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Boneca de Papel

Theresa sorriu toda contente quando tomou nas mãos sua mais nova aquisição: uma boneca toda feita de papel.
Não era uma boneca comum, pois carregava em si todo um ano de esforço e dedicação que a sobrecarregara de obrigações e compromissos para que pudesse conquistar aquele cobiçado objeto. Por isso ela o apertava junto ao peito e afagava com muito carinho.
O ano não havia sido fácil. As muitas atividades que tinha de exercer para poder ajudar em casa tomava-lhe muito tempo. Por isso também não podia ir à escola tendo que se contentar em aprender as primeiras letras com o padre durante as aulas de catequese. E isso não era muito fácil porque dobravam suas obrigações. Theresa tinha que decorar as palavras do padre e depois aprender as letras que formavam as palavras.
Decorar não era problema. Tinha boa cabeça, como sua mãe às vezes lhe dizia. O problema era o raio das letras! Que confusão elas criavam em sua cabeça! Como fazer para aprender as palavras da Ave Maria escritas em latim? Repetir ela conseguia, mas imitar a letra do catequista...
Theresa, no entanto, não colocava tanta dificuldade. Sabia que tinha que passar por isso se quisesse ganhar um presente de final de ano. Todo domingo, após a missa das 10 horas, ela ia para o salão paroquial ouvir as tais aulas de catecismo, pois só assim ela ganharia um ponto a mais em sua carteirinha de freqüência. No final do ano era só contar os pontos e escolher o presente. Se fosse uma das primeiras a entrar na sala onde estavam os objetos, poderia escolher o que bem desejasse e, assim, ter um natal bem bonito.
Ela sabia que não poderia contar com a ajuda dos pais para ter algum brinquedo. Todos labutavam muito, mas ganhavam muito pouco e quase sempre o dinheiro não dava para aquisição de brinquedos. O máximo que conseguia era uma boa ceia natalina.
Aquele ano, no entanto, seria diferente. Havia de conseguir um presente bem bonito. Seria a coroação de um plano bem bolado. Mataria dois coelhos com apenas uma cajadada: faria a primeira comunhão e conquistaria o presente cobiçado.
O final do ano finalmente chegou. A cerimônia em que recebeu a eucaristia pela primeira vez foi fabulosa. Ela vestiu um belo vestido branco confeccionado especialmente para a ocasião. Na mão direita carregou uma vela que seria acesa durante a celebração. Foi tudo maravilhoso, inclusive o almoço especial que sua mãe havia preparado para comemorar aquela data!
No domingo seguinte acordou bem cedo. Notou que o tempo estava nublado, mas não quis levar consigo a sombrinha. Sua vontade de chegar logo ao salão paroquial era enorme. Pela pontuação que conseguira iria ser uma das primeiras a entrar na sala dos presentes. E assim aconteceu. E tão logo adentrou correu imediatamente para a prateleira onde estava a boneca que tanto desejara. Tomou-a no colo, conferiu os pontos necessários e saiu toda feliz. Não quis falar com mais ninguém além de sua própria boneca. Correu toda contente de volta para casa sem se dar conta que logo uma chuva torrencial iria desabar sobre si. Quando se deu conta já era tarde demais, pois se encontrava no meio do caminho num lugar totalmente descampado, sem chance alguma de evitar que a chuva a molhasse e à sua tão desejada boneca.
Vencida pela desesperança Theresa ergueu os olhos em direção ao céu enquanto a chuva lavava-lhe o rosto entristecido. Depois voltou o olhar para a boneca que ia, aos poucos, se desmanchando em suas mãos da menina. Nesse momento duas lágrimas lhe percorreram o rosto e se confundiram com as águas da chuva que carregavam para bem longe o sonho de um feliz natal.

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Daniel Munduruku, índio e escritor

Postado no Blog da TV CULTURA
28/07/2009 | 18h00 | Mariana Del Grande

Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

Em breve a Loja…

Garimpo invade bacia do Tapajós

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Os riscos apontados para a bacia do Tapajós deixam claro que a região amazônica, apesar do aumento nos índices de queda no desmatamento, continua a ser tratada como o grande almoxarifado de recursos naturais do planeta. As ações planejadas para a maior bacia hidrográfica do mundo não se restringem a planos de construção de uma sequência de usinas rios adentro. Bastou o governo informar que parte das terras que pertenciam às unidades de conservação da Amazônia havia sido desvinculada das áreas protegidas para que se tornassem alvo de ações de garimpo e extrativismo ilegal. A reportagem é de André Borges e publicada pelo jornal Valor, 26-07-2012. A pressão cresceu e o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) tem procurado controlar a situação e deter a entrada de pessoas na região, mas seu poder de atuação ficou reduzido, porque está restrito às áreas legalmente protegidas. “Com a desafetação (redução) das áreas, muita gente está se mexendo para…