17 de jul. de 2012

Terras indígenas: "o filé do mercado de carbono mundial"

São os territórios indígenas da América Latina "que os operadores do mercado pretendem usar como base de troca para que as corporações possam dar continuidade a seus negócios", declara Augusto Santiago, coordenador doPrograma Direito a Terra, Água e Território (DTAT).

"Defendemos formas de vidas plurais e autônomas, inspiradas pelo modelo do Bem Viver-Vida Plena, onde a Mãe Terra é respeitada e cuidada, onde os seres humanos representam apenas mais uma espécie entre todas as demais que compõem a pluridiversidade do planeta. Nesse modelo, não há espaço para o chamado capitalismo verde, nem para suas novas formas de apropriação de nossa biodiversidade e de nossos conhecimentos tradicionais associados." 

É a partir desse discurso, publicado no documento final do IX Acampamento Terra Livre -- Bem Viver-Vida Plena, elaborado e assinado por mais de 1.800 lideranças indígenas que participaram daCúpula dos Povos no mês de junho de 2012, no Rio de Janeiro (RJ), que as comunidades indígenas propõem a sustentabilidade do planeta.

De acordo com Augusto Santiago, coordenador do Programa Direito a Terra, Água e Território, as comunidades indígenas têm um modo de produção diferenciado do manejo comercial e, nesse sentido, destaca, as terras indígenas brasileiras "têm sido mais eficientes do que as unidades de conservação para a conservação da biodiversidade".

Na avaliação de Santiago o modo de produção e de vida das comunidades indígenas está ameaçado, especialmente porque "os quase 20 milhões de hectares reconhecidos na América do Sul como de posse de povos indígenas são o filé do mercado de carbono mundial. É ele que os operadores do mercado pretendem usar como base de troca para que as corporações possam dar continuidade a seus negócios", diz em entrevista à IHU On-Line, por e-mail. 

Ao defender o modo de produção e de vida das comunidades indígenas da América Latina, ele enfatiza que a "tradição não deve ser vista como algo estático e imobilizante, ela se inova e reinventa a partir do contato com o novo. As comunidades também se interessam pelo uso dos produtos e das tecnologias, e nosso objetivo não é voltar ao passado, mas sim construir um futuro com mais justiça. O que questionamos em nosso coletivo é o lucro acima da vida, a obsolescência programada, o patenteamento da vida".

Augusto Santiago é coordenador do Programa Direito a Terra, Água e Território, que reúne 13 organizações brasileiras que atuam nessa temática. Trabalha na Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), organização ecumênica de serviço, prestes a completar 40 anos de existência, tendo apoiado cerca de dez mil pequenos projetos nesse período. Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como o modo de vida das comunidades e dos povos tradicionais pode ser um instrumento na luta contra as mudanças climáticas?

Augusto Santiago - Os meios de vida das comunidades tradicionais são, em geral, de baixa emissão de carbono, no Brasil e em todo o mundo. Este padrão inclui atividades pouco intensivas, com gestão do território como um todo e pouco concentradas, aproveitamento de espécies de plantas e animais em número bem superior ao nosso. Povos e comunidades contribuem com o abastecimento local de cidades com espécies alimentares plantadas e nativas, produzidas com manejo sem veneno e vendidas sem o custo das transações transoceânicas.

Apesar das propostas do documento oficial da Rio 20 não assumirem o desafio da redução do consumo, muitos de nós já sabemos que não há suporte no planeta para o contínuo crescimento da economia e do comércio mundial com seus altos custos de produção e distribuição, e sua concentração e controle por poucas corporações.

É preciso, porém, tomar cuidado com esta questão. Acredito que a tradição não deve ser vista como algo estático e imobilizante, ela se inova e reinventa a partir do contato com o novo. As comunidades também se interessam pelo uso dos produtos e das tecnologias, e nosso objetivo não é voltar ao passado, e sim construir um futuro com mais justiça. O que questionamos em nosso coletivo é o lucro acima da vida, a obsolescência programada, o patenteamento da vida.

IHU On-Line - Em que medida os indígenas e povos tradicionais contribuem para o debate acerca da crise ambiental? Que diferencial eles apresentam no sentido de garantir a preservação do planeta?

Augusto Santiago - Nos últimos 20 anos, os povos indígenas brasileiros têm contribuído no debate sobre a crise ambiental. Um exemplo disso é a realização do Xingu 23, em comemoração ao evento de resistência contra o projeto que hoje se chama de Belo Monte. As iniciativas de Chico Mendes são hoje conhecidas na academia como "ambientalismo camponês" e distinguem as contribuições brasileiras no tema, justamente por terem sido mobilizadas e levadas a cabo por povos e comunidades tradicionais, ainda nos anos 1980, quando lutavam por suas terras e suas florestas e das quais sobrevivem. Os conflitos por terras no Brasil não diminuíram no período. Pelo contrário, acirraram-se.

No documento final do IX Acampamento Terra Livre - Bem Viver-Vida Plena, realizado este ano na Cúpula dos Povos, no Rio de janeiro, as 1.800 lideranças indígenas presentes indicaram que: "Defendemos formas de vidas plurais e autônomas, inspiradas pelo modelo do Bem Viver-Vida Plena, onde a Mãe Terra é respeitada e cuidada, onde os seres humanos representam apenas mais uma espécie entre todas as demais que compõem a pluridiversidade do planeta. Nesse modelo, não há espaço para o chamado capitalismo verde, nem para suas novas formas de apropriação de nossa biodiversidade e de nossos conhecimentos tradicionais associados".

Terras indígenas

Estudos mais ou menos recentes indicam, por exemplo, que as terras indígenas brasileiras têm sido mais eficientes do que as unidades de conservação para a conservação da biodiversidade. Onde há terras florestadas, existem comunidades, e as sobreposições entre propostas para criação de unidades de conservação e áreas ocupadas por comunidades tradicionais ou povos indígenas também reforçam a tese de que a conservação sempre esteve ligada ao uso e ao conhecimento associado à biodiversidade. Então, considerando a inexistência de dúvidas quanto à efetiva diferença entre o manejo comercial e o realizado pelas comunidades, destacaria, entre tantas contribuições diferenciais, o conhecimento associado ao uso da biodiversidade e as tecnologias de baixo impacto de que dispõem, além da capacidade de viver com baixo nível consumo.

IHU On-Line - Como você avalia o documento final da Rio 20, que não levou em conta o modo de vida das populações tradicionais? Por que os povos indígenas e tradicionais não são considerados nas negociações governamentais?

Augusto Santiago - Lá na Cúpula dos Povos tivemos uma importante discussão sobre economia verde, com a participação de Achim Steiner, um dos responsáveis pelo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que apresenta seus "princípios" (ou tenta reunir conceitos e definir diretrizes gerais). Ele estava em uma mesa com diversos movimentos e ONGs, e os discursos contra a economia verde foram muito fortes. Ao final não houve nenhuma consideração sobre a possibilidade de diálogo entre esses dois mundos.

Na noite seguinte, escutei um novo discurso da mesma pessoa. Foi na entrega do Prêmio Equatorial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), cujo primeiro lugar - em iniciativas sustentáveis - foi para a Articulação Pacari do Brasil. Premiaram 25 comunidades e suas iniciativas locais, que vão contra a corrente. Achim Steiner fechou o evento, aplaudindo aquelas pequeníssimas iniciativas (algumas em ilhas remotas da Indonésia ou do Pacífico). Em pequena escala, esses eventos, em minha opinião, retratam a hipocrisia do documento oficial, batendo palmas para comunidades enquanto estabelece um arcabouço legal para que as (mesmas) corporações se reinventem e deem continuidade à expropriação das terras e também dos conhecimentos associados ao uso da biodiversidade.

IHU On-Line - Quais são os principais problemas apontados pelas comunidades indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais em relação aos impactos gerados pelas mudanças climáticas nos biomas brasileiros? Considerando o último encontro que tiveram com as comunidades tradicionais, o que apontam?

Augusto Santiago - As comunidades têm percebido as mudanças do clima ao longo da última década. As percepções mais fortes estão relacionadas à alteração no ciclo das chuvas e à desorganização dos calendários tradicionais de plantio e colheita, bem como a extensão das estiagens. O aumento do calor foi indicado principalmente nas comunidades do Norte e Nordeste. Estas mudanças implicam uma série de riscos climáticos - iminentes ou potenciais. Nosso esforço é para discutir não só os riscos, mas nosso potencial de enfrentá-los no âmbito local, com práticas mais sustentáveis e, no âmbito regional e nacional, com articulação política. Em geral, nosso exercício possibilitou levantar as contribuições das comunidades às emissões de carbono e, da mesma forma, nos permitiram avaliar estratégias para limitá-las.

A análise mais ampla da questão nos permite observar que comunidades e povos tradicionais brasileiros ainda disputam seus territórios com o modelo de desenvolvimento baseado na emissão de carbono: o agronegócio, a mineração, os grandes projetos. A luta pela diminuição das emissões no Brasil passa pela luta pela regularização dos territórios destas comunidades.

Para aquelas comunidades que já regularizaram seus territórios, a discussão também é absolutamente relevante. Os quase 20 milhões de hectares reconhecidos na América do Sul como de posse de povos indígenas são "o filé" do mercado de carbono mundial. É ele que os operadores do mercado pretendem usar como base de troca para que as corporações possam dar continuidade a seus negócios. Índios negociam o carbono de suas florestas, para tanto devem imobilizá-las ou mantê-las com pouco uso. Operadores, mediante boas taxas de retorno, vendem estes créditos na bolsa de valores para indústrias que os usam como uma espécie de autorização para poluir. Ah, ia me esquecendo de uma última fatia do mercado: consultores altamente especializados controlam por meio de satélites se o acordo é cumprido.

IHU On-Line - Que ações para mitigar os efeitos das mudanças climáticas já são realizadas, tendo em vista os relatos das comunidades tradicionais?

Augusto Santiago - Ao fim das oficinas, as comunidades são estimuladas a rever suas atividades que mais colaboram com as "emissões" e a ampliar aquelas que "fixam carbono" -- palavrinhas que passaram a conhecer no evento. A roça em geral é a maior contribuição de algumas comunidades, e o desafio de não usar o fogo - trator dos pobres -, ainda é grande.

Muitas comunidades enfrentam uma crise de sua reprodução com base nos conhecimentos tradicionais, seja pela perda de sua sustentabilidade por fatores externos, seja pela perda de seus territórios tradicionais. Assim, como em qualquer comunidade rural brasileira, é grande o desafio de educar e manter o jovem na roça. Em algumas localidades, o desafio é enfrentado associando o conhecimento tradicional, repassado há gerações, com iniciativas inovadoras. Em nosso trabalho na Cese temos oportunidade de conhecer várias das iniciativas em temáticas como a agroecologia e a comercialização direta em feiras, o turismo comunitário, a incorporação do design em artesanatos elaborados a partir do extrativismo, a valorização de alimentos tradicionais por grandes chefes de cozinha, entre outros.

IHU On-Line - Como avalia a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC)? Como a política é desenvolvida e aplicada no Brasil? Em que medida ela tem contribuído para minimizar os efeitos das mudanças climáticas?

Augusto Santiago - É positivo que tenhamos esta política, mas questionamos o espaço que ela disponibiliza para a discussão com a sociedade e especialmente com aqueles agentes que, ao longo dos últimos 20 anos, com apoio do governo e da cooperação, vêm desenvolvendo iniciativas de desenvolvimento sustentável. Esta política não tem espaço para transformar essas iniciativas em programas de governo e massificá-las. Para provar isso basta analisar o Plano de Agricultura de Baixo Carbono, único plano setorial(1) já elaborado dentro desta política. Os recursos disponíveis estão quase todos destinados ao agronegócio. Nada é dito sobre os demais setoriais.

Analisando o PPA - Clima e Mudança Climática - Orçamento 2008-2010, a mesma tendência é observada. Lá, além do agronegócio e das indústrias, temos espaço para as pesquisas, para as emergências e para o fundo clima. Não há espaço para iniciativas inovadoras como as muitas que poderiam participar do prêmio Equatorial do Pnud, citado acima.

Uma boa iniciativa é a do Fundo Clima, porém seu primeiro edital não contemplou a necessária informação e formação da sociedade para que se participasse das discussões; preferiu focalizar uma pequena parte dos recursos para a sociedade civil implementar projetos de usos de tecnologias sociais com o mesmo formato piloto dos últimos 20 anos. A maior parte dos recursos é para adaptação das indústrias.

O desejo das organizações articuladas no DTAT - programa apoiado pela ICCO - é informar e formar para que as comunidades possam qualificar e ampliar a comunicação que fazem com a sociedade, aproximando campo e cidade, com o que vão buscar maior eficiência na incidência que já realizam. Mudanças climáticas é tema estratégico, pois mobiliza tanto as comunidades quanto a sociedade.

FONTE

IHU-Online

Links referenciados

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
www.pnud.org.br

Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
www.pnuma.org.br

Programa Direito a Terra, Água e Território
programadtat.blogspot.com

Plano de Agricultura de Baixo Carbono
www.agricultura.gov.br/abc

Articulação Pacari do Brasil
www.pacari.org.br

Cúpula dos Povos
cupuladospovos.org.br

IHU On-Line


www.ihuonline.unisinos.br

Secult apresenta rituais indígenas neste domingo na FLIT


Serão diversas apresentações de grupos indígenas das etnias Pahi (Apinajé), Krahô Kanela e Iny-Xambioá, a partir das 20h, na Estação Folguedos
 Link: 

Danças e rituais da cultura indígena fazem parte da programação da Secretaria de Estado da Cultura – Secult em Palmas neste domingo, 15, último dia da Flit – Feira Literária Internacional do Tocantins. Serão diversas apresentações de grupos indígenas das etnias Pahi (Apinajé), Krahô Kanela e Iny-Xambioá, a partir das 20h na Estação Folguedos.

Os Apinajé pertencem ao tronco Macro-Jê, família Jê, grupo Timbira Setentrional e vivem numa área demarcada no Tocantins, a partir de 1985, de 141.904 hectares que abrange os municípios de Tocantinópolis, Maurilândia e Lagoa de São Bento. Utilizam as matas para a caça e agricultura. Fazem a coleta do babaçu, extraem o óleo das amêndoas e aproveitam as palhas para fabricar utensílios domésticos e cobrir suas casas. Ainda mantêm festas e rituais do casamento, batizado e homenagem aos mortos, realizados no verão.

Os índios Krahô-Kanela, assim como diversos outros grupos indígenas do Brasil, tiveram uma extensa e árdua história em busca de seu reconhecimento como etnia indígena e pelo direito às suas terras. Atualmente, vivem na aldeia Lankrare, reserva Mata Alagada à margem do rio no município de Lagoa da Confusão. Os jovens com ajuda dos mais velhos estão em processo de resgate de suas expressões culturais.

Habitantes da região do baixo Araguaia, os Xambioá ou Karajá do Norte se distribuem em quatro aldeias na reserva de mesma denominação, no município de Santa Fé ao norte do Tocantins. Pertencentes ao povo Iny (Inã), tronco linguístico Macro-Jê e falante da língua Iny. Aproximadamente há oito anos a Secretaria da Cultura vem incentivando e apoiando o trabalho de recuperação cultural resultando no grupo de jovens que dançam e cantam a cultura do povo Xambioá.

Durante toda a Flit, a cultura indígena esteve presente no estande do Artesanato da Secult e em exposições de bonecas Ritxoco, no palácio Araguaia e na sede do batalhão do Exército Brasileiro em Palmas.


Foto: Divulgação/Secult           Fonte: Secom           Postador: Thayanne Karoline 

13 de jul. de 2012

Estado do Rio vai contratar 12 professores da etnia Guarani


O Globo

RIO - A Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc) vai contratar 12 professores indígenas da etnia Guarani, para reforçar a equipe dedicada aos anos iniciais do ensino fundamental nas unidades escolares indígenas pertencentes à rede. Os docentes vão assumir as turmas no segundo semestre deste ano. As inscrições começaram nesta quinta-feira (12) e terminam nesta sexta (13), às 23h59.

Para participar, os candidatos terão que comprovar domínio da língua indígena guarani mbya, além de ter declaração expedida pela Fundação Nacional do Índio (Funai) de que pertencem à etnia Guarani e/ou de que residem em terras habitadas por integrantes da comunidade.

De acordo com a assessora especial da Superintendência Pedagógica da Seeduc, Inês dos Santos da Silva, o conteúdo programático nas unidades indígenas é semelhante ao das escolas regulares, mas é contextualizado com a realidade local, os costumes e tradições da etnia.

— Nós fazemos reuniões periódicas com as lideranças indígenas locais para ver de que forma tudo isso pode ser contextualizado e adaptado à cultura deles. Então, os alunos têm, por exemplo, aula de matemática e de português, mas nesse processo também são abordados transversalmente os hábitos alimentares e a religiosidade própria — explicou.

Segundo ela, as aulas são ministradas em português, mas há situações em que o professor precisa se comunicar em guarani, já que há palavras que não têm tradução.
— Além disso, é comum os alunos se comunicarem entre si e com o professor em sua língua própria. Para eles, é natural — contou.

De acordo com Inês dos Santos da Silva, a estrutura física das unidades de ensino, que são construídas pelos moradores das aldeias, também segue padrões típicos:
— Elas não têm o aspecto retangular com o que estamos acostumados, mas um formato sextavado, além de telhados e janelas feitos de madeira. Nas paredes também há pinturas características da etnia.
A rede estadual conta com três unidades de ensino indígenas: a Escola Indígena Estadual Karai Kuery Renda, localizada na Aldeia Sapukai, em Bracuí, distrito de Angra dos Reis, na costa sul fluminense; e as salas de extensão Karai Oka, na Aldeia Araponga, em Paraty, e Tava Mirim, na Aldeia Itatiim, em Paraty Mirim, ambas também na costa sul fluminense.

De acordo com a assessora especial da Seeduc, as unidades atendem aproximadamente 180 alunos e contam com uma equipe de seis professores.
Para se inscrever no processo seletivo, os interessados devem preencher o formulário no site da secretaria. Caso o candidato não tenha acesso à internet, a inscrição poderá ser feita nas coordenações de Gestão de Pessoas das regionais Médio Paraíba (Rua São João, 651, São João, Volta Redonda) e Baixadas Litorâneas (Rua José Clemente, 17, centro, Niterói).

Segundo o Centro de Assessoria Intercultural Kondó, associação civil sem fins lucrativos que desenvolve projetos educativos e culturais entre os guaranis de Angra dos Reis, atualmente vivem cerca de 35 mil índios dessa etnia no território brasileiro, e cerca de 90 mil na Bolívia, Argentina e no Paraguai.


Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/educacao/estado-do-rio-vai-contratar-12-professores-da-etnia-guarani-5458932.html#ixzz20VfSKhvy

11 de jul. de 2012

Belo Monte agrava desarticulação indígena


do Portal de Agroecologia da Amazônia

Entrevista especial com Rodolfo Salm “Trata-se da velha estratégia utilizada no Brasil há mais de 500 anos. Quando os portugueses chegaram aqui, não tinham poder de fogo para combater os índios, então, colocaram índio contra índio”, constata o biólogo.

Confira a entrevista.
Diferente da articulação dos povos indígenas na Cúpula dos Povos, em Altamira, Pará, onde está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, as “comunidades indígenas estão muito desarticuladas”, dizRodolfo Salm à IHU On-Line. Em entrevista concedida por telefone, ele esclarece que a desarticulação das comunidades indígenas é consequência, além dos seus conflitos internos, da “ação dos construtores e idealizadores de Belo Monte, que dividiram os índios. Eles se aproveitaram de antigas divisões entre os Xikrins, da região de Altamira, e os Caiapós, que estão mais perto do Mato Grosso, e estabeleceram um conflito entre eles. Por isso alguns índios aceitam, de certa forma, a barragem, e outros são radicalmente contra. Esse conflito entre as etnias favoreceu a construção da barragem”.
Salm comenta também o acampamento dos índios Xikrins no canteiro de obras de Belo Monte e é enfático: “Existem alguns índios que não querem saber das condicionantes, que são totalmente contra a barragem, mas tenho a impressão de serem minoria. A minha esperança é que esse movimento se torne numa ‘bola de neve’; gostaria que viessem mais e mais índios. Seria ótimo se viessem os indígenas do Mato Grosso, e a mobilização aumentasse e até, quem sabe, inviabilizasse a obra. Isso parece um sonho impossível, mas é a nossa esperança, porque sempre esperamos que, de alguma forma, essa obra não aconteça”.
Rodolfo Salm é Ph.D em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, Inglaterra, e formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. É professor da Universidade Federal do Pará, onde desenvolve o projeto Ecologia e Aproveitamento Econômico de Palmeiras.
Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como foi realizado o encontro Xingu+23? Foi uma resposta a Rio+20? 

Rodolfo Salm – O encontro “pegou carona” na ocorrência da Rio+20, como uma oportunidade de chamar a atenção para o problema ambiental da região do Xingu. Não foi exatamente uma resposta. Foi mais um evento paralelo a Rio+20.
IHU On-Line – Como avalia a articulação dos povos indígenas durante esses 23 anos? Que semelhanças e diferenças aponta hoje em relação ao 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, que aconteceu em 1989? Percebe que hoje há mais articulação?

Rodolfo Salm – Os povos indígenas estão mais articulados, de certo modo. Mas em Altamira, por exemplo, há um nível de desagregação muito grande, e as comunidades indígenas estão muito desarticuladas. Isso é consequência da ação dos construtores e idealizadores de Belo Monte que dividiram os índios. Eles se aproveitaram de antigas divisões entre os Xikrins, da região de Altamira, e os Caiapós, que estão mais perto do Mato Grosso, e estabeleceram um conflito entre eles. Por isso alguns índios aceitam, de certa forma, a barragem, e outros são radicalmente contra. Esse conflito entre as etnias favoreceu a construção da barragem. Trata-se da velha estratégia utilizada no Brasil há mais de 500 anos. Quando os portugueses chegaram aqui, não tinham poder de fogo para combater os índios. Então colocaram índio contra índio.
Atualmente alguns índios estão ocupando parte do canteiro de obras de Belo Monte, mas nem todos estão lutando contra a barragem. Alguns são contra, mas as lideranças estão exigindo o cumprimento das condicionantes. Por outro lado, os Caiapós do Mato Grosso, liderados por Raoni, não querem nem saber de condicionantes. Eles são radicalmente contra Belo Monte. Então, não há uma união. Os índios Mundurucus, por exemplo, da região do alto Tapajós, vieram para o encontro do Xingu+23, porque estão preocupados com a perspectiva da construção de barragens na região de Teles Pires. Mas eles já estão engajados na luta contra esse processo de degradação do rio Xingu, que tende a se espalhar por toda a região amazônica.
Então, é muito difícil a articulação, porque eles têm um histórico de conflitos internos, e isso dificulta muito o diálogo. É só ver o exemplo de como osXikrins têm dificuldade de se articular com os Caiapós na luta contra Belo Monte. Agora, em algum nível a articulação isso deve acontecer, especialmente na Cúpula dos Povos, em que deve ter acontecido algum tipo de união.
IHU On-Line – Qual a importância do Xingu para os povos indígenas, e que relação eles estabelecem com o rio?

Rodolfo Salm – O rio é tudo para eles. Ele é fundamental não só por causa do sustento, mas também devido a aspectos culturais e existenciais. O discurso do governo federal diz que nenhuma terra indígena será alagada. É verdade que algumas não serão, mas outras terras indígenas perderão o rio que passa na frente da aldeia. Atualmente o rio Xingu passa na frente da aldeia e é um rio extremamente fértil, cheio de recursos. Depois da construção da usina, será um rio morto, sem peixes, porque a água ficará quente, sem oxigênio.
No leito do Xingu também tem uma grande quantidade de ouro, e isso vai atrair garimpeiros para a região. Imagina um monte de garimpeiros entrando numa terra indígena? Será catastrófico. Esses são impactos nas comunidades da região de Volta Grande. Ainda é preciso considerar os impactos indiretos, que estão sobre todos os povos indígenas da região do Xingu. Esses impactos indiretos serão decorrentes da imigração em massa de imenso contingente populacional, em consequência da construção da barragem. A previsão é que cerca de cem mil pessoas venham para a região. Com isso aumentará a probabilidade de invasão de terra, e todos os problemas sociais relativos ao contato tendem a se aprofundar.
IHU On-Line – Por quais motivos os índios estão acampados em Belo Monte?

Rodolfo Salm – Os índios Xikrins estão reivindicando o cumprimento das condicionantes. Existem alguns índios que não querem saber das condicionantes, que são totalmente contra a barragem, mas tenho a impressão de serem minoria. A minha esperança é que esse movimento se torne numa “bola de neve”; gostaria que viessem mais e mais índios. Seria ótimo se viessem os indígenas do Mato Grosso, e a mobilização aumentasse e até, quem sabe, inviabilizasse a obra. Isso parece um sonho impossível, mas é a nossa esperança, porque sempre esperamos que, de alguma forma, essa obra não aconteça.
IHU On-Line – No início deste mês, a presidente Dilma anunciou a homologação de sete terras indígenas, cinco no Amazonas, uma no Pará e outra no Acre. O que essa medida significa ou sinaliza num contexto de Rio+20?

Rodolfo Salm – Toda a homologação de terras indígenas é uma boa notícia. Isso fez parte daquele pacotão para o governo ficar “bem”, durante aConferência da Rio+20. É importante demarcar as terras indígenas, porque elas são essenciais para a concentração da biodiversidade. Mesmo nas áreas mais impactadas, se compararmos o estado de preservação das terras indígenas com as áreas em torno, veremos que as áreas indígenas são sempre melhores para a conservação.
Recentemente, a revista Veja publicou uma matéria criticando os índios e a demarcação de terras indígenas. Eles mostram uma paisagem em que, de um lado da estrada tem uma fazenda de soja e, do outro, uma terra indígena recém-demarcada, e questionam: “Qual dos dois lados é o preservado?” De um lado teria a produção e, de outro, uma terra abandonada, degradada, cheia de lixo. Mas quando você olha a foto, quem entende de natureza, de biodiversidade e de conservação, percebe claramente que a área indígena é a que preserva pequenos mamíferos, aves, a biodiversidade de insetos etc.
IHU On-Line – E como você analisa a posição da sociedade civil em relação a todas essas questões que dizem respeito aos povos indígenas, ao modelo do desenvolvimento do governo que impacta diretamente nas comunidades? 

Rodolfo Salm – Quando falo com as pessoas, elas se sensibilizam para essa questão. Penso que a maior parte do povo brasileiro se preocupa com os povos indígenas e não gostaria de ver isso acontecendo, mas o sistema político impõe essa condição. A questão indígena não foi debatida na campanha presidencial. Quando a Dilma se candidatou a presidente, ela nem falava de Belo Monte, porque sabia que iria “queimar seu filme”. As grandes empreiteiras que financiaram a campanha dela, essas sim estão interessadas na construção da barragem. Agora, o povo, de forma geral, é simpático à preservação da floresta, à conservação dos povos.
IHU On-Line – Como o modo de vida dos indígenas contribui para pensarmos um planeta sustentável?

Rodolfo Salm – Fiz meu doutorado na aldeia indígena Caiapós, morei dois anos com eles e vi que têm uma vida simples, de contato com a natureza, não consomem muitos bens materiais, cuidam dos animais e das plantas. Isso tudo que está no imaginário popular tem um grande teor de verdade. Você vê que eles não são incorruptíveis, é claro que eles querem um rádio, uma televisão. Mas o que eles têm para mostrar é que é possível ser feliz usufruindo da natureza preservada.
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Rodolfo Salm – Gostaria de ressaltar que Belo Monte não irá gerar uma energia limpa. É uma energia muito suja por causa do metano produzido pelas barragens. Outra coisa importante é que não é uma energia para o desenvolvimento do Brasil, não é uma energia para a nossa industrialização, mas sim para exportar minérios. O Brasil está exportando energia barata na forma de minérios processados. Não se trata de uma energia para 60 milhões de habitantes, como aparece na propaganda da televisão.
Muitas pessoas estão colocando em dúvida o aquecimento global, o que é uma bobagem. Infelizmente, esse é um problema real e que se agrava a cada dia. Então, Belo Monte é suja e contribui muito para o aquecimento global e para a degradação do clima geral do planeta, sem contribuir em nada para o desenvolvimento da nossa sociedade. É possível fornecer energia para todos reduzindo o desperdício nas linhas de transmissão, atualizando as barragens já feitas, além de investir em fontes alternativas para a produção de energia.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/510983-barragem-agrava-desarticulacao-indigena-entrevista-especial-com-rodolfo-salm

http://uniaocampocidadeefloresta.wordpress.com/2012/07/02/belo-monte-agrava-desarticulacao-indigena/

7 de jul. de 2012

Cenas da novela “eu só quero outro rabo no jumento!”




Estamos vivendo, em Lorena, uma verdadeira novela. Impossível ficar indiferente a uma novela tão cheia de surpresas e capítulos.
Uma novela que poderia se chamar “eu não quero pagamento Nascimento, só quero outro rabo no jumento”, parodiando uma antiga canção popular cuja letra falava sobre o roubo do rabo do jumento por um tal Nascimento. O dono do referido animal cobrava providências para o problema lembrando que não poderia aceitar um pagamento em troca da ausência daquela parte anatômica de amado jumento. Dinheiro não, Nascimento. Eu quero outro rabo!
Os personagens da novela seriam o povo, o jumento; Nascimento, a câmara municipal e seu presidente; os prefeitos, o rabo. O dono do jumento, o judiciário. Não necessariamente nesta ordem.
Cena um
Durante longo período o jumento está caminhando pelas ruas malcuidadas, o sistema de saúde doente, o ambiente maltratado quando Nascimento aparece  e promove uma revolução.
- O jumento não pode mais ficar com este rabo, pois ele está sujo. Teremos que cortá-lo para nosso próprio bem [quer dizer, o bem da cidade].
O jumento fica impassível enquanto cortam seu rabo. O dono do jumento finge que nada vê.
Cena dois
No lugar de um rabo – e para contentar o jumento – Nascimento coloca outro. Diz:
- Com este rabo o jumento ficou mais bonito. Agora as coisas vão melhorar e muito.
O jumento faz festa, solta fogos de alegria,  afinal se sentia feia, descuidada, suja, malvista pelos jumentos da região e agora tudo seria diferente. Passados alguns dias, no entanto, sente saudade de seu antigo rabo que mesmo arrancado continua a agir nos bastidores reclamando ao dono do jumento, seu lugar. Finalmente o dono se sente importunado e entra em cena.
Cena três
O dono do jumento percebe que algo está errado em seu animal. O Primeiro rabo tem legítimo poder de permanecer no lugar da traseira do bicho. Diz em alta voz:
- Nascimento, este rabo que você colocou no jumento não é legítimo. Você tem que devolver o rabo que cortou. O lugar dele é na traseira do jumento [que até esta hora não tinha nem notado a diferença].
Nascimento retruca:
- O primeiro rabo foi tirado após longa deliberação, estudos jurídicos. Ele não faz jus ao lugar na traseira do jumento. Nós pagamos pra ver.
O dono, no entanto, não aceitou o argumento.
- Negativo. O primeiro rabo tem mais direito. Eu não quero pagamento, Nascimento, eu quero é outro rabo no jumento.
E assim o primeiro rabo foi devolvido ao seu lugar. Dizem que quando assumiu, num final de tarde de uma sexta feira, o feliz primeiro rabo foi bater ponto em seu posto médico. Sentia que agora fora desvitimizado e poderia, finalmente, prestar um bom serviço ao jumento. Ele era um rabo feliz que iria viver o resto de seu mandato balançando a fim de espantar as moscas do lindo traseiro de seu jumento.
O que ele não sabia é que o segundo rabo – ou vice rabo, se preferir – estava trabalhando para não deixar que o rabo titular assumisse. Chamou Nascimento – que a esta altura já queria que o primeiro rabo ficasse pregado no traseiro do bicho – e disse que ele tinha feito tudo errado...e foi se queixar com o dono que ficou mais perdido que cego em tiroteio e já não sabia qual papel assinar.
Cena quatro – final
O dono do jumento procura Nascimento e diz que ele deve decidir, pois cabe a ele constitucionalmente contornar a situação. Qual dos rabos, afinal, deve enfeitar o traseiro do jumento? Se não decidir o dono deverá resolver à revelia.
Nascimento fica em polvorosa. Está convencido, agora, que o melhor seria deixar o jumento sem rabo e, talvez, colocar um rabo tampão que, em ultimo caso, será o próprio Nascimento.
- Ui – diz o jumento que continua sem sair do lugar amargando sarnas [crack], pulgas [violência], feridas [ruas sujas e meio ambiente sem cuidado], verminose [sistema público de saúde], entre outras coisas.
O jumento está atônito. Pensa em mudar tudo mas, no fundo, sente falta de um rabo que comande sua cabeça.

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...