10 de abr. de 2020
3 de abr. de 2020
21 de mar. de 2020
MANIFESTO
Onde o tempo não é
linear impedindo que as pessoas desperdicem suas vidas correndo atrás de
riqueza e poder;
Onde cada fase de vida
é tratada como um processo que nunca mais se repetirá e por isso deve ser
vivida em sua plenitude;
Onde a relação com a
natureza não é de domínio, mas de convivência;
Onde as pessoas se
sentem solidárias umas às outras e capazes de partilhar seu pão e sua poesia;
Onde o passado é visto
e respeitado como memória e o presente como uma dádiva que precisa ser
usufruída e agradecida em todo momento;
Onde as crianças tudo
podem porque são educadas pelos velhos, que tudo sabem;
Onde os saberes são
partilhados pelas histórias contadas nas noites sem lua para nos lembrarem que
somos partes do mundo e não seus donos;
Onde, enfim, somos
desde que nascemos e nascemos para sermos inteiros, completos, não no futuro
distante, mas no agora, no presente, hoje...
Entendo
que é preciso valorizar todos os saberes;
Respeitar todas as
diferenças;
Estimular cada vida;
Aceitar a diversidade
de ideias;
Despertar cada
vocação;
Alimentar cada sonho;
E sonhar, sonhar,
sonhar.
Sonhar um sonho
possível de tolerância, respeito, dignidade, direitos.
Sonhar um mundo que
nos faça ter dignidade por acolher o que cada ser é.
Sonhar uma realidade
que seja composta de alegria, alimentada pela liberdade de ser, viver sem
competir para mostrar mérito sobre a outra pessoa.
Ah, como tenho o
desejo de construir uma realidade em que possamos, de fato, sermos mais por
sermos Um!
Alguém dirá que é
utopia. Dirá bem, dirá certo. É.
O mais legal é saber
que ela é possível. Eu a vivi. Eu vim de lá.
É o que quero oferecer
aqui. Esse é o bem viver que aprendi de minha gente. É ser Presente. É ser
parte. É pertencer. É me importar com meu lugar. É me comprometer com a minha
realidade. É não ficar indiferente. É não aceitar que digam que não posso
fazer. É ser livre. É entender que minha realização só é possível quando o
outro também se realiza. É ser solidário, solícito e coletivo.
Enfim, é Ser.
Daniel
Munduruku
Lorena, verão de 2020.
áudio deste texto pode ser ouvido em: https://www.youtube.com/watch?v=0uPZY7FVI_A
DEIXANDO QUE O OUTRO SEJA - Educação como prática de Liberdade
Educar é um ato heroico em qualquer cultura.
Talvez seja pelo fato de que educar exija que a
pessoa saia um pouco de si e vá ao encontro do outro; um outro desconhecido; um
outro anônimo; um outro que me questiona; um outro que me confronta com meus
próprios fantasmas, meus próprios medos, minha própria insegurança.
Talvez seja pelo fato que educar exija sacrifício,
exija renúncia de si, exija abandono, exija fé, exija um salto no escuro.
Talvez por isso seja algo para poucos.
Seja para pessoas que acreditam nas outras pessoas.
Seja para pessoas que não se acomodaram diante da
mesmice que a sociedade pede todos os dias.
Talvez por isso seja mais fácil encontrar
professores que educadores:
Professores são donos do conhecimento.
Educadores são mediadores.
Professores são profissionais do ensino.
Educadores fazem do ensino um estímulo para seu
crescimento pessoal.
Professores usam a palavra como instrumento.
Educadores usam o silêncio.
Professores batem as mãos na mesa.
Educadores batem o pé no chão.
Professores são muitos,
Educadores são Um.
O educador tem os pés no chão, mas sua cabeça está
sempre nas alturas porque acredita que quem está à sua frente não é um cliente
esperando para ser atendido, mas uma pessoa aguardando orientações para seguir
seus passos. Esta é a razão de ser do educador. Esta é sua esperança. E para
isso, o educador precisar ser inteiro, precisar ser completo, precisa estar em
sintonia consigo mesmo e com o universo.
Por isso é para poucos, mas não deveria ser assim.
O ideal era que toda sociedade estivesse voltada para a realização de todos e
não apenas para a de alguns privilegiados que se sentem como deuses e querem
decidir a vida das pessoas. O certo era que todo ser humano desenvolvesse seus
dons e talentos para o bem de todos e que não fosse algo extraordinário alguém
sobressair-se por causa de seu potencial artístico. Simplesmente deveria ser
assim com todos; deveria ser comum todos os seres poderem expressar sua alegria
de estar vivo sem precisar “vender” seus talentos para manter-se vivo.
Infelizmente, no entanto, a realidade que vivemos
foi “pensada” de um jeito tal que as pessoas são compreendidas como máquina de
ganhar de dinheiro, como objeto de consumo, como um monte de estrume que
servirá apenas de esterco para aqueles que dominam o sistema atual.
É preciso reverter este quadro. É preciso que os
professores criem uma consciência nova, dinâmica, ancestral para que um novo
jeito de pensar venha à tona e possa colocar em xeque uma sociedade que
desvaloriza o ser humano em detrimento do dinheiro, do acúmulo, do consumo. É
preciso que os professores virem educadores de verdade e possam despertar
nossos jovens para o futuro que se inscreve em nossa memória ancestral. Só
assim teremos um amanhã.
É nessa direção que se inscreve uma educação que se
queira libertadora, emancipadora. Compreender o outro, o aluno, o aprendente
como um ser livre, capaz de fazer suas próprias escolhas desde que lhe sejam
oferecidas ferramentas para perceber a realidade onde vive e, sobretudo, com
capacidade de olhar para trás, sentir-se integrado ao universo, para ter
condições de lançar-se para o tempo que há de vir. Para que isso aconteça, a
criança não deve ser cobrada para que seja outra coisa além de ser criança.
Para cada fase da vida, suas preocupações. Na educação sonhada, há uma única
verdade: nunca perguntar à criança o que ela vai ser quando crescer. Numa
sociedade que se queira equilibrada é preciso oferecer brincadeiras, jogos,
lazer, espaço, circularidade, música, arte, cooperação...É assim que uma
criança aprende, é assim que ela cresce equilibrada, é assim que ela conseguirá
responder aos desafios do mundo e da vida. É assim que ela crescerá livre.
Os educadores sabem que é assim que funciona.
Infelizmente a eles se tem cobrado resultados, números, aprovações, conteúdos.
A escola, no sistema atual, cobra dos educadores uma educação competitiva e não
colaborativa; uma educação para a produção e não para o ócio (tão necessário
para fazer brotar a criatividade); uma educação acrítica porque pensada para
formar robôs alienados.
Não é esta a educação que precisamos. Precisamos de
gente comprometida, gente criativa, gente colaborativa, gente que compreenda
que construir o futuro é, sobretudo, uma aposta no presente. É a criança do
presente que me motiva; é o jovem do presente que me anima; é o adulto do
presente que me provoca; é o velho do presente que me movimenta. Se cada fase
for bem tratada, humanos novos surgirão para dar continuidade ao mundo que
iremos construir.
Daniel Munduruku
Lorena, verão de 2020.
Áudio disponível em https://www.youtube.com/watch?v=xPcB2p3a7Hs
24 de jan. de 2020
Quem tem medo do bobo mau?
QUEM TEM MEDO DO BOBO MAU?
Daniel Munduruku
Estamos todos indignados com a fala do presidente a respeito dos povos indígenas. Sei que deveria estar também e estou. Estou sem estar, na verdade. Primeiro porque nunca imaginei nada diferente saído da boca de alguém com este histórico de vida. Segundo, porque não se pode esperar que nasçam pérolas de latrinas mentais. Terceiro, porque a formação que ele tem é tão pobre que ele só sabe repetir impropérios, embora ele não saiba o que isso signifique.
Seria como imaginar que ele pudesse nomear alguém para a área da cultura que não odiasse a cultura. Ou para a pasta do meio ambiente um ser que não fosse tão mesquinho, ignóbil e sem noção como o seu atual titular. O que se pode esperar de alguém que indica para o ministério da educação um quase analfabeto?
Peço que desculpem minha falta de indignação. É que, graças ao esforço de toda a sociedade civil organizada e consciente, um tipo como ele está sendo deixado para trás. Eu sei que está. Quando vejo as crianças ansiosas em aprender com nossas histórias; felizes por lerem nossos livros; satisfeitas por dançarem nossas danças ou verem os filmes que fazemos, uma esperança me invade. Quando vou às escolas e vejo a ação dos educadores acontecendo, sei que logo teremos uma geração capaz de dar uma resposta mais positiva, digna e humana a estes desmandos.
Continuemos a trabalhar. Governos passam, mas a história continua. Nossa gente sempre soube responder a esse tipo de pária social com mais empenho e participação. Com mais luta e resistência. Com mais arte e rito. Apenas digo: estejamos preparados para responder com criatividade. O que este energúmeno disse sobre nós é a cara dele e de seus asseclas. Isso nada tem a ver com a sociedade brasileira que nos vê como parte dela porque sabe que ela é parte de nós.
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