13 de set. de 2010

A SOGRA DO JACAMIM EM BUSCA DA BELEZA
José Ribamar Bessa Freire
12/09/2010 - Diário do Amazonas


O Jacamim andava ciscando no terreiro e, com seu bico irrequieto, beliscava um inseto aqui, uma minhoca ali, uma sementinha acolá. Sua sogra, que assistia a cena, viu que tudo nele era desproporcional e deselegante. Pescoço pelado, curvo e compriiiiido. Cabecinha minúscula em cujo cocuruto emergia ridículo topete de penas eriçadas. Curtas, demasiado curtas eram suas asas. Altas, excessivamente altas suas pernas. Ela olhou aquele bicho desengonçado e, com a sinceridade que as sogras soem ter, disse:
 
- Meu genro, não me leve a mal não, mas você é feio! Muito, mas muiiiiiiito feio! Feio pra chuchu! Parece até que minha filha casou com um urubu!
 
Ele, o jacamim-una de penas pretas, decidiu conferir no espelho do lago. A imagem refletida era, efetivamente, a de um urubu corcunda, pernalta, sem garras e com cabeça de piroca. Não gostou. De tristeza, cantou. Mas de sua garganta saía apenas um som estridente – vuh, vuh, vuh – que vibrava como o toque irritante e uniforme de uma corneta. A sogra que tudo observava, arrematou:
 
- Tudo em você está errado. Nem cantar você sabe. Seu canto parece latido de cachorro ou berro barulhento de uma vuvuzela. Ah, mas isso não vai ficar assim não. Vamos mudar. Espere aqui, meu genro, vou lá no mato procurar a beleza pra você.
 
Foi.
 
A beleza das cores
 
- Beleeeeza, cadê você? – perguntou a sogra, entrando na floresta com um saco. Foi colocando dentro dele tudo de belo que encontrava: as tintas do beija-flor e suas penas com as sete cores iridescentes do arco-íris; o peito, o abdome e o papo-vermelho da pipira; o bico duro e cônico do azulão e sua mandíbula angulosa. Depois, pegou o olhar aceso do rouxinol e a meiguice do pintassilgo. Guardou a sociabilidade, a alegria e o espírito de camaradagem do bem-te-vi, a mansidão do canário-da-horta, a valentia do gavião e até o aparelho digestivo do murucututu lá em cima do telhado.
 
Mas a velha queria mais. Continuou enchendo o saco. Capturou o voo elegante e baixo de uma andorinha que, sozinha, não fazia verão, mas riscava o ar em curvas caprichosas. Esperou o tico-tico-rei comer todo o seu fubá e arrufar suas penas brilhantes – tico-tico lá, tico-tico cá - para roubar-lhe o topete vermelho escarlate que parecia incendiar sua cabeça como uma chama. Na terra com palmeiras onde canta o sabiá, ela se apoderou da cauda empinada e das patas cor de avelã da ave que gorjeava e saltitava com desembaraço,
 
O saco, já quase cheio, recebeu ainda plumas de seda do sanhaço, penas aveludadas do guará recolhidas em um manguezal e vozes de todos os pássaros que o japiim imitava, coletadas num ninho construído ao lado de uma casa de caba. Finalmente, a velha pegou a garganta do uirapuru, com o repertório de seu canto mágico. E quando já ia embora, ensacou os hábitos de higiene do vira-bosta, que toma sempre seu banho matinal – faça frio, faça calor – depois de revolver o esterco à procura de milho.
 
- Beleeeeeeza, cadê você – perguntou outra vez a velha. Lá de dentro do saco mil vozes de pássaros trinaram. Satisfeita, ela retornou e entregou ao genro toda a beleza ornitológica da mata:
 
- Aqui está, meu genro, pra você se lavar, se pintar, se enfeitar, se colorir e afinar sua voz.
 
- Vou me lavar já – ele disse, agradecido.
 
Foi.
 
Mas enquanto tomava banho no igarapé, os outros pássaros furtaram-lhe as tintas, as cores, as plumas, os enfeites, o canto e até mesmo sua própria roupagem. A sogra, vendo o genro nuzinho, perguntou:
 
- Ô Coisa Feia, onde está a beleza que te dei?
 
- Eles roubaram.
 
- Além de feio, és leso e abestado – disse a sogra, esfregando sumo de jenipapo na costa dele, que ficou negra. Depois, passou uma mistura de casca de abacaxi com urucu no peito, que ficou roxo. É por isso que o jacamim-una ficou assim.
 
Os saberes 
 
Essa história que circula entre os índios do rio Negro (AM) é uma versão livre que eu recriei inspirado na narrativa ‘O jacamin e as cores’ (Yacamy i pinima çaua irumo), recolhida no Rio Branco pelo cientista João Barbosa Rodrigues, um ex-professor do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, que viveu mais de dez anos no Amazonas (1872-1874 e 1883-1890). Ele organizou e dirigiu o Museu Botânico de Manaus, andou pelos rios da região, conviveu com diferentes etnias e aprendeu o Nheengatu - a língua geral que lhe permitiu ouvir as histórias e registrar a ciência indígena.
 
Contei essa e outras histórias na quarta-feira, 8 de setembro, no Auditório Solimões do campus da Universidade Federal do Amazonas, em Manaus, numa mesa-redonda compartilhada com o historiador Antônio Loureiro, que se autodefiniu com simpatia e humor como um ING – indivíduo não governamental. A mesa fazia parte da programação do I Simpósio João Barbosa Rodrigues, coordenado por Antonio Webber e promovido por Frederico Arruda, Pro-Reitor de Extensão e Interiorização da UFAM.
 
A homenagem da UFAM a Barbosa Rodrigues é mais do que merecida. Ele é o autor do livroPoranduba Amazonense, uma edição bilíngue da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro de 1890, que reúne mitos, contos zoológicos, contos astronômicos e contos botânicos, além de “cantigas com que as mães embalavam seus filhos ou animavam as danças e os trabalhos”, num total de 130 textos.
 
A grande sacação de Barbosa Rodrigues foi perceber, no século XIX, que numa sociedade sem biblioteca, sem livros, sem escrita, mas com forte tradição oral, as histórias e cantos funcionam como enciclopédias onde estão contidos os saberes necessários para a sobrevivência e a reprodução das culturas. São aulas de botânica, zoologia, astronomia, ciências sociais e ciências humanas, com seus supremos mistérios.
 
A história aqui apresentada, em suas diferentes versões, constitui um mini-tratado de ornitologia, que dialoga com o Catálogo das Aves da Amazônia, organizado posteriormente pela ornitóloga alemã Emília Snethlage (1868-1929), ex-diretora do Museu Goeldi, no Pará. Essas histórias contêm o sistema de classificação das diferentes espécies de aves, pássaros e outros animais, suas características físicas e comportamentais, hábitos, costumes, lugares onde vivem, como se alimentam e se reproduzem.
 
Parte desse conhecimento, que foi satanizado e discriminado por não se enquadrar dentro dos cânones da ciência e da religião dominantes, se perderia com a morte dos velhos narradores se alguns tupinólogos não os tivessem registrado. Barbosa Rodrigues, que publicou inúmeras obras de botânica, uma delas sobre palmeiras, outra sobre orquídeas, ficou encantado com a capacidade de observação e o espírito científico dos índios.
 
Segundo ele, os índios “seguiam e seguem um método sintético na classificação das plantas. Designam as espécies por nomes tirados dos caracteres das folhas, flores, frutos ou de propriedades como o cheiro, o sabor, a dureza, a duração, a cor, o emprego, etc.etc. Nenhuma característica essencial lhes escapa. São tão exatas as suas observações, que se encontram gêneros e subgêneros em uma só família, como se fossem agrupados por um verdadeiro botanista”.
 
Algumas décadas depois, no seu livro 'O Pensamento Selvagem', o antropólogo francês Lévi-Strauss chamou a atenção para as evidências de que as sociedades indígenas têm uma prática de produção de conhecimentos, testam hipóteses através de experimentos genéticos, plantam e selecionam sementes, realizam observações rigorosas e classificam o mundo natural de uma maneira tão complexa como a taxonomia de um biólogo universitário. Muitos erros e confusões teriam sido evitados - afirma Lévi-Strauss - se o pesquisador tivesse confiado nas taxonomias indígenas em lugar de improvisar outras, nem sempre adequadas.
 
 O I Simpósio Barbosa Rodrigues fez parte de uma programação maior do 61º Congresso Nacional de Botânica, organizado pela Sociedade Brasileira de Botânica e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, com o apoio da UFAM e de outras instituições. O Congresso reuniu em Manaus, de 6 a 10 de setembro, mais de dois mil pesquisadores do Brasil e do exterior. A mídia, lamentavelmente, não deu a devida importância a um evento que discutiu, entre outros temas, a Amazônia. De qualquer forma, lá compareceu a sogra do Jacamim, que saiu em busca das cores da beleza e acabou encontrando essa outra forma do belo que é o conhecimento.
 
P.S. – Alguns leitores estão reclamando porque as eleições de outubro no Amazonas não estão sendo comentadas aqui nesse espaço. Sinceramente, entre Omar Aziz e o Cabo Pereira, eu fico com a sogra do Jacamim.

12 de set. de 2010

Métodos levam em conta a cultura

Em Santa Catarina, vivem cerca de 10 mil indígenas das etnias Xokleng, Kaingang e Guarani. Os alunos índios são 2.180, atendidos por 35 escolas públicas estaduais específicas.

Ainda que exista influência do modelo da escola para os que não são índios, o método de ensino é específico e os professores recebem formação especializada para trabalhar com esta população.

– Uma das garantias é a língua materna em todos os níveis – explica Helena Alpini Rosa, técnica da equipe de Educação Escolar Indígena.

Isso inclui itens como artes (artesanato) e costumes. O trabalho na agricultura e atividades na casa de reza (templos) constam como curriculares. Seguindo as tradições, alguns feriados não são comemorados. Em compensação, o Dia do Índio tem as comemorações com encontros para debates acerca da realidade de cada povo.

Os Xokleng moram nos municípios de José Boiteux e Vitor Meirelles. Seus alunos estudam dentro da área indígena, em uma escola de educação básica, uma escola de ensino fundamental com extensão de ensino médio e uma escola com séries iniciais.

Os Kaingang residem nos municípios de Ipuaçu, Entre Rios, Chapecó, Seara, Porto União, Abelardo Luz e Concórdia. Estudam em uma escola de educação básica (Ipuaçu), uma escola de ensino fundamental e 16 escolas que atendem apenas as séries iniciais.

Fonte: Diário Catarinense

Seminário sobre povos indígenas acontece no dia 13

Fonte: Da redação
Foto: Ilustração
Na próxima segunda-feira (13), acontece a palestra “A corporalidade e o lúdico entre os povos indígenas”, às 13h30, com a professora Dra. Marina Vinha (UFGD).
A palestra faz parte da série de Seminários “Identidade e Fronteira – A questão indígena no Mato Grosso do Sul”, que acontece uma vez por mês no auditório do Centro de Ciências Humanas e Sociais (CCHS), na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Dentre os convidados, está a presidente da Comissão Especial de Assuntos Indígenas, Samia Roges Jordy Barbieri, que participa da série de palestras em novembro.
Os seminários promovem o debate acadêmico com o intuito de ampliar a visibilidade da questão indígena na busca de soluções e implementação de políticas públicas a partir da realidade destas sociedades indígenas.

Fonte: A Crítica de Campo Grande
Lá vem o Amarelão!
(Por Daniel Munduruku)
Desde algum tempo se diz que no Rio Grande do Norte não há mais indígenas. E também já faz tempo que disseminava esta informação durante minhas palestras para professores porque confiava nos dados fornecidos pelo órgão oficial e outros institutos. Até brincava com o fato das pessoas sempre imaginarem que um dos únicos estados brasileiros que não tem a presença de indígenas é o Rio Grande do Sul. A maioria das pessoas acreditam que lá – por conta da colonização européia forte e excludente – foram exterminados todos os indígenas. Não foi bem assim a história. De qualquer forma este sempre foi o imaginário popular.
Depois de algum tempo mudei a tônica de minha fala ao referir-me ao tema. Na verdade passei a incluir a palavra “supostamente” quando me referia à questão. Deixava subentendido que havia possibilidade de existir sim algum povo ainda “ocultado” em função das disputas de terra.
Os povos indígenas do nordeste foram os primeiros a serem “descobertos” pelos europeus. Por conta disso foram perseguidos e exterminados ao longo do processo colonizador. Quem fosse pego definindo-se como “índio” era fatalmente detonado da convivência social. Em função disso muitos grupos foram dispersados e os poucos que se mantinham vivos tinham que se “civilizar” para serem aceitos socialmente. Com isso acabavam esquecendo a própria língua, suas histórias, suas memórias ancestrais, seus rituais, cantos sagrados e crenças.
O tempo passou e o que parecia ter sido perdido no passado longínquo mostrou-se atual. Grupos inteiros estão buscando resgatar suas identidades esquecidas num movimento sociológico muito interessante e consistente. Estes grupos – povos ressurgidos, povos resistentes, para citar algumas denominações – passaram a reivindicar seus direitos históricos. Afinal, foram vítimas de uma história muito mal contada.
Estou dizendo isso porque há alguns dias atrás, enquanto participava do Encontro da Diversidade, um mega evento organizado pela Secretaria da Identidade e Diversidade (SID) do Ministério da Cultura[i], conheci Maria Ivoneide. Quem é ela? É uma indígena do Rio Grande do Norte. Ali estava a prova da existência de um povo antes negado. Ivoneide chegou-se a mim, apresentou-se. Disse que me conhecia. Fiquei lisonjeado. Argui algumas questões e fiquei sabendo que há mais de 10 anos estão pleiteando o reconhecimento de seu povo junto aos órgãos competentes. Alguns avanços já aconteceram. Nada vultoso. Um começo.
Descobri, então, que o nome de seu povo é Amarelão. Fiquei curioso. Por que este nome? A mim parecia uma invencionice. Não disse isso a ela. Apenas especulei. Ela explicou-me que o nome é oriundo de uma antiga tradição que lhes foi contada por seus velhos avós. Ela contou, então, uma história.
Segundo o costume dos antigos, os homens da comunidade – quando a noite se fazia alta – saíam floresta adentro para buscar o sol. Ficavam nessa função a noite toda e quando o dia se avizinhava voltavam e anunciavam para toda a comunidade: Lá vem o Amarelão! Lá vem o Amarelão!
Era uma referência ao sol que, àquela hora, já mostrava sua pujança.
Fiquei fascinado! Era uma história que tem tudo a ver com o pensamento mítico indígena. Senti que Ivoneide ficou feliz em me contar. Entendi o nome. É assim mesmo que os indígenas dão nomes às coisas e a si mesmos.
Ela ainda me confidenciou que antropólogos explicam o nome dizendo tratar-se de doença que descoloria a pele dos infectados. Nós dois rimos. É uma explicação racional de quem tenta explicar o inexplicável! Típico do ocidental!
O Povo Amarelão entrou no meu repertório. Rio Grande do Norte tem um povo. São cinco comunidades. Aproximadamente mil pessoas. A sociedade brasileira pode entender que não são “índios verdadeiros”. Não importa. O Amarelã(sol) sabe. Isso é que vale!
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i) Este evento aconteceu entre os dias 04 e 06 de setembro

9 de set. de 2010

Funasa registra avanços nos indicadores de Saúde Bucal nas áreas indígenas



A Fundação Nacional de Saúde (Funasa) através do O Departamento de Saúde Indígena (Desai) divulgou dados sobre os principais indicadores de atenção coletiva e individual em saúde bucal, ofertada às populações indígenas, em todo pais. As informações compõem o relatório ‘Vigilância em Saúde Indígena – Dados e Indicadores selecionados 2010’, produzido pelo Desai no período de 2000 a 2009, o qual destaca progressos importantes na organização dos serviços odontológicos e no atendimento realizado pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei).
A Funasa tem investido fortemente na aquisição dos materiais de higiene oral (escova e creme dental fluoretado) para provimento à população indígena no intuito de fortalecer as atividades de promoção e prevenção da saúde bucal. Os dados apontam um crescimento médio de 386% na oferta desses itens à população indígena no ano de 2009, em relação ao ano de 2003. A ação coletiva de escovação dental supervisionada alcançou cobertura de 58,33% em 2009. Em 2010, dados parciais (janeiro a julho) do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (módulo de Saúde Bucal) indicam cobertura de 70,81%.
A cobertura de primeira consulta odontológica programática alcançada no ano de 2009 foi de 11,95%. Em 2010, dados parciais (janeiro a julho) do Siasi indicam cobertura de 18,33%, portanto, um crescimento de 63,38% na cobertura de 2010 em comparação com o ano anterior. Isso significa que aproximadamente 108. indígenas em todo o Brasil tiveram acesso aos serviços de atenção odontológica nesse ano.
O número de pacientes indígenas com tratamento odontológico básico concluído em relação ao número de pacientes atendidos aumentou 79,9% no período entre 2004 e 2010. Esse indicador representa o percentual de pacientes que foram atendidos e estão livres de cárie dentária e doença periodontal. O indicador também demonstra a qualidade da atenção em saúde bucal ofertada nos Dsei do Brasil.
O número de procedimentos clínicos odontológicos realizados em um atendimento ao paciente indígena também tem aumentado nos últimos anos. De acordo com o relatório do Desai, a relação entre procedimentos e atendimento registrado em 2007 foi de 1,81; em 2008 foi de 1,95; em 2009 foi de 2,38; e em 2010 foi de 2,60. O aumento registrado no período foi de 43,64%, dado que comprova que atenção está direcionada para conclusão do plano de tratamento do paciente objetivando o controle de infecção intrabucal.


MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...