19 de dez. de 2013

Defendido o primeiro TCC de um aluno indígena na UFPA



Um momento histórico para a Universidade Federal do Pará.  Foi realizada, nesta quinta-feira, 12, a primeira defesa de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de um estudante indígena na Instituição. O discente da etnia Tembé, Jorge Alberto Sarmento dos Santos, em conjunto com o colega Cristiano Aguiar, defendeu o trabalho intitulado “Contabilidade em Instituição Indígena: um estudo da prestação de contas da Associação do Grupo Indígena Tembé das Aldeias Sede e Ituaçu (Agitasi)”, orientado pela professora Tany Ingrid Sagredo Marin.
A defesa ocorreu no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (Icsa) da UFPA. O estudante recebeu conceito excelente e irá se formar em Ciências Contábeis. O estudo mostra como a contabilidade pode ajudar na administração da Associação Agitasi, das aldeias Tembé, a fim de contribuir para sua melhoria.
Prestação de contas - O presidente da Associação dos Povos Indígenas Estudantes da UFPA, professor Edimar Fernandes, comentou as dificuldades enfrentadas por esses povos em relação ao tema levantado pelas pesquisas de Jorge Alberto.“Esses povos enfrentam vários problemas com a prestação de contas de diversos projetos, além das contas financeiras da própria associação, que precisam ser feitas anualmente. A associação existe, porém é preciso fazer com que ela continue funcionando e, para isso, é necessário que ela se adapte às legislações e normas existentes da sociedade não indígena, já que a associação não é uma ferramenta que faz parte da cultura indígena”, explicou.
Acesso ao Ensino Superior - Em todo o Pará, existem cerca de 60 povos indígenas. Para possibilitar o acesso de indígenas ao ensino superior, a UFPA realiza, desde 2010, o Processo Seletivo Especial para Povos Indígenas, para o qual a Universidade destina duas vagas a mais em todos os cursos de graduação da Instituição a candidatos de origem indígenas.
Marco - “Este é um marco para a Universidade, porque é o primeiro indígena a se formar a partir de um programa da Instituição. Ele só está aqui porque foi criado um programa que facilitou o seu acesso ao conhecimento, o qual foi criado, também, a partir das solicitações dos povos indígenas. Esta é mais uma conquista que nós tivemos, pois é justamente o ensino superior que nos permite ganhar novas lideranças para compor nossos quadros de funcionalismo. Sair daqui com o diploma em mãos é, também, a possibilidade de cumprirmos com o nosso papel de cidadão, como indígena , para a nossa aldeia e os nossos povos”, disse Edimar Fernandes.
Para o futuro contador Jorge Alberto Santos, “é uma realização tanto pessoal quanto profissional e, ainda, uma realização para o povo indígena. Eu vim indicado pelos meus parentes e pelos caciques da minha aldeia, e sempre procurei cumprir tudo direito, dando o meu melhor, pois tem o meu povo que confia em mim, eu não podia desapontá-los. Graças a Deus deu tudo certo, finalizei o curso com este conceito excelente, espero levar esses conhecimentos para lá e trabalhar na minha comunidade. Só quero voltar para minha aldeia, pois não aguento mais a cidade!”, falou em tom saudosista o indígena de origem Tembé.
Incentivos - Além do Processo Seletivo, a UFPA também oferece alguns incentivos para a permanência dos estudantes de origem indígena, como o Programa Auxílio Permanência Estudantil Especial, que visa atender demandas, como moradia, transporte, alimentação e aquisição de material didático. Os alunos indígenas podem, também, solicitar à Instituição alimentação gratuita no Restaurante Universitário.
Texto: Beatriz Santos/ Assessoria de Comunicação da UFPA
Fotos: Laís Teixeira

13 de dez. de 2013

Povos indígenas no Brasil e a sua literatura

Matéria publicada em 15/04/2013 - http://www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br/preunivesp/4817/povos-ind-genas-no-brasil-e-a-sua-literatura.html

A escrita foi um instrumento importante para que uma nova visão sobre os indígenas fosse despertada na sociedade brasileira

Por Daniel Munduruku*
Povos indígenas no Brasil e a sua literatura
Mor
Há no Brasil uma grande diversidade de povos nativos. Segundos os estudiosos, no século XVI – quando os europeus chegaram por aqui – havia mais de mil povos diferentes e eram faladas cerca de novecentas línguas. Nós aprendemos, no entanto, que aqui existiam apenas “índios”. Aprendemos errado. Não nos ensinaram que cada povo é diferente, mesmo que tenham coisas parecidas, mesmo que sejam parecidos fisicamente, mesmo que tenham hábitos de vida que se pareçam. Aconteceu, assim, que acabamos acreditando que “todos os índios são iguais” e, junto com essa crença, vieram as ideias pejorativas e equivocadas sobre os nativos: que eles são preguiçosos, selvagens, atrasados, perigosos, traiçoeiros etc.
Durante toda história do Brasil, a figura do “índio” sempre foi diminuída. Algumas vezes, ele era apresentado como sinônimo de atraso cultural; outras, como selvagem, que atrapalhava o desenvolvimento econômico. Chegou a ser utilizado como mão de obra escrava e também foi retratado na literatura como um ser que vivia num paradisíaco “estado de natureza”, ou seja, mais próximo do natural. A isso chamamos de visão romântica, que até nossos dias muitas pessoas têm. Esse tipo de olhar sobre estes povos acabou direcionando as pessoas para uma compreensão equivocada sobre os indígenas: ou você é “índio” e vive como antigamente (na mata, pelado, caçando ou pescando, andando de canoa, vendo as horas passarem olhando o céu), ou você se integra à sociedade dita civilizada e deixa de ser “índio”. Para quem pensa desse modo, quando algum indígena estuda ou se destaca em algum setor da vida urbana (literatura, cinema, música, meio ambiente) ele logo é taxado de “civilizado”.
Pode parecer estranha essa afirmação, mas ainda é comum nos dias de hoje as pessoas pensarem que, ao usufruir dos recursos das cidades, os indígenas – e não simplesmente índios – deixam de ser o que são e passam a ser o que não são. Estranho, não? Mas é verdade.
Isso revela uma triste realidade: o Brasil não conhece seus povos indígenas. Não sabe que há um processo humano que acontece em todas as culturas e que faz com que elas se transformem, mudem e se adaptem aos novos tempos. Se isso não acontecer, a cultura desaparece e aí é o fim de uma história que foi construída ao longo de muitos milênios – e isso não é justo. Claro que muitas culturas desapareceram vítimas da violência dos colonizadores, dizimadas por doenças que não conheciam, ou por conta da escravização a que foram submetidas. Algumas tiveram que se esconder, se misturando nas cidades que surgiam. Isso aconteceu especialmente no Nordeste brasileiro, região que primeiro sofreu o impacto da colonização. Os povos que quiseram se manter vivos tiveram que se misturar e “fingir” que tinham mudado sua cultura e aceitado a cultura urbana. Hoje em dia, quando vemos um indígena nordestino e esquecemos sua história, logo imaginamos que ele não é mais “índio”. É um erro pensar assim, pois não se leva em consideração a história vivida pelos antepassados dessa pessoa.
O que temos no Brasil de hoje é uma diversidade de culturas indígenas que vêm resistindo bravamente ao processo histórico. São mais de 250 povos – e não tribos – espalhados por todas as regiões brasileiras. São grupos humanos que dependem daquilo que a natureza lhes oferece para sua sobrevivência. Nem todos estão na Amazônia, como às vezes as pessoas acreditam. Estão vivendo em todos os biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Cerrado) e falam cerca de 180 línguas e dialetos. Algumas dessas línguas fazem parte de um mesmo tronco linguístico e podem ser mutuamente entendidas. Outras são muito diferentes e quase ninguém as entende e por isso são chamadas de línguas isoladas. Também se acredita que há aproximadamente 60 grupos indígenas que nunca tiveram contato com o povo da cidade. 
São povos que procuram atualizar suas culturas para continuarem vivos, utilizando as novas tecnologias. Com elas podem mostrar como e onde vivem, qual o tamanho das suas terras. Também denunciam o descaso do poder público, a invasão de seus territórios, a destruição da natureza. Fazem isso usando a internet, os celulares, as câmeras de vídeos e a literatura, que é o que mais nos interessa nessa conversa.
Literatura como instrumento de conscientização
É sabido que os povos indígenas nunca criaram uma escrita elaborada, por exemplo, com um alfabeto, como na língua portuguesa. Não inventaram porque não precisavam, e não por falta de criatividade ou de inteligência: o sistema de transmissão oral simplesmente lhes parecia suficiente para viverem bem. No entanto, ao serem obrigados a conviver com a sociedade dita letrada – que tem na escrita um importante instrumento de transmissão cultural –, tiveram que dominar essa técnica, frequentando a escola formal para isso. 
Alguns foram adiante e frequentaram cursos superiores – há inclusive os que são pós-graduados e atuam como professores universitários. Enfim, aprender a escrever e utilizar a escrita como instrumento de conscientização foi um passo importante para que estes povos passassem a influenciar a sociedade brasileira, no sentido de dar um novo olhar sobre a diversidade indígena, sua riqueza e sua magia. A literatura é um dos meios de fazer isso. Os indígenas contam histórias que ouviram antigamente, criam romances, aventuras, poesia. Estes textos falam do tempo dos antepassados, mas falam também do presente, da saudade de casa, dos amigos. Contam aventuras vividas, ouvidas ou lidas; revelam sabedorias antigas; ensinam fórmulas de remédios ou receitas de alimento. Enfim, são leituras que podem revelar um lado pouco conhecido de nossa gente nativa, e, ao mesmo tempo, são fundamentais para que se possa compreender, aceitar e respeitar o que pode lhe parecer diferente. Na verdade, o que você irá encontrar é apenas outro jeito de ser humano.
Para quem quiser conhecer essa literatura, existem mais de 30 autores indígenas com livros publicados. Alguns deles são: 
Yaguarê Yamã – povo Maraguá – Amazônia – 17 livros
Olívio Jekupe – Povo Guarani – São Paulo – 12 livros
Roni Wasiry Guará – Povo Maraguá – Amazônia – 05 livros
Graça Graúna – Povo Potiguara – Rio Grande do Norte – 05 livros
Eliane Potiguara – Povo Potiguara – Pernambuco – 05 livros
Cristino Wapichana – Povo Wapichana – Roraima – 03 livros

*Daniel Munduruku é diretor-presidente do Inbrapi, Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual. É filósofo e pós-doutorando em literatura na Universidade Federal de São Carlos. É escritor com obras voltadas para a divulgação do pensamento indígena. Foi um dos coordenadores do curso de Magistério Indígena do Estado de São Paulo.

6 de dez. de 2013

TÁ NA PAUTA II: DUAS FEIRAS LITERÁRIAS


ÁGUA NOVA – RIO GRANDE DO NORTE
Esta semana que finda passei por mais dois lugares participando de feiras literárias.
Crianças apresentam acróstico de Daniel Munduruku
A primeira foi em Água Nova, no sertão do Rio Grande do Norte. Para chegar lá aterrissei antes na bela Juazeiro do Norte, no Ceará. De lá segui de automóvel por três horas admirando a surpreendente paisagem sertaneja que se descortinava à minha frente enquanto ouvia um pout pourri de músicas regionais orquestrada pelo simpático e agora querido amigo Calixto.
Para chegar à pequena cidade encravada no coração do sertão passamos ainda por um pequeno trecho da Paraíba, próximo à cidade de Sousas, lugar onde já estive participando de um evento do Ministério da Cultura tempos atrás.
Água Nova é uma pequena e simpática cidade de não mais de três mil habitantes, segundo meu guia turístico e motorista. Como em muitas cidades brasileiras, nasceu a partir das paradas de boiadeiros que, segundo consta, ali permaneciam por conta da qualidade da água que jorrava de uma fonte local. Assim nasceu o povoado que se emancipou há cinquenta anos atrás e agora vive de comércio e agricultura.
Palestra 
Apesar de ser uma cidade pequena e encravada no coração do sertão nordestino – o que poderia torna-la “apenas” mais uma cidade que reclama da sorte – Água Nova acolhe gente de valor; gente que acredita em gente; gente que não está disposta a aceitar um destino sem lutar. Lá tem gente que acredita na literatura como instrumento de transformação e que quer ver as crianças e jovens bem preparados para um mundo em transformação. E foi isso que encontrei por lá: gente acolhedora, gente batalhadora, gente que faz, que cria caminhos e alimenta sonhos.
Palestra em Água Nova
Em Água Nova participei da II Feira Literária organizada por pessoas físicas, apoiada por algumas pessoas jurídicas. Pouco recurso, muita alegria. Pouca infraestrutura, muita descontração. Pouca gente? Não. Muita gente. Um público acolhedor, participativo, informado. Show de bola, como se diz. Tudo aconteceu no pátio de uma escola pública por não possuir infraestrutura para acolher um público maior. Deu certo.
Confesso minha boa impressão. Confesso meu abestalhamento pela organização e pela programação muito bem montada e conduzida com atrações que mostravam bem a cara nordestina e também o desejo de tornar a literatura como um caminho. Um bom caminho. Além de tudo isso ainda fiz novas e lindas amizades como as dos cordelistas Antonio Francisco e Arievaldo Vianna, grandes recitadores e contadores de causos; o mineiro radicado em Natal José de Castro, professor universitário e escritor.
Felicito Sédima França e Qeutre Bezerra. Felicito a cidade pela iniciativa. No final, quem ganhou fui eu.

VI A MÃO – RIO GRANDE DO SUL
Igreja Matriz
De Água Nova fui direto à Porto Alegre. Parei antes em Guarulhos para trocar de mala. Apenas parada técnica, como se diz no jargão esportivo. Isso porque a cidade de Viamão me aguardava para participar da 10ª Feira Literária da cidade. Outra realidade geográfica, outro público, outra cidade, dois extremos. Podia até soar um juízo de valor, mas confesso que em uma e outra as coisas aconteceram realmente de modo diferente. Não dá para comparar sem emitir juízo de valor por isso não farei nenhuma comparação para não parecer parcial.
Centro de Tradições
Visão geral da feira
Viamão é uma cidade relativamente próxima de Porto Alegre sendo possível, inclusive, hospedar-se na grande cidade e seguir de carro para lá. Foi o que aconteceu. Os convidados ficaram alojados na capital e se movimentavam para o evento que acontecia na praça central. Ali foram erguidas as tendas para receber o público das escolas municipais que se organizaram para assistir as apresentações culturais e palestras que aconteciam na praça  e no salão paroquial da igreja matriz. Tudo b em organizado, como deve ser.
Palestra no salão paroquial
Salão Paroquial
Ali fiz duas falas. A primeira para um grupo de crianças no espaço montado na praça. Havia alguma dispersão e o público não foi tão intenso na participação. Dei meu recado. A tarde, no salão paroquial, fiz outra roda de conversa. Essa foi mais interessante e interativa. O bom grupo de crianças participou intensamente. Muito bom.
Gostei de participar também desse momento literário. Revi amigos escritores, conheci pessoas interessantes e também refleti sobre o grande trabalho que ainda temos que fazer no sentido de conscientizar o magistério sobre a temática indígena. Muita coisa precisa ser feita.
Visão geral dos estandes
Casa Açoreana
Por curiosidade quis saber por que a cidade tem este nome. A resposta que me deram as duas pessoas para quem perguntei foi a mesma: do alto do morro em que a cidade foi fundada, vê os cinco formadores do rio Guaíba. De lá vê-se os rios em forma de mão. De lá se gritava: vi a mão, vi a mão. Era um boa notícia.



MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...