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Massacre de índios é tema de 'Corumbiara'

Danilo Saraiva
Direto de Gramado

'Corumbiara', de Vincent Carelli

O premiado documentário Corumbiara, de Vincent Carelli, foi exibido em Gramado na noite desta quarta-feira (13) no Palácio dos Festivais. O filme, que demorou mais de vinte anos para ser concluído, acompanha o diretor na tentativa de registrar os indícios de um massacre de índios em Rondônia.

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Tudo começou em 1985, quando o indigenista Marcelo Santos denunciou um suposto assassinato de povos indígenas na Gleba Corumbiara (RO). Vincent Carelli gravou uma série de evidências de que os índios estiveram lá, mas o caso é fechado por ser considerado "fantasia" pelas autoridades.

Anos depois, o cineasta se reúne, mais uma vez, com Marcelo Santos e descobre supostos sobreviventes após uma jornada pela mata. O encontro com a aldeia, que parece perdida no tempo, foi exibido em rede nacional e destacado em diversos jornais do País. Os fazendeiros que dominavam a região, na tentativa de esconder seus passos criminosos, encontram os índios e tentam mascarar os indícios de que eles faziam parte de uma comunidade isolada. Na tentativa de prender os responsáveis, Carelli e Santos entram numa corajosa investigação de campo. A única prova que eles possuem para fazer tais denúncias são as imagens registradas pelo diretor com as declarações desses sobreviventes.

Quando Carelli iniciou as filmagens, queria apenas prender os supostos criminosos responsáveis. Depois de perceber que pouco do que eles pudessem provar surtiria efeito com as autoridades, tentam encontrar uma forma de proteger esses povos e contar a história que, invariavelmente, terá um triste final.

Como jornalismo investigativo, Vincent Carelli faz um trabalho brilhante, com muitas informações importantes. "Esse é um filme autobiográfico. Sempre falo em primeira pessoa", disse o diretor pouco antes do início da sessão.

"Eu gostaria que as pessoas meditassem de quantos Corumbiaras (referindo-se ao massacre) o Brasil foi feito", pediu. O resultado é um trabalho emocionante, que mostra a importância de preservar esses índios deslumbrados com as tecnologias dos "brancos", mas ao mesmo tempo resistentes em preservar suas culturas.

O documentário é repleto de cenas extensas, que se dedicam apenas a mostrar o cotidiano desses povos. A língua desconhecida mostra que eles tiveram pouco ou mínimo contato com a civilização. O curioso é que Vincent Carelli usou um recurso estético muito interessante para filmar a história e prender a atenção do espectador. Quando ele encontra as tribos, desconhece sua língua, assim como o público que assiste ao filme. Só depois, ao falar com especialistas e poucos parentes próximos que entendem o dialeto, é que usa as legendas na tela para explicar o que eles estavam dizendo. Assim, o cineasta mantém fresca sua jornada. É como se viajássemos com ele.

No filme, Carelli não poupa críticas à mídia brasileira, que omitiu parte dos registros feitos pela equipe. Por conta da polêmica, Corumbiara não teve patrocinadores.

Ao final da sessão, o filme recebeu uma longa salva de palmas, prova de que ele foi muito bem aceito pelos presentes.

Terra


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Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

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