30 de dez. de 2020

2021 – Uma ficção

 


Estamos vivendo os últimos dias de 2020, ano que já disseram perdido, já disseram inútil, já disseram que vai tarde. Não creio tenha sido nada disso porque ele nos fez pensar e repensar nossa presença neste cenário chamado planeta terra. Fez até alguém criar um futuro fictício denominado novo normal como se dissesse que tudo vai continuar do mesmo jeito no tempo que virá.

O futuro imediato se chama 2021. Ele está se aproximando com uma velocidade assustadora para nos dizer que nada vai ser normal. Em se tratando de Brasil já não está normal há alguns anos. Nem precisamos de epidemia para provarmos da anormalidade que se abateu sobre nós. Ela só veio para nos igualar em termos de humanidade frágil. De resto, tudo ficará mais difícil, menos empregos, menos educação, menos governo, menos arte, menos cultura. Será um ano menos, infelizmente.

No entanto, nada disso pode nos desanimar. Somos brasileiros e não desistimos nunca. Não é assim que se costuma dizer? Só que nós desistimos de sermos brasileiros algumas vezes na década que passou. Desistimos de nossa diversidade, de nossos direitos, das conquistas sociais, da democracia. A democracia que deveria ser uma bela experiência de solidariedade acabou se transformando numa epidemia de ódio, perseguição, rancor, trevas. Não, o ano de 2020 não acabou porque ele começou há anos atrás quando esquecemos nossa humanidade e aceitamos ser governados por lunáticos infelizes. O pior é que isso tem prazo de validade até 2022.

De qualquer forma é bom lembrarmos que temos a arte para revigorar nossas forças. Temos a esperança para alavancar nossas utopias. Temos vida para ameaçar a morte. Temos a ciência para lembrar que, sim, podemos vencer. Sim, podemos avançar. Sim, podemos nos libertar da opressão, do medo. Sim, podemos unir forças, criar novos campos de atuação. Podemos alimentar nossos sonhos de unidade e criar novas frentes de atuação para não deixar “a peteca cair”.

Só assim, creio, poderemos evitar que o céu desabe sobre nossas cabeças e criar novas ideias para adiar o fim do mundo.

Esta é a minha opinião.

2021: Um ano fictício


Neste vídeo, da série Questão de Opinião, faço uma crônica sobre o final do ano de 2020 e reflito sobre o que vem pela frente.

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22 de mai. de 2020

PARA ALÉM DA PANDEMIA

Tenho sido abordado várias vezes sobre o que penso sobre a pandemia e como ela impacta na vida dos povos indígenas. Nunca tenho resposta pronta para isso ou para qualquer coisa que seja. Gosto de praticar o livre pensar. É isso que farei agora.

Já faz algum tempo que há “profecias” que nos são lembradas. Quer dizer, são antigas falas de sábios indígenas que foram repetidas muitas vezes e chegaram até nós com essa descrição de serem leituras do futuro. Quando falamos em profecias normalmente estamos pensando que alguém do passado previu algo para o futuro. Quase nunca passa pela cabeça das pessoas que “prever” o futuro é a coisa mais simples do mundo: o “futuro” se escreve no presente. Trata-se puramente de observação da natureza.

Lembro que quando aconteceu o inacreditável tsunami em 2004, as populações originárias das ilhas afetadas não sofreram quaisquer danos. Por quê? A natureza os avisou com antecedência. Foi apresentando sinais visíveis de que um acontecimento natural iria ocorrer. Dias antes, levas inteiras de formigas se deslocaram para a parte mais alta das ilhas. As pessoas, atentas ao sinal da natureza, perceberam a movimentação e acompanharam-nas ficando a salvo da onda gigante. Este é apenas um exemplo do que pode ser uma “profecia”.  

Desde a chegada dos europeus em terras brasileiras a natureza foi sendo modificada. Vozes ancestrais foram registradas por viajantes e missionários. Elas perguntavam sobre a voracidade deles em querer acumular bens e riquezas. Essa gente não entendia o motivo de tanta ganância estampada nos olhos daqueles estrangeiros que não davam a mínima importância a elas ou à sua sabedoria. Tudo o que queriam era extrair riquezas, usurpar, trapacear.

Já àquela época se ouvia da boca dos sábios que um dia a natureza ia se vingar. A história do Brasil é feita dessas “profecias”. Elas estavam presentes como fonte de resistência para que os guerreiros e guerreiras não desistissem de lutar. Uma terra sem males havia de existir para além da opressão, da escravização e da morte.

José Luiz Xavante deixou sua “profecia” estampada na frase: “O branco não sabe o que é natureza, o que é o rio, o que são as árvores, o que é a montanha, o que é o mar. Ao invés de você respeitar, destrói, corta pedaço, joga coisas, polui os rios (...). Por que você está estudando? Para destruir a natureza e, no fim, destruir a própria vida?

A coisa é tão óbvia que nem precisa ter muita ciência para perceber que se a natureza for destruída todos também seremos. E é isso que vem sendo dito por todos os sábios de nossos povos. Não precisa ser profeta para “sacar” que faz tempo que a humanidade está se autodestruindo; que o atual sistema econômico que privilegia o consumo desenfreado, o acúmulo exagerado, a concentração de renda nas mãos de poucos, vai ruir. A própria resistência indígena ao sistema de consumo tem sido o portal para a compreensão de que a humanidade está no caminho da destruição.

Não gosto de ser o profeta do apocalipse, mas acredito que nada vai mudar depois desta pandemia. Ao contrário, acho que vai piorar. Justamente porque o sistema irá sentir-se ameaçado e que vai entrar com todas as armas para se retroalimentar. As perseguições irão aumentar; as novas propostas de lei para a exploração mineral serão apresentadas na surdina; os direitos constitucionais serão questionados em nome da economia; as políticas públicas de inclusão social retrocederão; as bolsas para pesquisadores indígenas e manutenção de estudantes nas universidades serão canceladas e por aí vai. Definitivamente, a humanidade brasileira sairá mais enfraquecida no pós-pandemia. A ideia do progresso e desenvolvimento virão com mais força e aqueles que estiverem contra tudo isso serão acusados e desqualificados recaindo sobre eles os estereótipos e preconceitos que os acompanham secularmente em nosso país.

Confesso que não queria que fosse assim. Até posso alimentar a esperança de que parte da sociedade brasileira irá se organizar para reagir e dar uma resposta contrária a essa situação; gostaria de ver a juventude se articulando para não permitir que seu “futuro” fosse estruturalmente modificado. Até desejaria que crianças se organizassem para gritar bem alto que desejam ter árvores e florestas em pé quando se tornassem adultas e pudessem escolher o que lhes parece melhor para si e para seus pares.

Eu queria, mas não sou profeta para garantir que isso irá de fato, acontecer. O que me resta, como viajante do tempo presente, é lutar para que o amanhã seja menos cruel e mais poético e que possa receber nossas crianças e jovens de braços abertos.


21 de mar. de 2020

MANIFESTO

Tendo nascido em uma sociedade onde as pessoas são educadas para sentirem-se parte do todo;
Onde o tempo não é linear impedindo que as pessoas desperdicem suas vidas correndo atrás de riqueza e poder;
Onde cada fase de vida é tratada como um processo que nunca mais se repetirá e por isso deve ser vivida em sua plenitude;
Onde a relação com a natureza não é de domínio, mas de convivência;
Onde as pessoas se sentem solidárias umas às outras e capazes de partilhar seu pão e sua poesia;
Onde o passado é visto e respeitado como memória e o presente como uma dádiva que precisa ser usufruída e agradecida em todo momento;
Onde as crianças tudo podem porque são educadas pelos velhos, que tudo sabem;
Onde os saberes são partilhados pelas histórias contadas nas noites sem lua para nos lembrarem que somos partes do mundo e não seus donos;
Onde, enfim, somos desde que nascemos e nascemos para sermos inteiros, completos, não no futuro distante, mas no agora, no presente, hoje...
Entendo que é preciso valorizar todos os saberes;
Respeitar todas as diferenças;
Estimular cada vida;
Aceitar a diversidade de ideias;
Despertar cada vocação;
Alimentar cada sonho;
E sonhar, sonhar, sonhar.
Sonhar um sonho possível de tolerância, respeito, dignidade, direitos.
Sonhar um mundo que nos faça ter dignidade por acolher o que cada ser é.
Sonhar uma realidade que seja composta de alegria, alimentada pela liberdade de ser, viver sem competir para mostrar mérito sobre a outra pessoa.
Ah, como tenho o desejo de construir uma realidade em que possamos, de fato, sermos mais por sermos Um!
Alguém dirá que é utopia. Dirá bem, dirá certo. É.
O mais legal é saber que ela é possível. Eu a vivi. Eu vim de lá.
É o que quero oferecer aqui. Esse é o bem viver que aprendi de minha gente. É ser Presente. É ser parte. É pertencer. É me importar com meu lugar. É me comprometer com a minha realidade. É não ficar indiferente. É não aceitar que digam que não posso fazer. É ser livre. É entender que minha realização só é possível quando o outro também se realiza. É ser solidário, solícito e coletivo.
Enfim, é Ser.

Daniel Munduruku
Lorena, verão de 2020.
áudio deste texto pode ser ouvido em: https://www.youtube.com/watch?v=0uPZY7FVI_A

DEIXANDO QUE O OUTRO SEJA - Educação como prática de Liberdade



Educar é um ato heroico em qualquer cultura.

Talvez seja pelo fato de que educar exija que a pessoa saia um pouco de si e vá ao encontro do outro; um outro desconhecido; um outro anônimo; um outro que me questiona; um outro que me confronta com meus próprios fantasmas, meus próprios medos, minha própria insegurança.
Talvez seja pelo fato que educar exija sacrifício, exija renúncia de si, exija abandono, exija fé, exija um salto no escuro.
Talvez por isso seja algo para poucos.
Seja para pessoas que acreditam nas outras pessoas.
Seja para pessoas que não se acomodaram diante da mesmice que a sociedade pede todos os dias.
Talvez por isso seja mais fácil encontrar professores que educadores:
Professores são donos do conhecimento.
Educadores são mediadores.
Professores são profissionais do ensino.
Educadores fazem do ensino um estímulo para seu crescimento pessoal.
Professores usam a palavra como instrumento.
Educadores usam o silêncio.
Professores batem as mãos na mesa.
Educadores batem o pé no chão.
Professores são muitos,
Educadores são Um.
O educador tem os pés no chão, mas sua cabeça está sempre nas alturas porque acredita que quem está à sua frente não é um cliente esperando para ser atendido, mas uma pessoa aguardando orientações para seguir seus passos. Esta é a razão de ser do educador. Esta é sua esperança. E para isso, o educador precisar ser inteiro, precisar ser completo, precisa estar em sintonia consigo mesmo e com o universo.
Por isso é para poucos, mas não deveria ser assim. O ideal era que toda sociedade estivesse voltada para a realização de todos e não apenas para a de alguns privilegiados que se sentem como deuses e querem decidir a vida das pessoas. O certo era que todo ser humano desenvolvesse seus dons e talentos para o bem de todos e que não fosse algo extraordinário alguém sobressair-se por causa de seu potencial artístico. Simplesmente deveria ser assim com todos; deveria ser comum todos os seres poderem expressar sua alegria de estar vivo sem precisar “vender” seus talentos para manter-se vivo.
Infelizmente, no entanto, a realidade que vivemos foi “pensada” de um jeito tal que as pessoas são compreendidas como máquina de ganhar de dinheiro, como objeto de consumo, como um monte de estrume que servirá apenas de esterco para aqueles que dominam o sistema atual.
É preciso reverter este quadro. É preciso que os professores criem uma consciência nova, dinâmica, ancestral para que um novo jeito de pensar venha à tona e possa colocar em xeque uma sociedade que desvaloriza o ser humano em detrimento do dinheiro, do acúmulo, do consumo. É preciso que os professores virem educadores de verdade e possam despertar nossos jovens para o futuro que se inscreve em nossa memória ancestral. Só assim teremos um amanhã.
É nessa direção que se inscreve uma educação que se queira libertadora, emancipadora. Compreender o outro, o aluno, o aprendente como um ser livre, capaz de fazer suas próprias escolhas desde que lhe sejam oferecidas ferramentas para perceber a realidade onde vive e, sobretudo, com capacidade de olhar para trás, sentir-se integrado ao universo, para ter condições de lançar-se para o tempo que há de vir. Para que isso aconteça, a criança não deve ser cobrada para que seja outra coisa além de ser criança. Para cada fase da vida, suas preocupações. Na educação sonhada, há uma única verdade: nunca perguntar à criança o que ela vai ser quando crescer. Numa sociedade que se queira equilibrada é preciso oferecer brincadeiras, jogos, lazer, espaço, circularidade, música, arte, cooperação...É assim que uma criança aprende, é assim que ela cresce equilibrada, é assim que ela conseguirá responder aos desafios do mundo e da vida. É assim que ela crescerá livre.
Os educadores sabem que é assim que funciona. Infelizmente a eles se tem cobrado resultados, números, aprovações, conteúdos. A escola, no sistema atual, cobra dos educadores uma educação competitiva e não colaborativa; uma educação para a produção e não para o ócio (tão necessário para fazer brotar a criatividade); uma educação acrítica porque pensada para formar robôs alienados.
Não é esta a educação que precisamos. Precisamos de gente comprometida, gente criativa, gente colaborativa, gente que compreenda que construir o futuro é, sobretudo, uma aposta no presente. É a criança do presente que me motiva; é o jovem do presente que me anima; é o adulto do presente que me provoca; é o velho do presente que me movimenta. Se cada fase for bem tratada, humanos novos surgirão para dar continuidade ao mundo que iremos construir.

Daniel Munduruku
Lorena, verão de 2020.

24 de jan. de 2020

Quem tem medo do bobo mau?

QUEM TEM MEDO DO BOBO MAU?
Daniel Munduruku
 
Estamos todos indignados com a fala do presidente a respeito dos povos indígenas. Sei que deveria estar também e estou. Estou sem estar, na verdade. Primeiro porque nunca imaginei nada diferente saído da boca de alguém com este histórico de vida. Segundo, porque não se pode esperar que nasçam pérolas de latrinas mentais. Terceiro, porque a formação que ele tem é tão pobre que ele só sabe repetir impropérios, embora ele não saiba o que isso signifique.
Seria como imaginar que ele pudesse nomear alguém para a área da cultura que não odiasse a cultura. Ou para a pasta do meio ambiente um ser que não fosse tão mesquinho, ignóbil e sem noção como o seu atual titular. O que se pode esperar de alguém que indica para o ministério da educação um quase analfabeto?
O infeliz, como se pode notar, nunca cresceu de fato. Ele é de uma geração que aprendeu preconceitos e estereótipos e não consegue se livrar deles porque isso exigiria que se tornasse tolerante, respeitoso, humano. Mas isso dá trabalho demais. Isso exige leitura demais e já sabemos que livros têm letras demais que lhe embaralha as ideias. Pensar cansa e ele está acostumado a cumprir ordens (de militares ou do Trump).
Peço que desculpem minha falta de indignação. É que, graças ao esforço de toda a sociedade civil organizada e consciente, um tipo como ele está sendo deixado para trás. Eu sei que está. Quando vejo as crianças ansiosas em aprender com nossas histórias; felizes por lerem nossos livros; satisfeitas por dançarem nossas danças ou verem os filmes que fazemos, uma esperança me invade. Quando vou às escolas e vejo a ação dos educadores acontecendo, sei que logo teremos uma geração capaz de dar uma resposta mais positiva, digna e humana a estes desmandos.
Continuemos a trabalhar. Governos passam, mas a história continua. Nossa gente sempre soube responder a esse tipo de pária social com mais empenho e participação. Com mais luta e resistência. Com mais arte e rito. Apenas digo: estejamos preparados para responder com criatividade. O que este energúmeno disse sobre nós é a cara dele e de seus asseclas. Isso nada tem a ver com a sociedade brasileira que nos vê como parte dela porque sabe que ela é parte de nós.

17 de jan. de 2020

Eu proponho

Eis aqui uma verdadeira proposta de governo para as próximas eleições municipais.

EU PROPONHO

Que o ministro das relações exteriores,
ao invés de produto interno bruto,
trate bem das questões interiores,
essas tantas isentas de tributo

Que se ocupe, o distinto Ministério,
em criar fundamentos exitosos
Sentimentos comuns aos hemisférios
com base em tratados amistosos

Eu proponho:
estabeleça-se a lei fundamental
sob os pressupostos da poesia
Que haja em toda casa uma recital
inda pela manhã e ao fim do dia

E que toda criança em formação
conheça, com prazer, um instrumento
e aprenda a tocar, com emoção,
os acordes do santíssimo invento

O presente decreto, faça-se cumprir em todos os povos
sob as penas da lei já em vigor,
pra que, em breve, se tenham humanos novos
a cuidar desse mundo com amor.
 

Socorro Lira 
Aquarelar, 2007. Edição da autora

5 de jan. de 2020

PARA ALÉM DOS MUSEUS, A MEMÓRIA






Recentemente foi noticiado o fato de que lideranças do povo Munduruku estiveram em um Museu de História Natural de Alta Floresta/MT de onde retiraram as “urnas funerárias” da instituição. As tais urnas haviam sido surrupiadas do território dessa gente quando da construção das Usinas Hidrelétricas Teles Pires e São Manoel.
Segundo consta, para a construção da referida barragem foram necessárias a destruição de lugares considerados sagrados pela gente Munduruku, apesar dos protestos e das negociações em curso para que tal ação não ocorresse, pois incidiria sobre a sua crença ancestral.
Conversa vai, promessa vem o consórcio vencedor do certame garantira que nada iria ocorrer sem a devida autorização dos indígenas Munduruku. Isso, claro, não foi cumprido. Aliás, não faz parte manter palavra para quem só pensa em dinheiro. O ato se consumou e as urnas foram retiradas e levadas para o museu acima citado.
Acontece que com as “formigas guerreiras” não se brinca e nem se faz promessa vazia.  Cerca de 70 guerreiros e guerreiras, alicerçados na crença de que não se pode prender os espíritos da natureza, se dirigiram ao Museu de História Natural de Alta Floresta – MT e reivindicaram a devolução dos objetos para seu lugar de origem.
O objetivo era muito claro: estabelecer o equilíbrio entre o homem e a natureza; devolver os espíritos para seu lugar de origem para que tudo voltasse ao seu estado normal. Somente assim a paz pode reinar.
Refletindo cá com meus botões fico imaginando o que passa na cabeça dessa gente que acha que pode colonizar a crença das pessoas; acha que pode entrar na casa dos outros e saquear tudo e ainda pensar que “está fazendo o bem”. Penso que há muito o que descolonizar para que, quem sabe, a gente consiga harmonizar nossas existências.
Para quem pensa que “objetos são apenas objetos” e que por isso podem virar produtos, costumo lembrar que, para além dos museus, existe a memória viva. É ela quem nos torna partes do mundo em que vivemos. É ela que nos permite compreender quem somos e porque estamos neste mundo. Nossa memória não tem preço. Nossos ancestrais estão vivos em nós. Sawé!
Quem desejar ler as justificativas dadas pelos Munduruku para sua ação de “reintegração sagrada de posse” basta visitar o site: https://movimentoiperegayu.wordpress.com/2019/12/30/resgate-das-itiga-pelo-povo-munduruku/?fbclid=IwAR0hmQ4HY1B49bJe2hKDv6xlektgsWMUGT1IYdrdVMZLbcOtHs4TUkXyGwY

3 de jan. de 2020

O QUE ACONTECE À TERRA ACONTECE AOS FILHOS DA TERRA


O QUE ACONTECE À TERRA ACONTECE AOS FILHOS DA TERRA
(Daniel Munduruku)
Os sábios dos povos ancestrais costumam nos ensinar que todas as coisas estão ligadas entre si e que tudo “o que acontece à Terra acontece também aos Filhos da Terra”. Eles costumam lembrar que tudo está ligado como numa grande teia. Se algo acontece a um único fio, a teia inteira fica abalada.
Sei que a maioria das pessoas não conseguem compreender essa explicação por estar muito acostumada com a leitura da realidade a partir de seu próprio eu. Por conta disso não consegue admitir que a queimada da Amazônia ou da Austrália; a perseguição às lideranças populares ou às comunidades indígenas; o excesso de poluentes jogadas na atmosfera e o lixo plástico atirado nos oceanos; o assassinato promovido pelo presidente americano e o descaso com os direitos humanos do presidente brasileiro fazem parte de um mesmo movimento de destruição da vida, como a conhecemos.
A maioria não consegue perceber que o neoliberalismo é um sistema que nega o princípio do direito coletivo porque supervaloriza o egoísmo oriundo da falsa ideia do mérito individual.
Precisamos voltar a acreditar que somos parte da teia da vida; somos um dos seus fios; apenas um fio, mas sem ele a teia fica incompleta. Precisamos voltar a acreditar que o que acontece há dezenas de milhares de quilômetros têm a ver diretamente com cada um de nós.
Estou dizendo isso para lembrar que não podemos ficar indiferentes aos acontecimentos globais. Não podemos e nem devemos aceitar que uma única versão de história nos impunha a verdade. Não devemos aceitar que um sistema financeiro dê ordem sobre todas as outras formas de fazer economia. É assim que penso. É assim que ajo. É para isso que trabalho. Não admito fechar os olhos para tudo o que acontece ao meu redor, especialmente se fere a dignidade da pessoa humana e dos seres não-humanos.

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...