19 de fev. de 2010


Cultura e Lazer
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19/02/2010 14:22
Ação apoiada pela ONU aproxima a escola do universo Guarani
 
Pontão de Cultura Guaicuru/IZ
As percepções que os estudantes têm do universo dos índios Guarani vão ser conhecidas em um concurso que rompe as fronteiras brasileiras e chega aos países que integram o Mercosul. O concurso de redação, quadrinhos, poesia e desenhos faz parte do projeto "Ava Marandu – Os Guarani Convidam", uma série de ações que inclui ainda oficinas culturais nas aldeias e a ilustração da cartilha da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.
Mato Grosso do Sul, região com a segunda maior população indígena do Brasil e maior população Guarani do país, com 40 mil pessoas, será o pólo irradiador do projeto, coordenado pelo Pontão de Cultura Guaicuru, com sede em Campo Grande. No Estado também será desenvolvido calendário de ações que promovem a reflexão sobre a realidade e a importância cultural dos Guarani na América do Sul.
O concurso, que incentiva o intercâmbio cultural da população não-índia com os povos indígenas tem a cooperação da ONU, Organização das Nações Unidas e articulação do Comitê Gestor de Ações Indigenistas Integradas da região da Grande Dourados. É patrocinado pela Petrobras, Eletrobrás, Caixa Econômica Federal, Ministério da Cultura e Governo Federal e conta com apoio da prefeitura de Campo Grande. A idéia é fazer com que estudantes e professores possam registrar suas percepções sobre o tema e conhecer melhor as questões indígenas de Mato Grosso do Sul.
Para a pró-reitora de extensão, cultura e assuntos comunitários da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Beatriz dos Santos Landa, essa é uma grande oportunidade de intercâmbio de informações. “São concursos internacionais, abertos a todos os países do Mercosul. Isso quer dizer que alunos de diferentes níveis e contextos poderão pesquisar sobre os povos Guarani e apresentar trabalhos, que servirão de suporte para toda sociedade, com diferentes abordagens.”
O concurso de redação, poesia, quadrinhos e desenho é aberto aos alunos do ensino fundamental, médio e superior. A entrega dos trabalhos nas escolas vai até o dia 30 de março. Cada instituição de ensino fica responsável pela triagem de, no máximo, três participantes. Os trabalhos selecionados serão encaminhados ao Pontão de Cultura Guaicuru até o dia 19 de abril. O concurso vai premiar 9 alunos com laptops e também beneficia os professores e a comunidade escolar. É que além do aluno, o professor e a escola vencedora também recebem o equipamento de informática.
Já o concurso da Cartilha Ilustrada da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas é aberto a todas as pessoas. O melhor trabalho tem como prêmio R$ 5 mil e a publicação e distribuição de 3 mil cópias da cartilha ilustrada. As inscrições para o concurso da Cartilha Ilustrada também vão até o dia 19 de abril. Para conhecer o regulamento, basta acessar o site:
http://www.pontaodeculturaguaicuru.org.br/avamarandu ou entrar em contato com o Pontão de Cultura Guaicuru: 3026-6356; 3325-1121. O Pontão de Cultura Guaicuru está localizado rua Treze de Maio, n° 727, Vila Santa Dorothéia.

Ação apoiada pela ONU aproxima a escola do universo Guarani


Cultura e Lazer






 
Pontão de Cultura Guaicuru/IZ
As percepções que os estudantes têm do universo dos índios Guarani vão ser conhecidas em um concurso que rompe as fronteiras brasileiras e chega aos países que integram o Mercosul. O concurso de redação, quadrinhos, poesia e desenhos faz parte do projeto "Ava Marandu – Os Guarani Convidam", uma série de ações que inclui ainda oficinas culturais nas aldeias e a ilustração da cartilha da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.
Mato Grosso do Sul, região com a segunda maior população indígena do Brasil e maior população Guarani do país, com 40 mil pessoas, será o pólo irradiador do projeto, coordenado pelo Pontão de Cultura Guaicuru, com sede em Campo Grande. No Estado também será desenvolvido calendário de ações que promovem a reflexão sobre a realidade e a importância cultural dos Guarani na América do Sul.
O concurso, que incentiva o intercâmbio cultural da população não-índia com os povos indígenas tem a cooperação da ONU, Organização das Nações Unidas e articulação do Comitê Gestor de Ações Indigenistas Integradas da região da Grande Dourados. É patrocinado pela Petrobras, Eletrobrás, Caixa Econômica Federal, Ministério da Cultura e Governo Federal e conta com apoio da prefeitura de Campo Grande. A idéia é fazer com que estudantes e professores possam registrar suas percepções sobre o tema e conhecer melhor as questões indígenas de Mato Grosso do Sul.
Para a pró-reitora de extensão, cultura e assuntos comunitários da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Beatriz dos Santos Landa, essa é uma grande oportunidade de intercâmbio de informações. “São concursos internacionais, abertos a todos os países do Mercosul. Isso quer dizer que alunos de diferentes níveis e contextos poderão pesquisar sobre os povos Guarani e apresentar trabalhos, que servirão de suporte para toda sociedade, com diferentes abordagens.”
O concurso de redação, poesia, quadrinhos e desenho é aberto aos alunos do ensino fundamental, médio e superior. A entrega dos trabalhos nas escolas vai até o dia 30 de março. Cada instituição de ensino fica responsável pela triagem de, no máximo, três participantes. Os trabalhos selecionados serão encaminhados ao Pontão de Cultura Guaicuru até o dia 19 de abril. O concurso vai premiar 9 alunos com laptops e também beneficia os professores e a comunidade escolar. É que além do aluno, o professor e a escola vencedora também recebem o equipamento de informática.
Já o concurso da Cartilha Ilustrada da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas é aberto a todas as pessoas. O melhor trabalho tem como prêmio R$ 5 mil e a publicação e distribuição de 3 mil cópias da cartilha ilustrada. As inscrições para o concurso da Cartilha Ilustrada também vão até o dia 19 de abril. Para conhecer o regulamento, basta acessar o site:
http://www.pontaodeculturaguaicuru.org.br/avamarandu ou entrar em contato com o Pontão de Cultura Guaicuru: 3026-6356; 3325-1121. O Pontão de Cultura Guaicuru está localizado rua Treze de Maio, n° 727, Vila Santa Dorothéia.

11 de fev. de 2010

ESTUDO MOSTRA AUSÊNCIA DE HIPERTENSÃO EM INDÍGENAS QUE NÃO INGEREM SAL


Os índios yanomamis, que raramente incluem sal em sua dieta, não são portadores de hipertensão e, mesmo quando envelhecem, não há aumento da pressão arterial, enquanto nos Estados Unidos a redução de 3 gramas no consumo diário de sal evitaria entre 60 e 120 mil casos anuais de doença coronária.


Esses estudos, o primeiro antigo, feito por pesquisadores brasileiros, e o segundo recém-publicado pelo “New England Journal of Medicine” foram citados pelo professor Joel C. Heimann, da Faculdade de Medicina da USP, para justificar a campanha pela redução do uso do sal, uma das prioridades da Sociedade Brasileira de Cardiologia – SBC.

Heimann, da cadeira de “Clínica Médica” da USP, foi convocado pelo diretor de Promoção à Saúde Cardiovascular da SBC, Dikran Armaganijan, para se engajar na campanha cujo objetivo final é reduzir o consumo “per capita” de sal para no máximo seis gramas por dia por pessoa.

Dikran explica que o consumo de sal é elevado não apenas no Brasil, mas também em outras regiões do mundo, tanto que em Nova York, a própria Prefeitura iniciou uma campanha para reduzir o consumo de sal. O problema, diz ele, é que o sal de sódio aumenta a pressão arterial e essa hipertensão pode levar tanto ao infarto como ao acidente vascular cerebral, e a doenças renais. As necessidades orgânicas de sal são inferiores às comumente ingeridas, diariamente pela população.

O abuso do sal é muito antigo, já que o produto era usado para preservar alimentos numa época em que não havia geladeiras nem conservantes. Era usado para o pagamento dos soldados na Roma antiga, tanto que do sal deriva o nome de salário, usado até hoje. Atualmente, porém, diz o professor Heimann, há sucedâneos do sal que contém pouco ou nenhum sódio, substituindo tal sal por potássio, que não provoca hipertensão, e certos temperos como pimenta, cebola, cebolinha e alho melhoram o sabor dos alimentos, sem os inconvenientes do sal de cozinha.

Ainda segundo Dikran, o excesso de sal é um dos responsáveis pelo alto número de mortes decorrentes de doenças cardíacas, que causam 315 mil óbitos por ano no Brasil. Para ele, o principal problema são os alimentos industrializados e de cadeias de “fast food”, que contém sal em excesso. Se for possível conscientizar as indústrias que produzem embutidos, as churrascarias e até mesmo os fabricantes de biscoitos e de pizzas pré-assadas de que podem reduzir a quantidade de sal sem afetar o paladar e o sabor dos alimentos, um número muito grande de pessoas deixará de morrer do coração, pois hoje 25% dos adultos brasileiros têm hipertensão arterial, sendo que, grande parte ignora a existência da doença e, mesmo parte dos que sabem, não usam medicamentos para controlar a pressão.

5 de fev. de 2010

Exemplo de jornalismo manco

A matéria "No mesmo lado", publicada na sexta-feira 29/1) no jornal A Gazeta, de Vitória (ES), renova a imagem discriminatória que o agronegócio da celulose construiu sobre as populações indígenas no Espírito Santo. Afirmando que hoje índios e empresa estão "do mesmo lado", o texto não fornece informações éticas e adequadas historicamente sobre a questão indígena no Espírito Santo, ocultando os inúmeros casos de violação de direitos humanos infligidos aos indígenas em função dos pleitos pelos seus territórios.

Em tom genérico e bastante preconceituoso, o texto não fornece informações à população sobre o conflito dos indígenas por suas terras, mas, pelo contrário, acirra a imagem negativa que o negócio da celulose construiu ao longo de 40 anos de exploração das terras indígenas e quilombolas.

O cronista diz que a luta indígena tem "origem na esperteza de alguns e na má fé de outros, incentivados pela motivação ideológica de terceiros". Por outro lado, a empresa já foi condenada judicialmente por racismo e discriminação e outro cronista do jornal A Gazeta foi condenado pela justiça por ato injurioso e discriminação dos indígenas. Diante da imobilidade da justiça, os atos de resistência à opressão do Estado foram classificadas por ele como "ações violentas dos indígenas que queriam mais terras ou mais dinheiro". Em contrapartida, as conquistas advindas da persistência das reivindicações pelos direitos indígenas foram classificadas por ele como "um gesto de boa vontade" da empresa.

A lição dos indígenas

Permanece o tom discriminatório contra os direitos destas populações sem uma razão que não o espírito racista que quer apagar a história do povo brasileiro e impor formas não democráticas. O texto está incorreto ao afirmar que a "novela [sic] começou dez anos depois de o Grupo Aracruz se instalar na região após ter adquirido as terras das famílias que lá moravam, quase todas elas descendentes de italianos". Não é demais lembrar que historicamente as populações indígenas no estado sempre estiveram às voltas com a defesa dos seus direitos, como mostram os estudos históricos do século 18 e 19 que registram massacres de indígenas em diferentes momentos.

Ademais, só é possível entender a raiva e as injúrias dos cronistas coloniais capixabas se levarmos em conta que eles fazem parte do "apagão democrático" do atual governo, cuja marca é invisibilização dos direitos sociais e sua transformação em "questão de polícia", em função de uma pauta comprometida com a predação da natureza. Apenas assim é possível entender por que o cronista afirma que os índios, "ao invés de trabalhar para assegurar o seu sustento, como fazem as pessoas de bem [sic], preferem se valer de movimentos de motivação política para obter benefícios de legitimidade duvidosa".

A busca por direitos por parte dos indígenas e quilombolas nos dá uma lição importante, pois, como afirmou o cacique Toninho Guarani, "se a população não sabe mais quais sãos seus direitos, nós, povos indígenas, sabemos". Neste sentido, só é possível pensar o sucesso dos indígenas como uma vitória da sociedade brasileira sobre as formas de discriminação racial. A vitória não é da empresa, como sugere o título dado pelo cronista, mas dos indígenas que nos ensinam que a realização democrática é uma luta árdua contra interesses, estes sim, que se aproveitaram de conjunturas políticas da ditadura militar e da corrupção para expropriar milhares de pessoas de seus direitos.

Interesses antidemocráticos

A luta indígena e quilombola é parte importante da resistência ao modelo que associa capital e política e varre para debaixo do tapete os danos sociais e ambientais que as gerações futuras ainda vão nos cobrar severamente. Se há alguma "legitimidade duvidosa" na questão indígena, ela é a forma pela qual o agronegócio da celulose se implantou e multiplicou em terras capixabas, como começou a demonstrar a CPI da Celulose, arquivada antes mesmo de apresentar qualquer conclusão.

Finalmente, o papel dos jornais deve ser a informação e a capacidade de equalizar os diferentes pontos de vista da sociedade, expressando sua diversidade, mas defendendo o respeito aos direitos humanos. Um jornalismo manco não tem nenhuma fundação senão servir a interesses antidemocráticos. Um jornalismo manco é incapaz de imaginar a defesa dos direitos humanos que, negados, condena todos a formas obscuras de vida social.

Por Sandro Silva


Fonte: Observatório da Imprensa

4 de fev. de 2010

ENTREVISTA: DANIEL MUNDURUKU

[Daniel Munduruku, referência da literatura indígena brasileira]
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Autor de mais de 30 livros sobre a cultura dos povos nativos, Daniel Munduruku é considerado um dos mais influentes escritores da atual literatura indígena produzida no Brasil. Formado em filosofia, com licenciatura em história e psicologia, e doutorando em educação pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que a escola brasileira ainda reproduz uma visão meticulosamente construída pelos colonizadores no século 16. Visão que, segundo ele, seria responsável pelo preconceito contra os índios.
.Presidente do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi), ONG voltada para a proteção dos conhecimentos tradicionais das aldeias, Munduruku foi também professor da rede estadual e particular de ensino, onde lecionou para crianças e adolescentes. Dentre os livros que escreveu para o público infanto-juvenil estão Coisas de Índio, O Sinal do Pajé e Meu Vô Apolinário – que ganhou menção honrosa do Prêmio Literatura para Crianças e Jovens na Questão da Tolerância, da Unesco.
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Em O Banquete dos Deuses – Conversa sobre a origem e a cultura brasileira, escrito em 2000 e relançado este ano pela editora Global, o autor se debruça sobre a problemática do preconceito em sala de aula, investiga as origens da visão deturpada que os professores fazem a respeito dos povos indígenas e aponta caminhos para uma educação humanista no Brasil. “Minha principal preocupação é libertar as crianças do preconceito”, diz.
.Comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República, Daniel Munduruku é constantemente convidado a ministrar palestras e oficinas culturais na Europa e mantém um blog na internet (aqui). Nascido a 28 de fevereiro de 1964, em Belém do Pará, é casado com Tânia Mara, com quem tem três filhos, Gabriela, Lucas e Beatriz. Falei com ele desde sua casa, na cidade de Lorena, interior de São Paulo.
.Bruno Ribeiro – Em seu livro O Banquete dos Deuses, você aborda o problema do preconceito contra o índio. De onde vem a dificuldade de aceitarmos ou assumirmos a cultura indígena como sendo parte da cultura nacional, ou seja, de nossa própria identidade?
Daniel Munduruku –
Este livro foi escrito para apoiar os professores em sala de aula e ajudá-los a entender o que são os povos indígenas. É um suporte didático e filosófico que busca entender o Brasil de uma forma carinhosa, mas crítica. A meu ver, o grande problema do brasileiro é ter vergonha da sua ancestralidade, porque a nossa ancestralidade evoca os povos indígenas e africanos. Quando o povo se olha no espelho, vê um passado que ele renega, porque foi educado para renegar.
.O preconceito, neste caso, seria fruto da educação que recebemos em casa e na escola?Durante muito tempo, a educação foi um instrumento importante na estratégia do Estado brasileiro de negar a existência dos povos indígenas. Somos educados para repetir a imagem do indígena transmitida no século 16, ou seja, uma imagem que reforça a visão estereotipada criada pelos colonizadores.
.Como você, quando estudante, absorvia a imagem negativa que era transmitida pela escola a respeito dos índios?Frequentei a escola durante a ditadura militar, na década de 1970. Naquela época, as informações que eu tinha em sala de aula insinuavam que índio era atrasado, que índio era pobre, que índio era selvagem... Isso chegava até mim com um impacto muito violento. Passei a ter vergonha da minha cara, do meu cabelo, da minha origem... Eu não queria mais ser índio.
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Você diz que a visão negativa do indígena foi reforçada pelo regime militar. Por quê?
O governo via o indígena como um atraso ao progresso do País quando começou a abrir estradas na Amazônia. Porque os povos indígenas estavam em áreas onde as estradas tinham que passar ou porque estavam em terras que o governo havia vendido para investidores estrangeiros. Era preciso exterminar os índios para que a Amazônia se “modernizasse”. Aqueles que eles não conseguiam exterminar, tinham que ser “incorporados” à sociedade, ou seja, tinham que ser “educados” como brancos, tinham que ser “civilizados” à força. O discurso não era explícito, mas a escola reproduzia esta ideia.
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E essa ideia persiste até hoje?Até hoje. Costumo dizer que o Brasil é um país adolescente. Não é velho como a Europa, mas também não é mais criança. É um adolescente e, como tal, está vivendo uma crise de identidade.
.Você acabou de contar que também viveu uma crise de identidade na adolescência, quando passou a ter vergonha de sua origem. Como foi que resgatou o orgulho e passou a valorizar a sua cultura?Nas idas e vindas da aldeia para a cidade – eu estudava em Belém do Pará – fui entendendo que havia um abismo cultural entre as duas realidades. Eu vi que até podia abandonar a aldeia, mas não podia abandonar a minha raiz. Quem mudou a visão negativa que eu fazia de mim mesmo foi meu avô Apolinário. É claro que não foi da noite para o dia, mas o avô foi mostrando, às vezes com sábias palavras, às vezes apenas com o silêncio, que aquela era a minha família e que longe dela eu seria infeliz. Com meu avô aprendi o valor da ancestralidade.
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De que forma o Estado e os professores poderiam trabalhar para combater o preconceito?
O governo Lula tem feito a sua parte. Por exemplo: a lei que obriga as escolas a incluírem a história afro-brasileira e indígena na grade curricular. Os efeitos dessa lei não podem ser sentidos ainda, mas a médio prazo teremos uma geração menos preconceituosa, com mais consciência crítica. Agora, é preciso entender que escola não é tudo na vida. Ela ajuda a gente a compreender melhor o mundo, mas de nada serve se continuar formando apenas para o mercado de trabalho. Se queremos transformar a realidade, temos que passar por outro tipo de experiência que a escola não ensina.
.Que outra experiência seria esta?Aprendi com meu povo que educar é fazer sonhar. Na sociedade moderna ocidental, os sonhos ficam presos dentro das crianças. Porque, para a sociedade, aprender é ficar trancado numa sala ouvindo alguém falar um monte de coisas que não interessam. A escola da cidade não ensina ninguém a ser bom. Ela ensina a criança a competir, ou seja, não educa para a vida, mas para o mercado. É a educação familiar que vai fazer um homem ser bom.
.Uma boa educação passa pela consciência ambiental?Não acredito nisso. Porque a própria ideia de “sustentabilidade” está baseada na culpa. Ter uma “consciência ambiental” significa que vocês consideram o meio ambiente como algo a ser explorado. Não há meios mais ou menos nocivos de explorar a natureza. Vocês teriam que mudar radicalmente a visão que têm de progresso, desenvolvimento, consumo e propriedade. O ser humano precisa se sentir integrado ao planeta Terra.
.É cada vez maior a presença de novas tecnologias nas aldeias. Como os jovens indígenas estão lidando com a internet e a televisão? Estes meios representam uma ameaça à ancestralidade?Em termos, porque a internet e a televisão estão contaminadas pelo preconceito, pelos padrões estéticos e pelos valores da cidade. Mas não podemos apenas condenar a tecnologia, pois ela também ajuda a melhorar a vida nas aldeias. Hoje os indígenas não precisam mais sair de casa para ter acesso à informação, como eu tive que fazer no passado. Eles usam a internet, estão conectados com o mundo lá fora, mas continuam mantendo a sua cultura porque estão inseridos no cotidiano da aldeia. Conheço indígenas universitários que moram na cidade e mantém uma cabeça totalmente ancestral. A maioria manifesta o desejo de voltar para a aldeia depois de se formar.
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As pessoas ainda se surpreendem ao descobrir que um índio pode frequentar a universidade e ter carro, internet e celular?Sim, muitas pessoas ainda pensam no índio como um ser selvagem, que anda nu no meio do mato e, às vezes, come carne humana para não perder o costume (risos). No livro, conto uma situação que vivi no metrô de São Paulo. Peguei a conversa de duas senhoras, atrás de mim, que tentavam descobrir se eu era índio ou não. Uma delas apostou com a outra que eu não era índio porque estava usando calça jeans e relógio (risos).
.Você é um dos mais destacados autores indígenas da atualidade. Qual é o espaço que a sua literatura ocupa hoje no Brasil?
Estou satisfeito com a visibilidade que o mercado está dando para a literatura indígena em geral. Mas é importante dizer que estamos conquistando espaço não porque somos “exóticos”, mas porque escrevemos bem. A literatura indígena tem qualidade e vem sendo reconhecida pela sociedade. Atualmente, no Brasil, temos cerca de 30 autores indígenas de significância.
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É uma obrigação ou uma necessidade o engajamento político e social dos autores indígenas?É bom lembrar que muitos antropólogos, antes de nós, escreveram livros voltados para a defesa da causa indígena. Valorizamos os seus esforços, mas, quando falamos de literatura indígena, estamos falando de indígenas que escrevem o que vivem na pele. Ela nasce quando os índios começam a assumir seu papel na sociedade. É natural que seja engajada, pois durante muito tempo nossa voz não foi ouvida. Mas isso não é uma regra. Tanto que a maioria dos nossos livros é voltada para o público infanto-juvenil.
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O que a literatura indígena tem a nos ensinar?A gente tem uma preocupação em educar a sociedade, em fazer com que ela perca seus preconceitos e passe a olhar o índio como um igual, como parte do povo brasileiro. Por isso, a nossa literatura não pode ser superficial, ela tem que inserir o leitor no cerne da cultura indígena. Nós colocamos a nossa riqueza a serviço da Nação. Se hoje o Brasil tem a Amazônia em pé, com toda a sua exuberância, não é por causa dos empresários, das ONGs ou do governo. A Amazônia continua viva porque ali tem índio. Os povos indígenas tem outra relação com a terra e podem oferecer uma saída para o mundo. 
 

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...