar logo ao salão paroquial era enorme. Pela pontuação que conseguira iria ser uma das primeiras a entrar na sala dos presentes. E assim aconteceu. E tão logo adentrou correu imediatamente para a prateleira onde estava a boneca que tanto desejara. Tomou-a no colo, conferiu os pontos necessários e saiu toda feliz. Não quis falar com mais ninguém além de sua própria boneca. Correu toda contente de volta para casa sem se dar conta que logo uma chuva torrencial iria desabar sobre si. Quando se deu conta já era tarde demais, pois se encontrava no meio do caminho num lugar totalmente descampado, sem chance alguma de evitar que a chuva a molhasse e à sua tão desejada boneca.
Vencida pela desesperança Theresa ergueu os olhos em direção ao céu enquanto a chuva lavava-lhe o rosto entristecido. Depois voltou o olhar para a boneca que ia, aos poucos, se desmanchando em suas mãos da menina. Nesse momento duas lágrimas lhe percorreram o rosto e se confundiram com as águas da chuva que carregavam para bem longe o sonho de um feliz natal.

23 de dez. de 2007

Socióloga divulgará Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas em aldeias

A socióloga Kring Kaingang vai divulgar nas aldeias brasileiras a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas, elaborada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Kring é representante do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e integra a Coordenação Geral de Defesa dos Direitos Indígenas da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Ela foi a única indígena brasileira que participou das discussões sobre a declaração, documento que levou 20 anos para ser concluído.

Em entrevista ao programa Amazônia Brasileira, da Rádio Nacional da Amazônia, Kring Kaingang apontou a questão territorial como o tema mais polêmico entre os indígenas e o governo brasileiro. Segundo a socióloga, desde os governos militares, as autoridades federais consideram apenas os direitos individuais dos indígenas, como educação e saúde, mas negam o direito coletivo ao território, argumentando que o território pertence à nação, e não às comunidades.

"Pela primeira vez, temos um instrumento internacional de direitos humanos dos povos indígenas que valoriza o conceito de direito coletivo, que era uma preocupação muito grande de todos os povos indígenas do mundo também", disse Kring, ao comentar a declaração da ONU.

Ela explicou que o reconhecimento do direito coletivo é importante para a sobrevivência dos povos indígenas: "Foram reconhecimentos extremamente importantes, que de alguma forma refletem aquelas demandas que os povos indígenas do mundo têm. As políticas ambientais, o próprio uso do território - ele é um direito coletivo, não é um direito individual."

Os indígenas brasileiros temem a aprovação de projetos de lei que permitam a exploração mineral em seus territórios. Eles também receiam que projetos nacionais, como o da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, provoquem inundações por barragens em áreas indígenas. Eles pretendem usar a declaração para barrar a mineração e as grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que atingem reservas indígenas.

A Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas inclui aspectos relevantes sobre os direitos culturais e étnicos coletivos; o direito à terra e aos recursos naturais; a manutenção das estruturas econômicas e os modos de vida tradicionais; o direito consuetudinário (conjunto de normas não escritas, mas consagradas pelos usos e costumes tradicionais de um povo; e o direito coletivo à autonomia.

Kring Kaingang informou que, em fevereiro do próximo ano, haverá um seminário nacional para que os indígenas brasileiros discutam o conteúdo da documento elaborado pela ONU. O encontro será promovido pela Confederação das Organizações Indígenas Brasileiras (Coiab), pelo Warã Instituto Indígena Brasileiro e pela Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoine). (Agência Brasil)

12 de dez. de 2007

Índios Enawanê-Nawê libertam 350 trabalhadores mantidos reféns no Mato Grosso

Os cerca de 350 funcionários que trabalhavam nas obras de três pequenas centrais hidrelétricas em construção no Rio Juruena, em Sapezal (MT), foram liberados no final da tarde de terça-feira (11). Eles estavam detidos pelos índios da etnia Enawanê-Nawê desde sexta-feira (07).

Segundo o superintendente de Assuntos Indígenas do Estado do Mato Grosso, Rômulo Vandoni Filho, que participou das negociações, será formado um grupo de trabalho constituído pelo governo do Mato Grosso, Ministério Público Federal, Fundação Nacional do Índio (Funai) e Universidade Federal do Mato Grosso para realizarem outros estudos de impacto ambiental na região.

Logo que a equipe de trabalho for formada, disse Vandoni, haverá uma reunião com os índios no município de Juína, para acabar com todas as dúvidas possíveis. O encontro, segundo ele, deve ocorrer ainda este ano.

Para o superintendente, a principal dificuldade nas negociações é o fato de os índios exigirem a paralisação da obra. “É legítimo o interesse de as comunidades indígenas reivindicarem, mas o projeto já foi aprovado e está em outra etapa”, disse Vandoni.

Participaram da reunião realizada na terça-feira, o procurador do Ministério Público Federal, Mário Lúcio Avelar; a diretora de Assuntos Fundiários da Funai, Maria Auxiliadora Sá Leão, e representantes da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), prefeitos dos municípios próximos a região e representantes dos responsáveis pelas obras e de organizações não-governamentais. (Agência Brasil)

Presidente da Funai critica desmatamento e atribui preservação da Amazônia aos índios

O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, disse nesta terça-feira (11), que os povos indígenas de Rondônia são responsáveis pela preservação da floresta Amazônica no estado.

“Esses povos têm preservado as florestas que ainda restam em Rondônia. Viajamos de helicóptero e observamos que só tem floresta em pé nas terras indígenas”, disse em entrevista à imprensa no município de Cacoal (RO), após a libertação dos cinco reféns detidos pelos índios cinta larga desde sábado (8), na Terra Indígena Roosevelt, no sul do estado.

Em relação à regulamentação da mineração nas terras indígenas, Meira disse que espera do Congresso Nacional uma decisão que leve em conta a discussão da Funai com os indígenas, que exigem também a participação nos lucros e a preservação do meio ambiente . “Esperamos que a decisão beneficie e respeite os direitos constitucionais dos povos indígenas.”

A Constituição proíbe a mineração em terra indígena, mas de acordo com a Polícia Federal (PF), a extração das pedras é realizada tanto por garimpeiros como por índios. Em 2004, 29 garimpeiros foram assassinados na Terra Indígena Roosevelt. Em 2006, o garimpo chegou a ser fechado, mas foi reativado no início deste ano.

A Declaração dos Povos Indígenas, aprovada em setembro pela Organização das Nações Unidas (ONU), também recomenda que os países criem mecanismos para discutir com os índios impactos e benefícios da exploração de recursos naturais em terras originais.

A regulamentação da exploração dos recursos minerais em terras indígenas está em discussão no Congresso há pelo menos 11 anos. Um projeto do senador Romero Jucá (PMDB-RR) sobre o tema tramita desde 1996. O PL 1.610/96 foi aprovado no Senado e agora está em análise na Comissão Especial Temporária da Câmara dos Deputados. (Agência Brasil)

7 de dez. de 2007

Sala de Leitura Daniel Munduruku


Queridos amigos e amigas, hoje, dia 07 de dezembro, recebi uma honrosa homenagem de uma escola do Municipio do Rio de Janeiro.
A Escola Escritora Clarice Lispector resolveu chamar Daniel Munduruku à sua sala de Leitura. Estive no local e participei da inauguração. Não preciso dizer como foi enorme minha emoção. Deixo a imagem que fala por mil palavras.

3 de dez. de 2007

Benki Pianko e os saberes da floresta






Líder dos ashaninka, que nos últimos 15 anos se tornaram conhecidos no Brasil e no exterior por seu modelo exemplar de desenvolvimento sustentável, Benki Piyãko decidiu fazer da educação a principal arma na defesa do meio ambiente e dos saberes da floresta. A decisão de Benki e das demais lideranças do povo ashaninka, que vive em um amplo território localizado na fronteira entre o Brasil e o Peru, culminou com a inauguração, em julho passado, do Centro de Formação Aiyoreka Ãntame, que pretende unir os saberes indígenas ancestrais e o conhecimento científico da civilização ocidental no esforço para salvar o homem e o planeta.



A Escola Aiyoreka Ãntame, cujo nome significa, justamente, Saberes da Floresta, está localizada no município de Marechal Thaumaturgo, na confluência dos rios Amônia e Juruá. Com as negociações visando a demarcação de seu território, a Terra Indígena Kampa do rio Amônia, os ashaninka residentes no Brasil abandonaram definitivamente seu tradicional nomadismo e se fixaram em torno da aldeia Apiwtxa. Começava, assim, uma experiência inédita, com a implantação do primeiro sistema de recuperação do território, com a utilização de práticas de manejo sustentável. Desde então, os ashaninka já reflorestaram dezenas de hectares que haviam sido desmatados pelos brancos antes da demarcação de suas terras e, além das roças de mandioca e arroz, plantaram árvores frutíferas regionais, reservando grandes áreas de floresta para o repovoamento das populações de animais silvestres. Em torno das casas da aldeia, as abelhas produzem grandes quantidades de mel e, em açudes, crescem pequenos peixes para, mais tarde, serem espalhados pelo rio Amônia, onde passam a se multiplicar.



Guardiões da floresta



Com sua terra sob a constante ameaça dos madeireiros, em sua maior parte procedentes do Peru, e de caçadores de animais silvestres, Benki cedo se deu conta de que o único caminho para a preservação seria um amplo programa de conscientização e educação, com base na valorização da cultura e dos saberes de seu povo. Para implementar e disseminar esse programa entre o ashaninka e, mais tarde, entre os demais povos indígenas da Amazônia, Benki criou a figura do agente florestal. Os agentes, depois articulados em rede, demonstram aos indígenas os prejuízos causados pelas práticas predatórias e ensinam como utilizar os recursos da floresta de forma sustentável. E os orientam e ajudam na defesa de seus interesses.



O êxito da experiência de Benki fez com que o governo do Acre, que se intitula “governo da floresta’, transformasse os agentes em funcionários, garantindo, assim, a continuidade e a ampliação do trabalho”. Com grande capacidade de articulação, Benki passou a estabelecer contatos com lideranças da Amazônia e com o meio acadêmico, abrindo, assim, caminho para a criação da Escola Aiyoreka Ãntame. Benki faz questão de salientar que a escola “é fruto da experiência de nosso povo com a sustentabilidade e atuará como centro de formação, educação, intercâmbio e difusão de práticas de manejo sustentável”. Além de formar jovens e adultos da região em novas formas de manejo da floresta e dos recursos naturais, a Aiyoreka Ãntame tem por objetivo ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o equilíbrio sustentável dos recursos naturais e disseminá-los para outras etnias, no Brasil e no exterior.



Benki já ampliou o seu programa de educação e conscientização para mais de 20 territórios indígenas, onde os agentes florestais implementam o modelo construído elaborado pelos ashaninka: a elaboração de um projeto de pesquisa para analisar as riquezas do território e, em seguida, a criação de alternativas de sustentabilidade econômica e ambiental com vistas à autonomia de seus habitantes. Benki promove também programas para divulgar a cultura de seu povo no mundo dos brancos, como o intercâmbio que reúne jovens ashaninka com jovens de diversas regiões do Brasil.



O Centro de Formação Aiyoreka Ãntame está aberto a instituições e interessados para seminários, intercâmbio e oficinas com projetos de educação, cultura e meio ambiente. O curso padrão a ser ministrado aos habitantes da região terá uma duração de 20 a 40 dias, aproximadamente, com aulas e oficinas sobre coleta e tratamento de sementes, técnicas de apicultura, criação e preservação de peixes e quelônios, manuseio de ovos de tartaruga e sua proteção da ação de predadores e construção de açudes, entre outras.



Um dos objetivos desse projeto é fortalecer os conhecimentos tradicionais, para que a população tenha uma nova visão da floresta. Uma visão que inclua saber como usar os recursos naturais sem agredir o meio ambiente e a natureza, de forma que esse saber possa ser reconhecido como ciência de conhecimentos práticos, recuperando terras, florestas e animais e cuidando da biodiversidade em geral – diz Benki.

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...