23 de jun. de 2010

A tribo dos escritores e o jabuti

Querid@s,
Meus especiais agradecimentos pela presença de tod@s em nosso encontro. Foi um momento muito especial.
Para celebrar ainda mais estou enviando abaixo um belo artigo que o Bessa escreveu sobre o encontro.
Abraços DM.

  
Quem eram aqueles trinta e três índios e índias que nessa terça-feira, em plena Copa do Mundo, dia do jogo do Brasil contra a Coréia do Norte, desciam as ladeiras de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, caminhando sobre os paralelepípedos e os trilhos do bonde?
Todos vestiam camisa verde-amarela, o que levou os moradores do bairro a acharem, galvãobuenamente, que se tratava de torcida étnica organizada que ia ver a partida no telão da praça. Mas não era.
Embora todos torçam, com maior ou menor paixão, pela seleção brasileira, naquele momento o jogo era outro.
Na realidade, aqueles índios e índias, representantes de trinta etnias, saídos de diversos recantos do Brasil, iam para a abertura do 12º Salão do Livro para Crianças e Jovens, que aconteceu no Rio de 15 a 18 de junho.
Estavam hospedados em Santa Tereza e a camisa verde-amarela que trajavam era uma espécie de uniforme da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil (FNLIJ).
Eles e elas fazem parte de uma nova tribo que está surgindo no Brasil - a tribo dos escritores indígenas, cuja importância pode ser avaliada com uma simples consulta ao Pequeno Catálogo Literário de Obras de Autores Indígenas publicado pelo NEARIN - Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas. São centenas de livros bem ilustrados, com histórias maravilhosas.
Quando entrou em contato com algumas delas, na década de 1920, o escritor Raul Bopp registrou assim seu encantamento:
- “Foi uma revelação. Eu não havia lido nada mais delicioso. Era um idioma novo. A linguagem tinha, às vezes, uma grandiosidade bíblica. No seu mundo, as árvores falavam. O sol andava de um lado para outro. Os filhos do trovão levavam, de vez em quando, o verão para o outro lado do rio”.
Os ossos do som
Quem quis saborear essas histórias, não viu a Sérvia derrotar a Alemanha, nessa sexta-feira, na Copa do Mundo.
Na hora do jogo, os escritores indígenas encontraram com um público seleto de leitores, num auditório do Centro de Ação da Cidadania, na zona portuária do Rio.
Era a abertura do 7º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, organizado dentro do 12º Salão do Livro pelo Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (INBRAPI).
O tema era “Palavra da Cidade, Palavra da Floresta - Literatura Indígena em Contexto Urbano”.
Compareceram escritores, poetas, artistas plásticos, músicos, líderes e educadores indígenas que estão se destacando no cenário literário nacional.
Estavam lá, entre outros, Manoel Moura, Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Marcos Terena, Cristino Wapichana, Ely Macuxi, Olívio Jekupé, Vilmara Baré, Edson Kayapó, Darlene Taukane, Rosi Waikhon, que animaram rodas de conversa e mesas-redondas em torno das memórias da floresta, da escola indígena, do uso da escrita e da língua portuguesa.
- Primeiro, nós pensamos. Só depois é que falamos ou escrevemos.
A palavra, que carrega sabedoria, organiza o pensamento, por isso tem muito poder, muita força.
A palavra cura mágoa, tristeza, saudade, raiva e, se duvidar, até dor de cabeça. A palavra do índio, o primeiro narrador desse país, tem que ser ouvida.
É palavra boa, que ameniza, que conforta, diferente das palavras sujas - como a de alguns políticos.
Dessa forma, Manoel Fernandes Moura abriu a mesa da tarde - A Escrita e a História. Líder histórico do movimento indígena, o tukano Manoel Moura está cada dia mais sábio, com o verbo sempre em brasa. Grande narrador, sua fala deixa claro que o livro não é um caixão que guarda o cadáver da letra morta, como se a letra fosse o osso do som. Ele defende não uma “escrita funerária”, mas uma escrita viva, livre como um pássaro voando, que devolve a palavra ao universo da oralidade.
Durante o almoço, numa mesa com Marcos Terena, Ely Macuxi e Daniel Munduruku, lembrei da importância para a literatura indígena dos tupinólogos do século XIX, que recolheram narrativas em língua Nheengatu. Trocamos figurinhas.
Foi, então que Moura nos contou algumas histórias do jabuti, atualizando as versões de Couto de Magalhães. A voz modulada era interrompida por risinhos sacanas do narrador. Vamos lá.
Maquiavel de casco
O Jabuti foi beber água no rio e encontrou o Jacaré de boca aberta que lhe disse:
- Eu vou te comer.
- Por que tanta maldade, seu Jacaré?
- Por que estou com fome e sou mais forte.
- Sua fome, eu respeito.
Mas duvido que seja mais forte - desafiou o Jabuti, propondo um ‘cabo-de-guerra’ para decidir seu destino. Ele, Jabuti, puxaria a ponta de um cipó da terra firme, enquanto o Jacaré puxaria de dentro d’água a outra ponta. Quem conseguisse arrastar o outro ganhava. Assim, ou ficava livre ou seria comido.
O Jacaré riu da pretensão e topou. “O otário se ferrou” - pensou, saboreando antecipadamente o sarapatel que iria comer.
O Jabuti foi buscar o cipó no meio do mato, onde encontrou a Onça que veio com o mesmo papo: eu vou te comer, estou com fome, sou mais forte, tenho o Gilmar Mendes que é meu e o boi não lambe.
E o Jabuti: não é assim não dona Onça, tem que provar, o Ayres Brito está vivo. Aí, propôs um ‘cabo-de-guerra’. A Onça aceitou. Ele, Jabuti, puxava o cipó do rio. A Onça, da terra.
O Jabuti deixou, então, uma ponta do cipó com a Onça, em terra firme.
Levou a outra para o Jacaré na água e escafedeu-se, saindo de fininho, deixando os dois brigando.
Moral da história: quando teus inimigos são mais fortes do que tu, joga um contra o outro, em vez de bater de frente contra eles.
Se ouvisse a versão do Manoel Moura, Maquiavel se deliciaria. Couto de Magalhães concluiu que através dessas narrativas os índios da Amazônia ensinam profundas lições de vida.
Para ele, a literatura indígena reflete alto grau de civilização, porque só um povo altamente civilizado mostra que a inteligência vence a força: um animal feio, fraco, lento, como o jabuti, ganha do jacaré, da onça, da anta, do veado.
Moura contou ainda a história do jabuti com a anta, mais não tenho mais espaço para reproduzi-la aqui.
Essa história mostra que o caminho para se conseguir justiça é ter paciência, saber esperar; a inteligência vence a truculência; a força do direito vale mais do que o direito da força.
Rapaz, esse Moura é mesmo danado! Pois não é que ele curou minha dor de cabeça! Deixo aqui para ele e para todos os escritores indígenas - os jabutis da literatura brasileira - os votos de sucesso nessa cruzada civilizatória.
P.S. - Nesse domingo, na hora do jogo do Brasil, estarei dentro de um avião, levando as histórias indígenas para um congresso em Bogotá, convidado pela Biblioteca Nacional da Colômbia.
P.S. - José Saramago, que nos deixou, foi também, ao seu modo, um jabuti da língua portuguesa, porque sua escrita está emprenhada de sabedoria oral.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .
 bessafreire

6 de jun. de 2010

INSTITUTO C&A PROMOVE AÇÕES DE INCENTIVO À LEITURA NO 12º SALÃO DO LIVRO PARA CRIANÇAS E JOVENS NO RJ

Organização terá um estande dedicado ao "Movimento por um Brasil Literário"; e apoiará o 7º Encontro de Escritores Indígenas

Pelo quarto ano consecutivo, o Instituto C&A, que há 19 anos atua para a melhoria da qualidade da educação no Brasil, irá apoiar o Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, que ocorre entre os dias 9 e 19 de junho, no Centro Cultural da Ação da Cidadania, no Rio de Janeiro. Nesta 12ª edição do evento, o Instituto C&A irá participar de debates sobre a importância de formar novos leitores no país - o que vai ao encontro da sua proposta de promoção da leitura entre crianças e adolescentes brasileiros.

Na abertura ao público (dia 9/06, quarta-feira), às 15h30, haverá a mesa "Formando Leitores: experiências e desafios", para discutir experiências de sucesso na formação de leitores, com a mediação da Secretária Geral da FNLIJ, Beth Serra, e presença da gerente da área Educação, Arte e Cultura do Instituto C&A, Áurea Alencar. Participarão os professores selecionados no concurso "Escola de Leitores", realizado no Rio de Janeiro pelo Instituto C&A, em2009, em parceria com a Secretaria de Educação do Rio de Janeiro e a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). O concurso selecionou projetos de sete escolas públicas envolvendo o tema leitura literária. No debate, os professores apresentarão os desafios, avanços e os primeiros resultados de seus projetos na formação de novos leitores.

Movimento Brasil Literário

O Instituto C&A também montará um estande no Salão do Livro sobre o "Movimento por um Brasil Literário", um espaço de mobilização e conscientização da importância da leitura literária no país, principalmente entre jovens e crianças.

O público ainda poderá aderir ao "Manifesto por um Brasil Literário", documento que já conta com mais de 3 mil participantes - lançado na Flip do ano passado - e que deu origem ao Movimento. O principal objetivo é ajudar a fazer do Brasil um país de leitores.

Encontro de Escritores Indígenas

Nesta edição, o Instituto C&A também apoiará - pelo terceiro ano consecutivo - o 7º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, que acontecerá no contexto do Salão FNLIJ, e terá como tema "Palavra da Cidade, Palavra da Floresta: Literatura Indígena em contexto urbano". Os escritores indígenas terão um estande no Salão, no qual realizarão atividades culturais com crianças e atividades artísticas.

No dia 18/06 (sexta-feira), haverá ampla programação envolvendo cerca de 25 escritores indígenas de diversas tribos brasileiras. Eles irão comentar suas obras, promover saraus de poesias indígenas e participar de mesas de debates sobre a compreensão da identidade do país e a presença indígena no Brasil.


Veja a seguir a programação do dia 18/06:

Período da Manhã
Ritual e apresentação dos convidados
Mesa 01: "Vozes da cidade, memórias da floresta"
Discussão sobre o papel da memória na elaboração da literatura indígena em contexto urbano.
Mediação: Ailton Krenak

Intervalo: Sarau de poéticas indígenas com Carlos Tiago, Graça Graúna e Cristino Wapichana

Mesa 02: "Educação urbana em contexto de aldeia: pontes e contrapontos"
Discussão sobre atuação dos indígenas no contexto urbano. Como esta prática pode interferir na formação de leitores e escritores entre os indígenas.
Mediação: Darlene Taukane

Período da Tarde

Sorteios de livros e arte indígena
Mesa 03: "A Escrita, a História e as trilhas para o futuro"
Discussão sobre os caminhos para a produção intelectual indígena tendo a literatura como instrumento no fomento das capacidades individuais dos jovens indígenas.
Mediação: Manoel Moura

Mesa 04: Arte indígena e influências urbanas

Discussão sobre a inserção dos artistas indígenas no mundo urbano e como ocorre seu processo criativo.
Mediação: Cristino Wapichana

Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens

O 12º Salão FNLIJ promove, durante 12 dias, uma variedade de encontros do público com os principais escritores e ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil. O evento reunirá 71 editoras, que apresentarão seus lançamentos. Vários bate-papos com escritores e ilustradores já estão agendados para todos os dias, além de um seminário que acontece nos dias 16, 17 e 18 no auditório local. O evento conta também com novidades como a Biblioteca para bebês, a realização do 1º Encontro Nacional do Varejo do Livro Infantil e Juvenil e a homenagem à Coréia do Sul.

O Salão da FINILIJ tem o patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet, e apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria Municipal de Educação.

SERVIÇO

12º SALÃO FNLIJ PARA CRIANÇAS E JOVENS
Local: Centro Cultural da Ação da Cidadania
Endereço: Av. Barão de Tefé 75 - Saúde - / 2253-8177
Horário: De 9 a 19 de junho.
Segunda à sexta, das 8h30 às 18h; Sábados e domingos, das 10h às 20h.
Valor do ingresso: R$ 4 (gratuidade para maiores de 65 anos, portadores de deficiência, professores da rede municipal e instituições que trabalham com crianças e jovens de comunidades de baixa renda, pré-agendadas com a FNLIJ).

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...