30 de dez. de 2007

Boneca de Papel

Theresa sorriu toda contente quando tomou nas mãos sua mais nova aquisição: uma boneca toda feita de papel.
Não era uma boneca comum, pois carregava em si todo um ano de esforço e dedicação que a sobrecarregara de obrigações e compromissos para que pudesse conquistar aquele cobiçado objeto. Por isso ela o apertava junto ao peito e afagava com muito carinho.
O ano não havia sido fácil. As muitas atividades que tinha de exercer para poder ajudar em casa tomava-lhe muito tempo. Por isso também não podia ir à escola tendo que se contentar em aprender as primeiras letras com o padre durante as aulas de catequese. E isso não era muito fácil porque dobravam suas obrigações. Theresa tinha que decorar as palavras do padre e depois aprender as letras que formavam as palavras.
Decorar não era problema. Tinha boa cabeça, como sua mãe às vezes lhe dizia. O problema era o raio das letras! Que confusão elas criavam em sua cabeça! Como fazer para aprender as palavras da Ave Maria escritas em latim? Repetir ela conseguia, mas imitar a letra do catequista...
Theresa, no entanto, não colocava tanta dificuldade. Sabia que tinha que passar por isso se quisesse ganhar um presente de final de ano. Todo domingo, após a missa das 10 horas, ela ia para o salão paroquial ouvir as tais aulas de catecismo, pois só assim ela ganharia um ponto a mais em sua carteirinha de freqüência. No final do ano era só contar os pontos e escolher o presente. Se fosse uma das primeiras a entrar na sala onde estavam os objetos, poderia escolher o que bem desejasse e, assim, ter um natal bem bonito.
Ela sabia que não poderia contar com a ajuda dos pais para ter algum brinquedo. Todos labutavam muito, mas ganhavam muito pouco e quase sempre o dinheiro não dava para aquisição de brinquedos. O máximo que conseguia era uma boa ceia natalina.
Aquele ano, no entanto, seria diferente. Havia de conseguir um presente bem bonito. Seria a coroação de um plano bem bolado. Mataria dois coelhos com apenas uma cajadada: faria a primeira comunhão e conquistaria o presente cobiçado.
O final do ano finalmente chegou. A cerimônia em que recebeu a eucaristia pela primeira vez foi fabulosa. Ela vestiu um belo vestido branco confeccionado especialmente para a ocasião. Na mão direita carregou uma vela que seria acesa durante a celebração. Foi tudo maravilhoso, inclusive o almoço especial que sua mãe havia preparado para comemorar aquela data!
No domingo seguinte acordou bem cedo. Notou que o tempo estava nublado, mas não quis levar consigo a sombrinha. Sua vontade de chegar logo ao salão paroquial era enorme. Pela pontuação que conseguira iria ser uma das primeiras a entrar na sala dos presentes. E assim aconteceu. E tão logo adentrou correu imediatamente para a prateleira onde estava a boneca que tanto desejara. Tomou-a no colo, conferiu os pontos necessários e saiu toda feliz. Não quis falar com mais ninguém além de sua própria boneca. Correu toda contente de volta para casa sem se dar conta que logo uma chuva torrencial iria desabar sobre si. Quando se deu conta já era tarde demais, pois se encontrava no meio do caminho num lugar totalmente descampado, sem chance alguma de evitar que a chuva a molhasse e à sua tão desejada boneca.
Vencida pela desesperança Theresa ergueu os olhos em direção ao céu enquanto a chuva lavava-lhe o rosto entristecido. Depois voltou o olhar para a boneca que ia, aos poucos, se desmanchando em suas mãos da menina. Nesse momento duas lágrimas lhe percorreram o rosto e se confundiram com as águas da chuva que carregavam para bem longe o sonho de um feliz natal.

23 de dez. de 2007

Socióloga divulgará Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas em aldeias

A socióloga Kring Kaingang vai divulgar nas aldeias brasileiras a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas, elaborada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Kring é representante do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e integra a Coordenação Geral de Defesa dos Direitos Indígenas da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Ela foi a única indígena brasileira que participou das discussões sobre a declaração, documento que levou 20 anos para ser concluído.

Em entrevista ao programa Amazônia Brasileira, da Rádio Nacional da Amazônia, Kring Kaingang apontou a questão territorial como o tema mais polêmico entre os indígenas e o governo brasileiro. Segundo a socióloga, desde os governos militares, as autoridades federais consideram apenas os direitos individuais dos indígenas, como educação e saúde, mas negam o direito coletivo ao território, argumentando que o território pertence à nação, e não às comunidades.

"Pela primeira vez, temos um instrumento internacional de direitos humanos dos povos indígenas que valoriza o conceito de direito coletivo, que era uma preocupação muito grande de todos os povos indígenas do mundo também", disse Kring, ao comentar a declaração da ONU.

Ela explicou que o reconhecimento do direito coletivo é importante para a sobrevivência dos povos indígenas: "Foram reconhecimentos extremamente importantes, que de alguma forma refletem aquelas demandas que os povos indígenas do mundo têm. As políticas ambientais, o próprio uso do território - ele é um direito coletivo, não é um direito individual."

Os indígenas brasileiros temem a aprovação de projetos de lei que permitam a exploração mineral em seus territórios. Eles também receiam que projetos nacionais, como o da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, provoquem inundações por barragens em áreas indígenas. Eles pretendem usar a declaração para barrar a mineração e as grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que atingem reservas indígenas.

A Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas inclui aspectos relevantes sobre os direitos culturais e étnicos coletivos; o direito à terra e aos recursos naturais; a manutenção das estruturas econômicas e os modos de vida tradicionais; o direito consuetudinário (conjunto de normas não escritas, mas consagradas pelos usos e costumes tradicionais de um povo; e o direito coletivo à autonomia.

Kring Kaingang informou que, em fevereiro do próximo ano, haverá um seminário nacional para que os indígenas brasileiros discutam o conteúdo da documento elaborado pela ONU. O encontro será promovido pela Confederação das Organizações Indígenas Brasileiras (Coiab), pelo Warã Instituto Indígena Brasileiro e pela Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoine). (Agência Brasil)

12 de dez. de 2007

Índios Enawanê-Nawê libertam 350 trabalhadores mantidos reféns no Mato Grosso

Os cerca de 350 funcionários que trabalhavam nas obras de três pequenas centrais hidrelétricas em construção no Rio Juruena, em Sapezal (MT), foram liberados no final da tarde de terça-feira (11). Eles estavam detidos pelos índios da etnia Enawanê-Nawê desde sexta-feira (07).

Segundo o superintendente de Assuntos Indígenas do Estado do Mato Grosso, Rômulo Vandoni Filho, que participou das negociações, será formado um grupo de trabalho constituído pelo governo do Mato Grosso, Ministério Público Federal, Fundação Nacional do Índio (Funai) e Universidade Federal do Mato Grosso para realizarem outros estudos de impacto ambiental na região.

Logo que a equipe de trabalho for formada, disse Vandoni, haverá uma reunião com os índios no município de Juína, para acabar com todas as dúvidas possíveis. O encontro, segundo ele, deve ocorrer ainda este ano.

Para o superintendente, a principal dificuldade nas negociações é o fato de os índios exigirem a paralisação da obra. “É legítimo o interesse de as comunidades indígenas reivindicarem, mas o projeto já foi aprovado e está em outra etapa”, disse Vandoni.

Participaram da reunião realizada na terça-feira, o procurador do Ministério Público Federal, Mário Lúcio Avelar; a diretora de Assuntos Fundiários da Funai, Maria Auxiliadora Sá Leão, e representantes da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), prefeitos dos municípios próximos a região e representantes dos responsáveis pelas obras e de organizações não-governamentais. (Agência Brasil)

Presidente da Funai critica desmatamento e atribui preservação da Amazônia aos índios

O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, disse nesta terça-feira (11), que os povos indígenas de Rondônia são responsáveis pela preservação da floresta Amazônica no estado.

“Esses povos têm preservado as florestas que ainda restam em Rondônia. Viajamos de helicóptero e observamos que só tem floresta em pé nas terras indígenas”, disse em entrevista à imprensa no município de Cacoal (RO), após a libertação dos cinco reféns detidos pelos índios cinta larga desde sábado (8), na Terra Indígena Roosevelt, no sul do estado.

Em relação à regulamentação da mineração nas terras indígenas, Meira disse que espera do Congresso Nacional uma decisão que leve em conta a discussão da Funai com os indígenas, que exigem também a participação nos lucros e a preservação do meio ambiente . “Esperamos que a decisão beneficie e respeite os direitos constitucionais dos povos indígenas.”

A Constituição proíbe a mineração em terra indígena, mas de acordo com a Polícia Federal (PF), a extração das pedras é realizada tanto por garimpeiros como por índios. Em 2004, 29 garimpeiros foram assassinados na Terra Indígena Roosevelt. Em 2006, o garimpo chegou a ser fechado, mas foi reativado no início deste ano.

A Declaração dos Povos Indígenas, aprovada em setembro pela Organização das Nações Unidas (ONU), também recomenda que os países criem mecanismos para discutir com os índios impactos e benefícios da exploração de recursos naturais em terras originais.

A regulamentação da exploração dos recursos minerais em terras indígenas está em discussão no Congresso há pelo menos 11 anos. Um projeto do senador Romero Jucá (PMDB-RR) sobre o tema tramita desde 1996. O PL 1.610/96 foi aprovado no Senado e agora está em análise na Comissão Especial Temporária da Câmara dos Deputados. (Agência Brasil)

7 de dez. de 2007

Sala de Leitura Daniel Munduruku


Queridos amigos e amigas, hoje, dia 07 de dezembro, recebi uma honrosa homenagem de uma escola do Municipio do Rio de Janeiro.
A Escola Escritora Clarice Lispector resolveu chamar Daniel Munduruku à sua sala de Leitura. Estive no local e participei da inauguração. Não preciso dizer como foi enorme minha emoção. Deixo a imagem que fala por mil palavras.

3 de dez. de 2007

Benki Pianko e os saberes da floresta






Líder dos ashaninka, que nos últimos 15 anos se tornaram conhecidos no Brasil e no exterior por seu modelo exemplar de desenvolvimento sustentável, Benki Piyãko decidiu fazer da educação a principal arma na defesa do meio ambiente e dos saberes da floresta. A decisão de Benki e das demais lideranças do povo ashaninka, que vive em um amplo território localizado na fronteira entre o Brasil e o Peru, culminou com a inauguração, em julho passado, do Centro de Formação Aiyoreka Ãntame, que pretende unir os saberes indígenas ancestrais e o conhecimento científico da civilização ocidental no esforço para salvar o homem e o planeta.



A Escola Aiyoreka Ãntame, cujo nome significa, justamente, Saberes da Floresta, está localizada no município de Marechal Thaumaturgo, na confluência dos rios Amônia e Juruá. Com as negociações visando a demarcação de seu território, a Terra Indígena Kampa do rio Amônia, os ashaninka residentes no Brasil abandonaram definitivamente seu tradicional nomadismo e se fixaram em torno da aldeia Apiwtxa. Começava, assim, uma experiência inédita, com a implantação do primeiro sistema de recuperação do território, com a utilização de práticas de manejo sustentável. Desde então, os ashaninka já reflorestaram dezenas de hectares que haviam sido desmatados pelos brancos antes da demarcação de suas terras e, além das roças de mandioca e arroz, plantaram árvores frutíferas regionais, reservando grandes áreas de floresta para o repovoamento das populações de animais silvestres. Em torno das casas da aldeia, as abelhas produzem grandes quantidades de mel e, em açudes, crescem pequenos peixes para, mais tarde, serem espalhados pelo rio Amônia, onde passam a se multiplicar.



Guardiões da floresta



Com sua terra sob a constante ameaça dos madeireiros, em sua maior parte procedentes do Peru, e de caçadores de animais silvestres, Benki cedo se deu conta de que o único caminho para a preservação seria um amplo programa de conscientização e educação, com base na valorização da cultura e dos saberes de seu povo. Para implementar e disseminar esse programa entre o ashaninka e, mais tarde, entre os demais povos indígenas da Amazônia, Benki criou a figura do agente florestal. Os agentes, depois articulados em rede, demonstram aos indígenas os prejuízos causados pelas práticas predatórias e ensinam como utilizar os recursos da floresta de forma sustentável. E os orientam e ajudam na defesa de seus interesses.



O êxito da experiência de Benki fez com que o governo do Acre, que se intitula “governo da floresta’, transformasse os agentes em funcionários, garantindo, assim, a continuidade e a ampliação do trabalho”. Com grande capacidade de articulação, Benki passou a estabelecer contatos com lideranças da Amazônia e com o meio acadêmico, abrindo, assim, caminho para a criação da Escola Aiyoreka Ãntame. Benki faz questão de salientar que a escola “é fruto da experiência de nosso povo com a sustentabilidade e atuará como centro de formação, educação, intercâmbio e difusão de práticas de manejo sustentável”. Além de formar jovens e adultos da região em novas formas de manejo da floresta e dos recursos naturais, a Aiyoreka Ãntame tem por objetivo ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o equilíbrio sustentável dos recursos naturais e disseminá-los para outras etnias, no Brasil e no exterior.



Benki já ampliou o seu programa de educação e conscientização para mais de 20 territórios indígenas, onde os agentes florestais implementam o modelo construído elaborado pelos ashaninka: a elaboração de um projeto de pesquisa para analisar as riquezas do território e, em seguida, a criação de alternativas de sustentabilidade econômica e ambiental com vistas à autonomia de seus habitantes. Benki promove também programas para divulgar a cultura de seu povo no mundo dos brancos, como o intercâmbio que reúne jovens ashaninka com jovens de diversas regiões do Brasil.



O Centro de Formação Aiyoreka Ãntame está aberto a instituições e interessados para seminários, intercâmbio e oficinas com projetos de educação, cultura e meio ambiente. O curso padrão a ser ministrado aos habitantes da região terá uma duração de 20 a 40 dias, aproximadamente, com aulas e oficinas sobre coleta e tratamento de sementes, técnicas de apicultura, criação e preservação de peixes e quelônios, manuseio de ovos de tartaruga e sua proteção da ação de predadores e construção de açudes, entre outras.



Um dos objetivos desse projeto é fortalecer os conhecimentos tradicionais, para que a população tenha uma nova visão da floresta. Uma visão que inclua saber como usar os recursos naturais sem agredir o meio ambiente e a natureza, de forma que esse saber possa ser reconhecido como ciência de conhecimentos práticos, recuperando terras, florestas e animais e cuidando da biodiversidade em geral – diz Benki.

30 de nov. de 2007

UFSCar abre inscrições para vestibular exclusivo para a população indígena

Entre os dias 26 de novembro e 20 de dezembro, a UFSCar recebe inscrições para seu vestibular exclusivo voltado somente para candidatos das etnias indígenas do território brasileiro. Esta é a primeira vez que a Instituição realiza um vestibular dessa natureza, tornando-se a primeira universidade pública do Estado de São Paulo a promover um processo seletivo exclusivo para seleção de estudantes provenientes de comunidades indígenas.

Esta edição especial do Vestibular foi contemplada pela aprovação do Programa de Ações Afirmativas da UFSCar, que entre outras definições determina a criação de uma nova vaga em cada um dos cursos de graduação presenciais da Universidade, destinada à população indígena do Brasil. Ao todo, estão sendo oferecidas 37 vagas, distribuídas nos *campi* de São Carlos, Araras e Sorocaba.
Para participar deste processo seletivo, os candidatos devem ter cursado o Ensino Médio integralmente em escolas públicas e/ou nas escolas indígenas reconhecidas pela rede pública de ensino e cadastradas no Ministério da Educação.

O Vestibular será realizado em fase única, com dois dias de prova. No dia 9 de fevereiro (sábado) do próximo ano, das 8h às 12h, os candidatos fazem as provas de Leitura, Compreensão e Interpretação de Texto, Ciências Naturais, Matemática, História e Geografia. Das 14h às 17h do mesmo dia será aplicada prova de Redação. No dia 10 (domingo) serão aplicadas as provas Oral e de Aptidão Musical (para candidatos ao curso de Música). A prova oral será realizada para avaliar a capacidade de interação e articulação dos candidatos.

Para fazer as inscrições, o candidato deve apresentar a Carteira de Identidade, carta com autodeclaração de que é indígena e declaração/indicação da comunidade indígena com a qual possui vínculo, assinada pela liderança da mesma, e certificada pela unidade local ou regional da Funai. No ato da inscrição, o candidato também deve preencher a ficha de inscrição e o questionário socioeducacional. As inscrições devem ser realizadas diretamente na Fundação de Apoio Institucional ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico da UFSCar (FAI-UFSCar), no *campus* de São Carlos, na rodovia Washington Luiz, km 235, entre 8h e 11h ou entre 14h e 17h. A inscrição também pode ser feita por terceiros, desde que munidos de procuração e apresentação dos documentos exigidos. Caso o candidato opte por fazer a inscrição pelo Correio, ele deve encaminhar a ficha de inscrição e o questionário preenchidos e fazer o envio com Aviso de Recebimento. Neste caso, a data da postagem deve estar dentro do período determinado de inscrição.

A divulgação dos resultados será feita no dia 18 de fevereiro de 2008, com a chamada dos convocados para matrícula e lista de espera. O início das aulas está previsto para o dia 25 de fevereiro. Mais informações em www.vestibular.ufscar.br e www.fai.ufscar.br

III Fórum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia

Lideranças criticam falta de compromisso do Governo Lula com a efetivação dos direitos indígenas


O repúdio às ações do Governo Lula, que caracterizam “falta de compromisso com a efetivação dos direitos indígenas”, marcou o primeiro dia de discussões do III Fórum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia, realizado em Porto Velho-RO, de 28 a 30 de novembro, por iniciativa da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).



Ao avaliar a relação do governo com os povos indígenas, os líderes indígenas participantes do III Fórum, se manifestaram indignados contra a determinação do Governo Lula de implantar empreendimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como hidrelétricas, rodovias e hidrovias, sem consultar aqueles que serão empacados (quilombolas, populações ribeirinhas, povos indígenas, inclusive povos voluntariamente isolados); denunciaram o desrespeito à determinação da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) de discutir a mineração em terras indígenas só no contexto do Estatuto dos Povos Indígenas, e jamais isoladamente, no entanto, uma comissão especial já começou a discutir o tema na Câmara dos Deputados, deixando de lado o Estatuto, contrariando as reivindicações indígenas e acordos preestabelecidos com os representantes do Governo..



As lideranças repudiaram a publicação da Portaria 2656, de 17 de outubro, que regulamenta o atendimento à saúde indígena, envolvendo o repasse de recursos às prefeituras municipais, sem antes ter havido uma amplia consulta aos povos e organizações indígenas. Reclamaram do retardamento da desintrusão de Terras Indígenas como a Raposa Serra do Sol, da falta de compromisso para conter as ameaças e atos de violência que atingem os povos indígenas, com líderes presos ilegalmente ou assassinados; do descaso com a situação do povo Cinta Larga; e da exclusão dos povos indígenas da discussão do modelo de desenvolvimento para a Amazônia, tendo em consideração as suas especificidades e diversidades sócio-culturais. Apontaram, finalmente, o descumprimento, por parte do Governo, das leis que garantem aos povos indígenas o tratamento diferenciado, notadamente a Constituição Federal e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).



“Não queremos um modelo de desenvolvimento que implique em miséria, destruição e morte para os nossos povos. Temos que defender os nossos territórios, que são espaço sagrado para a nossa sobrevivência. Não queremos que nossas gerações futuras fiquem sem território, sem identidade e cultura. Por isso somos contra empreendimentos hidrelétricos e obras de infraestrutura que desrespeitam a nossa especificidade e que atingirão inclusive povos indígenas voluntariamente isolados. Temos direito a ser ouvidos, sobre o desenvolvimento que queremos para Amazônia, levando em consideração a nossa visão de mundo e o nosso modo de vida”, declarou o coordenador geral da Coiab, Jecinaldo Barbosa Cabral / Saterê Mawé.



“Nós já passamos por isso, as nossas terras foram inundadas por hidrelétricas ou ficaram degradadas, estamos lutando para recuperar um pouco do que nos foi retirado. Depois que destruíram as nossas terras, hoje, os empresários da soja, do agronegócio, estão se instalando no norte. Esse plano (o PAC), tem que ser discutido com vocês, para que não aconteça o que aconteceu conosco”, afirmou o líder kaingang, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Sul (Arpinsul), Romancil Cretã.



Já o dirigente da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), Uilton Tuxá, caracterizou como assustadora a relação do Governo Lula com os povos indígenas, criticando a sua clara opção Lula por um modelo de desenvolvimento tipicamente capitalista, que só irá favorecer os donos do poder econômico. Citou como exemplo o projeto de transposição do Rio São Francisco, que “ao contrário do que o presidente Lula apregoa só irá beneficiar as siderúrgicas, os produtores de flores e criadores de camarão, entre outros. O Governo constrói o PAC, hidrelétricas, rodovias, hidrovias e outras obras de infraestrutura, sem nos ouvir. Precisamos estar juntos, para discutir estratégias de enfrentamento. O Governo tem que respeitar a Constituição Federal e a Convenção 169 da OIT”, declarou o líder indígena.



“Destruindo o nosso território, o branco destrói a gente. Estou aqui para ajudar vocês a nos defender do branco”, manifestou a líder Tuíra Kaiapó.



“Eles chegaram depois de nós, temos que fazer respeitar os nossos direitos”, reafirmou o cacique Henrique Surui. “Não podemos ser tratados como ameaça nem como empecilho ao desenvolvimento. Vamos exigir os nossos direitos e resistir até o último índio”, completou o coordenador do Conselho do Povos Cinta Larga, Marcelo Cinta Larga.



Dessa forma, líderes dos distintos povos e organizações indígenas participantes do III Fórum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia se manifestaram contra a atual política indigenista do Governo Lula. Esse desrespeito aos direitos indígenas, expresso na morosidade na aplicação da legislação indigenísta, na falta de interesse pelo Estatuto dos Povos Indígenas e na incapacidade de lidar com culturas diferentes, também foi apontado pelo Procurador da República Svamer Cordeiro, que se solidarizou com os povos presentes, ressaltando que as conquistas obtidas sempre foram resultados de suas lutas.



No segundo dia de trabalho, 29/11, o Fórum Permanente discute o tema dos “Impactos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), da Iniciativa de Integração Regional da América do Sul (IIRSA) e outros grandes projetos sobre os territórios e povos indígenas”.



Outras informações podem ser obtidas junto à coordenação e assessoria de comunicação do III Fórum, pelos telefones (69) 99819884; (92) 91154493; (61) 99888953.



Porto Velho-RO, 29 de novembro de 2007.

29 de nov. de 2007

Notícias dos Povos Indígenas

Jogos indígenas representam oportunidade para povos resgatarem raízes


Além da competição esportiva, os Jogos dos Povos Indígenas, cuja edição atual está sendo realizada em Olinda (PE), representa uma oportunidade de resgate das raízes culturais. A avaliação é do dirigente do Comitê Intertribal – Memória e Ciência Indígena, Marcos Terena.

“Não se trata apenas de competições de índio contra índio. Por reunir várias etnias (44 nesta edição)], os Jogos são uma possibilidade de os povos observarem como os outros mantêm a cultura tradicional e buscarem fazer o mesmo”, explica Terena. “Muitos voltam para as aldeias com vontade de recuperar festas, cantos e os próprios esportes.”

Entre os índios que perderam costumes e tradições, está o povo Pataxó. Eles vivem em 25 aldeias na Bahia, em Minas Gerais e no Espírito Santo. Com a ajuda de antropólogos e lingüistas, encontros entre as aldeias buscam resgatar a tradição.

“Nas festas das aldeias vão os velhos, os professores, pesquisadores da pintura, de músicas antigas e dos rituais”, diz o jovem líder Raoni Pataxó. “Tentamos recuperar o que foi perdido há muito tempo”, disse Raoni, ao citar como exemplo o idioma Patxohãe, que tem influência línguas de outros povos como os Maxacali.

Segundo ele, seu povo perdeu a identidade com a colonização – quando foram dizimados por doenças e proibidos de falar a língua nativa e de praticar rituais. O processo, segundo ele, mantém-se nos dias atuais por causa de mortes decorrentes de conflitos pela posse da terra, que não é demarcada. “Isso tudo representa uma perda muito grande”, avalia Raoni.

Na antropologia, a recuperação da cultura, processo pelo qual passa o povo Pataxó, é chamada de ressurgimento. Nesta fase, eles buscam definir a identidade, com base em elementos históricos próprios e da imagem do índio na sociedade e em outras culturas indígenas.

“Com a miscigenação e toda a violência que sofreram, os índios do Nordeste precisam dialogar com as outras sociedades indígenas para serem aceitos dentro do cenário nacional”, explica o antropólogo Thiago Garcia, da Coordenação de Educação Escolar Indígena do Ministério da Educação, que acompanha iniciativas como a dos Pataxó.

O intercâmbio com outras culturas indígenas, no entanto, às vezes pode provocar incômodos. Alguns povos indígenas consideram que alguns rituais são “apropriações” de outras culturas. “O Xingu mostrava a cultura bonita para os parentes e imitavam nossa pintura”, diz o velho Jakalo, líder do povo Kuikuro. “Hoje eles estão voltando a ter a cultura deles. Então fica tudo bem.” (Agência Brasil)

Comunidades indígenas usam cinema para resgatar cultura e tradições

Um ritual indígena de reconquista faz parte do filme que explica por que o pequi tem cheiro forte, segundo a lenda Kuikuro, povo do Alto Xingu. A trama do curta-metragem Imbé Gikegü – Cheiro de Pequi tem traição, assassinato e romance. Tudo com muito humor, já que o cheiro viria do sexo da mulher. Esse foi um dos vídeos apresentados nesta quinta-feira (29) aos participantes da nona edição dos Jogos dos Povos Indígenas, em Olinda (PE).

O curta levou um ano para ficar pronto e foi produzido por participantes de uma oficina da organização não-governamental (ONG) Vídeo nas Aldeias para o projeto Documenta Kuikuro, em que a tecnologia é utilizada para manter a cultura. A festa do pequi foi escolhida porque ocorreu simultaneamente ao curso, que ocorreu em setembro.

Segundo um dos diretores do filme, Maricá Kuikuro, a idéia do projeto de documentação é guardar as tradições para as próximas gerações, mas sob o olhar dos próprios índios. “A preocupação do cacique era perder tudo isso”, disse. O projeto Documenta Kuikuro é coordenado pelos índios e pelos antropólogos Carlos Fausto e Bruna Franchetto do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Uma das lideranças Kuikuro, o velho Jakalo, disse a iniciativa é importante para os indígenas não correrem o risco de “esquecer a cultura”, como outros povos que não lembram mais da língua e das festas nativas. “Outro dia, perguntei a um índio se ele falava a língua dele? E ele respondeu que não, tinha esquecido”, recorda. Aí eu fiquei triste”.

A documentarista Mari Corrêa, dirigente da ONG Vídeo nas Aldeias, avalia que o projeto tem duas dimensões: a documentação e a dinamização da cultura. “A oficina gera uma dinâmica no momento, não no futuro. Com as filmagens, entrevistas e depoimentos, esse assunto da tradição, da transmissão do saber, vem à tona e todos começam a se interessar”, explicou. O projeto também é realizado com outros 15 povos.

Antes da exibição do vídeo Kuikuro, o presidente do Comitê Intertribal – Memória e Ciência Indígena, Marcos Terena, disse que os filmes produzidos pelos índios os retiram do “papel de zé-mane”, em referência às telenovelas: “Apesar de sermos cerca de 500 mil em uma população de 179 milhões de brasileiros não queremos ser os ‘mudos’ da história”. (Agência Brasil)




FAB abre pista para proteger Yanomami
A Força Aérea fez uma pista na Terra Indígena Yanomami, na fronteira com a Venezuela, em Barcelos (AM). A medida é para reforçar a segurança na área, depois que, em agosto, três helicópteros venezuelanos sobrevoaram o território indígena. A obra foi feita com autorização dos Yanomami. A pista está sendo utilizada para treinamento de pilotos. No ano que vem, mais duas devem ser construídas em território Yanomami - OESP, 29/11, Nacional, p.A11.

Ministério vai intervir na Funasa de Manaus O Ministério da Saúde fará intervenção de 120 dias - que começará entre hoje e amanhã - na Fundação Nacional de Saúde (Funasa) de Manaus (AM), cujo coordenador, Francisco Ayres, foi afastado após denúncias de desvio de dinheiro. Serão avaliados os prejuízos e traçada nova gestão compartilhada com os índios. Há 16 dias, indígenas ocupam o órgão. Eles reclamam que uma portaria transfere aos municípios responsabilidades da Funasa - OESP, 29/11, Nacional, p.A11.

Ocupação impediu socorro, acusa Funasa
A coordenadora da Funasa, Margareth Menezes Neiva Eulália, disse que uma criança índia de 1 ano morreu sábado em Lábrea (AM) por falta de transporte. "Não podíamos entrar no prédio e por isso ninguém nos informou da necessidade da remoção". Os indígenas que ocupam a sede da Funasa negam a morte - OESP, 28/11, Nacional, p.A8.

26 de nov. de 2007

'Única solução é baixar emissões', diz pesquisador

O fato de a Amazônia absorver grandes quantidades de carbono da atmosfera não pode ser usado pelo Brasil como argumento para não reduzir suas emissões, segundo o especialista Luiz Gylvan Meira Filho, do Instituto de Estudos Avançados da USP. A única solução real para as mudanças climáticas, disse, é diminuir a quantidade de gases do efeito estufa que é lançado na atmosfera, e não ficar pedindo crédito pelo que a natureza faz. Outros pesquisadores também ressaltam que quantificar o carbono absorvido pela Amazônia é importante para valorizar os serviços ambientais da floresta e reforçar medidas de conservação, mas não pode ser usado como desculpa para uma inação no combate às mudanças climáticas - OESP, 26/11, Vida, p.A13.

Dá para salvar a Amazônia?

"Desenvolver a Amazônia 'significa garantir proteção ambiental, condições de vida digna à população local e estímulo a uma economia que se nutra da existência da floresta e não de sua destruição', afirma o presidente Lula em artigo para a revista especial Grandes Reportagens - Amazônia. Não há como discordar do presidente. Mas sua afirmação não assegura uma resposta positiva aos que estão preocupados com o futuro da região. 'Soluções para a Amazônia têm de ser maiores que governos e mandatos, têm de ser assumidas pela sociedade brasileira e suas instituições, dentro de espaços inovadores de negociação, construção e implementação de decisões', diz o presidente Lula. De pleno acordo. Mas cabe ao governo impor a lei na Amazônia", editorial - OESP, 26/11, Notas e Informações, p.A3.

16 de nov. de 2007

Educação Indígena: do Corpo, da Mente e do Espírito .

Um país multi-étnico
O Brasil é um país multi-étnico desde seu principio. Neste solo moravam muitas e diferentes culturas lá pelo XVI quando aqui aportaram os invasores trazendo ganância e cruz. Eram mais de mil povos, segundo alguns. Eram mais de cinco milhões de pessoas segundo uns e outros. Falavam-se algo em torno de 900 línguas diferentes.
Muitos dos povos que lá estavam aqui não estão mais. Foram devorados pela espada, pela ganância e pelo preconceito. Alguns povos se esconderam no meio da multidão que se formou pelo encontro, nem sempre amoroso, entre homens e mulheres de diferentes cores. Outros tantos fugiram para a floresta e guardaram enquanto puderam, sua memória e suas tradições.
Hoje, ainda há uma diversidade cultural e lingüística no Brasil. Ainda há 230 povos e 180 línguas teimando em manterem-se vivos para o desespero daqueles que querem depredar ou piratear a riqueza contida no solo e subsolo desta nossa pátria mãe gentil. São povos que querem sobreviver com dignidade procurando assegurar uma vida plena para seus filhos. São povos que desejam para si o mesmo que seus avós desejavam: paz para andar sobre a terra sem deixar marcas de sua passagem.
Essa diversidade toda traz uma riqueza e beleza inerente à sua própria concepção de mundo que foi sendo construída ao longo de um processo delicado e contínuo chamado educação. É disso que trata este texto. Fala de uma concepção de homem, de cosmos, de divindade que tem escapado às lentes ocidentais ou – o que é mais grave – ignorada, ocultada, marginalizada.
Ele foi escrito apenas para seu deleite.

Educar é fazer sonhar
Educar é fazer sonhar. Essa forma de falar sobre a Educação Indígena foi sendo construída à medida que fui refletindo sobre minha infância e adolescência no interior da cultura Munduruku.
(...) Minha compreensão aumentou quando em grupo deitávamos sob a luz das estrelas para contemplá-las procurando imaginar o universo imenso diante de nós, que nossos pajés tinham visitado em sonhos. Educação para nós se dava no silêncio. Nossos pais nos ensinavam a sonhar com aquilo que desejávamos. (...) Aprendi a ser índio, pois aprendi a sonhar. Ia para outras paragens. Passeava nelas. Aprendia com elas. Percebi que na sociedade indígena, educar é arrancar de dentro para fora, fazer brotar os sonhos e, às vezes, rir do mistério da vida.
(MUNDURUKU, 1996).

A educação indígena é muito concreta, mas é ao mesmo tempo mágica. Ela se realiza em distintos espaços sociais que nos lembram sempre que não pode haver distinção entre o concreto dos afazeres e aprendizados e a mágica da própria existência que se concretiza pelos sonhos e pela busca da harmonia cotidiana. O que pode parecer contraditório à primeira vista segue uma lógica bastante compreensível para nossos povos e não é uma negação dos diferentes modos de coexistência como se tudo fosse uma coisa única, mas um modo da mente operacionalizar o que temos a pensar e viver.
Já disse em O Banquete dos Deuses (2000) que não é hábito de nossa gente fazer conjecturas filosóficas a respeito da vida. Segundo os princípios que regem nosso existir, a vida é feita para ser vivida com toda intensidade que o momento nos oferece. Essa filosofia se baseia na idéia do presente como um presente que recebemos de nossos ancestrais e na certeza de que somos “seres de passagem” nesse planeta, portanto desejosos de viver o momento como ele se nos apresenta. Nesta visão está implícita uma noção de tempo alicerçada no passado memorial, mas nunca numa idéia vazia de futuro. O futuro é, pois, um tempo que ainda não se materializou, ainda não se tornou presente e, por isso é impensável para a lógica que rege nossa existência.
Claro está que pensar assim dentro de um mundo marcado pela especulação – esta sim uma visão utilitarista do tempo – nos leva a uma compreensão dos motivos que marcaram a relação do ocidente com os povos originários. Foi uma relação impositiva regida pela secular violência do Estado Colonial e do Cristianismo. Ambos os olhares negavam humanidade à humanidade dos povos indígenas. Negavam a possibilidade de estes povos terem construído uma cosmovisão baseada na unidade corpo/mente/espírito, pois isso jogava por terra a doutrina do poder cristão do rei e da igreja. Daí a cruz ser trazida para ser carregada pelos originários da terra e nunca pelos que a trouxeram; daí a espada que atravessou não apenas o corpo dos antepassados, mas também o seu espírito (GAMBINI, 2000).
Ainda que ignorado, negado ou transformado pelos colonizadores do corpo e da alma, o saber que sempre alimentou nossas tradições se manteve fiel aos seus princípios fundadores. Isso desnorteou os colonizadores-invasores nos idos de 1500 e continua desnorteando os invasores de nosso tempo que teimam em destruir as tradições que permanecem resistindo, não sem muitas baixas, ao “canto da sereia” do capitalismo, cujo olhar frio concentra-se na fragilidade humana que é capaz de vender sua dignidade e ancestralidade em troca de um conforto e bem estar ilusórios.
Esta resistência permanece viva até nossos dias. Tais tradições se mantêm especialmente através de uma prática regida por uma tríplice concepção que, se não é uma teoria elaborada pela academia ocidental - embora ela também já a tenha descrito, mas sem proveito real como se pode ver na bibliografia citada -, o é pela experiência de vida, pela observação meticulosa dos fenômenos naturais e pela certeza de que somos fios na teia da vida. A educação indígena só pode, pois, ser compreendida através da tríade corpo-mente-espírito, cada um desses pólos sendo o responsável pelo desabrochar dos sentidos, da experiência da vida e dos sonhos.

Educação do corpo. Educação dos sentidos.
Aprendemos na aldeia, desde muito pequenos, que nosso corpo é sagrado. Por isso temos obrigação de cuidar dele com carinho para que ele cuide de nossas necessidades básicas. Aprendemos que nosso corpo é habitado por ausências e que essas ausências precisam ser preenchidas com sentidos construídos por nós. Aprender é, portanto, conhecer as coisas que podem preencher os vazios que moram em nosso corpo. É fazer uso dos sentidos, de todos eles.
É, portanto, necessário valorizar o próprio corpo oferecendo a ele os instrumentos para que possa cuidar da gente. Assim, é de extrema importância que cada um aprenda a conviver com seu grupo de idade por ser ele que nos vai “guiar”, dar um norte para as descobertas que um corpo infantil precisa fazer. É nesta convivência que a criança indígena vai treinar a vida comunitária como uma necessidade ímpar para sua realização e compreensão do todo. Além disso, vai oferecer-lhe o olhar para seu entorno e descobrir que os sentidos, junto com os comportamentos que eles vão criando, representam sua única segurança e garantia de sobrevivência contra os perigos que a natureza traz.
Ao descobrir estes vazios que o corpo possui a criança indígena não vê com desprezo a necessidade de adquirir conhecimentos complementares. Ao contrário, ela percebe como é importante deleitar-se com eles num processo de aprendizagem que passa pela leitura do entorno ambiental. Vai compreendendo, então, que o ambiente a ser observado vai deixando marcas que dão sentido ao seu ser criança e à sua própria vida. Entende, então, que o uso dos sentidos confere sentido às suas ações: ganha sentido a leitura das pegadas dos animais, do vôo dos pássaros, dos sons do vento nas árvores, do criptar do fogo, das vozes da floresta em suas diferentes manifestações. Conscientiza-se de que andar pela mata é mais que um passeio de distração ou diversão; que subir na árvore é mais que um exercício físico; que nadar no rio é mais que brincadeira; que produzir seus brinquedos é mais que um desejo de satisfação; que ficar horas confeccionando utensílios e objetos é mais que uma necessidade. A criança vai, aos poucos, entendendo que no seu corpo o Sentido ganha vida. Suas ações são norteadas pela ausência que mora em seu corpo e que precisam ser preenchidas por aquilo que constrói razões para sua existência.
Por isso ela tem que crescer. Cresce para dar espaço às outras ausências que se fazem presente e que precisam ser preenchidas também. Agora, no entanto, não podem mais ser preenchidas apenas de modo informal. Será preciso formalizar e se antes ela apenas imitava os mais velhos, agora vai precisar mostrar que seu corpo está amadurecido para o novo que pede passagem. É neste momento que a criança, já não mais tratada assim, vai viver conscientemente seus rituais de maioridade: é a forma encontrada pelo corpo para construir o passo seguinte.
Não vou me ater as outras etapas do crescimento, pois não é este meu objetivo. Basta dizer que até o momento em que um(a) indígena se torna adulto(a) – entre 13 e 15 anos -, seu corpo já estará todo preenchido e saberá encontrar caminhos para sua sobrevivência física. Vai surgir, então, outro alimento que também foi sendo ministrado ao longo do mesmo processo para que seu corpo não fosse seduzido pelo vazio da existência: a educação da mente.

Educação da Mente. Educação para a vida
Se educar o corpo é fundamental para dar importância ao seu estar no mundo, a educação da mente é indispensável para dar sentido a este estar no mundo. Se no corpo o Sentido ganha vida, é na educação da mente que o corpo o elabora.
Dizia ainda há pouco que na concepção do tempo indígena o presente é o único tempo real. O passado é memorial e o futuro uma especulação que quase não entra na esfera mental dos povos indígenas. Dizia isso para refletir como essa cosmovisão se choca frontalmente com a concepção linear e histórica que o ocidente desenvolveu sobre o tempo. Para o indígena o tempo é circular, holístico, de modo que vez ou outra os acontecimentos se encontram sem, no entanto, se chocar. O passado e o presente ganham dimensões semelhantes e se auto-reforçam mutuamente. Por isso o discurso indígena se apossa de elementos aparentemente distantes entre si, mas perfeitamente compreensíveis no contexto em que se encontram. É a lógica da ressignificação dos símbolos que permite às gentes indígenas passear pelo passado utilizando instrumentos do presente e vice-versa.
Ora, a educação da mente para compreender esta concepção passa pela existência dos contadores de histórias. Quem são eles? São os que trazem para o presente o passado memorial. São aquelas pessoas, homens e mulheres, que assumiram o papel relevante de “manter o céu suspenso”, conforme compreensão Guarani. São os que lêem e relêem o tempo tornando-o circular. São os responsáveis pela educação da mente.
Quase sempre são velhos que já sentiram a passagem do tempo pelos seus corpos. São os guardiões da memória. Para muitos dos povos originários, estes velhos são como uma enorme biblioteca onde está guardada a memória ancestral. Daí sua importância para a manutenção da vida e do Sentido.
Lembro que para o povo Munduruku, ter sorte na vida é morrer velho. Daí porque todos querem morrer velhos. O motivo é simples: cabe a ele ou ela o privilégio de manter a memória viva através das histórias que carregam consigo, contadas, elas também, por outros antepassados numa teia sem fim que se une ao princípio de tudo. Morrer velho é a garantia de que nosso povo não morrerá. Aos pais cabe a educação do corpo. Aos anciãos cabe a educação da mente e, consequentemente, do espírito.
É, pois, através do ato de ouvir histórias, contadas pelos guardiões da memória, que nossa gente auto-educa sua mente de modo que o indígena vive no corpo aquilo que sua mente elabora pela silenciosa e constante atenção aos símbolos que as histórias nos trazem. O corpo que vive o tempo presente alimenta-se, preenche seu vazio com os alimentos do sentido que a memória evoca do tempo imemorial. Não é, portanto, uma vida sem sentido, próxima ao reino animal como queriam os colonizadores de antigamente. Pelo contrário, é uma vivência plena de significações que reverberam pelo corpo. Nossos povos são, assim, leitores assíduos dos sentidos da existência. Educa-se, portanto, para a compreensão do mundo tal qual ele nos foi presenteado pelos espíritos ancestrais. Educa-se para viver esta verdade que para nossa gente é plena e nos mostra o caminho do bem estar, da alegria, da liberdade e do sentido.

Educação do Espírito. Educação para sonhar.
Outro aspecto relevante da vida indígena é o sonho. Ele faz parte da crença de que há mundos possíveis de serem encontrados. O sonho é a linguagem do universo para nos lembrar que somos parentes de todos os seres vivos que co-habitam conosco este planeta. Pelo aprendizado do sonho instalamos em nós uma espécie de software que atualiza a memória que nos torna pertencentes a uma coletividade universal e nos faz sair da prisão que o corpo nos impõe. Daí que entendemos como o saber de um povo é, ao mesmo tempo, local e universal mesmo que ele não tenha consciência disso.
Para muitos povos indígenas brasileiros existe uma crença no outro mundo. Este outro mundo é onde moram os espíritos criadores. Acredita-se também que todas as coisas estão vivas porque possuem uma alma tornando-as nossas parentas e companheiras em nossa passagem pela vida. Essa compreensão faz com que nossos povos ritualizem suas ações especialmente quando elas têm relação com estes seres que, como nós, têm também uma alma. Dessa forma a derrubada de uma área para o plantio da roça é acompanhada de rituais a nos recordar que nada pode brotar se não pela atuação dos ancestrais e pela gratidão que se dispensa a Eles e aos seres que criaram por meio do mesmo gesto primordial que nos deu vida..
Da mesma forma acontece nos rituais da caça e da pesca, nos quais se envolvem os vivos e os encantados. O fato é que a crença no parentesco entre homens e outros seres vivos é uma mola propulsora eficaz, uma vez que, criando relações íntimas entre eles, não permite que estes povos explorem, além da necessidade, o ambiente onde vivem.
O fio condutor dessa relação está no sonho. Meu avô dizia ser a linguagem que nos permite falar conosco mesmos. Dizia também, que não dormimos para descansar, mas para sonhar e conhecer os desejos deles, desses seres que nos habitam. Para ele, o sonho era nossa garantia da verdade. Para mim o sonho sempre será o locus onde as histórias ganham realidade.
Resumindo: o corpo é o lugar onde reverberam os saberes da mente (intelectual) e os saberes do espírito (emocional). Educar é, portanto, preparar o corpo para sentir, apreender e sonhar. Pode ser também para sonhar, apreender e sentir. Ou ainda, apreender, sentir e sonhar. Não importa. É um mesmo movimento. É o movimento da Circularidade, do Encontro, do Sentido.
Talvez nada disso faça sentido para o ocidental, acostumado com o pensamento linear, quadrado, senhorial, possessivo. Não importa. Nunca fomos entendidos mesmo. E ainda assim sobrevivemos. Mas, mesmo assim, é importante destacar que apesar da incompreensão por parte do pensamento ocidental – excessivamente linear quantitativo e utilitarista – estamos hoje vivendo um momento onde a diversidade de experiências culturais é o nosso valor maior. Daí porque, apesar de incompreendidas, as culturas indígenas têm um papel importante a cumprir nessa grande Ágora, onde cada um precisa contar a sua história. De resto, a incompreensão e negação dessas culturas redundam, como mostra bem Vandana Shiva, na pilhagem e usurpação dos saberes tradicionais que sempre tiveram, e ainda têm o que dizer e o que ensinar. Na educação ensinar a sonhar, certamente, é uma grande lição.
Bibliografia
Albert, Bruce e Ramos, Alcida (orgs.). Pacificando o branco: cosmologias do contato no norte-amazônico. Editora Unesp. SP, 2000.
Clastres, Pierre. A fala sagrada: Mitos e cantos sagrados dos índios Guarani. Editora Papirus. SP, 1974.
Gambini, Roberto. Espelho Índio: formação da alma brasileira. Axis Mundi/Terceiro Nome. SP, 2000.
Lopes da Silva, Aracy; Macedo, Ana Vera Lopes da Silva; Nunes, Ângela (orgs.). Crianças Indígenas: ensaios antropológicos. Global Editora. SP, 2002.
Munduruku, Daniel. Histórias de Índio. Companhia das Letrinhas. SP, 1996.
_________________. O banquete dos deuses. Editora Angra. SP, 2000.
Shiva, Vandana. Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento. Vozes. SP, 1997.
______________. Monoculturas da Mente. Global Editora. SP, 2002.
Tassinari, Antonella Maria Imperatriz. No bom da festa: o processo de construção cultural das família Karipuna do Amapá. Edusp. SP, 2002.
---------------------------------------------------------------
Texto apresentado em Cuba, durante o Congresso de Leitura “Para leer el XXI” em 24/10/2007. Minha visita a Cuba foi patrocinada pelo Ministério da Cultura através do Programa de Intercâmbio Cultural.

13 de nov. de 2007

Réquiem a um parente chamado Jorge Terena


Biografias são compostas por pedaços das muitas vidas que vivemos durante nossa vida. Nunca somos um só, somos sempre uma pequena multidão que vive dentro da gente buscando formas de compreender nossa passagem por este mundo. Esta multidão age em diferentes direções e nos dão diferentes razões para viver.
Não importa muito em que condição social nascemos. Nascer índio ou não-índio é apenas um detalhe. Há muitos que querem ser índio por terem amor pela causa ou por entenderem que isso é uma benção divina. Acabam se transformando. Há os que, sendo índio, desejam não sê-lo por causa do estigma a que são vítimas desde que nascem. Estes, normalmente, não são muito felizes, pois negam o que são vivendo uma vida que não lhes pertence de fato.
Há alguns que, sendo índios, viveram outros caminhos, construíram outras histórias e, se quisessem, poderiam viver uma vida alheia à causa de seus parentes indígenas. Poderiam ser facilmente “capturados” pelo sistema econômico que promete sucesso aos que lhe devotam seus melhores conhecimentos. Muitos já fizeram isso e não se pode condená-los por agirem assim. Não se pode culpar ninguém por tentar viver sua vida da melhor forma possível.
No entanto, há pessoas que preferem escrever sua biografia de um outro jeito mesmo tendo todos os conhecimentos do dito sistema. São pessoas que preferem o caminho mais difícil, mais árduo, mais contundente para poder deixar a marca de sua passagem por este planeta. Normalmente abrem mão do conforto pessoal e de uma vida linear para se sujeitarem a viver por uma causa a quem dão seus melhores anos sem esperar retorno real: vivem de esperança!
Esperança. É isso que dá valor às biografias. Grandes, são pessoas que alimentam nosso espírito com esta semente motivacional e que inspiram nossa caminhada.
Nosso parente Jorge Terena foi uma dessas pessoas. Tinha tudo para trilhar outros caminhos: era bem formado, falava outros idiomas, era boa pinta e sabia conversar como ninguém. Podia ter sido o que quisesse ser, mas escolheu continuar índio. Optou pelo caminho mais difícil para continuar a nos revelar suas esperanças. Isso o tornou um grande homem!
Hoje ele não está mais entre nós. Grandes homens também passam deixando saudades e certezas. Saudades porque nos fará falta e certezas porque nos apontou caminhos. Ele foi muitos ao mesmo tempo. Certamente poderia ser muito mais. Não teve mais tempo para isso. Não importa. Somos finitos. Ele se foi, mas seu espírito empreendedor permanece conosco. Para sempre.
Nós do Inbrapi estamos tristes. Estamos de luto juntos com todo o movimento indígena brasileiro; juntos com os parentes Terena de todo o Brasil; juntos com os familiares de Jorge. Estamos de luto também porque nossa instituição perde um amigo e um conselheiro que desde a primeira hora nos acompanhou e sempre acreditou no nosso trabalho e no futuro de nossas ações em prol dos povos indígenas brasileiros.
Desejamos a você, Jorge, uma boa viagem ao encontro dos nossos ancestrais.

Equipe do Inbrapi

12 de nov. de 2007

Entrevista para a Revista Psiquê

RP: Conte-me um pouco, por favor, sobre sua trajetória pessoal.

Sou um Munduruku nascido na cidade de Belém do Pará. Desde pequeno tive acesso à escola, mas ao mesmo tempo crescia aprendendo as coisas da aldeia, pois vivi ali ate meus 15 anos de idade quando decidi, em harmonia com minha família, seguir o caminho da escolarização. Para isso entrei no seminário salesiano decido a ser sacerdote católico. Vivi ali por seis anos até decidir que meu caminho era outro. Isso me deu a possibilidade de ingressar no mundo acadêmico no qual estou até hoje.

RP: O senhor une os dois aspectos: faz parte de um grupo indígena e é
habilitado em Psicologia. Que tipo de riqueza surge do intercâmbio de
uma sociedade indígena com a Psicologia?

Nunca imaginei que faria um curso superior qualquer que fosse. Venho de uma tradição que não tem a mínima preocupação em compreender a mente do outro, pois cada um já traz consigo o equilíbrio necessário para viver bem.
Quando ingressei na universidade pude compreender melhor como o homem ocidental pensa a si mesmo. Isso foi interessante porque me ajudou a compreender meu próprio povo e perceber como a lógica que nos organiza segue um padrão racional onde cada membro se sente participando de um todo de cuja harmonia ele também é responsável.

RP: Sociedades indígenas que ainda têm seu modo de vida tradicional
preservado (cada vez mais raras) apresentam sofrimentos psíquicos?
Esses sofrimentos psíquicos são os mesmos que os observados entre os
não-índios? (Ou seja: os sofrimentos psíquicos são universais, ou
social e culturalmente condicionados?)


Não é possível classificar a organização indígena a partir dos parâmetros psicológicos do ocidente. Claro que há sofrimento, neuroses, e outros sentimentos muito próximos ao que o homem ocidental vive. No entanto, eles são significados de maneiras diferentes o que permite uma interpretação diferente destes dramas. No caso indígena os rituais têm força suficiente para fazer voltar o equilíbrio psíquico da pessoa ou do grupo. Por isso são repetidos para lembrar o pertencimento do individuo ao grupo gerando equilíbrio físico e espiritual.

- As sociedades indígenas não têm suas maneiras originais de
solucionar os problemas possivelmente surgidos na saúde mental de seus
indivíduos? Não seria, portanto, uma certa "intromissão" acreditar que
a Psicologia poderia ter algo a contribuir para uma sociedade
indígena?


Realmente não acho que a psicologia tenha algo a contribuir se pensarmos na sociedade indígena como era antigamente. Hoje em dia acredito que será fundamental esta contribuição porque a cabeça dos indígenas está bastante confusa por vários motivos: 1) o contato com a sociedade envolvente fez com que estas sociedades passassem a ter uma relação muito confusa gerando elementos que antes não faziam parte do seu universo mítico. Elementos como dinheiro, divisão em classes sociais, excesso de bebida alcoólica, desmantelamento familiar, escola, desvios de comportamento sexual; 2) destruição das divindades; 3) falta de esperança com relação à terra e manutenção dos mitos tradicionais.
Neste sentido acredito que há um papel reservado para a psicologia. Inclusive tenho incentivado jovens indígenas - principais vítimas desse novo cenário – a fazerem o curso de psicologia para que entendam este processo por que passam.

- O contato com a sociedade não-indígena trouxe uma infinidade de
males a índios de todo o Brasil, acarretando diversos tipos de
sofrimento psíquico específicos dessa situação, como alcoolismo,
depressão, baixa auto-estima e suicídio. A mesma sociedade branca que
provocou tantos males aos índios pode contribuir ao menos parcialmente
para a solução deles, por meio da Psicologia?


Certamente é algo que ainda precisa ser estudado, claro. Talvez o problema maior foi que a sociedade brasileira, branca, se quiser, destruiu muito mais do que a cultura indígena. Ela roubou nossa alma, nossos jeitos tradicionais, nossas crenças. No lugar ela deixou uma cruz para nossos povos carregarem. Esta cruz está fixada no coração do próprio homem ocidental e ele não sabe como se livrar dela porque tem medo do castigo divino que pode advir, mesmo sabendo que tal castigo não existirá jamais.
Não sei como a psicologia pode resolver esta psicopatia ocidental. A psicologia tem seguido muito o que lhe é ditado pela doença social que grassa a sociedade. É preciso que ela caminhe em outra direção, pois assim poderá ser útil aos povos indígenas. Ela precisará compreender nossos povos e para isso ela tem que redirecionar o olhar. Ela não poderá tratar nossos indígenas acreditando que a forma correta de estar no mundo é a ocidental que é para onde ela direciona a cura. Ajustar alguém de padrão cultural diferente requer a compreensão do outro em todas as suas dimensões humanas. No atual contexto, ela só é útil aos ocidentais.

- Quais são as relações possíveis e as já existentes entre a
Psicologia, enquanto saber essencialmente ocidental, e os povos
indígenas brasileiros?


Creio ter falado sobre isso anteriormente. Não acho que a psicologia tenha entendido os povos indígenas. Não me ocorre nenhum estudo que tenha sido realizado no sentido de compreender nossa gente. E isso é fundamental para que haja uma aproximação real entre estas sociedades.
É preciso compreender que nossos povos vivem uma experiência única em direção à realização pessoal do indivíduo. Há uma organização que permite a ele ser inteiro, sem falsas especulações em torno da existência. Como isso funciona? Talvez seja esse o ponto de partida para que comecem haver relações reais entre estas diferentes maneiras de ver o mundo.

- É possível e desejável associar práticas tradicionais xamânicas à Psicologia?

Possível, é. Desejável? Não sei. Sem dúvida que o universo indígena está baseado num jogo de interesses que passa pela compreensão da pessoa humana em todos os seus aspectos. A prática do xamanismo faz parte do jogo. Existe, portanto, uma carga psicológica muito forte para a realização do jogo. Por isso não basta que a psicologia entenda o processo do xamanismo, mas tem que entender como as peças estão distribuídas no tabuleiro. Não adianta participar de sessões xamanísticas e achar que já se pode entender a mente indígena. É algo muito mais complexo e dinâmico. Acho que bons psicólogos não devem “brincar” com a seriedade desse jogo.

- Como pode e deve ser a prática clínica de um psicólogo junto a
povos indígenas
?

Costumo brincar, às vezes, que se o psicólogo dependesse dos indígenas para viver estaria na miséria ou louco.
Acredito piamente que o psicólogo deva virar paciente antes de querer “curar” um indígena. A “loucura” indígena é mais sadia do que se imagina e pode fazer muito bem às pessoas que olham a vida sob um ângulo apenas.
Sugiro que nenhum psicólogo entre nisso sem antes experimentar “isso”.

- Uma saída possível é a formação de mais indígenas para o atendimento
psicológico clínico em aldeias?


Certamente. Tenho aconselhado muitos jovens a entrar pelos caminhos da psicologia. É muito importante entender como o cérebro funciona para reconhecer os traços psicológicos de uma sociedade. Acredito que uma resposta criativa por parte dos indígenas só vai ser possível quando for capaz de compreender como pensam os homens e as mulheres de seu povo.

- Com que as sociedades indígenas, em geral, podem contribuir com
relação ao seu modo de vida, para a sociedade ocidental? (Com relação
à criação dos filhos, estrutura social, forma de encarar o trabalho,
etc?)


Como já é do conhecimento de todo mundo, a sociedade ocidental precisa muito mais dos indígenas do que estes do ocidente. É mais fácil viver com pouco, com a carência, com a ausência do que deixar a fartura e viver na pobreza. É capaz que isso aconteça muito em breve já que os recursos naturais estão se esgotando e as catástrofes estão se avolumando mundo afora. O ocidental precisa olhar para nossa gente e dela aprender como viver assim. No final, só os simples – e os equilibrados – estarão acordados para ver o último pôr-do-sol.

6 de nov. de 2007

ENTREVISTA PARA A REVISTA RAIZ.

1. Quando você começou a escrever livros? Em 1996 foi lançado meu primeiro livro com o nome Histórias de Índio pela Companhia das Letrinhas.
2. Como anda a situação da literatura indígena no país?
Avançou assustadoramente. Há hoje uma demanda muito grande por textos de autores indígenas. Esse boom nos pegou, inclusive, desprevenidos porque não temos autores suficientes para dar vazão a toda esta demanda.
Infelizmente alguns parentes indígenas ainda não conseguem visualizar a importância do papel da literatura para o desenvolvimento de nossa visão de mundo. Creio que isso ainda vá demorar um pouco. Neste sentido, criamos o núcleo de escritores e artistas indígenas. Nosso objetivo é formar um quadro de profissionais que possam responder com responsabilidade a este tipo de demanda social.
3. Quais são os grandes escritores indígenas na sua opinião. E como eles têm conseguido exercer essa função?
Há dois grupos de escritores indígenas: 1) os que estão criando uma literatura de ficção baseada na sua experiência de aldeia; 2) os que são memorialistas no sentido de que estão escrevendo coisas a partir da memória tradicional de sua gente. Os dois grupos são fundamentais para o desenvolvimento da literatura indígena. É claro que há escritores que transitam pelos dois grupos com muita tranqüilidade e outros ainda estão num processo de aprendizagem da linguagem escrita o que os limita um pouco, mas certamente irão brilhar futuramente.
Vale dizer também que alguns indígenas se destacam mais pelo domínio da linguagem oral e são excelentes oradores. Isso os torna também pessoas especiais, pois acabam alimentando aqueles que escrevem.
4. E quais são as dificuldades que um escritor indígena encontra hoje, para seguir a sua carreira? Tem que ficar claro que a escrita é uma ferramenta nova para a maioria dos autores indígenas. Muitos já falam o português há muito tempo, mas não dominavam a escrita. Ora, se é difícil e complicado para quem domina a língua portuguesa imagine para quem tem começar bem do comecinho? Portanto há dificuldades inerentes ao domínio dos estilos narrativos, da gramática, do mercado livreiro, do conhecimento de editoria, etc. Publicar um livro pode parecer fácil à primeira vista, mas tornar este livro conhecido e aceito pela sociedade é muito difícil. Há uma vantagem para os autores indígenas, no entanto, que é a demanda pela temática que foi iniciada por alguns escritores há algum tempo atrás.
5. Por que você escolheu, ou foi escolhido, ser um porta-voz, defensor da cultura indígena? Qual é a sua missão! Qual é a sua busca?
Não me considero um avatar ou coisa parecida. Talvez eu tenha nascido com um talento, um dom que é escrever. Isso eu só descobri depois de muito tempo. Eu sempre me senti educador. Minha paixão era a escola, a educação. Nunca havia me imaginado escritor e nem tinha certeza de que sabia escrever. Só com o passar dos anos é que fui percebendo que tinha recebido esta “missão”. Também não sou porta-voz de ninguém ou de algum povo. Sinto-me pertencente de uma teia onde cada fio faz diferença. Estou tentando fazer a diferença dentro dessa área da escrita. Há muito e bons lideres fazendo bons trabalhos em outras áreas de atuação e isso muito me alegra. A minha busca se alimenta dos sonhos de contribuir para que o ser humano seja melhor; de que os povos indígenas possam viver com dignidade; de que não precisamos nos esconder ou ocultar a nossa identidade para sermos aceitos pela sociedade. É nisso que acredito e é isso que busco.
6. Qual é o seu próximo livro? Você pode nos contar um pouco?
Tenho muitos projetos de livros e alguns já prontos para serem editados. É difícil falar de um ou outro. Mas posso dizer que descobri que posso escrever sobre qualquer assunto utilizando um estilo que pode ser compreendido por crianças e jovens. Neste sentido estou escrevendo alguns livros que estão livres da temática indígena. São textos onde falo de valores humanos que ultrapassam fronteiras. Também estou para lançar meu primeiro título para o público adulto, uma espécie de viagem filosófica no coração da floresta amazônica. Tenho um projeto para dois livros informativos voltados para crianças pequenas. Estou organizando uma antologia de autores indígenas. Também irei coordenar uma coleção onde estarão autores indígenas de vários lugares do Brasil. E ainda faço o doutorado em educação na Universidade de São Paulo, ministro cursos, dou palestras pelo Brasil afora, dirijo uma entidade não Governamental, atuo como assessor do Instituto Munduruku, no Mato Grosso; coordeno o Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas, entre outras coisas.
7. Por que livros voltados às crianças? Você sente saudade da sua infância?
Um indígena não sente muita saudade. Nosso tempo é sempre o presente porque vivemos intensamente os momentos anteriores. É claro que as vezes sinto saudades ou nostalgia do tempo de criança, mas sei que preciso viver o agora. É nesta direção que vão meus livros. Eles refletem sobre o tempo mostrando que para tudo tem um tempo mítico e pessoal que nos torna senhores da nossa vida. Eu não creio no futuro. Futuro é um tempo que ainda não chegou. Sou fascinado pelo presente. É para esta criança de hoje que escrevo desejando que ela se torne um adulto inquieto e bem resolvido.
8. Gostaria que você me contasse sobre sua convivência com o Avô Apolinário?
Já tive a oportunidade de contar sobre isso em um livro que foi premiado pela Unesco, em 2004. o livro se chama “Meu Vô Apolinário – um mergulho no rio da (minha) Memória. Ali eu conto como foi minha convivência nascida, sobretudo, a partir do momento em que eu havia sofrido uma grande decepção com a minha própria condição de índio. É um relato muito verdadeiro e sugiro aos leitores que me encontrem ali.
9. Quando foi e como foi os primeiros contatos que você teve com a civilização ocidental? Queria que você me contasse sobre a sua transição para a cidade! Tem algum causo... As curiosidades...
Sou nascido em Belém do Pará. Desde criança tive contato com a “civilização”, mas cresci numa aldeia (que também conto no livro citado acima) num município paraense. Cresci como crescem os indígenas e aprendi coisas do nosso povo. Meu corpo foi vitima dessa educação tradicional que muito me orgulha. Minha mente, no entanto, se alimentou também da filosofia ocidental. Esse encontro de culturas certamente é responsável por tudo aquilo que sou hoje.
10. E hoje, com todas as suas andanças pelo país, quais coisas ainda te aborrecem na vida da cidade?
Poucas coisas. Na verdade tem algumas que não entendo direito como: por que as pessoas têm que fazer filas o tempo todo? Por que tudo tem que ser gerenciado por um banco? Por que as pessoas acham que são melhores que outras? Por que tanta burocracia para confiar em outra pessoa? Por que as pessoas não cumprem a palavra dada? Por que as pessoas são tão solitárias?
11. E o que você observa de bom? O que você acha que aprendeu no cotidiano da cidade. Aprendi que todas as pessoas são sujeitos de direito. Que em cada pessoa humana cabe um universo inteiro. Isso me leva a uma postura de tolerância e respeito aos caminhos de cada individuo. Isso só é possível ser observado quando percebemos que as pessoas não são iguais e não são tratadas com a mesma dignidade. O direito é algo louco porque ele parte do principio de que as pessoas são desiguais. Se fosse o contrário não haveria necessidade do direito. Isso é algo incompreensível para o indígena acostumado à liberdade.


12. Com o advento da internet, quais dificuldades você teve para se adaptar nessa cyber-sociedade, e que dificuldades você acha que hoje os índios encontram?
A internet é para mim uma flecha lançada com uma velocidade supersônica. Se for lançada com agilidade e certeza, ela irá atingir seu alvo. Preciso e devo me comunicar utilizando este instrumental. É uma forma de manter-nos vivos, pois assim nos fazemos conhecidos. Hoje me confesso um escravo da internet e acredito que nossa gente também precisa manipular este instrumental como condição para sua sobrevivência.
13. As editoras têm reparado com carinho para a literatura indígena, ou ainda é difícil publicar livros?
Sim. Há uma demanda maior e as editoras estão muito interessadas na temática. Isso acontece, também, porque o governo tem adquirido muitas obras de autoria indígena e o mercado percebe que há aí um produto que pode render bons dividendos. As editoras não nos publicam como uma ação social, mas por saberem que podem vender o que publicamos. Claro que buscamos qualidade e é por isso que criamos um selo para atestar esta qualidade para a sociedade brasileira.
14. Como você acha que o governo atual tem se comportado com as reivindicações para as áreas indígenas?
Todos os governos e governantes que passaram pelo Brasil nos últimos 507 anos acharam que a presença indígena é um estorvo. Afinal, que governo definiu e cumpriu uma política pública e consciente para os povos indígenas? Nenhum. Achamos que iria ser melhor agora. Não está sendo. Estamos sendo “colocados para escanteio”. Esse governo preferia que não existíssemos. Mas existimos e vamos continuar existindo.
15. Vi que você criticou o continuísmo do governo Lula... e o hoje, o que você espera de um governo ideal? Você acredita no caminho da reforma ou da revolução?
Estive em Cuba recentemente. Apoiado, aliás, pelo Ministério da Cultura através do programa de intercâmbio que ele mantém. Foi legal poder presenciar o que está ocorrendo por lá. Digo isso por causa da idéia de revolução que temos. O Brasil passou por uma revolução recentemente quando disse, através do voto, que acreditava na competência revolucionária de um torneiro mecânico. Achei que o torneiro mecânico fosse trazer uma chave inglesa para consertar o Brasil que foi concebido torto. Enganei-me. Preferiu manter a “tortura”. Credo em cruz. Isso é coisa de militar.


16. Li um artigo de um índio (também não me lembro o nome) em que ele dizia num belíssimo discurso que a civilização ocidental tem uma dívida enorme com os povos indígenas. Você compartilha dessa opinião? E se sim, qual o seria o mínimo que estado deveria pagar... Muita coisa é dita como recurso discursivo. Muitas pessoas falam coisas que não entendem, mas que causam um efeito bonito. Não acho que haja divida a ser paga. Acho que há um presente a ser mantido e aí sim há uma luta a ser travada. A história passada aconteceu à nossa revelia, mas a história de hoje a escrevemos nós, com sangue se preciso for.
17. Acabou de sair o documentário do jornalista Washington de Novaes “Xingu – A terra ameaçada”. Você acha que no geral o contato dos índios com os brancos é uma ameaça para a cultura tupiniquim sobreviver? Se você se refere à cultura dos indígenas Tupiniquim do Espírito Santo, diria que sim. Se se refere à cultura brasileira, eu perguntaria: quem se importa?
Darcy Ribeiro já disse com mais competência que eu que o Brasil nasceu da violência dos colonizadores. Ailton Krenak afirmou que o Brasil foi construído sobre um cemitério. Isso para mim resume tudo sobre este pernicioso encontro secular.
18. Em outra palestra, uma antropóloga (não lembro o nome) disse que é comum nas aldeias, quando cai a noite, algum grupo de índios escutar e dançar as músicas pop, sucessos da cultura de massa do país. Enquanto outros estão louvando as tradições folclóricas... A partir disso, você acha que, com essa via entrando nas aldeias, o índio está preparado para absorver essa cultura.. ela é maléfica ou saudável? Que futuro você acha que virá?Prefiro não fazer julgamentos. Os indígenas são capazes de responder com criatividade tudo o que absorvem das culturas alienígenas, tudo o que lhes é empurrado pela cultura majoritária. Tem sido assim desde muito tempo. A cultura é forte quando ela é capaz de recriar-se sempre. O pessoal de minha aldeia dança muito forró, brega, tecno-brega. Quando eu vou lá eu também danço. Mais tarde a gente dança nossas danças e cantamos nossos cantos. E vivemos felizes.
Por outro lado, os indígenas têm que ser responsáveis e fieis ao que acreditam. Isso é a garantia de continuidade. Mas cabem somente a elas darem esta resposta.
19. Você acha que ainda hoje os brancos estão se aproveitando da cultura indígena, ou índio já está esperto para que isso não ocorra. Tem algum exemplo?
Tem de tudo. O tempo de contato é que dá a resposta a esta pergunta. Há povos que têm contato muito antigo e já são espertos o suficiente para não cair no conto do vigário. Há outros que são mais recentes e estes ainda são enganados e muitas vezes perdem tudo o que possuem. Há indígenas, pessoas físicas, que enganam os parentes e ficam com a maior parte da riqueza. Tem os que vendem suas informações para grupos de madeireiros, fazendeiros, garimpeiros. Estes se corrompem ou são corrompidos pelo sistema nacional de corruptores (SNC), entidade invisível, mas sempre presente em todas as repartições públicas ou privadas desse amado país. Também do lado dos não-indígenas pessoas boas e pessoas mal intencionadas. Sei que é assim.
20. E por fim, o mesmo Washington Novaes em palestra disse que os índios têm muito a ensinar a civilização ocidental, e citou o exemplo de que os índios não protegem a informação para transformá-la em lucro... todos podem ter acesso a todo conhecimento. Quais outras grandes lições de vida que índio pode ensinar ao Brasil e ao mundo? Costumo dizer que a permanência teimosa dos indígenas no Brasil já é a grande lição. Somos povos historicamente espoliados, negados pelo sistema, maltratados, discriminados, desaparecidos da história. Temos sido tratados como indigentes, selvagens, atrasados, preguiçosos, entre outros adjetivos. Apesar disso, resistimos para mostrar nossa força, nossa verdade. Aos poucos vamos percebendo que a sociedade se solidariza mais com a gente e nos percebe homens e mulheres possuidores de uma rica experiência de vida. Talvez isso não sirva pra nada para o sistema capitalista devorador das diferenças, mas é muito importante para cada um de nós que acreditamos na vida nas suas mais diversas manifestações. Realmente não nos sentimos donos de nada, mas usuários de uma beleza que nos foi presenteada pelos espíritos criadores. Queremos gritar isso hoje para que as pessoas despertem sua consciência e possamos dar uma resposta positiva ao mundo que nos pede uma posição. Talvez isso seja a grande lição. Talvez.

Quais os limites da propriedade intelectual?


Por Marco Aurélio Weissheimer, da Carta Maior
Em entrevista à Carta Maior, a pequisadora Carol Proner, autora de uma tese de doutorado sobre Propriedade Intelectual e Direitos Humanos, fala sobre o dever constitucional da função social da propriedade e o respeito aos direitos coletivos, hoje ameaçados pela pressão dos países ricos e seus conglomerados econômicos.O debate sobre a propriedade do conhecimento vem ganhando crescente importância nos fóruns internacionais, em especial nas rodadas de negociação da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde o tema da propriedade intelectual industrial tornou-se alvo de acirrada disputa. Trata-se de um tema ainda relativamente desconhecido da maioria da população, embora diga respeito a vários aspectos do nosso cotidiano. Os medicamentos genéricos são, provavelmente, a ponta mais conhecida desse debate, constituindo hoje um sério ponto de divergências entre o seleto clube das nações mais ricas do mundo e o resto dos mortais.Em entrevista à Carta Maior, concedida por correio eletrônico, a pesquisadora Carol Proner, autora do livro “Propriedade Intelectual - Para uma outra ordem jurídica possível” (Cortez Editora), analisa o atual estágio deste debate, marcado por uma forte pressão dos países ricos pela liberalização do comércio e por uma maior proteção jurídica à propriedade intelectual, incluído as mais diversas áreas do conhecimento.Doutora em Direito Internacional, pesquisadora da UniBrasil e da Universidade Pablo de Olavide, de Sevilha (Espanha), Carol Proner sustenta em seu livro que “a liberalização acrítica avança em todos os setores do comércio, trazendo conseqüências desastrosas para economias que não possuem estrutura para suportar a concorrência de produtos e serviços”. Neste cenário de subdesenvolvimento e subordinação tecnológica, acrescenta, “a propriedade intelectual industrial cumpre um papel fundamental no sentido de aprofundar as desigualdades tecnológicas”.Além disso, esse debate está relacionado ao direito de comunidades tradicionais e indígenas, detentoras de rica biodiversidade e conhecimentos tradicionais. Vivendo, na maioria das vezes, em condição de pobreza, essas comunidades não são capazes de defender seus direitos e sofrem a. ameaça do patenteamento desse conhecimento por parte de grandes grupos privados transnacionais, assinala Proner.
Carta Maior: Em que a atualidade do debate sobre a propriedade intelectual coloca em questão as noções tradicionais de propriedade?
Carol Proner: O debate atual sobre propriedade intelectual também é o debate sobre a propriedade tradicional de bens e seus limites: o dever constitucional da função social da propriedade e o respeito aos direitos coletivos. No campo das patentes de invenção, a utilização do conhecimento tradicional de comunidades é alvo de apropriação e especulação sem contrapartida social. A comercialização dos direitos de patentes afeta áreas essencialmente públicas como a saúde humana, tendo nos medicamentos o exemplo mais importante. No caso do direito de autor, a política do commons pode trazer um novo enfoque para aproximar os frutos da obra de seus legítimos criadores e estender os benefícios à sociedade.

CM: Qual a especificidade da propriedade intelectual?

CP: A expressão em si é o oposto, é ampla e abarca os direitos de autor, direitos conexos, marcas, indicações geográficas, desenhos industriais, topografias de circuitos integrados, proteção de informação confidencial, o direito da concorrência e patentes. Também por esta razão torna-se tão complexa a análise das temáticas dentro da grande disciplina “propriedade intelectual” e existem abordagens muito diferentes entre o direito de patentes e o direito do autor. Enquanto este direito está normalmente ligado ao autor e inventor individual ou coletivo, aquele na maioria das vezes envolve grandes empresas transnacionais com resultados econômicos extraordinários. As conseqüências são distintas em cada grande ramo e a abordagem crítica também. Podemos estar falando dos grandes monopólios farmacêuticos ou bioquímicos ou do direito individual e personalíssimo do autor da obra literária e estaremos tratando de propriedade intelectual.

CM: Como o tema da biodiversidade deveria ser abordado num enfoque democrático da propriedade intelectual?

CP: A biodiversidade é um dos temas fundamentais a serem reivindicados atualmente. O direito das comunidades locais, tradicionais e indígenas, detentoras da biodiversidade agrícola e silvestre, e que por condição de pobreza e miséria não são capazes de defender seus direitos. Essas comunidades são detentoras de um patrimônio genético, um conhecimento tradicional extremamente rico e que poderia reverter em benefício para ao menos melhorar as condições de vida dessas populações. O enfoque democrático seria encontrar os meios de estender ou repartir às populações os benefícios da biodiversidade. Uma forma democrática de defender juridicamente este direito é que a concessão de patentes derivadas do acesso a recursos genéticos e conhecimentos tradicionais exija a declaração de origem e o certificado de procedência legal desses recursos, posição defendida pelo governo brasileiro nas negociações internacionais sobre o tema.A declaração de origem e o certificado de procedência legal informam em que bioma, local e comunidade foi feito o acesso aos recursos genéticos, além de identificar em que condições ele foi realizado e quais informações foram utilizadas para tanto. Os dois documentos podem facilitar a tarefa das populações tradicionais que queiram exigir a repartição dos benefícios de pesquisas ou produtos realizados a partir de seus conhecimentos e recursos.

CM: Qual a novidade dos medicamentos genéricos em relação aos conceitos tradicionais de propriedade?

CP: No Brasil a Lei 9.787/99, de 10 de fevereiro de 1999, define como sendo Genérico o medicamento similar a um produto de referência ou inovador, que se pretende ser com este intercambiável, geralmente produzido após a expiração ou renúncia da proteção patentária, comprovada a sua eficácia, segurança e qualidade. Os médicos deverão receitar os medicamentos pelo nome do seu princípio ativo e não mais pelo nome comercial do remédio Trata-se de uma intervenção do Estado com resultados concretos no acesso aos medicamentos, estimulando a concorrência entre fabricantes e reduzindo preços. Nos EUA a prática é utilizada desde 1984 e acarretou redução de até 40% no preço em relação a medicamentos de marca. Uma das formas de adquirir medicamentos mais baratos é permitir a produção local de um remédio patenteado para atender a necessidade interna. A outra forma é a importação do genérico apesar de o composto ter direitos de exclusividade. O tema da importação de medicamentos genéricos pelos países da OMC é objeto de disputa entre países que possuem um forte setor farmacêutico e outros que precisam importar. Os Estados Unidos, a Suíça, a Alemanha, a Grã-Bretanha e outros países ricos insistem em restringir a importação de genéricos a medicamentos para tratamento de doenças infecciosas, como Aids, malária e tuberculose. Os países em desenvolvimento não querem qualquer restrição à importação de genéricos.

CM: Qual o significado dos commons e sua importância?Os commons têm sido definidos como “espaços institucionais em que podemos praticar um tipo particular de liberdade, a liberdade em relação a restrições que são normalmente impostas pelos requisitos dos mercados”. Esse conceito de Yochai Benkler, professor titular da Escola de Direito de Yale é trabalhado com excelência no livro Comunicação Digital e Construção dos Commons (Editora Fundação Perseu Abramo) do qual também participa Sérgio Amadeu da Silveira trabalhando o tema redes virais e espectro aberto. Não creio que exista consenso acerta da aplicação dos commons, mas é fato que a idéia tem sido conectada a valores de liberdade, criatividade, democracia e mais especificamente ao direito de autor. A expressão suscita controvérsias porque supõe liberdades anárquicas, abertas indiscriminadamente e sem regras. Estes prejuízos tendem a se dissolver com o fortalecimento teórico da idéia de commons e com sua aplicação prática que já acontece fortemente na internet. As práticas de compartilhamento de conteúdos e conhecimento que são experimentadas na internet estão no dia a dia das pessoas, na utilização de serviços de provedores como yahoo, msn, google, youtube, orkut, wikipedia e tantos outros que praticam uma espécie de “espírito da dádiva”, gift economy, estudada por algumas universidades canadenses e americanas. Essa nova mentalidade assusta um pouco, mas traz uma nova forma de pensar o conhecimento e o compartilhamento em sociedade. É um desafio.CM: Qual tem sido a política do governo brasileiro em relação à propriedade intelectual?CP: É preciso reconhecer que o Brasil tem conseguido discutir os temas prioritários da propriedade intelectual graças ao posicionamento governamental adotado interna e internacionalmente. A quebra de patentes de medicamento Efavirenz, produzido pelo laboratório norte-americano Merck abriu um precedente internacional que balizou a conduta de outros países. O posicionamento do país com relação à biodiversidade também é inédito comparativamente e creio que o Ministério da Cultura também apresenta novidades quando defende o direito autoral como elemento essencial de uma política cultural: um direito autoral que privilegie o acesso à cultura, à informação e ao conhecimento. A teoria do commons tem muito a dizer nesta seara. O governo tem salientado que se propõe a promover o equilíbrio entre os direitos conferidos pelas leis de direitos autorais e seus titulares e os direitos dos membros da sociedade de terem acesso ao conhecimento e à cultura, de forma que estes direitos efetivamente estimulem a criatividade. Vejo com outro grande desafio porque o tema polemiza com setores artísticos e literários que vêem a política como uma ameaça a seus direitos.CM: Em que temas prioritariamente os movimentos sociais e a esquerda brasileira deveriam se concentrar na discussão e nas lutas em torno da propriedade intelectual?CP: O Brasil precisa de massa crítica em todas as temáticas, mas penso que os dois temas mais importantes na atualidade são a biodiversidade e o direito de autor revisitado.(Envolverde/Agência Carta Maior)

18 de out. de 2007

Carta aos Parentes Indígenas: Um novo Presidente da Funai.


Prezados parentes indígenas,
Resolvi conversar com vocês através de uma carta que vai, penso, ajudar-nos a compreender melhor a realidade brasileira que hoje nos cerca, principalmente, nesta primeira conversa, sobre a indicação de um novo presidente para a Funai.
Sei que é de conhecimento de todos vocês que a Fundação Nacional do Índio foi criada em 1967 para substituir o antigo Serviço de Proteção ao Índio – SPI – que havia sido criado em 1910 pelo Marechal Rondon, de saudosa memória.
O SPI foi a primeira tentativa de o governo brasileiro organizar uma política institucional para os povos indígenas que, até então, viviam sem nada concreto que pudéssemos chamar de política pública. Naquela época, o governo vivia sob a bandeira de uma orientação teórica que se chamava positivismo cuja principal teoria era a de que a humanidade passava por fases de desenvolvimento e que os povos indígenas iam naturalmente passar de seu “estado selvagem” para o processo civilizatório do ocidente. Isso nos tornaria “gente”, ou seja, iguais a eles. Num outro texto vou tratar disso mais detidamente. Para o momento basta que se diga que por causa dessa posição política, o marechal Rondon dizia que era preciso respeitar o processo de cada povo e que “morrer se preciso for, matar nunca”.
O SPI sobreviveu durante muitos anos sob a batuta de Rondon, mas foi desfeito pelos militares que passaram a governar o Brasil em 1964. A intenção dos militares era integrar os indígenas ao desenvolvimento que prometiam para o Brasil. Eles estavam muito comprometidos com o FMI – Fundo Monetário Internacional – um órgão do governo norte-americano que emprestava dinheiro para os paises em desenvolvimento a juros altíssimos e com fortes imposições políticas e sociais. Estas imposições passavam principalmente, pela educação.
Foi nessa época que começaram a surgir as primeiras escolas de caráter oficial em área indígena e junto com elas vinham os famosos projetos econômicos do qual muitos de nós fomos vitimas: plantação de arroz, criação de gado, as famosas cantinas e cooperativas para o escoamento da produção, etc. A maioria desses projetos não foram levados adiante e acabaram não dando certo e criando uma dependência muito grande.
Vale lembrar também, amigos parentes, que para justificar este tipo de projeto é que foi instituído o Estatuto do Índio cuja vigência teria terminado com a aprovação da nova constituição brasileira de 1988, não fosse o descaso do governo e dos parlamentares com a nossa causa. Como vocês sabem, há um novo estatuto para ser debatido e aprovado parado há mais de 15 anos no congresso Nacional.
Quando o Brasil entrou na era da democratização e o governo passou a ser comandado por um civil (o primeiro seria Tancredo Neves) e após a luta do movimento indígena para a aprovação dos capitulos 231 e 232 da constituição que garantem nossos direitos, acreditou-se que a situação fosse melhorar e que a Funai, finalmente, cumpriria sua função de aliada de nossos povos na garantia de nossos direitos. Infelizmente isso não aconteceu. Passaram os governos de José Sarney, Itamar Franco – que assumiu depois do impedimento de Fernando Collor -, dois mandatos de Fernando Henrique e, agora, já no segundo mandato de Lula e a nossa Funai continua inoperante mostrando que o Estado brasileiro não está realmente preocupado com o presente de nossos povos, muito menos com seu futuro.
Quando o presidente Lula assumiu o cargo mais importante do serviço público federal – isso mesmo, o presidente é funcionário público! – o movimento indígena acreditava que haveria sérias mudanças no direcionamento da política para nossos povos. Alguns até alimentavam a esperança de que a Funai teria, finalmente, um presidente indígena. Isso era o desejado, era o esperado. Não aconteceu. Justificava-se dizendo que não há líderes indígenas preparados para assumir tão importante cargo e que nossos povos são muitos divididos. Com este argumento foi nomeado o professor Mércio Pereira Gomes que ficou na presidência até muito recentemente. Foram anos difíceis, parentes. Não me consta que o ex-presidente fosse tão melhor que qualquer um de nós para dirigir o órgão indigenista! Ao menos do meu ponto de vista, nada mudou muito.
Agora temos um novo presidente. Novamente não é um de nós. Continuamos incompetentes, devem pensar os homens do governo. Acho que eles estão errados. Nossos povos já têm competência suficiente para assumir um cargo como esse.
Deixemos, no entanto, esse tipo de especulação para depois. O fato é que assume um novo nome: Márcio Meira. Também ele é antropólogo, presumidamente um grande conhecedor da realidade indígena e um político acostumado a negociar e menos disposto a fazer concessões. Torcemos por isso. Pensamos assim após ouvir suas primeiras palavras no cargo expressando a necessidade do Brasil pagar sua divida histórica com nossos povos. Também penso que há realmente uma longa divida, mas não basta reconhecê-la, é preciso honrá-la. E para isso é preciso acreditar nos povos indígenas como capazes de gerenciar seu próprio destino histórico. O novo presidente deveria ter sido um indígena. Lula prometeu isso durante a campanha e não tem honrado sua palavra e isso é para todos nós, parentes, um afronta já que nossos povos têm o hábito de honrar a palavra dada.
De qualquer modo torcemos para que o presidente Márcio Meira seja coerente com as idéias que tem defendido e possa transformar a Funai numa grande agência de fomento e tirá-la da antiga mania de “ser dona do índio”. Hoje em dia, não precisamos de donos, e sim de parceiros que saibam caminhar conosco e se disponham a compreender o nosso modo de ser e estar no mundo. Nossa gente é diferente e não pode ser tratada como indigentes do sistema. Que o novo presidente coloque a Funai na direção de um presente melhor para nós e para nossos filhos.

15 de out. de 2007

O tempo da leitura e a leitura do tempo


(Texto apresentado em Bogotá, Colômbia, em 08 de outubro de 2007, por ocasião do Congresso de Literatura Brasil - Colômbia.)

Em primeiro lugar gostaria de cumprimentar a todos os presentes na língua de meu povo Munduruku. É um cumprimento que se faz sempre que a gente chega a um lugar para uma visita, para contar histórias ou trazer noticias de outros lugares. É uma forma de dizer que um encontro verdadeiro é aquele em que a gente sempre sai melhor, mais forte, mas sábio, mais humano.
Meu povo munduruku está presente em três estados brasileiros: Amazonas – onde aconteceu o primeiro contato com a sociedade brasileira; no Pará – onde os munduruku tiveram uma importante atuação na história local e onde nasci e cresci; e no Mato Grosso – para onde migraram algumas famílias na década de 1980.
Este povo tem, portanto, uma relação antiga com a sociedade nacional tendo que adaptar-se em seu ser cultural para continuar vivo. Esta adaptação foi feita sobretudo no que se refere à necessidade de incluir hábitos que antes não faziam parte do seu cotidiano como vestir roupas ou consumir alimentos estranhos à sua dieta alimentar. Teve também que aprender a língua portuguesa para comunicar-se e ir à escola para conhecer os valores ocidentais. Claro que não se tratou de uma passagem tranqüila e nem isso fez com que esse povo deixasse suas principais características culturais como os rituais, as tradicionais pinturas corporais, a língua e outros elementos que o tornam particular no cenário da sociodiversidade brasileira.
É do lugar de membro desse povo que lhes desejo falar. Sou um indígena, um nativo, um Munduruku. Dentro deste povo nasci e nele aprendi os elementos principais da nossa cultura: aprendi a ouvir, falar apenas o essencial, fazer o silêncio que vem de dentro, imprescindível para viver em paz comigo mesmo e com as pessoas que me cercam. Aprendi as lições da floresta, dos rios e de todos os seres que habitam nosso mundo mítico e milenar.
Mas também fui “vítima” do sistema ocidental de ensino e com ele aprendi a manipular a memória através da escrita tornando-me, assim, um relator da memória oral da gente indígena que, no dizer do ocidente, faz de mim um escritor. Meu amigo Ailton Krenak prefere me chamar de Escrevinhador das memórias, título que muito me honra.
Tenho a alegria de estar aqui hoje para falar sobre a literatura de autoria indígena que se faz hoje no Brasil numa profunda contradição entre oralidade e escrita. No entanto, não é possível falar da literatura quando ela é feita por pessoas de tradição ágrafa sem apresentá-las antes para que se entenda o grau de dificuldade que temos nas relações com as sociedades complexas que têm, nas letras, seu principal ponto de convergência humana. Isso, às vezes, faz com que estas mesmas sociedades tenham necessidade de dar tempo à leitura e se esquecem de fazer a leitura do tempo rejeitando, por isso, as outras formas de leitura e escrita produzidas, desde muitos séculos, pelas sociedades tradicionais.
Certamente é já do conhecimento de todos que o Brasil possui uma sociodiversidade muito grande. É um povo marcadamente mestiçado num processo que envolveu os europeus, africanos e povos originários da terra, que equivocadamente são chamados de índios, termo genérico reproduzido pela escola com sinônimos diversos: atrasado, feios, preguiçosos, selvagens, canibais, infantis para dizer apenas alguns. Este tipo de tratamento esconde, desde muito tempo, a verdade sobre a riqueza que nossos povos possuem dentro do seu contexto sociobiodiverso.
O que temos hoje no Brasil é uma diversidade cultural e lingüística que surpreende o mundo todo: somos aproximadamente 230 diferentes povos e falamos 180 línguas divididas entre troncos, línguas, dialetos tão distintos entre si que é quase impossível conhecê-los todos. Tal diversidade faz tornar-se ridícula e perigosa a generalização utilizada ainda hoje.
Estas sociedades – que experimentam diferentes formas de humanidade – têm diferentes relações com a sociedade brasileira. Algumas delas têm 500 anos de contato; outras, 300, 200 anos; outras têm apenas 40 ou 50 anos e acredita-se que existem outras 50 comunidades que não possuem contato algum com a sociedade nacional. São pequenos grupos que fogem ao encontro que sabem ser muito nocivo para sua própria cultura.
Neste quadro e com estas diferentes situações, povos indígenas inteiros têm sofrido as conseqüências de viverem em contato permanente com uma sociedade que lhes mantêm escravas de um conceito que os torna menores, infantis e marginalizados. A isso se inclui a negação da identidade cultural. Se por um lado manter-se indígena é condição fundamental para o reconhecimento étnico – pois assim a sociedade complexa pode manipulá-lo – o aprender e conviver com a sociedade nacional em igual condição é considerado um abandono da identidade. Em outras palavras: se vou para a universidade e compreendo a lógica do ocidente acabo sendo desqualificado como pertencente a uma sociedade indígena. Ser indígena, na cínica lógica do ocidente, é manter-se “no atraso cultural”; ao pertencer ao mundo global perco minha identidade étnica. Essa forma de pensar tem ocasionado sérias crises de identidade no meio indígena. Jovens, levados a pensar que o melhor é negar a identidade e assumir a identidade ocidental, acabam aprendendo, de forma dolorida, que ao fazer isso também não são aceitos pelos outros. A conseqüência disso tem sido o sofrimento, a dor, o suicídio.
É claro, no entanto, que em nenhum momento estas sociedades deixaram de resistir e lutar pelo que consideravam importante para a manutenção de suas culturas tradicionais. E mesmo tendo sido imposto um modelo de sociedade ao qual deveriam abraçar para tornarem-se mais humanos – no pensar do ocidente capitalista – estes povos não desistiram de sonhar um encontro em que pudessem mostrar toda sua riqueza humana. Neste sentido, o surgimento do movimento indígena organizado na década de 1980, foi fundamental para mudar a forma de relação com a sociedade brasileira. Naquela ocasião, jovens que foram mandados por suas comunidades para estudarem nas cidades iniciaram um movimento que culminaria no estabelecimento de um novo paradigma com o governo brasileiro.
No inicio de tudo estes jovens lutavam por coisas muito práticas: demarcação das terras habitadas imemorialmente pelos povos indígenas; assistência à saúde; educação diferenciada que levassem em consideração as diferenças étnicas; desenvolvimento de projetos de economia alternativa, sobretudo para aquelas comunidades com maior tempo de exposição à sociedade envolvente e que já não dominavam mais a técnica tradicional de economia.
Mais tarde e com uma nova geração de lideranças, houve uma preocupação na formação de técnicos indígenas e formação universitária o que vem ocorrendo até os dias de hoje. Neste ínterim, foram surgindo os primeiros ensaios de uma literatura eminentemente indígena. Isso se deu justamente pela constatação de que os indígenas, apesar de todo o avanço político que haviam conquistado, não conseguiam falar por si mesmos. Eram sempre representados por estudiosos, antropólogos, cientistas. Esses parceiros acabavam por assumir um papel de paladinos dos direitos indígenas, mas acabavam por tornarem-se uma barreira para o aparecimento de vozes nativas na literatura.
Verdadeiramente os escritos autorais indígenas vêm aparecer apenas na década de 1990. Surgem de forma tímida, mas vão ganhando forças na medida em que a sociedade brasileira vai se abrindo para receber a memória escrita de nossa gente. Esta abertura vai acontecer mais efetivamente a partir do ano 2000 com o crescimento da demanda por textos de autoria indígena principalmente em função da atuação no movimento indígena de pessoas que tinham maior compromisso com a memória escrita. Livros que foram premiados no Brasil e no exterior também foram importantes para que o mercado livreiro visse nesse nicho um potencial econômico favorável o que ajudou a expandir esta mesma literatura.
Minha atuação na área da literatura é relativamente recente. É verdade que lancei meu primeiro livro em 1996 e que ele teve uma repercussão bastante surpreendente, sobretudo nas escolas. Foi o primeiro livro lançado por um indígena endereçado para o público das escolas brasileiras.
Em 2003 o livro “Meu Vô Apolinário – um mergulho no rio da (minha) memória”, recebeu da Unesco uma indicação no Prêmio de Tolerância que ela mantinha. Isso colocou a literatura na mídia e fez com que novos autores indígenas também começassem seu caminho nesta seara.
Em 2003 ajudei a criar o INBRAPI – Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual – uma organização que tem como objetivo a proteção dos conhecimentos ancestrais de nossos povos. Isso fez com que quiséssemos pensar a respeito dos direitos autorais coletivos e, ao mesmo tempo, questionar o uso indevido das histórias tradicionais pela academia e pela literatura. Foi assim que, contando com a parceria sempre muito qualificada da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ – decidimos organizar o primeiro encontro de escritores indígenas e lançar dois concursos que ajudariam a divulgar a literatura escrita pelos indígenas e a descobrir novos autores nas comunidades tradicionais.
Para este primeiro encontro – com o aporte financeiro da Fundação Ford - conseguimos reunir, no contexto do salão do livro infantil e juvenil – que acontece anualmente no Rio de Janeiro e organizado pela FNLIJ – 12 escritores indígenas entre os mais de 30 que foram identificados num levantamento inicial.
Como resultado deste encontro foi escrita “A carta da Kari-oka” em que os presentes expunham, pela primeira vez na história do Brasil, uma posição clara e objetiva sobre o que pensam as sociedades indígenas a respeito dos direitos autorais chamando a atenção dos escritores e editores para a necessidade de usar o conhecimento tradicional de forma correta e com a devida repartição de benefícios. Ou seja: não se podem recontar histórias tradicionais sem o devido crédito aos verdadeiros donos delas.
Depois deste encontro, que foi um verdadeiro sucesso, outros foram acontecendo ano a ano com avanços significativos na qualidade dos textos e dos projetos gráficos. O resultado disso tem sido cada vez mais gratificante por notarmos que já há um reconhecimento de uma autentica literatura indígena brasileira e a participação crescente de autores indígenas em eventos literários pelo Brasil e exterior.
No entanto, questões ainda surgem como contrapontos na mesma proporção que surgem trabalhos acadêmicos. Há quem diga que os indígenas não fazem literatura. Há quem diga que o acesso à cultura letrada torna os indígenas menos indígenas. Há quem fale que tudo não passa de um surto e que depois cairá no esquecimento.
Pode ser. Confesso, no entanto, que isso não me preocupa. Não fui eu quem criou os conceitos classificatórios para o que os indígenas escrevem. De minha parte sequer acho que fazemos literatura. Já disse neste mesmo texto que fazemos memória escrita. Contamos nossa vida, nossa experiência, nossas histórias relatadas pelos velhos. Colocamos nela sonhos e crenças que cultivamos como verdade que nos é oferecida pelos nossos ancestrais.
Também acho que lançamos um instrumental para questionar a sociedade da tecnologia e do egoísmo. Oferecemos uma alternativa de leitura do mundo e do tempo e da experiência de estar vivos. Alertamos para a necessidade da memória na construção da identidade. Enfim, questionamos a sociedade onde prevalece o esquecimento e a cínica crença de que o individuo está acima de tudo, pode tudo, até destruir o mundo que ele não fez.
Escrevemos para contar o que sabemos e não para esvaziar a oralidade.
Escrevemos aquilo que acreditamos não com o intuito de desprezar o que os outros crêem;
Escrevemos nossa memória para que os outros saibam de onde vêm;
Escrevemos nosso jeito simples de viver para que todos saibam que a felicidade é possível; que a liberdade é possível; que a simplicidade é riqueza.
E continuaremos...para sempre.

MENSAGEM DE FINAL DE ANO - 2025/26

  Mais uma vez o ano se encerra e com ele vem a necessidade de pactuarmos novos comportamentos, novas atitudes e novos projetos. É, portanto...