29 de dez. de 2010

RECEITA DE ANO NOVO

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo 
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

18 de dez. de 2010

Mais uma vez é Natal

(por Daniel Munduruku)


Mais uma vez é natal. Tempo de dar um tempo. De dar tempo ao tempo que escorre pelas mãos. Um tempo de dar tempo ao tempo que foge solitário entre os vãos e desvãos de nossas vidas. Tempo de pensar, de refletir, de meditar.
Mais uma vez é natal. Tempo de pensar no dono do tempo, o Atemporal. Hora de não ficar contando as horas e ajoelhar-se diante das maravilhas que a vida oferece. E tempo de refletir sobre as injustiças que cometemos diariamente.
Mais uma vez é natal. O que estamos celebrando? O consumo? A melodia das compras? As imagens televisivas? O tilintar das moedas nas caixas registradoras? As doces engabelações do sistema financeiro? Os programas que "dão" presentes para os deserdados da vida?
Mais uma vez é natal. O que nos resta da data que celebramos? Lamento dizer: nada. Apenas uma ilusão de que nosso espírito humanitário continua intacto. Uma reunião de família [normalmente morna e sem sentido] que não existe mais. Perus abatidos inertes sobre uma mesa que não nos lembra mais que ser humano é movimento.
Mais uma vez é natal...e daí? As chuvas continuarão caindo com intensidade sempre maior derrubando casas e esperanças. Os governos continuarão "brincando" de deuses. Os multimilionários gastarão suas riquezas com vaidades insensatas. Meninos e meninas continuarão sendo violentados pelo sistema educacional que teima em não se renovar.
Mais uma vez é natal...o que nos resta se tudo vai continuar do mesmo jeito? Voltaremos à vida banal de antes depois de tomarmos uns drinques e fizermos todas as promessas de renovação, de mudança?
Mais uma vez é natal. Ano após ano é natal. Dia após dia é natal. Hora após hora é natal. É o seu natal, é o meu natal. 
Para que serve o natal? Para nos lembrar que a roda está rodando. Que o ciclo está se acabando. Para lembrar nossa finitude. Para alertar que nada somos. Que pertencemos a uma humanidade que está se autoflagelando. Foi para isso que o pajé Jesus nasceu. Não foi para nos salvar, mas para nos condenar à solidão de nós mesmos. Para nos lembrar que é possível ser Deus mesmo sendo humanos. E que é possível ser humano mesmo sendo um Deus. 
Somos um e outro quando não esquecemos que mais uma vez é Natal!

16 de dez. de 2010

Para quem acha que "índio" nada faz, nada sabe e nada aprende, segue o convite abaixo.

Convite
Dia de Moda Indígena
 
Benilda Kadiwéu, designer de moda e estilista, convida a todos e todas para a apresentação de suas criações, inspiradas na iconografia indígena do povo kadiwéu com artesanato e cerâmica. Além de apresentação de dança e performances.
O evento é produzido e organizado por John Terena, o mesmo do Vídeo Índio brasil edições 2008, 2009 e 2010.
Têm apoio da prefeitura municipal de Campo Grande através da fundação de cultura e promete ser uma das primeiras intervenções culturais do Coletivo de jovens pelo meio ambiente e pela cultura.
Apesar de muitas dificuldades é chegado o grande dia. Viva a cultura indígena de Mato Grosso do Sul!


Data: 18 de dezembro / sabádo 19hrs.
Local Armazém Cultural, esplanada ferroviária.
Campo Grande

Produção:
Coletivos de jovens pelo meio ambiente e pela cultura/CJ-MS e
John Terena

Realização:
Prefeitura Municipal de Campo Grande e
FUNDAC - Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande.

2 de dez. de 2010

Duas mulheres indígenas na lista do Mérito Cultural 2010

Nossos parabéns à Joênia Wapichana e Azelene Kaingang pelo merecido prêmio.
_____________

                     Ordem do Mérito Cultural será entregue a 40 personalidades

PublishNews - 02/12/2010 - Redação
Desde que foi instituída, cerca de 400 pessoas foram condecoradas


Leonardo Boff, Jaguar e Candido Antonio Mendes de Almeida estão entre as 40 personalidades que receberão a 16ª Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Ministério da Cultura. Para chegar a esses nomes, a entidade consultou em primeiro lugar a população, que pode sugerir nomes de pessoas que contribuem, ou contribuíram – é por isso que tem a categoria In Memoriam, para o desenvolvimento da identidade cultural brasileira. E é por isso que Drummond, João Cabral, Nelson Rodrigues e Vinicius também serão homenageados. O presidente Lula e o ministro Juca Ferreira participam da premiação nesta quinta-feira (2), às 20h, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Praça Marechal Floriano, s/nº - Centro/RJ), em cerimônia que lembrará, também, Darcy Ribeiro. Desde a criação, em 1995, cerca de 400 pessoas ou grupos foram condecorados.
 
 
Ordem do Mérito Cultural 2010
 
Andrea Tonacci nasceu em Roma, mas vive em São Paulo desde os 9 anos. Em 1970, fez “Bang Bang”, obra-prima do cinema marginal. Já escreveu, dirigiu e fotografou diversos filmes em curta, média e longa-metragem, ganhando prêmios nacionais e internacionais.
A carioca Anna Bella Geiger é pioneira na arte conceitual, revolucionária na prática da gravura e uma das introdutoras da vídeoarte no Brasil.
 
Mestre Alberto da Paz, conhecido artisticamente como “Ás de Ouro”, nasceu em Santa Cruz (GO). Violeiro, cantador de folias e danças populares, poeta, marcador de quadrilha e contador de causos, notabilizou-se por seu trabalho nas Cavalhadas, que conheceu ainda criança.
 
Azelene Inácio Kaingáng nasceu em Carreteiro, terra indígena localizada no Rio Grande do Sul, formou-se socióloga, e sua luta em defesa dos povos indígenas lhe rendeu, entre outros, o Prêmio Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, em 2006
 
O carioca Candido Antonio Mendes de Almeida é escritor, professor, educador, advogado, sociólogo, cientista político e ensaísta, recebeu vários prêmios por sua obra e desde 2005 é Doutor Honoris Causa em Sorbonne (Paris).
 
Carlota Albuquerque é fundadora, coreógrafa e diretora da Terpsí Teatro de Dança, em Porto Alegre, um espaço para a pesquisa, experimentação, diálogo e reflexão sobre Dança. Trabalhou com diversas companhias nacionais e internacionais.
 
Cesaria Evora nasceu em Cabo Verde. Após décadas de trabalho, em 2004, ganhou o Grammy de melhor álbum de world music contemporânea. Em 2009, o presidente francês Jacques Chirac distinguiu-a com a medalha da Legião de Honra de França. Já gravou 24 discos.
O Conjunto Época de Ouro é o grupo de choro mais antigo em atividade no Brasil. Criado por Jacob do Bandolim em meados dos anos 1960, está em atividade até hoje, já tendo se apresentado em quase todo o Brasil e no exterior. Já gravou com Marisa Monte, Elba Ramalho, Ivan Lins e Paulinho da Viola, entre outros.
 
O Coral das Lavadeiras foi criado em Almenara (MG), a partir de uma lavanderia comunitária e do trabalho de pesquisa do cantor e compositor Carlos Farias. Já apresentou seu repertório de sambas, batuques, modinhas, cantigas de roda e toadas de influência africana, indígena e portuguesa no Brasil, Portugal e Espanha.
 
Conjunto vocal mais antigo em atividade no Brasil e no mundo, o Demônios da Garoa já vendeu mais de dez milhões de cópias ao longo de sua carreira. Lenda viva de nossa música, o grupo, principal intérprete de Adoniran Barbosa, completou 67 anos de atividade em 2010.
 
Denise Stoklos nasceu no Paraná, onde começou sua carreira. Já apresentou sua obra em 31 países, participando de importantes eventos, sempre com grande impacto de repercussão. Além do teatro, dedica-se também à música, fotografia e literatura.
 
Nascido em 1928, na Catalunha, o bispo católico Dom Pedro Casaldáliga Pia está radicado no Brasil desde 1968. Dirigiu a revista Católica Íris e escreveu para jornais e revistas, programas de rádio e para teatro. Casaldáliga é poeta e prosador, vencedor de vários prêmios, entre estes o Prêmio Jornalístico “Vladimir Herzog”.
 
O embaixador João Carlos de Souza-Gomes nasceu e se formou em Madri, mas fez sua pós-graduação no Instituto Rio Branco. Exercendo diversas funções diplomáticas, representou o Brasil em países como Cabo Verde, EUA, Uruguai, Costa Rica, Suriname, México, entre outros, bem como na Unesco, onde, desde 2008, é embaixador e representante permanente do Brasil.
 
A Escuela Internacional de Cine y Television de San Antonio de los Baños (EICTV), fundada, entre outros artistas e intelectuais, por Gabriel García Márquez, fica localizada a 30 km de Havana, e é uma das mais importantes instituições de cinema do mundo, já tendo formado profissionais de mais de 80 países, dentre os quais, o Brasil.
 
Maria da Graça Costa Penna Burgos, mais conhecida como Gal Costa, nasceu em Salvador. Junto com Caetano, Gil, Bethânia e Tom Zé, integrou o Tropicalismo. Em 1965, lançou-se em carreira solo, tornando-se uma das cantoras mais importantes da história da MPB.
 
Glória Pires nasceu no Rio de Janeiro. Estreou na televisão em 1969, com apenas cinco anos de idade. Desde então, protagonizou dezenas de novelas e séries para a TV, recebendo diversos prêmios por seu trabalho, respeitado e admirado por público e crítica também no cinema.
 
A Companhia de Danças Folclóricas Aruanda, fundada em 1960, em Belo Horizonte, pelo professor Paulo César Valle, tornou-se referência mundial em manifestações populares com seu trabalho de pesquisa e divulgação de danças, músicas e folguedos populares brasileiras em suas diversas formas de manifestação, com aproveitamento dos elementos e fatos folclóricos.
 
Hermeto Pascoal saiu de Alagoas para mostrar ao Brasil e ao mundo a diversidade de gêneros musicais brasileiros, bem como a sua inesgotável inventividade como compositor, arranjador, instrumentista e, ainda, inventor dos mais inusitados – e fascinantes – instrumentos musicais.
 
Nascido em Buenos Aires, Ilo Krugli radicou-se e naturalizou-se brasileiro em 1961. Diretor, ator, artista plástico e escritor, é o fundador de um dos mais importantes grupos teatrais do Brasil, o Ventoforte. Já apresentou mais de 30 espetáculos, arrebatando importantes prêmios. É, ainda, um dos pioneiros no Brasil em arte-educação para comunidades carentes.
 
Nascido na periferia paulistana, o bailarino, coreógrafo e pesquisador Ismael Ivo conheceu a arte nos terreiros de Candomblé. Hoje, dividindo-se entre os principais palcos de Berlim (onde mora), Nova York e São Paulo, define-se como um bailarino afrobrasileiro que um dia resolveu acreditar que era possível, e até hoje se surpreende com o resultado dessa escolha.
 
O ator Ítalo Rossi nasceu em Botucatu (SP). Em 54 anos de premiada carreira, atuou mais no teatro, mas deu brilho aos papéis que interpretou também no cinema e na TV. Com Fernanda Montenegro, Sergio Britto e Fernando Torres, fundou o Teatro dos Sete (1959-1965).
 
Jaguar, pseudônimo de Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, nasceu no Rio de Janeiro. Caricaturista, ilustrador, desenhista, jornalista, cronista, iniciou sua carreira como cartunista na revista “Manchete”, com passagem pelos principais jornais e revistas do país, até criar, junto com Millôr Fernandes, O Pasquim, semanário símbolo da resistência à ditadura militar.
 
Joênia Wapixana nasceu na aldeia indígena Wapixana (RO). Aos oito anos, mudou-se com a mãe para Boa Vista, onde passou a frequentar a escola. Não falava bem o português e tinha dificuldade de acompanhar as aulas. Em 1997, tornou-se a primeira advogada indígena do Brasil. É conhecida por sua atuação na demarcação da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol e considerada uma das lideranças populares mais respeitadas no país.
 
Crítico cinematográfico e cineasta, o sírio Leon Cakoff mudou-se com a família para o Brasil aos 8 anos de idade. Em 1977, organizou o primeiro festival internacional de cinema do Brasil, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que se tornou referência para a descoberta de cineastas e novos talentos da cinematografia mundial.
 
O teólogo brasileiro Leonardo Boff é natural de Concórdia, Santa Catarina. Ajudou a consolidar a Teologia da Libertação no Brasil, pelo que foi processado pela Congregação para a Doutrina da Fé, então sob a direção do hoje Papa Bento XVI. Desligou-se da Igreja. Vencedor de diversos prêmios, sua produção literária e teológica é de cerca de 60 livros, entre eles o best-seller “A Águia e a Galinha”.
 
O Maracatu Estrela Brilhante de Igarassú, fundado em 1824, é uma das agremiações mais antigas do Brasil e considerado o Maracatu de Baque Virado mais tradicional de Pernambuco. Está sendo premiado em reconhecimento pelos mais de 185 anos dedicados a resguardar o Maracatu de Baque Virado em sua forma original, que remonta ao tempo dos escravos.
 
Calcula-se que o gravador, pintor e desenhista santista Mário Gruber Correia, nas quase 80 exposições individuais e coletivas de que participou, tenha produzido, até o momento, produzido cerca de 12 mil obras. Autodidata, trabalhou com artistas nacionais e internacionais consagrados, como Di Cavalcanti, Poty, Wesley Duke Lee, Diego Rivera, entre outros.
 
A britânica Maureen Bisilliat radicou-se em São Paulo em 1957, substituindo a pintura pela fotografia, em que se destacam trabalhos baseadas em obras de Guimarães Rosa, Drummond, Euclides da Cunha, entre outros. Em 2003, sua produção fotográfica integral, com mais de 16.000 criações, foi englobada pelo acervo de fotografia do Instituto Moreira Salles.
 
O museólogo, economista, escritor e dramaturgo Maurício Segall nasceu em Berlim, onde viveu seus primeiros meses de vida. Em 1967, ele e seu irmão, Oscar Klabin Segall, fundaram o museu que leva o nome de seu pai, o artista plástico Lasar Segall. Sua gestão definiu os rumos que até hoje constituem a estrutura e as atividades do museu.
 
Artista gráfico, músico, compositor, poeta, tradutor e professor, o baiano Rogério Duarte radicou-se no Rio em 1961. Trabalhou como diretor de arte da UNE e da Editora Vozes. Entre seus cartazes para filmes destacam-se os criados para a filmografia de Glauber Rocha. Um dos fundadores do Tropicalismo, contribuiu para a identidade visual do movimento.
 
A Sociedade Cultural Orfeica Lira Ceciliana, fundada em 1870, é composta, originalmente, por artesãos dedicados aos ofícios de sapateiro, carpinteiro e alfaiate. A Filarmônica teve papel relevante no movimento abolicionista na Bahia, com destaque para a histórica passeata pelas ruas da cidade de Cachoeira para festejar a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.
 
Tinoco nasceu em 1920, em Botucatu (SP), três anos após seu irmão, Tonico. Os irmãos começaram a cantar ainda pequenos, nos cafezais. Gravaram o primeiro LP em 1943, tornando-se sucesso nacional. Gravaram mais de 300 discos, participaram de sete filmes, trabalharam por 50 anos em rádios, ganharam diversos prêmios. Trabalharam juntos por 59 anos, até a morte de Tonico, em 1994. Desde então, Tinoco seguiu carreira solo.
 
 
In Memoriam
 
Acreano, o jornalista e cronista esportivo Armando Nogueira foi pioneiro do telejornalismo no Brasil, responsável, juntamente com a jornalista Alice Maria, pela implantação do jornalismo na TV Globo.
 
O mineiro Carlos Drummond de Andrade foi um dos poetas mais expressivos da língua portuguesa. Pertenceu à segunda geração do modernismo brasileiro, que subverteu os rigores formais da escrita. Sua obra inclui três dezenas de livros de poesia e quase 20 de prosa.
 
Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza, notabilizou-se como o poeta do rock brasileiro. Suas composições, marcadas pelo forte lirismo, faziam a crítica social do Brasil dos anos 80 e falavam de amor, prazer e dor.
 
Poeta e diplomata, João Cabral de Melo Neto nasceu em Recife. Seu estilo racional e lógico de expressão representou uma inovação na forma de escrever poesia no Brasil, levando a crítica a descrevê-lo como poeta não-lírico. Seus mais de 15 livros – a maioria, de poesia – lhe valeram muitos prêmios de peso, entre estes o Prêmio Camões.
 
Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo nasceu em Recife. Político, historiador, jurista, jornalista e poeta, foi um dos líderes da luta pela abolição da escravatura no Brasil, empenhando-se nessa luta tanto na tribuna da Câmara dos Deputados como em seus livros.
 
Fluminense de Barra Mansa, Moacir Werneck de Castro foi jornalista, escritor e tradutor. Presença sempre marcante na imprensa brasileira, foi preso logo em sua estreia no jornalismo, em 1934, ao cobrir uma assembleia operária, bem como em outras ocasiões durante o Estado Novo. Destacou-se, também, na literatura. Faleceu recentemente, aos 95 anos, no Rio.
 
Jornalista, escritor e dramaturgo recifense, Nelson Rodrigues foi um dos mais destacados e polêmicos intelectuais e dramaturgos brasileiros do século XX. Escreveu 17 peças teatrais e publicou vários romances e livros de contos. Sua revolucionária peça “Vestido de Noiva” é tida como marco inicial do moderno teatro brasileiro.
 
Vinicius de Moraes – ou, o Poetinha, como era conhecido – nasceu no Rio. Fez carreira diplomática, mas foi como poeta, dramaturgo, jornalista, cantor e compositor que se destacou. Uma das maiores expressões do lirismo na poesia brasileira, também foi, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, um dos precursores da Bossa Nova, no fim dos anos 50, projetando e eternizando a música brasileira no mundo inteiro.            

Estados Unidos lança edital para a promoção da igualdade racial e étnica no Brasil

30/11/2010
O Governo dos Estados Unidos, em parceria com a BrazilFoundation, e com apoio do Governo do Brasil através da SEPPIR, lançou na segunda-feira, 29 de novembro, o edital para a seleção de projetos sociais que serão apoiados pelo Plano de Ação Conjunto Brasil – Estados Unidos para a Promoção da Igualdade Racial e Étnica – JAPER. Cada projeto selecionado, que deverá ter duração de um ano, receberá financiamento de até R$ 25 mil do Governo dos EUA.

A seleção de projetos sociais é aberta a organizações da sociedade civil brasileira, sem fins lucrativos, com foco na promoção da igualdade racial e étnica, através da educação e da cultura. Três áreas principais serão contempladas: a educação voltada à inclusão racial, o acesso à justiça e a promoção da equidade étnica e racial na mídia.

O lançamento do edital contou com a presença do Cônsul Geral dos EUA no Rio de Janeiro, Dennis Hearne, da Conselheira para Assuntos de Imprensa, Educação e Cultura da Embaixada dos EUA em Brasília, Adele Ruppe e de representante da Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (SEPPIR).

Os projetos deverão ser encaminhados até o dia 31 de janeiro de 2011 ao escritório da BrazilFoundation no Rio de Janeiro, organização parceira e responsável pelos processos de seleção e monitoramento dos projetos que serão apoiados. A data de postagem no correio será considerada como comprovante. A divulgação dos projetos pré-selecionados será feita pela BrazilFoundation em seu site, em 11 de abril de 2011.

O Plano de Ação Conjunto Brasil-Estados Unidos – JAPER, assinado em março de 2008, tem compromisso com a colaboração profunda e contínua entre os dois governos, a fim de eliminar a discriminação racial e étnica e promover a igualdade de oportunidades em ambos os países.

Acesse aqui a íntegra do edital e saiba como inscrever projetos.

Fonte: BrazilFoundation

29 de nov. de 2010

PIMENTA NO OLHO DOS OUTROS É REFRESCO!
Estive recentemente na Feira do Livro de Campos dos Goytacazes, uma linda cidade do Rio de Janeiro. Lá tive a oportunidade de apreciar não apenas a beleza natural, os diversos pontos turísticos [favorecidos por uma história colonial bastante rica] e as grandezas deste que é o maior município do interior fluminense com seu visível crescimento econômico, mas também sua fome de cultura e de leitura. Isso eu vi com meus olhos e ninguém pode negar.
Lá conversei com os pequenos leitores. Tive a rara oportunidade de encontrar outros escritores, ilustradores, artistas, pensadores que davam seus depoimentos com alegria e vibração assumindo o espírito que pairava no ar. Era um espírito bom, alegre, feliz. Um espírito que emanava conhecimento e descontração, dois elementos básicos de uma realidade ainda esquecida: conhecimento gera alegria. As duas juntas geram sabedoria. Fórmula simples e fácil de perceber.
Encontrei também professores. Tive a oportunidade de conversar com eles sobre os saberes indígenas e sua interação com a vida. Pude apresentar-lhes alguma coisa da grande sabedoria acumulada por nossos povos ao longo dos milênios vividos. Foi uma conversa muito agradável no seu todo.
Como sempre, no entanto, minha conversa suscitou uma questão que parecia estar latente naquele grupo. Uma pessoa me indagou sobre o infanticídio entre os povos indígenas. Foi uma pergunta sem nenhuma intenção de polemizar. Realmente a professora queria ouvir minha opinião a respeito e por isso me senti absolutamente a vontade para expressar meu sentimento a respeito daquela questão que está sempre no imaginário das pessoas, especialmente depois que são “provocadas” pela imagem que a televisão evoca em suas mentes.
Fiz questão de levantar alguns pontos [que me parecem esquecidos pela própria impossibilidade da resposta]:
1. Não se pode fazer uma pergunta tão genérica a um indígena [e aí lembrei aos presentes a diversidade dos povos indígenas brasileiros]. Perguntas genéricas mostram a fragilidade da argumentação;
2. Uma pergunta desse tipo traz consigo um juízo de valor muito perigoso [assim pude mostrar como a imposição de um pensamento sobre outro é sempre devastador e motor de incompreensões e intolerância];
3. A necessidade de se usar o senso crítico ao ouvir/ler/ver uma matéria “jornalística” [e aqui pude dissertar sobre os aparelhos ideológicos a serviço do sensacionalismo e da “piedade”];
4. Que olhar a cultura do outro com os olhos da cultura ocidental é, quase sempre, dar um tiro no próprio pé [e aqui pude lembrar que “pimenta no olho dos outros é refresco” ou “é bom olhar para a sujeira do próprio quintal antes de olhar para o quintal do outro” ou ainda (parafraseando Jesus, o pajé) “tira antes o cisco do teu olho, pecador”].
Disse tudo isso com a certeza de que não estava dando respostas absolutas, apenas jogando piolhos. Aprendi com Sócrates, o atleta, que dava verdadeiras “lavadas” utilizando o calcanhar. Este [o calcanhar] que era o ponto frágil de Aquiles, o semideus grego  que era conquistador como Edir Macedo que onde toca vira ouro, feito o rei Midas que morreu por absoluta ganância. Ao menos Aquiles e Midas faziam riqueza pela guerra física. Já Edir Macedo o faz usando a ignorância das pessoas. Nesta luta não há dignidade.
A propósito:
1) Não estou afirmando que em Campos dos Goytacazes é que tudo começou. Lá foi apenas mais um lugar onde se manifestou a questão que aparece em todos os rincões e voltou à cena porque a rede Record de Televisão veiculou [mais uma vez] uma matéria execrando o “infanticídio indígena” e apresentando a ação salvadora de uma missionária que lá estava para “salvar” a alma daqueles pervertidos... E que no final pedia dinheiro para a missão salvadora não acabar. Cruzes! Voltamos à idade média (?)!!!
2) INFANTICÍDIO [conceito que não se enquadra no modo indígena de vida] NÃO EXISTE ENTRE OS INDÍGENAS BRASILEIROS.
Pense nisso!!!
Tenho dito.
Comentário DM:
Assino embaixo esta carta.
_________________________________________




CARTA DE REPÚDIO AO PROGRAMA EXIBIDO PELA TV RECORD NO DOMINGO ESPETACULAR NO DIA 07 DE NOVEMBRO DE 2010.

Nós, mulheres indígenas reunidas no Encontro Nacional de Mulheres Indígenas para a proteção e Promoção dos seus Direitos na cidade de Cuiabá entre os dias 17 e 19 de novembro de 2010, vimos manifestar nosso repúdio e indignação contra reportagem produzida pela ONG religiosa ATINI exibida no dia 07 de novembro de 2010 em rede nacional e internacional. No Programa do Domingo Espetacular, da emissora RECORD,  foram mostradas cenas de simulação de enterro de crianças indígenas em aldeias dos estado de Mato Grosso (Xingu), Mato Grosso do Sul (Kaiowá Guarani) e no sul do Amazonas (Zuruaha), pelos fatos e motivos a seguir aduzidos:
1.       A malfadada reportagem coloca os povos indígenas como coletividades que agridem, ameaçam e matam suas crianças sem o mínimo de piedade e sem o senso de humanidade.
2.       Na aludida reportagem aparecem indígenas atores adultos e crianças na maior “selvageria” enterrando crianças.
3.       A reportagem quer demonstrar que essas ações nocivas aos direitos à vida das crianças indígenas são praticas rotineiras nas comunidades, ou de outra forma, são praticas culturalmente admitidas pelos povos indígenas brasileiros.
4.       Que os produtores do “filme” desconhecem e por tanto não respeitam a realidade e costumes dos indígenas brasileiros. São “produtores Hollywoodianos”.
Vale esclarecer em primeiro lugar que a reportagem não preocupou em dizer que no Brasil existem mais de 225 povos ou etnias diferenciadas em seus usos, costumes, línguas, crenças e tradições.  Essa reportagem negou aos brasileiros o direito ao conhecimento de que na década de 1970 a população indígena não chegava a duzentas mil pessoas ao ponto de antropólogos dizerem que no século XX os indígenas iriam acabar.
Se de fato os indígenas estivessem matando suas crianças, a população indígena estaria diminuindo, mas a realidade é outra, pois a população naquele momento em decréscimo hoje chega ao patamar de 735 mil pessoas, segundo censo de 2000 do IBGE.
A reportagem que mostra apenas uma versão das informações, não entrevista indígenas nem antropólogos que conhecem a realidade da vida na comunidade, pois senão iriam ver que crianças indígenas não vivem em creches nem na mendicância. Crianças indígenas são tratadas com respeito, dignidade e na mais ampla liberdade.
A reportagem maldosa e preconceituosa feriu intensamente os direitos indígenas nacional e internacionalmente reconhecidos, pois colocar povos indígenas e suas comunidades como homicidas de crianças é o mesmo que dizer que certas religiões praticam seus rituais matando suas crianças ou que a população brasileira em geral abandona suas crianças em creches, nas drogas e na mendicância se sem com elas se importarem. Mais, seria dizer que pais de classes médias altas jogam dos prédios suas crianças matando-as e que é comum famílias brasileiras em geral jogas seus filhos recém nascidos no lixões das grandes cidades, ou que os lideres religiosos  são todos pedófilos.
Quais são as verdades dos fatos por trás das notícias caluniosas e difamatórias contras os povos indígenas.
Não seriam razões escusas de jogar a população brasileira contra os povos indígenas para buscar aprovação pelo Congresso Nacional brasileiro de leis nefastas aos povos indígenas? Ao dizer que os indígenas não têm condições de cuidar de seus filhos automaticamente estará retirando dos indígenas a autonomia em criar seus filhos, facilitando assim a intervenção do Estado para retirar crianças do convívio familiar indígena entregando-as a adoção principalmente por famílias estrangeiras. Na reportagem, o padrão de sociedade ideal é o povo americano, pois demonstrou que a criança retirada da comunidade agora vive nos Estados Unidos da América e até já fala inglês. Sociedade justa, moderna bem-feitora. Seria mesmo a “América” o modelo padrão de sociedade justa apresentado na reportagem? Vale esclarecer que a ONG religiosa ATINI e sua produtora de Hollywood têm sua sede nos Estados Unidos.

26 de nov. de 2010

ECA deverá ser revisado para incluir cultura indígena
SÍTIO CIMI, 25.11.2010
Fonte: Agência Brasil

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que completa 21 anos em 2011 poderá ser reformado para não discriminar práticas de socialização das crianças indígenas. Um diagnóstico sobre a violação de direitos e a atual situação de crianças e adolescentes indígenas apontam que há diferenças de visão sobre o que é considerado violência e agressão contra as crianças.
De acordo com o diagnóstico em elaboração, os indígenas têm outra concepção sobre o trabalho infantil, gravidez precoce e abrigamento, previsto no ECA como ação de proteção e medida socioeducativa. "O abrigamento é um procedimento estranho e alheio. É visto como afrontamento aos seus costumes" disse à Agência Brasil Carmen Silveira de Oliveira, secretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente (Secretaria de Direitos Humanos), ao explicar que, para os índios, os filhos sempre devem ficar com a família.
De acordo com a secretária, a concepção de trabalho infantil precisa ser revisada. "Quando o adulto índio leva o seu filho para lhe acompanhar na atividade de pesca isso não pode ser considerado trabalho infantil, segundo eles. Isso é uma introdução aos seus costumes, não é visto como uma violação dos seus direitos. Pelo contrário, é uma valorização que está sendo dada à criança nesse momento", diferenciou.
Para os indígenas, a gravidez na adolescência não tem a conotação de precoce abordada nas políticas públicas de saúde. "Em várias comunidades indígenas não há a divisão etária que nós temos no nosso mundo urbano, branco e ocidental", relativiza Carmen de Oliveira.
As diferenças de visão de mundo também devem ser consideradas na expansão da escola para crianças de 4 e 6 anos. A universalização do ensino infantil para essa faixa etária (meta prevista para 2016) deve ser reconsiderada para o caso dos índios. "É bom colocar a criança com 4 anos na escola?" pergunta Gersom José dos Santos Luciano, da coordenação de Educação Indígena do Ministério da Educação e do Centro Indígena de Estudos e Pesquisas (Cinep). Segundo ele, "muitos indígenas dirão que não, que é uma fase de estar com os pais para aprender cultura".
Carmen de Oliveira e Gersom Luciano participaram hoje (25) de manhã, em Brasília, da abertura do 2o Seminário sobre Direitos e Políticas para Crianças e Adolescentes. O evento encerra a elaboração do diagnóstico sobre a violação de direitos e a atual situação de crianças e adolescentes indígenas, que pautará o Plano Decenal dos Direitos Humanos da Crianças e Adolescente (2011-2020) a ser publicado em dezembro. O texto do plano está disponível para consulta pública na página eletrônica: www.direitoshumanos.gov.br/noticias/ultimas_noticias/conselho/conanda.

Segundo a secretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, os indígenas querem ter lugar nos conselhos tutelares próximos às áreas indígenas e querem que haja mais professores, profissionais de saúde (inclusive médicos) com origem indígena para atendimento nas aldeias. Para Gersom Luciano, "é na garantia dos direitos sociais [como educação e saúde] que será possível estabelecer um processo de mudança de mentalidade e de olhar outras as culturas".

Fonte: Clipping da 6ª CCR do MPF.

23 de nov. de 2010

Seminário apresentará, em Brasília, resultados de pesquisa nacional 
sobre crianças e adolescentes indígenas

O "II Seminário sobre Direitos ePolíticas para Crianças e Adolescentes
Indígenas" acontecerá emBrasília, de 25 a27 de novembro, quando serão
apresentados os resultados preliminares de diagnóstico sobre a violação
de direitos e a atual situação de crianças eadolescentes indígenas. A
pesquisa aconteceu ao longo de 2010 coordenada pelo CentroIndígena de
Estudos e Pesquisas (Cinep), em parceria com a Secretaria deDireitos
Humanos (SDH-PR) e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e
do Adolescente (Conanda).

Para a produção do material foram realizados o I Seminário Nacional, em
Brasília,e quatro oficinas com representantes indígenas das regiões
Sul/Sudeste,Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Os relatos dos participantes
apontaram especificidadesregionais do ponto de vista indígena sobre o
conceito do que seja criança eadolescente para os povos e também as
diferenças com relação ao ponto de vistanão-indígena do que são
consideradas formas de violência e agressão contra criançase
adolescentes indígenas.

Além das especificidades de cada região, também foi possível identificar
pontos transversais nas discussões realizadas nas quatro regiões. O
alcoolismo, aviolência e a exploração sexual de meninos e meninas
indígenas, a dificuldade emrealizar o registro civil de crianças
indígenas e questões relativas à educaçãoescolar indígena (tais como a
qualidade do ensino, a ausência de escolas nasaldeias, a necessidade de
deslocamento para seguir estudando, a dificuldade demanutenção dos
estudantes fora das comunidades etc.) são ocorrências comuns atodas
regiões e integram o diagnóstico.

Estes são aspectos que constituem situações a serem apresentadas durante
o IISeminário Nacional, quando também ocorrerá uma sessão de trabalho
especial sobre a situação de crianças e adolescentes do Mato Grosso do
Sul, devido suaespecífica condição de violência e violação de direitos
indígenas. A situação do MS já foi, inclusive, divulgada pelo relator
especial da ONU para osDireitos Humanos e as Liberdades Fundamentais dos
Povos Indígenas, James Anaya,em setembro deste ano.

Durante o evento, ainda serão apresentadas as propostas enviadas ao
Conanda para compor o Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e
Adolescentes (2011-2020),que contemplam as especificidades dos povos
indígenas e se constituem comoresultado das atividades de estudo, debate
e análise em todas as regiões.

Para este II Seminário Nacional está prevista a presença de cerca de
70participantes dentre eles representantes de organizações envolvidas
com o tema,do movimento indígena, de organizações indigenistas,
pesquisadores, estudantes indígenas e membros do governo.

Serviço:

II SeminárioNacional sobre Direitos e Políticas para Crianças e
Adolescentes Indígenas

Data: 25, 26 e 27 de novembro

Horário: das 9h às 18h

Local: Bay Park ResortHotel (SHTN – trecho 2 – lote 5), em Brasília/DF.

Informações:

Clarissa Tavares – Assessora de comunicação do projeto – (61) 8506.5120

Vilmar Moura Guarany – Coordenador do projeto – (61) 8490.9387

Walisson Araújo – Coordenador Geral do Sistema de Garantia dos Direitos
da SecretariaNacional de Promoção dos Direitos da Criança e do
Adolescente da SDH – (61)2025.3961

Programação:

25 de novembro

9h- Sessão de Abertura

Presidente da mesa: Gersem José dos Santos Luciano – Diretor Presidente
do Cinep

Carmem Oliveira – Subsecretária de Promoção dos Direitos da Criança e do
Adolescente da SDH

Vilmar Guarany – Coordenador do Projeto

10h30– Sessão de Apresentação I - Crianças e Adolescentes Indígenas:
Perspectivas indígenas (resultados das oficinas regionais)

Moderador: Cristhian Teófilo da Silva (UnB)

Debatedor: Gersem José dos Santos Luciano (Cinep)

Melvino Fontes Olímpio (Oficina Regional – Norte)

Maria Inês Freitas (Oficina Regional - Sul/Sudeste)

Chiquinha Pareci (Oficina Regional - Centro-oeste)

Elisa Urbano Ramos (Oficina Regional – Norte)

14h- Sessão de Apresentação II - Crianças e Adolescentes Indígenas no
Sul do MS:Perspectivas indígenas e desafios para os Direitos Humanos.

Moderador: Vilmar Guarany (Cinep)

Elda Vasques Aquino (Aty Guasu)

Nito Nelson (Arpipan)

26 de novembro

9h- Grupo de Trabalho I - Crianças e Adolescentes Indígenas no MS:
Perspectivas indígenas e desafios para os Direitos Humanos.

Moderação: Equipe Cinep

Participantes do MS: Roberto Carlos Martins, José Barbosa Almeida,
Idevar de Chamorro Aquino,Ramona Martins Garay, Getúlio Juca, Alda da
Silva, Dionísio Gonçalves e EldaVasques Aquino

14h-Sessão de Apresentação III - Apresentação das propostas indígenas ao
Plano Decenaldos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes.

“Oque é o Plano Decenal” - Walisson Araújo (SDH)

“Sugestões ao Plano Decenal” - Cristhian Teófilo da Silva (UnB)

27 de novembro

9h- Grupo de Trabalho II – Sistematização dos resultados para elaboração
do Relatório Final.

21 de nov. de 2010

Esta crônica foi lida 420 vezes

A ANTA QUE VIROU ELEFANTE NUM DOMINGO ESPETACULAR
José Ribamar Bessa Freire
21/11/2010 - Diário do Amazonas


A segunda-feira da índia Rosi Waikhon na periferia de Manaus foi um dia de cão. Escapou, por pouco, de ser apedrejada. Ao sair de casa, várias pessoas lhe atiraram na cara frases do tipo:“Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer”. Minha amiga há muito tempo, ela me confidenciou: “Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas”.
 
Quem humilhou Rosi estava indignado, porque no dia anterior havia presenciado o ‘assassinato’ de crianças indígenas, cometido pelos próprios pais, que praticam o ‘infanticídio’, tudo isso exibido no programa Domingo Espetacular da TV Record. Felizmente, como nos filmes americanos, chega a cavalaria para salvar vidas ameaçadas por índios bárbaros. A missionária evangélica Márcia Suzuki, cavalgando a emissora do Edir Macedo – tololoc, tololoc – leva os bebês arrancados das garras dos ‘criminosos’ para a chácara da igreja neopentecostal. Enfim, salvos.
 
As pessoas viram trechos do vídeo ‘Hakani’ com o sepultamento de uma criança viva. A voz cavernosa de um narrador em off anuncia que se trata de prática generalizada: “A cada ano, centenas de crianças são enterradas vivas na Amazônia”. O xerife Henrique Afonso, deputado federal do Acre, quer prender os ‘bandidos’. Faz projeto de lei que criminaliza o ‘infanticídio indígena’, invoca a Declaração Universal dos Direitos Humanos e apela ao papa Bento XVI para que “intervenha contra o crime nefando”.
 
Como tem gente boa no mundo, meu Deus! Mas sobrou para Rosi que viveu uma ‘segunda-feira espetacular’. Quase foi linchada. Não foi a única. Rosi é índia Waikhon – etnia conhecida também como Piratapuia. Mora na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM) e está de passagem por ManausÉ educadora e líder da Foirn – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. Escritora, participou de dois Encontros de Escritores Indígenas na UERJ. Ela faz um apelo:
 
- “Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo INFANTICIDIO INDIGENA. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo”.
 
Xamãs e bruxos
 
Afinal, os índios cometem infanticídio? Essa é mesmo uma prática generalizada na Amazônia? Francisco Orellana, o primeiro europeu que cruzou o rio Amazonas dos Andes ao Atlântico, em 1540, viu coisas muito estranhas. A crônica da viagem – repleta de ‘domingos espetaculares’ - conta que ele se deparou com elefantes em plena selva, comeu carne de peru, bebeu cerveja feita pelos índios e combateu as precursoras do infanticídio - mulheres guerreiras que matavam seus filhos homens. A Europa acreditou piamente em suas histórias.
 
Orellana, coitado, sentiu o mesmo problema do xerife Henrique e da cavaleira Suzuki: como descrever aquilo para o qual não tenho palavras? Orellana viu antas bebendo água no rio. Não existia esse animal na Europa, nem muito menos a palavra anta nos dicionários. Como dar conta dessa realidade desconhecida, nova e estranha? O bicho era grande? Era. Tinha tromba? Tinha. Então, ele sapecou: “vi elefantes”. Afinal, elefantes são grandes e tem tromba. O mesmo com as mulheres que combateu. Na Europa, mulheres não iam pra guerra. Então, Orellana recuperou o mito grego, que a Europa conhecia muito bem.
 
Esse processo de equivalência entre objetos conhecidos e objetos novos foi muito usado nos registros coloniais. Ele consiste em definir fatos representativos de uma cultura com símbolos de outra cultura. Mutum passa a ser peru, caxiri se transforma em cerveja, inambu vira perdiz e mulheres que trocam o fogão pelo arco-e-flecha são amazonas. Essa operação reduz e simplifica enormemente a diversidade e a riqueza cultural, porque o símbolo não consegue transmitir toda a sua carga de significado de uma cultura a outra. 
 
Foi assim também com os pajés e xamãs, que não existiam na Europa e foram denominados de ‘feiticeiros’ pelos colonizadores, com conotações altamente negativas que o equivalente não tem. As consequências foram trágicas, porque se ninguém mata uma anta pra extrair marfim dela, feiticeiros e bruxos eram, no entanto, condenados à fogueira.
 
O infanticídio é crime punido por lei. Denominar de infanticídio uma prática cultural que desconhecemos e que nos choca não ajuda a entendê-la, oculta a anta e não revela o elefante, além de ser um convite para criminalizar os povos indígenas e condená-los à fogueira. Quando os antropólogos ou agentes de pastoral do CIMI chamaram a atenção para tal leviandade e para o erro em generalizar para todos os povos, a ONG Atini os acusou de defenderem o ‘infanticídio’ porque querem impedir a mudança cultural.
 
Os antropologos
 
Todos os antropólogos – TODOS – sabem que a cultura é dinâmica, isso faz parte do bê-á-bá da antropologia. Nenhum antropólogo – NENHUM - se manifesta contrário a mudanças, até porque isso seria inútil. Ao contrário, o que os antropólogos estão dizendo, para horror do agronegócio interessado nas terras indígenas, é que índio não deixa de ser índio porque usa computador e celular. Mas a emissora do Edir Macedo grita espetacularmente contra os antropólogos, sem citar nomes:
 
“Há quem diga que a prática de matar crianças deficientes, gêmeas ou filhas de mães solteiras deve ser defendida para manter a cultura”.
 
Não cita o nome de um só antropólogo, nem o livro ou artigo de onde foi pescada tal ‘informação’, porque ela é falsa. Na realidade, o que se pretende é quebrar a parceria com os principais aliados dos índios na luta pela saúde, educação e demarcação da terra. A ABA - Associação Brasileira de Antropologia, através da Comissão de Assuntos Indígenas, já havia publicado nota esclarecedora assinada por João Pacheco.
 
“O vídeo Hakani – diz a nota – não é um registro documental proveniente de uma aldeia indígena, mas o resultado de uma absurda encenação realizada por uma entidade fundamentalista norte-americana. Utilizado como base para uma campanha contra o infanticídio supostamente praticado pelos indígenas, tem também a finalidade de angariar recursos para as iniciativas (certamente mais ‘pilantrópicas’ do que filantrópicas) daqueles missionários”.
 
Diz ainda que a prática daquilo que estão chamando inapropriadamente de infanticídio entre os indígenas “são virtualmente inexistentes no Brasil atual”. Ali onde eram localizadamente praticadas estão deixando de existir com a assistência médica e a demarcação de terras, por decisão dos próprios índios, conforme esclarece Rosi:
 
“Sou indígena, meu povo também tinha essa prática, mas não precisou de ONG nenhuma intervir para mudarmos. Os gêmeos, trigêmeos e os deficientes indígenas da região em que vivo estão sobrevivendo sem intervenção de Ong. Por favor, não peçam dinheiro em nome do infanticídio indígena”.
 
A nota da ABA reforça: “Por que substituir a mãe, o pai, os avós, as autoridades locais por uma regulação externa e arbitrária? As crianças indígenas não são órfãs. Bem ao contrário, estão melhor protegidas e cuidadas no âmbito de suas coletividades e por suas famílias. Uma intervenção indiscriminada, baseada em dados superficiais e análises simplórias, equivocadas e preconceituosas, não poderá contribuir para políticas públicas adequadas a estas populações”.     
 
O abandono e morte de crianças indígenas com sofrimento, dor e tensão foi a resposta dada por algumas comunidades a um infortúnio ou desgraça que as acometia e que está sendo discutido e solucionado pelos próprios índios diante da nova situação em que vivem. Doía tanto quanto para Abrahão matar seu filho.
 
Então, ficamos combinados assim: uma anta é uma anta, um elefante é um elefante, a resposta dada por algumas comunidades tem tromba e é grande, mas não é elefante, e o Edir Macedo é....bom todo mundo sabe o que é Edir Macedo.
 
TROCA DE CARTAS ENTRE ROSI WAIKHON E MÁRCIA SUZUKI
Houve uma troca de cartas, via e-mail, entre a índia Rosi Waikhon e a missionária Márcia Suzuki, da Ong Atini. Rosi revisou o texto para publicação e me autorizou a fazer circular alguns trechos, aqui publicados por se tratar de um documento útil a quem se interessa pelo tema.
1ª. CARTA DE ROSE (13/11/2010) - Na primeira delas, Rosi critica:
“Encontrei na internet comentários, com mensagem racista e preconceituosa postada por um cidadão que leu a matéria de vocês intitulada ‘Infanticídio Indígena’. Ele chamou a nós indígenas de desumanos, e isso graças à forma como vocês estão tratando o assunto. Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo ‘infanticídio indígena’. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo”.
“Na sociedade de vocês, estou cansada de ver: babás filmadas por câmeras ocultas espancando bebês em suas casas; torturas nas creches; recém-nascido jogado no lixo; crianças revirando lixo nas ruas, crianças estupradas, crianças com síndrome de Dow mortas pelos pais, outras jogadas do alto dos prédios, queimadas, espancadas, mortas, assassinadas. Isso no meu olhar indígena é infanticídio, mas nós, índios, não fazemos isso. Por favor, não peçam dinheiro em nome do infanticídio indígena”.
“A questão por mim colocada é para que vocês OLHEM o infanticídio em volta de vocês no lugar de só procurarem entre os índios. O estado brasileiro QUANDO encontra a mãe que faz isso, bota a mulher na cadeia, não quer saber se essa mãe tinha casa, se estava passando fome, se sofria alguns distúrbios, se pelo menos essa mãe conseguiu fazer o pré-natal no posto de saúde. Sou contra o racismo e a xenofobia contra o nosso Povo Indígena, ainda mais provocado sem pensar, por isso recomendo que tratem do INFANTICÍDIO e não apenas dos povos indígenas”.
RESPOSTA DE MÁRCIA (13/11/2010)– A dirigente da Ong Atini responde insistindo no uso da palavra infanticídio. Argumenta que a definição do termo vem do latim – infanticidium – que significa a morte de criança, especialmente recém-nascida. Reconhece que ele é amplamente cometido na sociedade brasileira, mas que existem outras ONGs para cuidar disso: “Conheça-nos melhor, sra. Rosi, assista nossos vídeos. Veja Rosi, são os próprios indígenas que falam. Depois de assistir a esses vídeos e ler nosso material entre em contato dizendo o que achou, por favor”.
2ª. CARTA DE ROSI (14/11/2010) -  Rosi assistiu o documentário ‘Quebrando o silêncio’ feito pela ONG Atini e dirigido por Sandra Terena, onde se afirma que “crianças indesejadas são condenadas à morte por nascerem com deficiência física ou mental, por serem gêmeas, filhas de mãe solteira ou ainda por serem vistas como portadoras de azar para a comunidade”. O documentário traz depoimentos de vários índios do Brasil central sobre o que a ONG classifica como infanticídio: “a tradição manda que as crianças sejam enterradas vivas, sufocadas com folhas, envenenadas ou abandonadas para morrer na floresta”.
Rosi leu o texto “A estranha teoria do homicídio sem morte”, de Marta Suzuki e deu, então, uma longa resposta, afirmando que sua interlocutora não compreendeu a profundidade do assunto, desconhece os estudos dos antropólogos, a quem ataca, e assume “as piores interpretações possíveis sobre os povos indígenas, sobretudo as questões das mulheres indígenas”.
Os principais trechos vão aqui selecionados:
“Sou indígena. Entendo perfeitamente o que meus parentes indígenas do centro do país estão dizendo. Respeito o modo de pensar deles. Meu povo também tinha essa prática, mas não precisou de ONG nenhuma intervir, achando que somos incapazes de resolver nossos problemas”.
“Quero dizer-lhe que os gêmeos, trigêmeos e os deficientes indígenas da região do Rio Negro, onde moro, estão todos vivos, sobrevivendo sem intervenção de ONGs. Apesar da ineficácia do sistema de saúde indígena, tivemos sim apoio da equipe de saúde nas reflexões e tomadas de decisões com relação ao assunto”.
“Mas a ineficácia crônica dos poderes públicos com relação à assistência aos povos indígenas é grande. Isso sim tem que ser documentado, mostrando a verdadeira face de como os povos indígenas são tratados no Brasil. Os profissionais que atuam em áreas indígenas têm que ser melhor qualificados, as escolas e as universidades devem ter aulas de história indígena para explicar a diversidade e a peculiaridade de nossos povos”.
“A falta de aprofundamento de estudos por parte da ONG deixa muito a desejar. Uma vez veiculada na mídia, a ideia do indígena ruim e mau já foi repassada, não tem como reverter. Vocês deveriam ter refletido que no nosso país tem muitos analfabetos de conhecimento indígena. Deveriam ter pensado que ao tratar dos povos indígenas, as interligações são diversas. Deveriam pensar uma melhor maneira de tratar o assunto, porque ele é mais profundo do que vocês imaginam”.
“Os internautas que são analfabetos em assunto indígena não vão querer saber o contexto de cada caso, e jamais irão compreender, pois esse assunto não se estuda em academias e muito menos nas escolas. Generalizar para eles é mais simples e fácil, provocando conceitos racistas e xenofóbicos, assim como está ocorrendo”.
“A questão não é julgar e condenar ninguém, mas esclarecer que o desejo de AJUDAR                 os povos indígenas não se resume em classificar cultura ruim e cultura boa, costume ruim e costume bom. Vai além disso, muito além. Quando os não-índios chegaram, também a intenção   deles era AJUDAR, ‘civilizando-nos’ para os costumes deles, alegando que nossa cultura era atrasada, isso no olhar deles. Inconscientemente, vocês estão seguindo o mesmo caminho”.
“Quando procurados para resolver o assunto, deveriam ter encaminhado aos órgãos competentes brasileiros e não tomar para vocês a responsabilidade que é do Estado. Aí sim, vocês estariam ajudando o país a revisar as políticas públicas relativas aos índios e a combater a omissão do Estado”.
“Isso evitaria que os analfabetos em questões indígenas tivessem a interpretação que estão tendo, após o início da campanha de vocês. Na atualidade, o infanticídio está ligado à saúde pública e não somente à cultura desses povos. Mas o sistema de Saúde Indígena é ineficiente, com a maioria dos profissionais despreparados para atuar em áreas indígenas e lidar com tais assuntos. Os poucos profissionais competentes não são valorizados”.
“Essas questões e outras relativas à saúde pública não são aprofundadas por vocês. É fácil falar superficialmente, o difícil é falar da raiz do problema e buscar solução. O despreparo da maioria dos órgãos públicos para lidar com certos assuntos indígenas sempre foi e é um grande problema. Alguns avanços foram feitos, mas falta ainda muito a caminhar. É preciso cobrar do Estado suas responsabilidades”.
“Muitos séculos atrás, alguns naturalistas ocuparam infinitas páginas em seus diários, falando do infanticídio entre os povos indígenas. Mas pouco escreviam sobre as relações sociais familiares e a importância da criança indígena. Naquela época, éramos autônomos e felizes. Não existia Estado brasileiro, nem dinheiro, TV ou internet”.
“Por que será que registravam o infanticídio entre os povos indígenas e nada escreviam sobre o infanticídio cometido pelos povos ao qual pertenciam? É fácil enxergar e julgar os outros, o difícil é olhar ao seu redor, entender cada contexto e sua realidade”.
“Faz algum tempo, os jornais noticiaram que uma mulher seria apedrejada até a morte, no Irã, por ter cometido adultério. Então vários países foram contra, pois era uma VIDA que estava em jogo. Passado pouco tempo, os jornais noticiaram que nos Estados Unidos um homem condenado à pena de morte foi executado, uma injeção retirou a VIDA dele. Um ser humano tira a VIDA de outro ser humano, isso com o consentimento de todos. Não vi nenhuma manifestação contra a execução”.
“A questão não é se o ser humano que foi condenado é bom ou ruim, mas a discussão é sobre a VIDA. De acordo com slogan de vocês: SALVE UMA VIDA. No exemplo citado, uma vida foi tirada aos olhos do mundo inteiro. Analisemos o caso. O homem estava há anos confinado em celas do presídio. Não tinha liberdade! Isso é vida? Ele estava sozinho na cela, igual a um passarinho engaiolado. Sem sua família. Ele é um ser humano, foi gerado pelo pai e mãe, nasceu de uma mulher. Isso é vida? Talvez ele tinha uma esposa e até um filho. Mas não podia compartilhar com seus familiares. Isso é vida?”
“Para mim, que sou uma mulher indígena Waikhon, a Vida vai além do corpo físico, além dos órgãos vitais, além do espiritual, além do mundo que nos rodeia. Tudo tem vida: o ar que eu respiro, o sol que me aquece, o alimento que eu como, o rio, a mata... Mas isso é difícil para os não índios entenderem, porque vejo que estão matando a vida, por exemplo, os rios em suas cidades, vocês despejam lixo nele, tentam recuperar, mas os esgotos são canalizados para os rios e igarapés”.
“Os rios e igarapés estão chorando, estão desidratados, estão quase morrendo. Eles não são seres humanos, mas têm vida. Nós, índios e não-índios, precisamos deles, porque sem água o ser humano não vive. Ele morre. Estão vendo como uma coisa está interligada à outra?”
“Com relação ao exemplo citado do homem condenado à morte, não tiraram só uma vida dele, tiraram várias, a vida final foi a dos órgãos vitais e a do corpo físico. Estão vendo como é complicado?”
“Muito tempo atrás, os ‘civilizados’ também começaram a tirar nossas vidas. Invadiram nossas aldeias. Queimaram nossas casas. Tomaram nossas terras. Estupraram nossas mulheres. Mataram nossas crianças. Travaram brigas de índio contra índio. Escravizaram nosso povo, nos chamando de atrasados, que impediam o progresso do Brasil. Hoje, muitos são executados por causa da posse da terra. Os não-índios ricos e poderosos colocam índio contra índio, nos dividem para poder tomar posse de nossas terras”.
“Quando se trata de questão indígena, não se pode cuidar só do pé ou da mão. Nossos membros estão interligados. É preciso aprofundar o estudo sobre nossas culturas para não causar, mesmo inconscientemente, o racismo e a xenofobia na sociedade que ainda não consegue compreender os povos indígenas e as diferentes formas de sobreviver num mundo tão complicado”.
“Quero dizer aos senhores que antigamente o povo a qual pertenço praticava o que vocês chamam de infanticídio e não era infanticídio, nem indígena, pois na época não tinham nos apelidado ainda de índio. Como seria intitulado nos dias atuais, se os exploradores de nossas terras, muitas delas tomadas pelos latifundiários, que nos chamam de preguiçosos, não tivessem nos apelidado? Seria infanticídio waikhon, kamaiurá, kayabi?”
“Atualmente nós não temos mais essa prática, pois os gêmeos, trigêmeos e deficientes continuam vivos, são acolhidos muito bem, também existem não-índios solidários que ajudam cuidando dessas crianças, mas elas NÃO SÃO RETIRADAS DE SUA FAMÍLIA NEM DE SUAS ALDEIAS. Na Terra Indigena onde habito somos mais de 20 povos indígenas, entre eles tem também os Yanomami. Recentemente, nasceram trigêmeos Yanomami, a equipe de saúde ficou temerosa, porque lá ainda existe essa prática”.
“Diante disso, houve um DIÁLOGO entre a equipe de saúde, as lideranças indígenas, a família e o povo Yanomami. Sabe o que aconteceu? Depois de logos dias de diálogo, os pais ficaram com dois, os avós maternos ficaram com o terceiro. As crianças não foram retiradas do seu seio familiar, de seu povo, de suas terras, como vocês fazem. Tudo é questão do diálogo, respeito, entendimento, pois os povos indígenas, apesar das diferenças, têm inteligência e capacidade de chegar a um acordo”.
“Já que a Ong Atini está tratando do público indígena, respeito o modo de pensar de vocês. Mas quero lhe dizer que uma vez um indígena afastado de seu povo, de seu habitat, de suas terras, essas famílias e crianças não deixarão de ser índios (as), mas nunca mais serão os mesmos. Pois terão que seguir as violentas regras da civilização e do capitalismo para sobreviverem, como mão de obra barata da sociedade integracionista”.
“O que me entristece é o termo “infanticídio indígena”, era melhor vocês estudarem outro termo, porque esse atual afeta todos nós. Na atualidade, estamos tratando do assunto de forma diferente da de vocês e não ficamos pedindo dinheiro para montar uma aldeia na cidade. A Ong de vocês tem um habitat que se assemelha a uma aldeia conforme o entendimento de cada povo indígena? Porque pelo que vi lá tem pessoas de povos diferentes, tem Kamaiurá, Kayabi, Sateré-Mawé... Ou é tudo feito ao molde de vocês?”
“Cada povo indígena tem sua estrutura social, econômica, política, cultural, seu idioma, sua religião, sua alimentação...Isso aqueles que não sofreram a desestruturação do Estado brasileiro integracionista e a lavagem cerebral dos missionários que cuidam apenas da alma dos índios. Cada povo indígena sofreu a integração e a intromissão do não-índio de forma diferenciada e na atualidade tentaram de alguma forma se reorganizar e sobreviver. Vocês levam isso em conta? De que maneira?”
“Senhores, sou uma índia em busca de resposta e tentando sobreviver no mundo não-indígena. Penso que o diálogo é importante. Após a matéria de sua Ong veiculada na rede Record, sofri momentos terríveis. Sabe como os civilizados falaram na minha cara? “Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer”. Foi mais de uma pessoa, foi por isso que resolvi escrever.Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas”.
“Se vocês estivessem no meu lugar o que fariam? Registrar na delegacia? Mas como se num centro urbano desorganizado são tantas pessoas e não há polícias à disposição para tomar providências! Como pegar o nome dessas pessoas? Complicado pra quem não tem habilidade de cidade grande”.
“Fiquei muito triste por tudo. Não culpo essas pessoas, porque elas simplesmente são influenciadas pela ignorância, mal devem ter uma TV em casa, muitas vezes não têm nem o que comer, muito menos irão se aprofundar sobre o assunto. São filhas do sistema opressor da ganância, do egoísmo e do individualismo. Se aconteceu comigo, pode ter acontecido com outros”.
“Desculpem se estou ofendendo vocês, mas a cada dia que eu for ofendida por conta desse assunto, escreverei cartas, pois a escrita é a única ferramenta do não-índio que possuo. Só estou escrevendo, porque fui atingida como indígena. Não falo em nome dos povos indígenas do Brasil, porque compreendo as peculiaridades diversas e respeito a maneira de pensar dos outros parentes. Já temos problemas demais para ter que enfrentar no mundo atual. Todo cuidado é pouco para não travar brigas de índios contra índios. É isso que a Ong não consegue compreender”

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...