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2 de ago. de 2019
29 de jul. de 2019
BRASÍLIA MATOU O LÍDER WAIÃPI
A Semana começou muito
triste para mim. Não apenas pelo
assassinato de uma liderança tradicional no Amapá; pela invasão do território Waiãpi; pelas palavras infelizes de quem deveria proteger nossas vidas. Não apenas pela luta solitária dos parentes Munduruku do Pará que tiveram, apesar dos riscos que correram, que expulsar os invasores de seu território, já tão combalido pela exploração madeireira e pela deterioração trazida por projetos de construção de barragem e pela investida do agronegócio.
A semana começou
triste apenas por imaginar que isso tudo tende a piorar, por conta de tudo o
que se está propondo em Brasília e que diminuem, consideravelmente, a
possibilidade de nos tornarmos uma nação forte e soberana, com a qual tanto
sonhamos.
Minha tristeza
aumenta, na medida em que vou percebendo que as palavras perderam seu valor e
que a postura minimamente adequada, está se esvaindo de nossos entes públicos
(homens e mulheres).
Estou triste porque
percebo que as palavras, manipuladas por bocas espúrias, levam consigo a
discórdia, o temor, o ódio generalizado e a violência para o coração das
pessoas.
Percebo que as palavras,
manipuladas por um ser escroto, chega exatamente ao ouvido de outros escrotos e
os licenciam a invadir, agredir, ofender, atacar e matar, sem dó nem piedade,
brasileiros que se alimentam de sua ancestralidade.
Brasília está se
tornando uma voz de comando cruel e impiedoso contra todos brasileiros e brasileiras
que querem viver em paz, seguindo a ordem da Constituição e do direito.
Garimpeiros e
garimpeiras – brasileiros também – são apenas mãos de obra do capital e que serão
logo, logo dispensados de seu serviço de lacaios, de capitão-do-mato pelo outro
capitão, que não é do mato, mas apenas um lacaio do capital internacional. Esses,
não querem sujar as próprias mãos com o sangue dos indígenas. Deixam essa
tarefa para os brasileiros que pensam que são poderosos, por dominarem a
palavra de ordem, ops, de ódio.
Brasília, e seu
discurso de ódio, é a verdadeira assassina dos povos indígenas brasileiros.
PS: Que fique claro que não me refiro aos cidadãos brasilienses. A referência
à Brasília é uma referência ao poder instituído desde lá.
16 de jul. de 2019
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8 de jan. de 2019
4 de jan. de 2019
OS ÚLTIMOS SOCIALISTAS Ou por que perseguir os povos indígenas?
Esses dias lancei um vídeo falando sobre a importância
da FUNAI para os povos indígenas. Fiz no ímpeto de aproveitar o momento e
deixei passar alguns pensamentos que só depois me ocorreram.
É que não ouvi os discursos da posse no mesmo dia
em que foram proferidos. Dia primeiro de janeiro não é um dia bom para ouvir
discursos por melhores que sejam. “Domingo eu não sofro”, canta Bethânia e um
de seus discos. É a minha regra também. Dia feriado para mim é domingo.
No dia seguinte fui alertado para o fato de que o
governo tinha baixado uma MP em que transferia parte da Funai para o ministério
da agricultura e a outra parte para o da família. Ficamos entre duas ministras
que têm gana em destruir o meio ambiente. Uma é a musa do veneno e, a outra, a
musa da goiabeira.
Acontece que fui ler os discursos e vi o que parece
óbvio para todos: um presidente eleito e empossado repetindo discursos de
campanha como uma criança mimada que não sabe brincar de outra coisa. Foi, então,
que atinei para o que não é tão óbvio assim: fala em combater o socialismo ou o
lixo marxista. A princípio achei que isso tinha a ver com os governos mais à
esquerda, mas aos poucos fui percebendo que não se trata disso. Vejam se
acompanham meu raciocínio:
Nunca houve socialismo, de fato, no Brasil. Nunca houve
socialismo político, socialismo de estado. Desde a proclamação da república
nascida na rebarba do positivismo e que pregava o progresso natural da
humanidade, passando pelo trabalhismo de Vargas não houve possibilidade de se
aplicar as teorias socialistas no Brasil. Essas vozes se faziam ouvir e chegava
no ouvido do trabalhador e quando parecia que ia vingar, os militares fizeram
uma cruzada em torno da família, tradição e propriedade. Ou seja, defenderam o
capitalismo que o pós-guerra aperfeiçoou.
Foram 21 anos no poder repetindo o mantra máximo do
liberalismo econômico: desenvolvimento, crescimento, progresso, formação para o
mercado de trabalho. Os militares não contavam, no entanto, com o verdadeiro
comunismo que estava oculto no meio das árvores da floresta amazônica. Foi ali
que encontraram a maior, melhor e mais organizada resistência: guerreiros armados
com a força da Tradição (com T maiúsculo mesmo). Estes foram capazes de peitar
o regime militar porque estes sim eram como formigas (quem não pode com a
formiga não assanha o formigueiro).
Chegamos à abertura democrática. A direita assumiu
por muito tempo. Sarney fez muito pouco pelos indígenas (não assanhou o
formigueiro também); Collor chegou e foi obrigado a demarcar o território Yanomami;
FHC, um político moderado à esquerda, preferiu também não entregar a Amazônia
ao capital estrangeiro – embora tenha sido um privatizador - porque a primeira
dama, Ruth Cardoso, era quem dava as ordens nesse quesito. Passou em branco
(sem eufemismo).
A esquerda finalmente chegou ao poder. Seria para
comemorar. Finalmente todas as demarcações sairiam; reforma agrária; empoderamento
popular; meio ambiente preservado; educação para a cidadania plena;
universidades bem aparelhadas para finalmente termos a experiência socialista.
Isso nunca aconteceu. Lula – e depois Dilma –
conseguiram emplacar muito boas iniciativas, mas eles nunca foram socialistas. Foram,
quando muito, políticos com um pensamento de esquerda. A terra indígena nunca
foi demarcada; a Funai não passou para as mãos dos indígenas porque o sistema econômico
não permitiu que o fizesse; e outras ações, como na área da cultura, foram
apenas aparatos, esmolas oferecidas para que os indígenas não reclamassem. Reconhecia-se
a presença indígena, alimentava-se a sociedade brasileira com a cultura
indígena, fingia-se que ouvia os indígenas e até premiava-os com títulos
honoríficos ou acadêmicos, mas nunca permitiram que os indígenas participassem
da sociedade como parte da elite política. Nunca ouviram o modo indígena de
ser, suas ideias, seu bem viver. Isso seria novidade!
Bom, por que estou dizendo tudo isso? Para chegar à
explicação sobre o discurso do presidente. Quando garantiu que irá extirpar o
socialismo ele não se referia ao Lula e ao PT; não se referia à universidade e
seus profissionais; não se referia às ONGS com vertente social de esquerda. Embora
ela vá perseguir esses também, o foco do discurso está nos povos indígenas,
últimos bastiões de uma prática socialista que não parte da teoria, mas da
prática. Nesse caso, ele estava usando a máxima bíblica: “os últimos serão os
primeiros”. Ele tem que convencer a sociedade brasileira que os indígenas precisarão
se tornar brasileiros também. É a retórica dos militares. “Integrar para poder entregar”,
será o bordão do desenvolvimento dos tempos atuais.
Entenderam porque a primeira MP foi a desintegração
da Funai? Quer queiramos ou não, quer gostemos ou não, quer aceitemos ou não,
essa instituição é a única que compreende os complexos sistemas epistemológicos
que esses povos detêm; seus funcionários – a despeito das denúncias que se ouvem
a respeito – são devotados a esta causa porque são eles que dão as informações que
os indígenas precisam; que se sacrificam num trabalho insano que nenhum destes
homens de preto quer. Os funcionários da Funai – indígenas ou não – são socialistas.
Os povos indígenas são intrincadamente comunistas. Os últimos. A última
fronteira. O derradeiro obstáculo. Os guardiões. É a fronteira jamais vencida
pelo liberalismo econômico.
Talvez por isso sejamos, a partir de agora,
perseguidos como nunca. Faz parte do processo do abocanhamento necessário para
que o capitalismo se renove devastando não apenas árvores e gentes, mas um
pensamento que resiste além do tempo.
Estamos na resistência.
2 de jan. de 2019
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