31 de dez. de 2013
20 de dez. de 2013
19 de dez. de 2013
Defendido o primeiro TCC de um aluno indígena na UFPA
Um momento histórico para a Universidade Federal do Pará. Foi realizada, nesta quinta-feira, 12, a primeira defesa de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de um estudante indígena na Instituição. O discente da etnia Tembé, Jorge Alberto Sarmento dos Santos, em conjunto com o colega Cristiano Aguiar, defendeu o trabalho intitulado “Contabilidade em Instituição Indígena: um estudo da prestação de contas da Associação do Grupo Indígena Tembé das Aldeias Sede e Ituaçu (Agitasi)”, orientado pela professora Tany Ingrid Sagredo Marin.
A defesa ocorreu no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (Icsa) da UFPA. O estudante recebeu conceito excelente e irá se formar em Ciências Contábeis. O estudo mostra como a contabilidade pode ajudar na administração da Associação Agitasi, das aldeias Tembé, a fim de contribuir para sua melhoria.
Marco - “Este é um marco para a Universidade, porque é o primeiro indígena a se formar a partir de um programa da Instituição. Ele só está aqui porque foi criado um programa que facilitou o seu acesso ao conhecimento, o qual foi criado, também, a partir das solicitações dos povos indígenas. Esta é mais uma conquista que nós tivemos, pois é justamente o ensino superior que nos permite ganhar novas lideranças para compor nossos quadros de funcionalismo. Sair daqui com o diploma em mãos é, também, a possibilidade de cumprirmos com o nosso papel de cidadão, como indígena , para a nossa aldeia e os nossos povos”, disse Edimar Fernandes.
Incentivos - Além do Processo Seletivo, a UFPA também oferece alguns incentivos para a permanência dos estudantes de origem indígena, como o Programa Auxílio Permanência Estudantil Especial, que visa atender demandas, como moradia, transporte, alimentação e aquisição de material didático. Os alunos indígenas podem, também, solicitar à Instituição alimentação gratuita no Restaurante Universitário.
Texto: Beatriz Santos/ Assessoria de Comunicação da UFPA
Fotos: Laís Teixeira
Fotos: Laís Teixeira
13 de dez. de 2013
Povos indígenas no Brasil e a sua literatura
Matéria publicada em 15/04/2013 - http://www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br/preunivesp/4817/povos-ind-genas-no-brasil-e-a-sua-literatura.html
A escrita foi um instrumento importante para que uma nova visão sobre os indígenas fosse despertada na sociedade brasileira
Por Daniel Munduruku*
Mor
Há no Brasil uma grande diversidade de povos nativos. Segundos os estudiosos, no século XVI – quando os europeus chegaram por aqui – havia mais de mil povos diferentes e eram faladas cerca de novecentas línguas. Nós aprendemos, no entanto, que aqui existiam apenas “índios”. Aprendemos errado. Não nos ensinaram que cada povo é diferente, mesmo que tenham coisas parecidas, mesmo que sejam parecidos fisicamente, mesmo que tenham hábitos de vida que se pareçam. Aconteceu, assim, que acabamos acreditando que “todos os índios são iguais” e, junto com essa crença, vieram as ideias pejorativas e equivocadas sobre os nativos: que eles são preguiçosos, selvagens, atrasados, perigosos, traiçoeiros etc.
Durante toda história do Brasil, a figura do “índio” sempre foi diminuída. Algumas vezes, ele era apresentado como sinônimo de atraso cultural; outras, como selvagem, que atrapalhava o desenvolvimento econômico. Chegou a ser utilizado como mão de obra escrava e também foi retratado na literatura como um ser que vivia num paradisíaco “estado de natureza”, ou seja, mais próximo do natural. A isso chamamos de visão romântica, que até nossos dias muitas pessoas têm. Esse tipo de olhar sobre estes povos acabou direcionando as pessoas para uma compreensão equivocada sobre os indígenas: ou você é “índio” e vive como antigamente (na mata, pelado, caçando ou pescando, andando de canoa, vendo as horas passarem olhando o céu), ou você se integra à sociedade dita civilizada e deixa de ser “índio”. Para quem pensa desse modo, quando algum indígena estuda ou se destaca em algum setor da vida urbana (literatura, cinema, música, meio ambiente) ele logo é taxado de “civilizado”.Pode parecer estranha essa afirmação, mas ainda é comum nos dias de hoje as pessoas pensarem que, ao usufruir dos recursos das cidades, os indígenas – e não simplesmente índios – deixam de ser o que são e passam a ser o que não são. Estranho, não? Mas é verdade.
Isso revela uma triste realidade: o Brasil não conhece seus povos indígenas. Não sabe que há um processo humano que acontece em todas as culturas e que faz com que elas se transformem, mudem e se adaptem aos novos tempos. Se isso não acontecer, a cultura desaparece e aí é o fim de uma história que foi construída ao longo de muitos milênios – e isso não é justo. Claro que muitas culturas desapareceram vítimas da violência dos colonizadores, dizimadas por doenças que não conheciam, ou por conta da escravização a que foram submetidas. Algumas tiveram que se esconder, se misturando nas cidades que surgiam. Isso aconteceu especialmente no Nordeste brasileiro, região que primeiro sofreu o impacto da colonização. Os povos que quiseram se manter vivos tiveram que se misturar e “fingir” que tinham mudado sua cultura e aceitado a cultura urbana. Hoje em dia, quando vemos um indígena nordestino e esquecemos sua história, logo imaginamos que ele não é mais “índio”. É um erro pensar assim, pois não se leva em consideração a história vivida pelos antepassados dessa pessoa.
O que temos no Brasil de hoje é uma diversidade de culturas indígenas que vêm resistindo bravamente ao processo histórico. São mais de 250 povos – e não tribos – espalhados por todas as regiões brasileiras. São grupos humanos que dependem daquilo que a natureza lhes oferece para sua sobrevivência. Nem todos estão na Amazônia, como às vezes as pessoas acreditam. Estão vivendo em todos os biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Cerrado) e falam cerca de 180 línguas e dialetos. Algumas dessas línguas fazem parte de um mesmo tronco linguístico e podem ser mutuamente entendidas. Outras são muito diferentes e quase ninguém as entende e por isso são chamadas de línguas isoladas. Também se acredita que há aproximadamente 60 grupos indígenas que nunca tiveram contato com o povo da cidade.
São povos que procuram atualizar suas culturas para continuarem vivos, utilizando as novas tecnologias. Com elas podem mostrar como e onde vivem, qual o tamanho das suas terras. Também denunciam o descaso do poder público, a invasão de seus territórios, a destruição da natureza. Fazem isso usando a internet, os celulares, as câmeras de vídeos e a literatura, que é o que mais nos interessa nessa conversa.
Literatura como instrumento de conscientização
É sabido que os povos indígenas nunca criaram uma escrita elaborada, por exemplo, com um alfabeto, como na língua portuguesa. Não inventaram porque não precisavam, e não por falta de criatividade ou de inteligência: o sistema de transmissão oral simplesmente lhes parecia suficiente para viverem bem. No entanto, ao serem obrigados a conviver com a sociedade dita letrada – que tem na escrita um importante instrumento de transmissão cultural –, tiveram que dominar essa técnica, frequentando a escola formal para isso.
Alguns foram adiante e frequentaram cursos superiores – há inclusive os que são pós-graduados e atuam como professores universitários. Enfim, aprender a escrever e utilizar a escrita como instrumento de conscientização foi um passo importante para que estes povos passassem a influenciar a sociedade brasileira, no sentido de dar um novo olhar sobre a diversidade indígena, sua riqueza e sua magia. A literatura é um dos meios de fazer isso. Os indígenas contam histórias que ouviram antigamente, criam romances, aventuras, poesia. Estes textos falam do tempo dos antepassados, mas falam também do presente, da saudade de casa, dos amigos. Contam aventuras vividas, ouvidas ou lidas; revelam sabedorias antigas; ensinam fórmulas de remédios ou receitas de alimento. Enfim, são leituras que podem revelar um lado pouco conhecido de nossa gente nativa, e, ao mesmo tempo, são fundamentais para que se possa compreender, aceitar e respeitar o que pode lhe parecer diferente. Na verdade, o que você irá encontrar é apenas outro jeito de ser humano.
Para quem quiser conhecer essa literatura, existem mais de 30 autores indígenas com livros publicados. Alguns deles são:
Yaguarê Yamã – povo Maraguá – Amazônia – 17 livros
Olívio Jekupe – Povo Guarani – São Paulo – 12 livros
Roni Wasiry Guará – Povo Maraguá – Amazônia – 05 livros
Graça Graúna – Povo Potiguara – Rio Grande do Norte – 05 livros
Eliane Potiguara – Povo Potiguara – Pernambuco – 05 livros
Cristino Wapichana – Povo Wapichana – Roraima – 03 livros
*Daniel Munduruku é diretor-presidente do Inbrapi, Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual. É filósofo e pós-doutorando em literatura na Universidade Federal de São Carlos. É escritor com obras voltadas para a divulgação do pensamento indígena. Foi um dos coordenadores do curso de Magistério Indígena do Estado de São Paulo.
6 de dez. de 2013
TÁ NA PAUTA II: DUAS FEIRAS LITERÁRIAS
ÁGUA NOVA – RIO GRANDE DO
NORTE
Esta semana que finda passei por mais dois lugares
participando de feiras literárias.
| Crianças apresentam acróstico de Daniel Munduruku |
Água Nova é uma pequena e simpática cidade de não mais de três
mil habitantes, segundo meu guia turístico e motorista. Como em muitas cidades
brasileiras, nasceu a partir das paradas de boiadeiros que, segundo consta, ali
permaneciam por conta da qualidade da água que jorrava de uma fonte local. Assim
nasceu o povoado que se emancipou há cinquenta anos atrás e agora vive de
comércio e agricultura.
| Palestra |
Apesar de ser uma
cidade pequena e encravada no coração do sertão nordestino – o que poderia torna-la
“apenas” mais uma cidade que reclama da sorte – Água Nova acolhe gente de
valor; gente que acredita em gente; gente que não está disposta a aceitar um
destino sem lutar. Lá tem gente que acredita na literatura como instrumento de
transformação e que quer ver as crianças e jovens bem preparados para um mundo
em transformação. E foi isso que encontrei por lá: gente acolhedora, gente
batalhadora, gente que faz, que cria caminhos e alimenta sonhos.
| Palestra em Água Nova |
Em Água Nova participei da II Feira Literária organizada por
pessoas físicas, apoiada por algumas pessoas jurídicas. Pouco recurso, muita
alegria. Pouca infraestrutura, muita descontração. Pouca gente? Não. Muita gente.
Um público acolhedor, participativo, informado. Show de bola, como se diz. Tudo
aconteceu no pátio de uma escola pública por não possuir infraestrutura para
acolher um público maior. Deu certo.
Confesso minha boa impressão. Confesso meu abestalhamento
pela organização e pela programação muito bem montada e conduzida com atrações que
mostravam bem a cara nordestina e também o desejo de tornar a literatura como um
caminho. Um bom caminho. Além de tudo isso ainda fiz novas e lindas amizades
como as dos cordelistas Antonio Francisco e Arievaldo Vianna,
grandes recitadores e contadores de causos; o mineiro radicado em Natal José de
Castro, professor universitário e escritor.
Felicito Sédima França e Qeutre Bezerra. Felicito a cidade
pela iniciativa. No final, quem ganhou fui eu.
VI A MÃO –
RIO GRANDE DO SUL
| Igreja Matriz |
De Água Nova fui
direto à Porto Alegre. Parei antes em Guarulhos para trocar de mala. Apenas parada
técnica, como se diz no jargão esportivo. Isso porque a cidade de Viamão me
aguardava para participar da 10ª Feira Literária da cidade. Outra realidade
geográfica, outro público, outra cidade, dois extremos. Podia até soar um juízo
de valor, mas confesso que em uma e outra as coisas aconteceram realmente de
modo diferente. Não dá para comparar sem emitir juízo de valor por isso não farei
nenhuma comparação para não parecer parcial.
| Centro de Tradições |
| Visão geral da feira |
Viamão é uma cidade relativamente próxima de Porto Alegre
sendo possível, inclusive, hospedar-se na grande cidade e seguir de carro para
lá. Foi o que aconteceu. Os convidados ficaram alojados na capital e se
movimentavam para o evento que acontecia na praça central. Ali foram erguidas as
tendas para receber o público das escolas municipais que se organizaram para
assistir as apresentações culturais e palestras que aconteciam na praça e no salão paroquial da igreja matriz. Tudo b em
organizado, como deve ser.
| Palestra no salão paroquial |
| Salão Paroquial |
Ali fiz duas falas. A primeira
para um grupo de crianças no espaço montado na praça. Havia alguma dispersão e
o público não foi tão intenso na participação. Dei meu recado. A tarde, no salão
paroquial, fiz outra roda de conversa. Essa foi mais interessante e interativa.
O bom grupo de crianças participou intensamente. Muito bom.
Gostei de participar também desse momento literário. Revi amigos
escritores, conheci pessoas interessantes e também refleti sobre o grande
trabalho que ainda temos que fazer no sentido de conscientizar o magistério
sobre a temática indígena. Muita coisa precisa ser feita.
| Visão geral dos estandes |
| Casa Açoreana |
Por curiosidade quis
saber por que a cidade tem este nome. A resposta que me deram as duas pessoas para
quem perguntei foi a mesma: do alto do morro em que a cidade foi fundada, vê os
cinco formadores do rio Guaíba. De lá vê-se os rios em forma de mão. De lá se
gritava: vi a mão, vi a mão. Era um boa notícia.
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